retrógrados e contra os princípios que norteavam a linha política do partido, viram-seatirados para os campos de reeducação ou simplesmente desprovidos dos seus direitosde educarem os seus próprios filhos. Foram forçados a abandonarem os seus lares em benefício da mulher então “emancipada”.Isto e outros problemas que surgiram podem encontrar explicação no seguinte: natentativa de construção do
estado-nação
então idealizado, o partido Frelimo não tomouem consideração as “
relações culturais
” dos povos de Moçambique mas apenasideológicas esquemáticas e rígidas que não correspondiam nem ao princípio daliberdade feminina e muito menos ao princípio que norteava a construção do “homemnovo” que se pretendia, isto é, um homem que crescesse seguro numa sociedade segura, pois, como que em catadupa, o homem novo nascido com a independência ver-se-ia naobrigação de ser filho de pais separados, ou porque a mãe emancipou-se tanto a pontode esquecer suas obrigações de mãe e esposa, ou porque o pai não aceitou que a vida doseu lar fosse ditada pelo programa da OMM
que, na verdade, nem era programa dessaOMM, mas sim dos componentes dos escalões mais altos do partido que, emcontrapartida, nem sequer permitiam que suas esposas estivessem constantemente nasreuniões dessa OMM até altas horas da noite, muitas vezes, em detrimento de suasobrigações de mães e esposas.Porém, embora todas as mulheres fossem “obrigadas a emancipar-se” segundo osditames da Frelimo, exactamente porque os exemplos de desvios partiam do seio do próprio
partido-estado
e da sua OMM, a maioria das mulheres não embarcaram no projecto da emancipação ao estilo Frelimo/OMM. Nas cidades, vilas e um pouco naszonas rurais, a escola passou a ser o trampolim não só da libertação da mulher, comotambém da erradicação de ideias retrógradas que pairavam ainda em alguns homens. Não se pode dizer que este trampolim, que tende a libertar a mulher em Moçambique,veio graças ao trabalho da OMM. Embora eu admita que a OMM desempenhou um papel crucial na alfabetização, tal como a ideia do progresso sempre existiu no seio dosmoçambicanos (mesmo no tempo colonial), a ideia de pôr filhas a estudarem sempretambém existiu. Apenas se galvanizou com a independência nacional e com a libertação(através da escola) do próprio homem moçambicano então imbuído em ideaisretrógrados. É preciso ter em conta que jamais a mulher se libertará fora de um quadrosocial em que está inserido, pois se o companheiro da mulher, o homem, não se libertaele próprio, jamais a mulher se libertará também.Embarcamos na reflexão acima para ilustrar que a libertação e emancipação da mulher éum processo. E que se existiram falhas e retardamentos nesse processo são da inteiraresponsabilidade do próprio
partido-estado
, pois imbuído na ideia de emancipar fez dodiscurso um contra senso sócio-cultural.A mulher moçambicana, devido ao sistema político então vigente, era proibida por leide contrair matrimónio com um cidadão estrangeiro (como se o
Amor
tivesse qualquer tipo de fronteiras). Perdia o direito à sua nacionalidade, assim estipulava a primeiraconstituição da Republica Popular de Moçambique. Segundo fontes próximas do poder,este artigo foi inspirado e defendido por um destacado jurista então ligado anomenclatura do
poder popular
. O Dr. Orlando da Graça, hoje membro do ConselhoConstitucional e, na época, professor universitário, terá sido o único juristamoçambicano que insurgiu-se corajosamente contra essa norma, apontando acontradição então existente que definia a igualidade entre homem e mulher, mas que em