“como é possível ter um carnaval aristocrático numa sociedade igualitária e ter- no casobrasileiro- precisamente o inverso, ou seja: um carnaval igualitário, numa sociedadehierarquizada e autoritária?”
Para fazer a comparação entre esses dois modelos, de modo que a pesquisa se tornasseválida, foi preciso associá-los aos seus devidos contextos, problemas e valores. No casoamericano observa-se uma tentativa clara de recolocar um princípio de diferenciação em ummeio social onde o “credo oficial o exclui legal e juridicamente”. Já no Rio, há uma inversãocarnavalesca onde ficam suspensos temporariamente classificações exatas de pessoas, coisas,categorias, grupos, etc. O autor propõe então uma comparação entre os símbolos de ambos, nocaso americano o
Rex,
símbolo da aristocracia, estando deslocado em tempo e espaço, o que ofaz tornar-se símbolo. No Brasil, o símbolo do carnaval é o malandro, o qual afronta a idéia deque em nosso mundo burguês individualista somos sempre ordenados por eixos únicos,fazendo-nos acreditar em outras dimensões e eixos. Assim, encontra-se no mundo social brasileiro as chamadas equações compensatórias, por exemplo, ricos mas infeliz, burro mas belo, inteligente mas chato, etc. A inversão que ocorre no carnaval brasileiro é então,considerada oposta ao do americano, pois os marginais e inferiores (chamados de indivíduos),se transformando em pessoas e vice-versa. Entra então a necessidade de se explicar o motivo dadiferenciação dos dois termos feita pelo autor, onde a concepção de “indivíduo” esta associada àidéia de alguém sem ninguém e sem posição social, no entanto, “pessoa” é um titular dedireitos, um alguém no contexto social.Através de seu estudos, DaMatta analisa o rito do “sabe com quem está falando”, o qualimplica sempre em uma separação radical e autoritária de duas posições sociais real outeoricamente diferentes. Ele é a negação do “jeitinho”, da “cordialidade” e da “malandragem”.Temos, então, dois traços caracterizando a expressão: o aspecto escondido e a vertenteindesejável da cultura brasileira. Se o escondemos é porque o rito revela conflito, e somosavessos às crises. Já no caso da vertente indesejável é porque estamos inseridos em um sistemasocial extremamente preocupado com o “cada qual em seu lugar”, isto é, com hierarquia e comautoridade. Assim, temos um sistema social com aspectos conhecidos, mas não reconhecidos pelos seus membros. Observa-se que tudo o que diz respeito ao inclusivo é por nósmanifestadamente adotado. O contrário é valido para o exclusivo, freqüentemente escondido oufalado em voz baixa.Estas pesquisas realizadas no mostram o quanto nós hierarquizamos as coisasinfinitamente, ou seja, patrões são classificados como bons ou maus, felizes ou infelizes, ricosou pobres, etc. Isso seria então a base para as tais equações compensatórias e complementares, pois elas nos servem para diferenciar os iguais. Enquanto o “sabe com quem está falando” éutilizado aqui no Brasil para situar alguém em uma posição superior, sendo um rito autoritáriode separação de posições sociais, o
“Who do you think you are?”
é, inversamente, um ritoigualitário.Em todos os exemplos dados pelo autor no capitulo IV, nota-se claramente que o “sabecom quem está falando” implica em passagem de um papel universalizante para outro muitomais preciso, capaz de localizar o interlocutor dentro do sistema que se toma como dominante.Em alguns casos específicos relatados pelo autor, o “sabe com quem está falando” serve comoum
ritual de reforço,
forma de trazer a consciência dos atores aquelas diferençar necessárias àsrotinas sociais em situações de intolerável igualdade. Pode-se dizer, então, que o “sabe comquem está falando” opera como um mecanismo de devolução das pessoas aos seus devidoslugares. Ele permite também estabelecer a pessoa onde antes só havia um indivíduo.DaMatta faz então um distinção entre aquilo que chama de individuo e pessoa. Fazainda uma ressalva de que a mascara social não é algo que possa ser retirado, como uma fardaou vestimenta, mas uma cicatriz, um corte, um furo, sinais de prerrogativas sociais quegeralmente são marcadas por uma ideologia complementar e fundadas na reciprocidade. No capitulo V o autor se refere aos carnavais como rituais coletivos de inversão da ordemsocial, e modo de ação e reação coletiva. Para ele a sociedade é diferente porque em cadaformação social certo numero de dramas é levado a efeito, se temos dramatizações regulares,também temos personagens recorrentes. É destes personagens que estes dois capítulos irão falar na tentativa de mostrar como eles são coerentes as nossas formas cerimoniais mais básicas.