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Novíssimos
é um salão de arte organizado pelo Centro Cultural doInstituto Brasil-Estados Unidos – Ibeu, cuja primeira edição ocorreuem 1962. De lá pra cá, muita coisa mudou não só no Brasil, como nomundo. Em 2010 o Ibeu completa setenta e três anos de existência,sua galeria cinquenta anos de intensa e ininterrupta atividade, eeste ano realiza a 40ª edição de
Novíssimos
. Vivemos, assim, ummomento de celebração, mas também de reformulaçõesinstitucionais e físicas, com as renovações da Comissão Cultural e doespaço expositivo da Galeria de Arte Ibeu. Se nos anos 1960, quandose realizou a primeira edição de
Novíssimos
, o conceito de novoainda possuía uma grande importância e designava a produção queestabelecia uma nítida diferenciação em relação ao passado, em2010 é preciso problematizar o conceito de novidade, e suapertinência para designar a recente produção brasileira de artecontemporânea. O novo surgira com a Modernidade artística, navirada do século XIX para o XX e abrangia a produção que secontrapunha ao velho e ao antigo, buscando fazer tábula rasa dessepassado, para propor algo original. A categoria de novidade, assim,implicaria em ruptura, surpresa e mesmo em choque. Mas será essaa pretensão do salão que visa dar espaço à produção brasileiraemergente em 2010?O objetivo de
Novíssimos
é reconhecer e estimular a produção de“novos” artistas e, assim, apresentar um recorte do que vem sendoproduzido na arte contemporânea brasileira. Mas “novos” nãodesigna nem a novidade modernista, nem uma faixa etáriaespecífica, não significando nem uma pretensão vanguardista deestar à frente do tempo – propondo algo original –, nem seconfundindo com uma idade necessariamente jovem. Nessesentido, nos referimos aos “novos artistas” utilizando aspas, umavez que o termo diz respeito ao tempo de trabalho, ao estágio dacarreira. Desse modo, os critérios que nortearam as escolhas daComissão Cultural que selecionou vinte e dois artistas, dentro de umuniverso de mais de cento e cinquenta inscritos, foram os seguintes:produções e carreiras que tenham despontado recentemente, masque indiquem linguagens e um corpo de questões mais ou menoscoerente, currículos e projetos de trabalho que apresentemconsistência formal e conceitual. Dependendo da escala dostrabalhos, foram selecionados um, dois ou três, sem que um suporteou meio fosse privilegiado, de forma a indicar a pluralidade quecaracteriza a produção contemporânea em artes.O desafio de dividir a curadoria com os outros membros daComissão Cultural e de escrever o presente texto para o catálogo,assim, requer uma tomada de posição. É possível estabelecerdiálogos entre os trabalhos num universo de tão grandediversidade? Como fazê-lo sem que caiamos numa pasteurização?
Texto de Fernanda Pequeno para o catálogo do 40º Salão de Artes NOVÍSSIMOS 2010
Afinal, trata-se de um salão de arte que visa dar conta dapluralidade de possibilidades produtivas na contemporaneidade.Nesse sentido, não é nossa intenção dar uma cara homogênea àexposição em si, nem ao texto. A ideia é priorizar as conversas, mastambém as fricções, de forma a permitir que as obras comuniquemno conjunto e individualmente, o que é fundamental para “novos”artistas.
Alexandre Paes
, por exemplo, utiliza procedimentos pictóricos,tais como: gesto, textura e pincelada para corporificar objetostridimensionais, de uso cotidiano. Em
1 litro de pintura
, o artistacria uma mancha de tinta preta a partir da utilização de um litro detinta acrílica; em
Pêra
presentifica a fruta também a partir doacúmulo de tinta e, em
 ALL STAR
, disponibiliza um par de tênis,também produzido com tinta acrílica, para que o público utilize-o,tornando presente uma questão recorrente da artecontemporânea, que é a da posição não contemplativa doespectador perante o trabalho artístico.
