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cicarelli

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07/12/2010

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CICARELLI vs. YOUTUBE
Liberdade de informação e o direito à fofoca
Por Túlio Vianna em 16/1/2007
Assisti ao vídeo com o flagrante da relação amorosa entre a atrizDaniela Cicarelli e o empresário Renato Malzoni Filho, em uma praiano sul da Espanha, logo que ele foi divulgado na internet, emsetembro de 2006. Os primeiros 100 segundos mostram osnamorados trocando beijos, abraços e carinhos na presença de outrosbanhistas que não demonstram dedicar-lhes qualquer atençãoespecial. A edição e as legendas procuram enfatizar o caráter eróticoda cena em detrimento do amoroso.Após o centésimo segundo, abruptamente os banhistas desaparecem,a legenda anuncia "La pareja busca intimidad" (o casal buscaintimidade) e uma cena mostra o casal caminhando pela praia. Não sesabe ao certo quanto tempo caminham (um minuto? uma hora?); nãose sabe ao certo o quanto se afastam dos banhistas. Trocam caríciasmais ousadas. Novo corte na edição: sai a música de fundo e entra oque se supõe ser o som ambiente. O casal agora está no mar, não sesabe o quão distante da areia, mas as bóias ao fundo indicam que seafastaram bastante. Dificilmente a cena poderia ser captada pelozoom das lentes de câmeras amadoras, mas o zoom de umequipamento profissional permite flagrar a dupla se relacionandosexualmente na água.O filme termina com o casal retornando à areia e um abrupto cortenos 15 segundos finais leva-os de volta instantaneamente para juntodos banhistas, sugerindo que estes sempre estiveram por perto.Julguei que o vídeo não faria sucesso na internet por não ser nadaexplícito. Diria mais: comportado demais, se comparado à diversidadede conteúdo pornográfico que pode ser encontrado na rede. Puerilengano. O vídeo não só fez um sucesso estrondoso, como despertouum sentimento muito diverso daquele que eu, na minha ingenuidade,acreditava ser o foco da questão: as pessoas não assistiram ao vídeopara se excitarem com a ousadia amorosa do casal, mas para julgá-los. Julgá-los por quê?
Linchamento moral online
A rigor, Daniela e Renato não praticaram qualquer crime. Ainda quetanto a legislação brasileira quanto a espanhola punam atos ofensivosao pudor público, para que se possa caracterizar o crime éimprescindível que quem presencie a cena tenha seu pudor ofendido.Como nenhum banhista daquela praia reclamou ou mesmo notou asperipécias do casal naquele dia, certo é que crime não houve.Sigmund Freud, em seu livro
Totem e Tabu
ensina que o fundamentoda punição social pela violação de um tabu reside no risco daimitação. "Se a violação não fosse vingada pelos outros membros,eles se dariam conta de desejar agir da mesma maneira que otransgressor." A repercussão do vídeo na internet não se deu pelopudor violado de quem assistiu às cenas inadvertidamente, mas pelaidentificação dos internautas com os protagonistas: é preciso punir ocasal com a execração pública para garantir o regozijo de todos quecotidianamente reprimem seus instintos sexuais nas praias eretornam às suas casas e hotéis para extravasá-los.
 
Daniela e Renato estão sendo massacrados pela mídia difusa, com acomplacência da mídia institucional, por terem desafiado um tabu.Um verdadeiro linchamento moral em rede internacional decomputadores.
Privacidade e lugares públicos ou privados
O argumento pueril de que a mídia tem liberdade, e até dever, deinformar, esconde o verdadeiro direito que se pretende tutelar emcasos como este: o direito à fofoca. A liberdade de imprensa tem porfundamento o interesse público na informação. Vídeos como este nãocumprem qualquer função pública de informar, pelo simples fato deque não há qualquer interesse público em se saber onde, como oucom quem Daniela Cicarelli mantém relações sexuais. Ao optar porsatisfazer a curiosidade quanto à vida pessoal de celebridades, amídia abandona sua função basilar no Estado democrático de direitode instrumento de informação de questões de interesse público e seconverte em uma velha fofoqueira com recursos tecnológicos deúltima geração.A sutil diferença entre informar e fofocar só pode ser plenamentecompreendida quando se delimita com exatidão o direito àprivacidade. Em princípio, é preciso desmistificar de uma vez portodas a relação entre privacidade e lugares públicos ou privados. Umato de corrupção praticado por um funcionário público em suaresidência é de natureza eminentemente pública. Não se poderia jamais impedir sua divulgação na mídia ao simples argumento de queo local era privado. Em contrapartida, uma relação sexual praticadaem uma praia pública é um ato eminentemente privado, seevidentemente, como parece ter sido o caso de Daniela e Renato,foram tomadas as devidas cautelas para evitar os olhares dosbanhistas.
O direito de não ser monitorado
O direito à privacidade, por outro lado, não é um privilégio garantidoapenas a cidadãos anônimos. As celebridades, quando não estãodesempenhando atividades de interesse público, também têm direitoao resguardo de sua privacidade. A Corte Européia de DireitosHumanos decidiu corretamente no caso Von Hannover v. Alemanha,no qual a princesa Caroline, de Mônaco, não obstante ser uma pessoapública, deveria ter sua privacidade resguardada pela República alemãno que diz respeito à publicação pelas revistas daquele país dematérias e fotografias relativas exclusivamente à sua vida privada.Então, como identificar os limites entre público e o privado? Emminha tese de doutoramento em Direito, na UFPR, destaco trêscaracterísticas que em conjunto abarcam o que concebemos comodireito à privacidade: direito de não ser monitorado, direito de não serregistrado e direito de não ter registros pessoais publicados.A monitoração pode ser realizada pelos sentidos humanos com ousem equipamentos tecnológicos. Se na sacada do meu apartamentovejo a olho nu uma bela moça trocando de roupa na janela, por óbvionão lhe violo a privacidade. Se, porém, valendo-me de uma câmerafotográfica com um poderoso zoom, fotografo a cena, certamente háuma violação de sua privacidade que só será maior se publicar afotografia na internet ou em outro meio de comunicação.
Expectativa de privacidade?
Observar Daniela e Renato relacionar-se sexualmente na praia não éa mesma coisa que filmá-los e, por óbvio, filmá-los também não é omesmo que publicar a gravação. São, portanto, variações deatentados às suas privacidades. Se, por óbvio, não se pode puniralguém por observar um casal se relacionando sexualmente em uma
 
