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noticiasmagazine
23.MAI.2010
LUGAR
Todoo
ACasa da Achada é o lugar onde se pode ficar a conhecer MárioDionísio,artista múltiplo que deixou uma obra (sobretudo escrita,mas também pintada) a que os públicos das artes,investigadores eartistas podem agora ter acesso.
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Écaso para dizer que se «sertantos»,como foi Dionísio,não encaixa nos lugares onde habitual-mente se depositam e mostram os legados artísticos,a solução é jun-tá-los numa casa e abri-la ao bairro,à cidade e ao mundo.
TEXTO
Sarah Adamopoulos
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FOTOGRAFIA
Rui Coutinho
DIONÍSIO
T
alvez o legado de MárioDionísio fosse hoje maisconhecido da generali-dade se o poeta, escritor,ensaísta, pintor e professor tivesse sido al-guém menos múltiplo.Etalvez por isso tam-bém, por causa dessa inquieta versatilidadeque o levou a vida inteira a existir em váriasfrentes criativas, a abertura do centro cultu-ral que leva o seu nome e contém o seu espó-lio seja tão importante. No entanto, não setrata tanto de reparar uma injustiça (queamiúde o tempo resolve, embora não sem-pre), mas sobretudo de concretizar o desejode um vasto conjunto de pessoas, que a da-do passo sentiram «necessidade de não des-perdiçar coisas», como explicou Eduarda Dionísio à 
nm
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«Houve uma pessoa que vi-veu durante 77 anos e que deixou uma obra grande e bastante diferente de outras, quecorria (devido ao mercado e função da cul-tura que a política instituiu) o risco de desa-parecer.» Desaparecimento que uma vezmais advém também da dificuldade (da im-possibilidade?) de incluí-lo nas listas catalo-gadoras das diferentes especialidades artís-ticas, «porque não se enquadra naquilo quepassou a ser a ideia de arte, de cultura. Eletocou várias artes, e portanto reuniram-sevárias vontades na mesma pessoa, o que ho- je em dia não é bem aceite, no sentido de seachar que uma pessoa que se dedica a váriasartes não pode ser verdadeiramente boa emnenhuma. Ou seja, a ideia humanista, do Re-nascimento, de que as pessoas podem, comomesmo pensamento e talentos, tocar vá-rias artes,está actualmente bastante desva-lorizada. Mário Dionísio nunca foi conside-rado pintor, por exemplo, apesar de ter pin-tado durante a vida toda.»
 
      P      U      B      L      I      C      I      D      A      D      E
Aarte e o marketing dela
Etambém como escritor Dionísio se man-tém relativamente desconhecido, apesar deasua vasta obra literária constituir uma re-ferência incontestável para a elite de litera-tos e grandes leitores, a quem essa falta dereconhecimento muito intriga. «Tudo o queMário Dionísio construiu ao longo da sua vi-dacorria o risco de não servir para nada, oupara muito pouco. E portanto a ideia desseconjunto de pessoas foi reunir num mesmoespaço e tornar acessíveis todas essas coisasque ele fez a quem quiser trabalhar com elas,ouapartir delas.» Investigadores e artistastêm agora acesso a materiais que não podemencontrar em nenhum outro lugar. Falandodos criadores e dos consumidores de cultu-ra curiosos em conhecer a obra de MárioDionísio, a filha do autor de
 APaleta e O Mun-do
precisou tratar-se de «pessoas que têm vi-sões do mundo ou vontades que se asseme-lham de algum modo hoje àquelas que fo-ram as dele ontem.» Visões do mundo evontades que encontram eco em muitoscúmplices numa ideia de transformaçãodo mundo pela arte, «tendo as pessoas ascoisas nas próprias mãos, e não entregando-as a instituições, regra geral apenas interes-sadas no que “está a dar”». Eduarda Dionísiopensa que o relativo desconhecimento da obra do pai se deve também ao facto de Má-rio Dionísio nunca ter sido alguém afeiçoa-do à promoção do seu trabalho. «Ao contrá-rio de outros, que quando perceberam quesem isso não podiam ser reconhecidos, acei-taram as regras do
marketing 
artístico ou li-terário. Ele recusou sempre isso – os saraussociais, as acções das editoras para valorizaraobra, etc., porque sempre entendeu que es-sa não era a actividade dos criadores.»
Resistências
Mas, para além da coerência a toda a prova das tomadas de posição de Mário Dionísio re-lativamente à forma e à função dos artistas na sociedade e da vastidão de uma obra que na-da deve à linearidade dominante que serve osrótulos e as catalogações necessárias aos mer-cados,Dionísio assumiu ainda posições polí-ticas que, segundo a filha, não ajudaram a tor-nar conhecida a sua obra: «A partir do mo-mento em que saiu do PCP,ele não seenquadrou em nenhum partido político, e ofacto de nunca ter pertencido a nenhum
lob-by
(no sentido do conjunto de pessoas que seunem para ter influência na sociedade) expli-ca muito esse desaparecimento da obra. Aobra de Mário Dionísio não cabe nas caixi-nhas em que as pessoas se movem.» Nesteponto ocorreu à jornalista que houve outrosque abraçaram várias formas de expressãoartística, caso de José de Almada Negreiros,artista total que se serviu indiferentementedo desenho, da pintura ou da escrita para afir-mar o seu modernismo. «É verdade, mas fezocartaz da propaganda para a Constituiçãode 1933 [que lançou a grande ditadura], e ospainéis da GareMarítima, ou seja, esteve aolado dos da “situação” autoritária e totalitária várias vezes. O que é muto diferente de uma pessoa como Mário Dionísio, que esteve sem-pre na oposição, antes e depois de 1974. Foi al-guém que se comprometeu sempre, mas uni-camente com aquilo que pensava e que nun-ca deixou de defender. O Almada fez coisasque seriam impensáveis para Mário Dionísio.Não quero dizer que Almada tivesse um
lob-by,
mas teve uma protecção do regime.»
Lugar de partida
Do grupo de amigos e admiradores de Má-rio Dionísio que se juntaram para erguer a Casa da Achada fazem parte pessoas commotivações diversas: «Umas que o conhece-ram e que pensam que é importante divul-gar a sua obra, e falo de pessoas que convive-ram com ele e aprenderam com ele e quesentem a necessidade de dizer a outros
Eduarda Dionísio,filha do escritor, diz que o painunca valorizou a promoçãodo seu trabalho.
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