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APONTAMENTOS EM CIBERPOLÍTICA A Internet e suas possibilidades democráticas

APONTAMENTOS EM CIBERPOLÍTICA A Internet e suas possibilidades democráticas

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O texto visa argumentar sobre as mudanças que ocorrem no cenário político contemporâneo devido, entre outros elementos, às tecnologias, à globalização, ao enfraquecimento das fronteiras e Estados nacionais, à mobilização civil e, sobretudo, a mudanças tecnocomunicacionais que reforçam a ação dos chamados “ novos movimentos sociais“ . O cerne des te trabalho bas ei a-se na tentativa de analisar como as novas tecnologias podem inserir um ingrediente inédito na comunicação e democracia contemporâneas, interferindo nas ações evidenciadas nos espaços públicos e esferas tradicionais/institucionais do debate político.
O texto visa argumentar sobre as mudanças que ocorrem no cenário político contemporâneo devido, entre outros elementos, às tecnologias, à globalização, ao enfraquecimento das fronteiras e Estados nacionais, à mobilização civil e, sobretudo, a mudanças tecnocomunicacionais que reforçam a ação dos chamados “ novos movimentos sociais“ . O cerne des te trabalho bas ei a-se na tentativa de analisar como as novas tecnologias podem inserir um ingrediente inédito na comunicação e democracia contemporâneas, interferindo nas ações evidenciadas nos espaços públicos e esferas tradicionais/institucionais do debate político.

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404nOtF0und ANO 3, VOL 1, N. 33· outubro/2003ISSN 1676-2916Publicação do Ciberpesquisa -Centro de Estudos e Pesquisas em Ciberculturahttp://www.facom.ufba.br/ciberpesquisa/404nOtF0undEditor:André LemosEditorAssistente:Cláudio Manoel
APONTAMENTOS EM CIBERPOLÍTICA
A Internet e suas possibilidades democráticas
Francisco Paulo Jamil Almeida Marques1Resumo:O texto visa argumentar sobre as mudanças que ocorrem no cenário político contemporâneo devido, entre outros elementos, às tecnologias, à globalização, ao enfraquecimento das fronteiras eEstados nacionais, à mobilização civil e, sobretudo, a mudançastecnocomunicacionais que reforçam a ação dos chamados
novos movi
mentos sociais
. O cerne deste trabalho baseia
-se natentativa de analisar como as novas tecnologias podem inserir um ingrediente inédito na comunicação e democracia contemporâneas, interferindo nas ações evidenciadas nos espaços públicos eesferas tradicionais/institucionais do debate político.Palavras-chaveComunicação- Internet- Democracia- Esfera Pública - Cidadania1. ContextualizaçãoSomos a vanguarda no convívio efetivo com tecnologias a exemplo do computador, palm tops e celulares. Quando vamos ao banco, compramos no cartão de crédito ou mesmo ao assistir aotelejornal da noite, presenciamos a ação desses novos agentes, interligando, tornando o remoto acessível e instantâneo. No embate entre os
integrados, que insistem em
sugerir a ampliaçãodos benefícios e da participação social com o advento de técnicas, e os
apocalípticos2, sempre alardeando quanto a assuntos
como exclusão digital, aumento da distância entre aqueles quepodem ou não ter acesso e fazer um bom uso dessas tecnologias (sem falar da
rend
ão da cultura à tecnologia
), preferimos admitir que a informaç
ão, sua emissão, distribuição econsumo/recepção, ocupa sim um espaço diferenciado na contemporaneidade, mas nem por isso deve ser tratada como algo eminentemente sagrado ou profano. É fato, e contra fatos não háargumentos, de que cada vez mais a riqueza deixa de se associar aos bens materiais para se aliar ao conhecimento, o tal
valor agregado3
.De imensas calculadoras até o desenvolvimento de interfaces amigáveis e equipamentoscompactos, já se passaram mais de 30 anos. Entretanto, ainda estamos na euforia teórica inicial do adventode um novo meio/técnica4. Vários textos tentam dar conta dos efeitos que estas novas tecnologias geram no cotidiano, alguns mais recatados, outros apelando para a futurologia. Neil Postman, emseu livro intitulado Tecnopólio, afirma:Precisamoscompreender sobretudo que as mudanças ocorridas na sociedade contemporânea não devem ser analisadas somente pelo viés tecnológico, como uma evolução do maquinário e do poder científicohumano. A cibercultura, na verdade, é um dos desdobramentos da cultura contemporânea (talvez ainda sejam sinônimos), e não o contrário. No máximo podemos admitir uma relação dialógica. Énecessário analisar possíveis mudanças que ocorrem na esfera pública e privada, devendo-se aceitar contribuições de abordagens alternativas que vão contra a idéia do determinismo tecnológico.Afinal, Comunicação é, sobretudo, relação social.2. Cenários sócio-políticos contemporâneosO conhecimento humano (pelo menos no concernente a atualidades, já que nossa formação mais sólida, aquela que influencia nossa personalidade, desde as relações na escola, igreja ou famíliaésobretudo convivial, comunitária), é em sua maior parte mediado ou, como nos diz Giddens(2000),
