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José de Alencar - Iracema [RESUMO E ANÁLISE]

José de Alencar - Iracema [RESUMO E ANÁLISE]

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Reprodução proibida.Art.184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.
1
Iracema
(José de Alencar)
1.BIOGRAFIA E BIBLIOGRAFIA
José
Martiniano
de Alencar
nasceu em Mecejana(CE). Formou-se em Direito em Recife, mas antes passou pela Faculdade de Direito de São Paulo, ondeajudou a fundar uma revista semanal de ensaios lite-rários. Ao terminar o curso, Alencar voltou para oRio, onde exerceu a profissão de advogado e colabo-rou diariamente no jornal
O Correio Mercantil.
Em 1856, teve início a polêmica a respeito de
 AConfederação dos Tamoios
, de Gonçalves de Maga-lhães, no
 Diário do Rio de Janeiro
. José de Alencar criticou a obra sob o pseudônimo de Ig. O resultadofoi o desentendimento com D. Pedro II, amigo parti-cular de Gonçalves de Magalhães. No mesmo ano,Alencar publicou seu primeiro romance,
Cinco Mi-nutos
. Em 1857, escreveu
O Guarani
como respostaà polêmica. Entretanto, Alencar continuou sendo ata-cado por Antônio Feliciano de Castilho e FranklinTávora devido à linguagem considerada cheia de er-ros, segundo as normas gramaticais lusitanas.Alencar candidatou-se a deputado pelo Ceará atra-vés do Partido Conservador e foi eleito. Procurou prosseguir a carreira do pai, que também era político.Em 1864, Alencar casou-se com Ana Cochrane. Em1868, tornou-se Ministro da Justiça. No ano seguin-te, candidatou-se ao senado. Foi o mais votado, masseu nome acabou vetado pelo imperador. Encerrou avida pública e dedicou-se integralmente à literatura.Em 1877, José de Alencar viajou para a Europaem tratamento de saúde. Voltou ao Rio no mesmo ano,onde morreu vitimado pela tuberculose.
OBRA
Romances:
 
Cinco minutos
(1856),
O guarani
(1857),
 A viuvinha
(1869),
 Lucíola
(1862),
 Diva
(1864),
 Iracema
(1865),
O gaúcho
(1870),
 A pata da gazela
(1870),
O tronco do ipê
(1871),
Guerra dosmascates
(1871-1873),
Sonhos d’ouro
(1872),
 Al- farrábios
(1873),
Ubirajara
(1874),
Senhora
(1875),
O Sertanejo
(1875) e
 Encarnação
(1893).
2.INTRODUÇÃO
 Iracema
 pode ser considerado um romance em
prosa poética
, ou seja, utiliza recursos da poesianum texto em prosa. Os elementos poéticos são evi-dentes na musicalidade, no ritmo cadenciado e nasdescrições que valorizam a exuberância do cenárionacional. Narra-se a história de uma índia tabajara (Irace-ma) e do soldado português Martim Soares Moreno.A obra reveste-se de
caráter alegórico
, uma repre-sentação simbólica da formação da nação brasileira.Iracema simboliza a natureza brasileira. Seu nome éum
anagrama
(contém todas as letras) da palavraAmérica. Ela é a virgem prometida ao deus Tupã econhecedora dos mistérios da bebida sagrada dos ta- bajaras. O soldado português Martim Soares Morenorepresenta a cultura européia, o colonizador. Seu nomeestá ligado à guerra, tem origem em Marte, deus daguerra na mitologia romana.
 Iracema
mostra os primeiros contatos entre o índioe o branco. Estão presentes os mitos e as crenças dacultura indígena. Para Alencar, a obra apresenta-se demodo histórico e remonta ao período de expulsão dosholandeses do Nordeste. Com o subtítulo: “Lenda doCeará”, o autor intentou contar a formação da provín-cia do Ceará e a fundação de Mecejana, sua terra natal.Dessa forma, o romance pode ser considerado históri-co-indianista, já que além da supervalorização nature-za brasileira estão também presentes personagenshistóricas, tais como Poti (batizado depois AntônioFelipe Camarão), Martim e Irapuã.
3.ANÁLISE E RESUMO DA OBRA
I.
Verdes mares bravios de minha terra natal, onde cantaa jandaia nas frondes de carnaúba
1
;
1
Ramo ou ramagem de carnaúba (tipo de árvore da qual se extrai cera).
 
