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28887837 Sermoesi 1 Pe Antonio Vieira

28887837 Sermoesi 1 Pe Antonio Vieira

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01/27/2013

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MINISTÉRIO DA CULTURAFundação Biblioteca Nacional
 Departamento Nacional do Livro
SERMÕES
Pe. Antonio Vieira
SERMÃO DE SANTO ANTÔNIO
P
REGADO
 
EM
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OMA
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GREJA
 
DOS
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RÍNCIPE
 
NOSSO
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ENHOR
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A
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MBAIXADA
 
DE
O
BEDIÊNCIA
 
À
S
ANTIDADE
 
DE
C
LEMENTE
X.
Vos estis lux mundi.
1
§I
Um português italiano e um italiano português celebra hoje Itália e Portugal. Como o sol, Santo Antônio nasceem uma parte e sepulta-se em outra. O que vê a Itália em Pádua, e o que vê em Lisboa Portugal. Argumento: Santo Antônio foi luz do mundo porque foi verdadeiro português, e foi verdadeiro português porque foi luz do mundo.
133. A um português italiano e a um italiano português, celebra hoje Itália e Portugal. Portugal a Santo Antônio deLisboa: Itália a Santo Antônio de Pádua. De Lisboa, porque lhe deu o nascimento; de Pádua, porque lhe deu a sepultura.Assim foi, mas eu cuidava que não havia de ser assim. José, o prodigioso, José, o que tanto cresceu fora de sua pátria,mandou que seu corpo fosse levado a ela, e não ficasse no Egito. Em Egito obrou as maravilhas, em Egito recebeu asadorações, mas não quis que descansassem os seus ossos na terra onde reinara, senão na terra onde nascera. Quis queconhecesse a sua pátria que estimava mais a natureza que as fortunas. Antes quis uma sepultura rasa,
 
em sete pés da terraprópria, que os mausoléus e as pirâmides egípcias na estranha. Assim cuidava eu que à lei de bom português devia fazertambém Santo Antônio, mas quando por parte da pátria me queria queixar do seu amor, atalhou-me o Evangelho com a suaobrigação:
Vos estis lux mundi.
Reparai, diz o evangelista, que Antônio foi luz do mundo. Foi luz do mundo? Não tem logoque se queixar Portugal. Se Antônio não nascera para sol, tivera a sepultura onde teve o nascimento; mas como Deus o crioupara luz do mundo, nascer em uma parte, e sepultar-se na outra, é obrigação do sol. Profetizando malaquias o nascimento deCristo, diz que nasceria como sol de justiça:
Orietur vobís sol justitiae
(Mal. 4,2). E que fez Cristo como sol, e como justo?Como sol, mudou os horizontes; como justo, deu a cada um o seu. Como sol mudou os horizontes, porque nasceu num lugare morreu noutro; como justo deu a cada um o seu, porque a Belém honrou com o berço, a Jerusalém com o sepulcro. Assimtambém Antônio. Se Lisboa foi a aurora do seu oriente, seja Pádua a sepultura do seu ocaso.134. Levante Pádua glorioso mausoléu às sagradas relíquias de Antônio, e veja-se esculpida nas quatro fachadasdele a obediência dos quatro elementos sujeitos a seu império. A terra com os animais prostrados, o mar com os peixesouvintes, o ar com as tempestades suspensas, o fogo com os incêndios parados. Pendurem-se nas pirâmides por troféus osdespojos inumeráveis de sua beneficência: as bandeiras dos vencedores, as âncoras dos naufragantes, as cadeias dos cativos,as mortalhas dos ressuscitados, e dos enfermos de todas as enfermidades, os votos. Dispa-se a fama para fazer cortinas a estesacrário, bordadas — como fazia a antigüidade — de olhos, de línguas e de orelhas. Das orelhas, com que deu ouvidos atantos surdos; dos olhos, com que restituiu a vista a tantos cegos; das línguas, com que desimpediu a fala a tantos mudos. Epor alma de todo este corpo milagroso, veja-se — como hoje se vê — e adore-se em custódia de Cristal a mesma língua deAntônio, depois da morte, viva, antes da ressurreição, ressuscitada, apesar da terra, incorrupta, apesar das cinzas, inteira,apesar da sepultura, imortal, e apesar dos tempos, eterna.135. Isto é o que vê
 