quando a imagem de Nelson Mandela pode ser mais familiar para nós
que o rosto do nossovizinho de porta, alguma coisa mudou na natureza daexperiência cotidiana
. Nos confrontos chamados anti
-globalização
ocorridos em Gênova, por exemplo, percebemos a presença dacomunidade em sua multiplicidade, de setores agora mundializados, não mais apenas de caráter local ou nacional. Estão ali sindicalistas, sacerdotes, ecologistas e comunistas. A tecnologia permite,de certa forma, que as pessoas se coloquem em escala mundial.O fim da Guerra Fria e, consequentemente, o fim da bipolaridade entre Estados Unidos e União Soviética; a crescente unificação/regionalização dos mercados financeiros internacionais e nacionais;a descentralização da produção; o surgimento de novos movimentos sociais, sejam eles ecológicos ou étnicos e a fragmentação das grandes ideologias são fenômenos que, de alguma forma,abalam nossos quadros tradicionais de referência. Todos estes elementos geram incertezas/inquietações, inclusive contradições, no cenário contemporâneo. Que relações de produção emergemdeste ciclo demudanças? Seriam estes
abalossócio
-culturais, e até teórico-conceituais,os indícios de um
Mundo em Descontrole,globalizado, como aponta Anthony Giddens? Esses
movimentos sociais5lutam contra a globalização mas ao mesmo tempo utilizam as redes telemáticas, as reais propulsoras da
nova economia? N
ão é contraditório?Umatomada de decisão do G8 reflete sobre os rumos da economia mundial, mesmo que 80% das pessoas do mundo não estejam sendo representadas numa reunião do
clube. A simpática idéia
de
village
-monde
, difundida
principalmente na década de 60, vai dando lugar à construção do termo
cteau
-monde
6 , criado e administrado, por grandes instituiç
ões financeiras mundiais,como FMI, Banco Mundial e G8.
... a mudança tecnogica n
ão é nem aditiva nem subtrativa. É ecológica (...) Se você retira as lagartasde dado habitat, você não fica com o mesmo ambiente menos as lagartas, mas com um novo ambiente eterá reconstituído as condições da sobrevivência (...) Uma tecnologia nova não acrescenta nem subtraicoisa alguma. Ela muda tudo (...) Depois da televisão, os Estados Unidos não eram a América mais atelevisão; esta deu um novo colorido a cada campanha política, a cada lar, a cada escola, a cada igreja, acada indústria
(POSTMAN, 1994
)
 
Giddens define globalização como:Os analistas,geralmente, interpretam a globalização de duas formas diversas: um processo fatal e
inescapável, do qual todos fazem parte e
são obrigatoriamente inseridos; uma ideologia propagada peloBanco Mundiale países dominantes para servir aos interesses das transnacionais7. Há ainda pensadores que usam expressões como
Disneylândia global, proposta
de Octávio Ianni,
macnonaldizaç
ão do mundo
etc. Mas também há um outro
viés, um esforço de construção de uma globalização
por baixo, como sup
õe o analista Richard Falk, na qual as forças que se autointitulam anti-hegemônicas buscam fomentar uma sociedade civil global, que promova a democracia, o caráter humanitário e o desenvolvimento social sustentável. São estas forças que têm aconsciência de que a fome, o desemprego8 e a miséria também estão se globalizando.Os governos formais não são os únicos que se colocam para discutir a ordem internacional. Os ciclos mundiais da ONU contam cada vez mais com a participação atuante de entidades oriundas dasociedade civil organizada. Esta presença de entidades privadas, mas de caráter público, são a essência daquilo que Boaventura Santos chama de
globalizaç
ão contra-hegemônica
, onde grupos
defendem os interesses de excluídos do capitalismo global. É necessário fiscalizar, influenciar, agir, seja através de um grupo de moradores ou de um sindicato.No mundo moderno, a vida das pessoas está associada ao Estado, que tem um aspecto onipresente, estabelecendo regras e convenções sociais, provendo educação, saúde. Mas todo esse poder éalgo recente se tomarmos como referência a história humana. Algumas comunidades de séculos atrás conheciam pouca coisa que não fizesse parte de seu cotidiano, visitando uma cidade mercantilraramente ou conhecendo apenas o nomedo rei. O contato com o mundo exterior, digamos assim, era maior com a Igreja do que com um líder político ou militar, ou seja, não havia um governanteou a presença de um Estado soberano.Liszt Vieira afirma:De acordo comCastells,
Os sistemas políticos est
ão mergulhados em uma crise estrutural de legitimidade, periodicamente arrasados por escândalos, com dependência total de cobertura da mídia e de liderançapersonalizada e cada vez mais isolados dos cidadãos
(CASTELLS, 1999).
