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Etnografía_Urbana

Etnografía_Urbana

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01/28/2013

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Introdução
Neste artigo pretendo articular duas linhasde reflexão: uma sobre cidade e outra sobre etno-grafia. O propósito é explorar as possibilidadesque esta última, como método de trabalho carac-terístico da antropologia, abre para a compreensãodo fenômeno urbano,mais especificamente paraa pesquisa da dinâmica culturale das formas desociabilidade nas grandes cidades contemporâneas.Em primeiro lugar exponho, de forma sumarizada,alguns dos enfoques mais correntes sobre a ques-tão da cidade e, em contraste com estas aborda-gens, que classifico como um olhar
de fora e de longe,
apresento outra de cunho etnográfico, a quedenomino de olhar
de perto e de dentro.
Não se trata, contudo, neste caso, de qualqueretnografia:procurodistinguir a proposta que de-senvolvo de outros experimentos que também seapresentam como etnográficos. Penso, ademais,que não há necessidade de muitos malabarismospós-modernos para aplicar com proveito a etno-grafia a questões próprias do mundo contemporâ-neo e da cidade, em particular: desde as primeirasincursões a campo, a antropologia vem desenvol- vendo e colocando em prática uma série de estra-tégias, conceitos e modelos que, não obstante asinúmeras revisões, críticas e releituras (quemsabe até mesmo graças a esse continuado acom-panhamento exigido pela especificidade de cadapesquisa) constituem um repertório capaz de inspi-rar e fundamentar abordagens sobre novos objetose questões atuais.Explicito, a seguir, os pressupostos que estãona base dessa proposta e apresento categorias deanálise, mostrando a aplicação de algumas delasem pesquisas recentes. Por fim, sinalizo com aperspectiva de um olhar
distanciado
, indispensávelpara ampliar o horizonte da análise e complemen-tar a perspectiva
de perto e de dentro
defendida ao
DE PERTO E DE DENTRO 
:notas para uma etnografia urbana 
 José Guilherme Cantor Magnani 
 RBCS Vol. 17 n
o
49 junho/2002 
 
12
REVISTA BRASILEIRA DE CIÊNCIAS SOCIAIS - VOL. 17 N
o
49
longo do artigo. Pretendo, com estas reflexões,contribuir para delimitar, no amplo e vago campoda chamada “antropologia das sociedades comple-xas”, um recorte mais específico, voltado para o es-tudo de temas própria e especificamente urbanos.
1
 Abordagens sobre a cidade
Inúmeros são os estudos e as abordagenssobre os rumos e as conseqüências do processo deurbanização em curso, principalmente nas grandesmetrópoles contemporâneas. Com o propósito deestabelecer um pano de fundo para melhor des-tacar a proposta que pretendo desenvolver, inicial-mente agrupei tais abordagens, conforme propusem outro texto (Magnani, 1998), em dois blocos: oprimeiro deles reúne aquelas análises e respectivosdiagnósticos que enfatizam os aspectos desagrega-dores do processo tais como o colapso do sistemade transporte, as deficiências do saneamento bási-co, a falta de moradia, a concentração e desigualdistribuição dos equipamentos, o aumento dosíndices de poluição, da violência. Com base em variáveis e indicadores sociais, econômicos edemográficos, este é o quadro geralmente apli-cado às grandes cidades do mundo subdesen- volvido ou, de acordo com o atual eufemismo,dos países emergentes.Uma outra visão, geralmente referida a me-trópoles do primeiro mundo, projeta cenáriosmarcados por uma feérica sucessão de imagens,resultado da superposição e conflitos de signos,simulacros,não-lugares, redes e pontos de encon-tro virtuais. Esta é a cidade que se delineia a partirda análise de alguns semiólogos, arquitetos, críticospós-modernos, identificada como o protótipo da so-ciedade pós-industrial.No primeiro caso, apresenta-se uma linha decontinuidade onde fatores desordenados de cres-cimento acabam por produzir inevitavelmente ocaos urbano; no segundo, enfatiza-se a ruptura,conseqüência de saltos tecnológicos que tornamobsoletas não só as estruturas urbanas anteriorescomo as formas de comunicação e sociabilidade aelas correspondentes; o caos, aqui, é semiológico.Um, fruto do capitalismo selvagem; a outra, maisidentificada com o capitalismo tardio. Ainda que por motivos diferentes, essas duasperspectivas – aqui polarizadas para efeito compa-rativo e de contraste – levam a conclusões seme-lhantes no plano da cultura urbana
:
deterioraçãodos espaços e equipamentos públicos com a con-seqüente privatização da vida coletiva, segregação,evitação de contatos, confinamento em ambientese redes sociais restritos, situações de violência etc.Não obstante seu esquematismo, esta é uma visão bastante recorrente no discurso da mídia eaté em análises mais acadêmicas voltados para adiscussão de problemas urbanos: é justamente noestereótipo que reside o sucesso da fórmula. Cabelembrar, a propósito, o ocorrido com o conhecidourbanista catalão, Jordi Borja, em uma de suas vi-sitas a São Paulo. Convidado a participar de umprograma de televisão para falar dos problemasdas grandes cidades, foi previamente instruídopelo jornalista: “Quero que o senhor diga como acidade de São Paulo está mal, uma catástrofe, nadafunciona etc.; que diga também como, em geral, ascidades vão mal, com problemas de insegurança,contaminação, falta de moradia, proliferação debairros marginais, pois em todas as cidades hágrandes problemas.”
2
Essa perspectiva, em que pesem seu apelo erendimento para abarcar todo e qualquer transtor-no, de enchentes a situações de risco e violência,passando pela perda de contatos e vínculos maispersonalizados, evidentemente não esgota o lequede possibilidades de análise das questões urbanascontemporâneas: há outros recortes em que as di-ferenças entre determinado tipo de cidades situa-das em regiões desenvolvidas e suas congêneresno mundo subdesenvolvido cedem espaço para al-gumas semelhanças. Esta é a perspectiva, porexemplo, de Jordi Borja, que utiliza o conceito de“cidade mundial”; outros, como Saski Sassen (1998,1999) preferem a expressão “cidades globais”.
3
Tanto num caso como no outro essa deno-minação alude ao papel que tais cidades ocupamnuma economia altamente interdependente: sedesde conglomerados multinacionais, pólos de insti-tuições financeiras, produtoras e/ou distribuidorasde determinados serviços, informações e imagens,elas constituem os nós da ampla rede que tam-bém já é conhecida, num mundo globalizado,como “sistema mundial”. Sua influência, desta for-
 