Reprodução proibida.Art.184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.
2
Verdes mares, que brilhais como líquida esmeralda aosraios do sol nascente, perlongando as alvas praiasensombradas de coqueiros;Serenai, verdes mares, e alisai docemente a vaga im-petuosa, para que o barco aventureiro manso resvale àflor das águas
2
.Onde vai a afouta
3
jangada, que deixa rápida a costacearense, aberta ao fresco terral a grande vela?Onde vai como branca alcíone buscando o rochedopátrio nas solidões do oceano?Três entes respiram sobre o frágil lenho
4
que vai sin-grando veloce
5
, mar em fora.Um jovem guerreiro cuja tez branca não cora o sangueamericano; uma criança e um rafeiro
6
que viram a luz noberço das florestas e brincam irmãos, filhos ambos damesma terra selvagem.A lufada intermitente traz da praia um eco vibrante, queressoa entre o marulho das vagas: — Iracema
7
!O moço guerreiro, encostado ao mastro, leva os olhospresos na sombra fugitiva da terra; a espaços o olhar em-panado por tênue lágrima cai sobre o jirau
8
, onde folgamas duas inocentes criaturas, companheiras de seu infor-túnio.Nesse momento o lábio arranca d’alma um agro
9
sor-riso.Que deixara ele na terra do exílio?Um história que me contaram nas lindas várzeas ondenasci, à calada da noite, quando a lua passeava no céuargenteando os campos, e a brisa rugitava
10
nos palmares.Refresca o vento.O rulo
11
das vagas precipita. O barco salta
12
sobre asondas e desaparece no horizonte. Abre-se a imensidadedos mares, e a borrasca
13
enverga, como o condor, as fos-cas asas sobre o abismo.Deus te leve a salvo, brioso e altivo barco, por entre asvagas revoltas, e te poje
14
nalguma enseada amiga. So-prem para ti as brandas auras; e para ti jaspeie
15
a bonan-ça mares de leite!Enquanto vogas assim à discrição do vento, airosobarco, volva às brancas areias a saudade, que te acompa-nha, mas não se parte da terra onde revoa.
ALENCAR, José de.
Iracema 
. 14. ed.São Paulo: Ática, 1983. p.11-14.
Comentário
: A abertura do romance já revela ocaráter poético da linguagem empregada por Alen-car. Por isso costumamos classificar a obra como prosa poética. O emprego de adjetivação farta e de figurasde linguagem (metáforas, símiles e prosopopéias) re-cria o cenário exuberante e idealizado da natureza brasileira.
II.
Iracema, a virgem dos lábios de mel, que tinha os ca-belos mais negros que a asa da graúna
16
, e mais longosque seu talhe de palmeira.O favo da jati
17
não era doce como seu sorriso; nem abaunilha recendia no bosque como seu hálito perfumado.Mais rápida que a ema selvagem, a morena virgemcorria o sertão e as matas do Ipu
18
, onde campeava suaguerreira tribo da grande nação tabajara
19
. O pé grácil enu, mal roçando, alisava a verde pelúcia que vestia a terracom as primeiras águas.
ALENCAR, José de.
Op. cit 
., p. 14.
Comentário
: A descrição da virgem confirma aidentificação de Iracema com a natureza brasileira.Iracema representa a pureza e a beleza da matas. Seusdotes físicos ligam-se a elementos dessa mesma na-tureza: lábios (mel), cabelos (negro como as asas dagraúna, longos como a palmeira), sorriso (doce comoo favo da jati), hálito (perfumado como a baunilha) erápida (como a ema).O segundo capítulo é construído a partir de um
 flash-back 
, ou seja, de um retrocesso, uma volta ao passado, que perdurará até o último capítulo. Nessemomento, sua função é preparar o primeiro encontroentre Iracema e Martim Soares Moreno. O narrador  preocupa-se em caracterizar a personagem, reprodu-zindo-a a partir da natureza brasileira, que lhe servede modelo e comparação.Iracema sai do banho. Empluma as flechas do arco
2
Perífrase que substitui a palavra superfície das águas.
3
Corajosa, sem medo.
4
Pequena embarcação.
5
Veloz.
6
Tipo de cão treinado para guardar gado.
7
O nome de Iracema provém da combinação de duas expressões do guarani:
ira 
, que significa mel, e
tembe 
(lábios), que se alteraformando
ceme 
. Assim, Iracema significa lábios de mel.
8
Armação ou estrado de madeira.
9
Figura: mesmo que acre, amargo.
10
Sussurrava, rugia.
11
Figura: mesmo que arrulho, recria o som do canto dos pombos nas ondas do mar.
12
Fig.: Prosopopéia.
13
Vento forte e súbito acompanhado de chuva, furacão.
14
Desembarque.
15
Dar aparência ou cor de jaspe (variedade de quartzo opaco de várias cores).
16
Pássaro de cor negra: guira (pássaro) + una (de pixuna=negro).
17
Espécie de abelha.
18
Tipo de terra fértil para a agricultura.
19
Senhor das aldeias:
Taba 
(aldeia) +
 jara 
(senhor).
 