Itália em Pádua. E em Lisboa, que vê Portugal e o mundo? Não se vêem ali muitos milagres: vê-se ali um só milagre; não se vêem os milagres do santo; vê-se o milagre dos santos. Vê-se Antônio sobre os altares, com as
 
mãos carregadas de memoriais, como primeiro valido de Deus, e como bom valido, despachados logo. Vê-se a casa ondenasceu, convertida e consagrada com magnificência real em suntuoso templo, e vê-se, com religiosa razão de estado, fundadosobre as abóbadas do mesmo templo, o Capitólio ou Senado daquela triunfante cidade, daquela cidade, digo, que, depois depôr freio ao nunca domado oceano, descobriu, conquistou e sujeitou, e uniu à Igreja Romana aqueles vastíssimos membrosdo corpo do mundo, de que Roma já se chamava a cabeça, mas ainda o não era.136. Neste templo e naquele sepulcro se vê dividido Antônio entre Portugal e Itália; nestes dois horizontes tãodistantes se vê dividida a luz do mundo entre Pádua e Lisboa. Gloriosa Pádua, porque pode dizer: Aqui jaz. Gloriosa Lisboa,porque pode dizer: Aqui nasceu. Mas qual das duas mais gloriosa? Não quero decidir a questão: dividi-la sim. Fiquem asglórias de S. Antônio de Pádua para a eloqüência elegantíssima dos oradores de Itália. E eu, que me devo acomodar ao lugare ao auditório, só falarei hoje de S. Antônio de Lisboa.137. Para louvor, pois, do santo português, e para honra e doutrina dos portugueses que o celebramos, reduzindoestes dois intentos a um só assunto, e fundando tudo nas palavras do Evangelho:
vos estis lux mundi,
será o argumento domeu discurso esse: que Santo Antônio foi luz do mundo porque foi verdadeiro português, e que foi verdadeiro portuguêsporque foi luz do mundo. Declaro-me: bem pudera Santo Antônio ser luz do mundo, sendo de outra nação, mas, uma vez quenasceu português, não fora verdadeiro português, se não fora luz do mundo, porque o ser luz do mundo nos outros homensé só privilégio da graça; nos portugueses é também obrigação da natureza. Isto é o que hoje hão de ouvir os portugueses desi e do seu português
. Ave Maria.
§ II
Ser luz do mundo, graça universal da nação portuguesa. Portugal, único reino do mundo fundado e instituído por  Deus. A instituição da Igreja em S. Pedro, e a instituição do Reino de Portugal em D. Afonso Henriques. El-rei D. Afonso Henriques e Gedeão. O nome de Pedro e o nome dos portugueses.Vos estis lux mundi.
138. Fala Cristo nestas palavras com os apóstolos, e neles com todos seus sucessores, os varões apostólicos. Eporque a obrigação do ofício apostólico é alumiar o mundo com a luz do Evangelho, por isso lhes dá Cristo por título omesmo caráter da sua obrigação, chamando-lhes luz do mundo:
Vos estis lux mundi.
Esta prerrogativa tão gloriosa, que nasoutras nações é graça particular das pessoas, nos portugueses não só é particular das pessoas, senão universal de toda anação. A Pedro e a João disse Cristo que eram luz do mundo, mas, ainda que Pedro e João eram galileus, não o disse a todaGaliléia. A Basílio e Atanásio disse Cristo que eram luz do mundo, mas, ainda que Basílio e Atanásio eram gregos, não odisse a toda Grécia. A Cipriano e Agostinho disse Cristo que eram luz do mundo, mas, ainda que Cipriano e Agostinho eramafricanos, não o disse a toda a África. A Antônio, porém, disse Cristo que era luz do mundo, e não só o disse a Antônio, queera português, senão também a todos os portugueses. E qual é, ou qual pode ser a razão desta diferença tão notável? A razãoé porque os outros homens, por instituição divina, têm só obrigação de ser católicos: o português tem obrigação de sercatólico e de ser apostólico; os outros cristãos têm obrigação de crer a fé: o português tem obrigação de a crer, e mais de apropagar. E quem diz isto? São Jerônimo ou Santo Ambrósio? Não: o mesmo Cristo, que disse:
Vos estis lux mundi.
139. É glória singular do Reino de Portugal que só ele, entre todos os do mundo, foi fundado e instituído por Deus.Bem sei que o Reino de Israel também foi feito por Deus, mas foi feito por Deus só permissivamente, e muito contra suavontade, porque teimaram os israelitas a ter rei, como as outras nações; porém o Reino de Portugal, quando Cristo o fundoue instituiu, aparecendo a el-rei — que ainda o não era — Dom Afonso Henriques, a primeira palavra que lhe disse foi:
Volo:
quero.
2
Como o Reino de Portugal havia de ser tão filho da Igreja Católica, e lhe havia de fazer no mundo tão relevantesserviços, quis Cristo que a sua instituição fosse muito semelhante à da mesma Igreja. A S. Pedro disse Cristo:
Tu es Petrus,et super hanc petram dedificabo Ecclesiam meam
3
; a D. Afonso disse Cristo:
Volo in te, et in semine tuo imperium mihistabilire.
A Pedro disse: Quero fundar em ti uma Igreja, não tua, senão minha:
Ecclesiam meam.
A Afonso disse: Querofundar em ti um império, não para ti, senão
 