ma, faz-se sentir muito além das respectivas fron-teiras físico-administrativas e nacionais. Aqui as questões são de outra ordem: todasessas cidades, num certo plano, assemelham-senão apenas pelas funções que exercem, mas pelosequipamentos e instituições que possibilitam seuexercício Assim, supõe-se que uma “cidade global”seja servida por uma rede de hotelaria de padrãointernacional, um sistema de transporte seletivo,sofisticadas agências de serviços especializados,sistemas e empresas de informação de ponta. Sas-kia Sassen (1999) fala, além da globalização, em“digitalização”, para caracterizar o processo queproduziu as cidades globais.Chama a atenção o fato de que essa tecnolo-gia, que permite contato imediato e troca de infor-mações
on line 
, não significou o enfraquecimentodas cidades. Sassen, a propósito, distingue doistipos de informação: de um lado, aquele meramen-te constituído por dados, esses sim, disponíveis dee para qualquer ponto do mundo, desde que este-jam devidamente plugados; e, de outro, o processode sua interpretação, avaliação e discernimento,que exige atores reais: pessoal qualificado, empre-sas especializadas dos mais variados serviçoscomo apoio jurídico, consultoria etc., compondo oque a autora chama de “infra-estrutura social paraa conectividade global” (
idem
). Alguns exemplos logo vêm à mente, comoprotótipos dessa dinâmica: Nova York, em primeirolugar, Londres, Tókio e, além disso, numa segundaordem de grandeza, Los Angeles (Davis, 2001), queresume e concentra as vantagens e os problemasdesse tipo de cidade – algumas de cujas caracterís-ticas podem ser encontradas em outras metrópoles,ainda que situadas em países menos desenvolvi-dos.
4
Barcelona, outro caso bastante difundido decidade global, exemplifica uma característica par-ticular dessa tipologia: a busca e o investimentonuma “marca” local distintiva. Pois, se de um ladosupõe-se que essas cidades dispõem de uma in-fra-estrutura peculiar – o que termina por equali-zá-las –, de outro, é fundamental que cada umaapresente um elemento diferencial, de forma atorná-la competitiva na atração de capitais, demão-de-obra especializada, na realização de even-tos internacionais etc.Essa visão tem como base uma nova forma deplanejamento urbano, conhecido por “planejamen-to estratégico” que, entre outras medidas, prevêparcerias entre o poder público e o setor privadocom vistas a projetos de renovação urbana. Umadas propostas mais difundidas dessa visão temcomo foco áreas centrais buscando a revitalizaçãode espaços degradados e a recuperação, com no- vos usos, de edificações e equipamentos “históri-cos” ou “vernaculares” (Zukin, 2000), de forma aatrair novos moradores, usuários e freqüentadores.Esse processo, conhecido como
 gentrification
(enobrecimento, requalificação), propõe umanova dinâmica, principalmente para os centros dascidades, pois, além de adequá-los como lugares deconsumo, inaugura uma nova modalidade de con-sumo cultural, isto é, o “consumo do lugar”.Tais propostas são identificadas, por alguns,como parte da tendência “pós-moderna” no urba-nismo e na arquitetura; há, entretanto, quem retiredo termo pós-modernidade qualquer determinaçãopositiva, por considerá-lo vazio, incapaz de intro-duzir uma ruptura com relação à sua antecessora,ou seja, a modernidade: tanto uma como outra nãoseriam alternativas, mas, de acordo com Otília Arantes, “passos unificados de um mesmo proces-so de ajuste da sociedade às reviravoltas que dá ocapitalismo para continuar o que sempre foi, e decujas metamorfoses a paisagem urbana é a fachadamais visível”, (1998, pp. 12-13). A autora tem tam-bém uma visão bastante crítica tanto em relação aofenômeno da globalização, como às propostas derevitalização urbana induzidas por esse processo:
Essa mundialização do capital, para chamar a coi-sa pelo seu verdadeiro nome, que é econômica,tecnológica, midiática, gera descompassos, segre-gações, guetos multiculturais e multirraciais, aomesmo tempo em que desterritorializações anár-quicas, crescimentos anômalos e transgressivos[...]. Além do mais, as novas tendências estruturaisde crise da regulação social e de desmonte dosEstados nacionais transformam os alegados valo-res locais em mercadorias a serem igualmenteconsumidas e recicladas na mesma velocidade emque se move o capital. Em linhas gerais, esse é onó da renovação urbana em andamento tanto nospaíses afluentes quanto, com mais razão ainda, naperiferia (1998, pp. 187-188).
 DE PERTO E DE DENTRO 
: NOTAS PARA UMA ETNOGRAFIA URBANA
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