Reprodução proibida.Art.184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.
3
com penas de gará
20
, enquanto brinca com seu ará
21
,quando é interrompida por um rumor suspeito. Irace-ma depara-se com um guerreiro estranho, “se é guer-reiro e não algum mau espírito da floresta”. Iracemaassusta-se, pois nunca havia visto um guerreiro bran-co: “Tem nas faces o branco das areias que bordam omar: nos olhos o azul triste das águas profundas. Ig-notas
22
armas e tecidos ignotos cobrem-lhe o corpo”.(ALENCAR, José de.
Op. cit.
p.15) Iracema assusta-se com a presença do guerreiro branco e dispara umaflecha. Martim é ferido no rosto de raspão e prepara-se para reagir, mas não o faz, porque está diante deuma mulher. A tristeza estampada na face faz Irace-ma estancar o sangue e, num gesto de paz, quebrar aflecha, dando “a haste ao desconhecido e guardandoconsigo a ponta farpada”. Martim conhece os costu-mes nativos. Os dois conversam e apresentam-se. Ira-cema dá as boas vindas ao estrangeiro.
Comentário
: O ato de quebrar a flecha equivalesimbolicamente a um sinal de paz entre os silvícolas.
III.
Martim acompanha Iracema até a cabana deseu pai Araquém, pajé da tribo dos tabajaras. Recebi-do com hospitalidade, Martim aceita o cachimbo ofe-recido por Araquém, alimenta-se e bebe. Depois,Iracema traz água fresca para que o estrangeiro laveo rosto e as mãos. O pajé fala:
 — Vieste? — Vim; respondeu o desconhecido. — Bem-vindo sejas. O estrangeiro é senhor na cabanade Araquém. Os tabajaras têm mil guerreiros para defendê-lo, e mulheres sem conta para servi-lo. Dize, e todos teobedecerão. — Pajé, eu te agradeço o agasalho que me deste. Logoque o sol nascer, deixarei tua cabana e teus campos aon-de vim perdido; mas não devo deixá-los sem dizer-te quemé o guerreiro, que fizeste amigo. — Foi a Tupã que o Pajé serviu: ele te trouxe, ele televará. Araquém nada fez pelo seu hóspede; não perguntadonde vem e quando vai. Se queres dormir, desçam sobreti os sonhos alegres; se queres falar, teu hóspede escuta.[…]Sou dos guerreiros brancos, que levantaram a taba nasmargens do Jaguaribe
23
, perto do mar, onde habitam opitiguaras
24
, inimigos de tua nação. Meu nome é Martim
25
,que na tua língua quer dizer filho de guerreiro; meu san-gue, o do grande povo que primeiro viu as terras de tuapátria. Já meus destroçados companheiros voltaram pormar às margens do Paraíba, de onde vieram; e o chefe,desamparado dos seus, atravessa agora os vastos ser-tões do Apodi
26
. Só eu de tantos fiquei, porque estava en-tre os pitiguaras de Acaracu
27
, na cabana do bravo Poti
28
,irmão de Jacaúna
29
, que plantou comigo a árvore da ami-zade. Há três sóis partimos para a caça; e perdido dosmeus, vim aos campos dos tabajaras. — Foi algum mau espírito da floresta
30
que cegou oguerreiro branco no escuro da mata: respondeu o ancião.A cauã
31
piou, além da extrema do vale. Caía a noite.
ALENCAR, José de.
Op. cit 
., p. 17-18.
Comentário
:
 