para mim:
 Imperiumn mihi.
A Pedro, na instituição da Igreja, não disse:
 In
 
te, et in semine tuo,
porque, como o império da Igreja era universal sobre todas as nações do mundo, quis que todas as naçõestivessem direito à eleição da tiara: o hebreu, como Pedro, o grego, como Anacleto, o romano, como Gregório, o alemão,como Vítor, o francês, como Martinho, o espanhol, como Calixto, o português, como Dámaso. Mas na instituição do Reinode Portugal disse Cristo:
 In te, et in semine tuo
 ,
porque como era, reino particular de uma só nação, quis que fosse hereditárioe não eletivo, para que se continuasse na sucessão e descendência do mesmo sangue. E por que tudo isto, e para quê?140. Não para o fim político, que é comum a todos os reinos e a todas as nações, senão para o fim apostólico, queé particular deste reino e desta nação. O mesmo Cristo o disse nas palavras com que o instituiu:
Ut deseratur nomem meumin exteras gentes:
para que, por meio dos portugueses, seja levado meu nome às gentes estranhas. — Ainda então não sabiao mundo que gentes estranhas fossem estas, mas daí a 400 anos, quando também o mundo se conheceu a si mesmo, então o
 
soube. Vede se foi instituição Apostólica. De S. Paulo disse Cristo:
Ut portet nomem meum coram gentibus;
4
 
dos portuguesesdisse o mesmo Cristo:
Ut deseratur nomem meum in exteras gentes.
Aos apóstolos disse Cristo:
Videte regiones, quia albasunt ad messem;
5
 
e aos portugueses disse o mesmo Cristo:
Ut sint messores mei in terris longinquis.
 