Bet Katona
está representada por uma paisagem sem título, queevidencia a sua busca pela economia e limpeza formais e deexecução. Bet não deixa visível qualquer vestígio de pincelada, nosapresentando uma paisagem azul planar, chapada, repleta desolidão e desapego, como são as suas pinturas. Essa paisagemexterior configura-se como um corte, tanto no plano pictóricoquanto na cena e condensa um instante, funcionando como umaespécie de still de um road-movie, do qual desconhecemos o antese o depois.A paulistana
Carla Chaim
apresenta os vídeos
Conversation withego
e
Cartografia corporal 
: o primeiro, uma homenagem a JosephBeuys e o segundo, o registro de um desenho que a artista realizacom o corpo. No primeiro, Carla aparece se movimentando emuma sala onde, além dela, apenas uma cadeira aparece, oraenvolta em uma manta de feltro com o rosto e o corpo cobertos,ora com corpo e rosto aparentes, de forma que a câmera capta osmovimentos que a artista desempenha no espaço, enquadradofixamente. Já no segundo, a artista relaciona corpo e espaço, açãoe seu resultado final, realizando desenhos com todo o corpo, nãocom as mãos.
Claudia Tavares
apresenta uma série que referencia o céu e suaideia de imensidão, através do voo de pássaros e a noção deliberdade que esse sugere. Em
Caligrafia
, a artista fotografabandos de aves em movimento, captando e fixando os desenhos epalavras que são inscritos no céu a partir de seus voos, gerandoagrupamentos e dispersões efêmeros.
 
Daniel Lannes
apresenta duas pinturas repletas de acidez e ironia,que caracterizam a sua pesquisa, mesclando a manufatura com aapropriação de temas e estruturas compositivas de diversas escolaspictóricas, bem como de imagens publicitárias. Em
Banana Republic
,Lannes ficciona e fricciona pinturas históricas, de paisagem eretratos, unindo uma pin up americana dos anos 1950 a umautorretrato fardado e um gorila numa paisagem romântica tropical.Em
Guignard with lazers
, o artista ambienta uma paisagem a laAlberto da Veiga Guignard, com um céu rosa choque, macacos elasers que iluminam o céu. Através dessa mesclagem de referências,o kitsch se presentifica, o que acaba por problematizar a brasilidadee seus estereótipos.
Daniela Antonelli
apresenta dois desenhos frágeis, de difícilpercepção, pois não comunicam franca ou diretamente. Aocontrário, negando o elogio do espetáculo que vivenciamoscontemporaneamente, seus trabalhos requerem silêncio e exigemuma percepção atenciosa para que captemos a delicadeza dessespequenos universos que a artista cria com nanquim sobre papelvegetal. Cada detalhe que compõe o desenho, assim, só é notadoquando se lança um olhar perspicaz e demorado sobre ele.
Danielle Carcav
apresenta a pintura
Quando eu gritar, me acorde
,misturando imaginação e realidade. Como
O Livro dos SeresImaginários
de Jorge Luis Borges ou a
Histórias de Cronópios e deFamas
de Julio Cortázar, Danielle propõe a união entre a fantasia e oreal. A artista relembra e recria memórias de infância e brincadeira,mas também de silêncio e introspecção, utilizando a cor comoelemento que enfatiza o aspecto onírico de sua poética. Assim, atinta, que em certas áreas é lavada e escorrida, dentro da mesmapintura, aparece de forma brilhante, compacta e corpórea.
Douglas Cortes
parte do carimbo de um pássaro para construir ostrabalhos que apresenta em Novíssimos 2010. O artista realiza oLivro I, com a combinação de carimbadas, assim como interfere nacoluna da Galeria de Arte Ibeu. O elemento arquitetônico, quenormalmente é um problema para um espaço expositivo, dessemodo, é incorporado pelo artista como estrutura poética, quereceberá os voos dos pássaros em espiral ascendente.
Elisa Castro
, em
Conversa silenciosa
, borda medos com fios de cobresobre tecido branco, tornando públicos segredos confessados portelefone. Elisa capta esses medos desde 2007 e vem transformando-os em desenhos, instalações etc. O fio de cobre é o elementocondutor da eletricidade e, apesar de seu brilho e beleza, é ummaterial rígido e bruto, cuja manipulação pode gerar cortes,atravessamentos na pele. É nisso em que Elisa Castro estáinteressada: gravar na sua pele e no tecido os medos ouvidos eguardados, usando o fio de cobre não como condutor, mas comoaglutinador, que adensa e concentra tudo o que foi dito.