O trecho citado é importante umavez que temos o próprio Martim apresentando-se aAraquém, pai de Iracema. Percebemos nessa cena aaproximação do homem branco conhecedor da cultu-ra indígena. A colocação de Araquém: “foi um mauespírito que cegou o guerreiro”, antecipa, de certa for-ma, a aversão que Irapuã, guerreiro da tribo de Irace-ma, sentira pelo guerreiro branco.
IV.
Iracema traz a companhia de mulheres paraMartim, como é costume entre várias tribos, e tam- bém vários guerreiros para obedecerem ao estrangei-ro. Martim reclama, porque Iracema vai deixá-lo. Avirgem explica que é a detentora do segredo da jure-ma e do mistério do sonho: “Sua mão fabrica para oPajé a bebida de Tupã”. Martim deixa a cabana. O pajé conta ao povo os segredos de Tupã. Todos come-moram a volta e a vitória do chefe Irapuã. QuandoMartim vai entrar na mata, surge o vulto de Iracema,que quer saber por que ele “abandona a cabana hos- pedeira sem levar o presente da volta”. Martim dese- ja ver os amigos, não leva o presente da volta
 ,
mas alembrança de Iracema na alma. Iracema pede que eleespere pela volta de seu irmão Caubi, que o guiará àsmargens do rio das Garças. Martim concorda em es- perar até o próximo dia pela volta de Caubi.
20
Ave de plumagem vermelha, da família das araras.
21
Periquito.
22
Desconhecidos.
23
Maior rio da província do Ceará. A origem do nome provém da grande quantidade de onças que povoavam o lugar.
24
Nação que habitava o litoral entre os rio Jaguaribe e Paraíba, cujo nome normalmente pode ser traduzido por comedores de camarão(poti), designação de desprezo dada pelos inimigos por viverem da pesca.
25
Martim Soares Moreno, personagem histórica que participou junto aos índios da tribo dos pitiguaras da expulsão dos holandeses dolitoral no séc. XVII. Seu nome vem de Marte, deus da guerra na mitologia latina.
26
Apo (separação, afastamento) e di (desinência indicadora de dois).
27
Nome de um rio (rio do ninho das garças).
Acará 
(garça) +
co 
(buraco, ninho) +
(água).
28
Irmão do chefe dos pitiguaras. Seu nome significa camarão. Personagem histórico que recebeu por batismo católico o nome de AntônioFilipe Camarão.
29
Chefe guerreiro da tribo dos pitiguaras.
30
Referência a anhangá, espírito maléfico; espectro animal que traz desgraça para quem o vê.
31
Mesmo que acauã, tipo de gavião preto cujo canto, emitido no crepúsculo e ao alvorecer, é considerado mal-agourado e prenunciadorde chuvas.

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