praia, o mesmo não se pode afirmar de quem filma a cena e, muitomais grave, de quem a divulga a terceiros.São estes graus de privacidade que precisam ser adequadamentecompreendidos para se evitar excessos. O direito à privacidade emcada um destes casos será determinado pela expectativa deprivacidade que alguém pode ter em cada situação.Um casal que mantém relações sexuais na praia não pode alegarexpectativa de privacidade em relação ao direito de não sermonitorado. Isso não implica, porém, que tenham expectativa de quepossam ser filmados e, muito menos, de que esta filmagem possa serdivulgada a terceiros. Há, certamente, por parte do casal, umaexpectativa de que suas imagens em situações privadas não sejampublicadas, pois isto lhes causaria um evidente dano moral.
O analfabetismo tecnológico do Direito
Quando um direito é violado, em regra, duas soluções jurídicas sãopossíveis: a reparatória e a punitiva. No presente caso, se apublicação do vídeo gerou um dano à privacidade de alguém, énatural que se busque evitar o incremento deste dano, retirando oacesso público ao vídeo.Ocorre, porém, que a internet, por sua própria arquitetura, tornatecnicamente impossível qualquer tentativa de filtragem de conteúdoprivado disponibilizado na rede. Ainda que se possa, com sucesso,retirar todos os vídeos do casal Daniela e Renato do YouTube, porcerto não se poderá excluí-lo de toda a internet, em especial de redesde compartilhamento de arquivo.No presente caso, a desastrada decisão judicial que ordenou que oYouTube fosse retirado do ar foi inócua no seu objetivo de evitar oacesso ao vídeo, pois para que isso fosse possível não bastariarestringir o acesso ao YouTube, mas à própria internet em suatotalidade, o que seria inconcebível. A decisão, porém, é bastanteindicativa do analfabetismo tecnológico dos profissionais do Direitobrasileiro, que insistem em tratar a internet com meios coercitivosconvencionais. A arquitetura da internet foi concebida para continuarfuncionando mesmo em uma guerra de grandes proporções; nãoresistiria ela a uma ordem judicial?
A censura econômica cotidiana
É preciso que os profissionais do Direito entendam que se pode fecharsites, mas não se pode impedir que a informação circule na internetpor outros meios, em especial pelas redes P2P. O uso de instrumentos jurídicos com este objetivo, longe de resolver o problema, só tende aaumentá-lo. Há uma inerente publicidade em torno deste tipo dedecisão, em regra muito mal recebida pelos internautas, que vêemnelas resquícios de uma censura que, no presente caso, não existiriase fosse limitada à retirada exclusiva dos vídeos da rede. Aliás, seriauma contradição em termos se pensar numa censura de informaçãode cunho eminentemente privado.Daniela e Renato tinham todo o direito à privacidade naquele cantodeserto da praia espanhola onde mantiveram relações sexuais.Infelizmente, porém, o Direito não possui meios eficazes para lhesgarantir uma solução reparatória. Tudo que resta ao judiciário é imporuma solução punitiva a quem lhes violou a privacidade para evitarque no futuro casos como este se repitam. Assim, o judiciário deveriaimpor ao
paparazzo
que os fotografou uma severa indenização pordanos morais decorrentes da invasão da privacidade do casal e do usoindevido de suas imagens. Qualquer tentativa de retirar os vídeos dainternet por meio de procedimentos jurídicos, no entanto, soa comovã e fadada ao fracasso, pela própria arquitetura da rede.

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