Eloá Carvalho
parte de uma imagem fotográfica apropriada oucapturada e pinta de forma a abstrair o ambiente e destacar apresença física que o habita, transformando esse personagem emprotagonista da cena. Mas a sua presença, assim como a dapaisagem, permanece velada, pois o preto e o branco só permitemque apreendamos as suas silhuetas, normalmente aparentes decostas ou perfil. O vazio e a melancolia são sugeridos pelo anonimatoe impessoalidade dos personagens e pelas zonas de luz e escuridão,que dificultam qualquer identificação mais pessoal ou expressiva.Assim como grande parte das pinturas selecionadas, as obras quea paulistana
Fabiola Racy
apresenta são desapegadas,desabitadas.
Terraço
e
 Ao redor 
são pinturas desoladas e parecemesperar pela presença humana. A artista parte de fotografiasrecolhidas em jornais, revistas, livros e internet e vai modificando-as até o ponto em que esses espaços se abstraem e tornam-se, ounão, acolhedores. Suas telas, portanto, falam de aguardo, esperaou de um estado de suspensão.O gaúcho
Jander Rama
utiliza o desenho como procedimentointelectual, gravando-o em matrizes de linóleogravura, queposteriormente imprime sobre papel. Nas três gravurasapresentadas –
Implante telescópico
,
Tênis para caminhadas em paredes
e
Sapato para pés frios
– evidencia-se que a suainvestigação visa unir arte e ciência, tanto pelo procedimento emsi, como pelos temas explorados e os resultados obtidos. Nessesentido, seu interesse não se dá pela reprodutibilidade que agravura proporciona, mas se detém sobre os cyborgs e outrasinvenções: no primeiro caso na modificação do corpo humano pormecanismos, dispositivos e implantes improváveis e, no segundo,nas propriedades mirabolantes e inventivas de certos objetos.O trabalho de
Jimson Vilela
requer recolhimento. Trata-se deuma obra difícil, tanto perceptual quanto conceitualmente e, porisso mesmo, pode proporcionar pequenas epifanias.
Do lado de lá 1
traz o preto e o branco cobrindo toda a superfície datela, deixando a sua fatura evidente. O escorrido, nesse caso, érastro do gesto do artista, que torna perceptível essa ação a nósinvisível, empreendida silenciosa e solitariamente. Jimson utilizaassertivamente poucos recursos: não se trata, entretanto, de umlaconismo, mas de síntese, redução sistemática ao essencial.Sendo assim, se a rotina da pintura requer rigor, experimentação,por outro lado também pressupõe abertura para o acaso e oacidental, numa relação com a matéria e as propriedades que vãoalém dela, bem como um olhar poético e atento sobre o mundo eo fazer.
Louise D.D.
trata de questões ligadas ao consumo. Repletos deacidez, seus trabalhos têm o seu viés crítico e conceitualdissolvido em humor e ironia.
Big Mac
é uma escultura em sabãodo sanduíche que é símbolo da sociedade de consumo pós-moderna.
Rivotril 
é uma escultura de um dos ansiolíticos maispopulares do país, amplamente receitado. Já
Dentes mais brancos
 é uma pintura que se baseia na escala de brancura presente nasembalagens de cremes dentais. A Pop, nesses casos,é mais do que uma referência, é o ponto de partida. As questõesde escultura e pintura que a artista se propõe a enfrentar são deordem conceitual. Trata-se de apropriações, e não de discussõessobre o fazer ou a artesania.
Luana Aguiar
performatiza
Bem me quer, mal me quer 
, que colocaquestões não apenas sobre a aceitação de performances e açõesem salões de arte, como contundentes indagações sobre ospadrões de beleza, a feminilidade etc. Retirando toda umasobrancelha, Luana provoca o público com perguntas sobre oslimites do corpo e da representação da mulher nacontemporaneidade, através do confronto com a imagem daartista. A performance, realizada e filmada durante ainauguração, ficará disponível em vídeo ao longo da mostra.

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