E notai que dissenomeadamente
messores:
segadores, porque se havia de servir também do seu braço e do seu ferro. Quando Cristo apareceua el-rei D. Afonso, estava ele na sua tenda lendo a história de Gedeão, não só com um, mas com dois mistérios: Primeiro,para que o rei não desconfiasse da promessa, vendo que os seus portugueses eram poucos. Segundo, para que os mesmosportugueses entendessem que, como soldados de Gedeão, em uma mão haviam de levar a trombeta, e na outra mão a luz (Jz.7, 20). A Pedro chamou-lhe Cristo
Cephas:
pedra (Jo. 1, 42), em significação do que havia de ser; os portugueses primeirose chamaram Tubales, de Tubal, que quer dizer mundanos, e depois chamaram-se lusitanos; lusitanos, para que trouxessemno nome a luz: mundanos para que trouxessem no nome o mundo, porque Deus os havia de escolher para luz do mundo:
Vosestis lux mundi.
§III
Os cinco movimentos particulares da luz de Santo Antônio. Primeiro: mudar de religião: Por que deixou S. Antônio a S. Agostinho para seguir S. Francisco? As sagradas quinas, brasão e armas de Portugal. As quatro chagas doscravos e a incredulidade de S. Tomé. As cinco pedras de Davi e as cinco chagas de Cristo.
141. Suposta esta verdade tão autêntica, para que vejamos distintamente quão bem se desempenhou Santo Antônioda obrigação de verdadeiro português, e do título de luz do mundo, considero eu na sua luz cinco movimentos muitoparticulares: 1. mudar de religião; 2. deixar a pátria; 3. embarcar-se e meter-se no mar; 4. dedicar-se a vida à conversão dosinfiéis; 5. Vir a Roma, onde estamos, e dar obediência ao Vigário de Cristo, como Portugal lha deu agora solenemente, e comtanta solenidade. Parecem muitos os movimentos, mas como são de luz, serão breves.142. Não há coisa que mais pareça contrária à santidade que a mudança da vocação. Santo Antônio era religioso dasagrada Ordem de Santo Agostinho: ali se graduou de luz, e ali havia de ser. Pois por que muda de hábito e de profissão? Seo fez pela clausura de cônego regrante, para sair, como luz, ao mundo, passara-se aos eremitas, debaixo da mesma regra deSanto Agostinho. Por que deixa logo o seu patriarca, e entre todos os patriarcas escolhe a S. Francisco? Porque era português,e resoluto a alumiar o mundo, havia de ser debaixo das quinas de Portugal, debaixo da bandeira das cinco chagas. O mesmoSanto Agostinho, seu padre, chamou as chagas de Cristo bandeiras de luz:
Fulgentia redemptionis vexilla.
E como entretodos os patriarcas, entre todos os generais da Igreja militante, só Francisco levava diante a bandeira das cinco chagas, sódebaixo desta bandeira se devia alistar Antônio, como português e como luz do mundo: como português, para seguir assagradas quinas; como luz do mundo, para alumiar com elas aos infiéis.143. Infiel estava Tomé, e tão incredulamente infiel que dizia e protestava:
 Nisi videro fixuram clavo-rum, et mittam manum meam in latus ejus, non credam
(Jo. 20,25): Se não vir as chagas dos cravos, e não meter a mão na chaga dolado, não hei de crer. — Aqui reparo. Para crer e para fazer fé, bastam duas testemunhas; as chagas dos cravos eram quatro;pois por que se não contenta Tomé com as chagas dos cravos, por que pede também a do lado para crer? Porque as chagasdos lados, ainda que eram chagas, não eram quinas: eram quatro, não eram cinco. E para converter infiéis, para os render ereduzir a crer, hão de concorrer todas as cinco chagas. Tertuliano:
Omnibus divinitatis Christi probationibus instrutus, dixit: Dominos meus, et Deus meus.
 
Reduziu-se a infidelidade de Tomé, e rendeu-se à virtude e eficácia das chagas de Cristo?Sim. Mas notai diz Tertuliano — que não se rendeu a parte delas, senão a todas:
Omnibus.
Crerás, Tomé, se vires as chagasdas mãos de Cristo?
 Non credam.
Crerás, Tomé, se vires as chagas das mãos e as dos pés?
 Non credam.
E se vires as duasdos pés e as duas das mãos, e também a quinta do lado, crerás? Então sim:
 Dominus meus, et Deus meus.
Assim se rendeua infidelidade de Tomé, e assim se rendeu e se havia de render a do mundo.144. Por isso disse judiciosamente S. Pedro Crisólogo que a instância de Tomé em pedir as cinco chagas não só foiincredulidade, senão profecia:
Prophetia sane magis, quam cunctatio fuit.
Muitas coisas profetizou S. Tomé na Índia, dosportugueses, mas esta profecia foi o cumprimento de todas: Que havia de ser conquistada a infidelidade das gentes emvirtude das cinco chagas de Cristo; que havia de ser conquistada a infidelidade das gentes, não pelas armas dos portugueses,senão pelas Armas de Portugal. Deu-nos Cristo por armas e por brasão as sagradas quinas, e essas quinas foram as nossasarmas. Quando os filhos de Israel saíram do Egito para a conquista da terra de promissão, saíram sem armas, porque lhasvedavam e proibiam os egípcios; e contudo diz o texto que saíram armados:
 Armati ascenderunt filii Israel de terra Aegypti.
Pois se saíram sem armas, como diz a Escritura que saíram armados? Milagrosamente o original hebreu:
 Ascenderunt filii Israel armati: ascenderunt filii Israel quini et quini
(Êx. 13, 8). Diz que saíram armados, porque saíram, misteriosamente,cinco e cinco. E como saíram cinco e cinco:
quini et quini,
estas quinas lhes servirão de armas:
 Ascenderunt quini et quini:ascenderunt armati.
Estas foram as armas com que os hebreus conquistaram a Terra de Promissão, estas foram as armas comque os portugueses conquistaram o mundo novo, e estas foram as armas com que S. Antônio conquistou, alumiou e renovouo velho. Oh! soberano Davi, menor, vestido de saial, e vencedor do gigante, em virtude das sagradas quinas!145. Quando Davi, entre os irmãos o menor, houve de sair contra o gigante, que fez? Despe as armas de Saul, veste-

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