É colocado por vários estudiosos que a decadência da soberania dos Estados nacionais pode ter como resultado principal a erosão da cidadania,pois é justamente a
máquina
quem garante,reconhece e legitima o status de cidadão, apesar de não esgotar essa noção. Se antigamente, na Grécia, a identificação política entre população, Estado e Território era gerada a partir da noção decidade-Estado (pólis), na democracia moderna esse eixo experimenta uma mudança para o Estado-Nação. Na medida em que os Estados contemporâneos têm controle apenas nacional da situação,empresas, culturas, migrações e outros processos têm âmbito planetário. Preocupados com esta temática da cidadania, aqui citamos uma reflexão de Norberto Bobbio:Este é mais umdesafio proposto pela globalização: repensar a cidadania, mas só que agora uma cidadania planetária. Atualmente, boaparte das teorias contemporâneas conferem ao direito e à cidadania papelchave no processo de construção da vida democrática. É sadio para a sociedade que os indivíduos se organizem em movimentos sociais ou sindicatos, tanto para exercer sua cidadania quanto paraformar um contrapoder que limite a atuação estatal. Esta contextualização do cenário sócio-político contemporâneo se constitui ferramenta imprescindível para a análise das novas discussões sobrepolítica e relações de poder3. As possibilidades democráticas da comunicação digitalCom o surgimento da imprensa, a disseminação de idéias sempre esteve ligada à delegação de poder na sociedade. À medida em que a técnica dos meios de comunicação vai evoluindo, aumenta ointeresse dos governos e de numerosos partidos políticos e movimentos sociais em usar essas novas mídias como meios de difusão de sua próprias idéias.Os meios de comunicação tornaram-se, ao longo do século XX, sobretudo, elementos indispensáveis da estruturação social e política dos povos, funcionando até mesmo como extensão dos homens(ao estilo McLuhan) ou suporte para a inteligência coletiva.Canais de rádios comunitárias e televisões a cabo, por exemplo, são possibilidades de fazer os mass media funcionarem como mecanismos de democratização e até de diversidade/pluralidadecultural. Porém, o que se percebe é o enfraquecimento desses meios de promoverem mudanças sociais, pois na maioria das vezes eles são tomados de posse por megagrupos, empresariais ou não,e aparelhos do Estado. Assim aconteceu com o jornal impresso, o rádio, a televisão. Muitos têm a curiosidade de saber se, com a Internet, acontecerá o mesmo, dado seu crescente carátercomercial.Desta forma, a Internet nos interessa enquanto um espaço de produção contínua de conteúdos, emissão e recepção destes por públicos que antes dependiam exclusivamente de outros meios decomunicação para se manterem informados ou adquirirem o saber. O cidadão passa a depender menos da imprensa tradicional para formar uma opinião política, ou seja, não vai deixar de ler o jornal impresso ou assistir ao Jornal Nacional da Globo com a família, mas o usuário de Internet passa a contar com um maior número de fontes alternativas, desde governos e sindicatos até
A intensific
ão de relações sociais em escala mundial que ligam localidades distantes de tal maneira,que acontecimentos locais são modelados por eventos ocorrendo a muitas milhas de distância e vice-versa (...) não é portanto um processo singular, mas um conjunto de complexos processos. E estesoperam de uma maneira contraditória ou antagônica
(GIDDENS,
2000)
A pobreza, a fome, as guerras civis s
ão negligenciadas como algo próprio dessas sociedades emtransição, em estágio evolutivo doloroso rumo à democracia e ao livre mercado. Nenhuma conexão éfeita entre o colapso das economias nacionais e o subjacente processo de reestruturação global (...) Aglobalização da pobreza ocorre em época de notável progresso tecnológico nas áreas de engenharia deprodução, telecomunicações, computadores e biotecnologia.
(VIEIRA, 1999
)
O Estado
-Nação é um fenômeno historicamente recente, que vincula os direitos e a comunidade aoterritório, mas sua supremacia sempre foi débil e está cada vez mais questionada por se contrapor aidentidades, comunidades e valores mais locais e particularistas, ou mais gerais e não territoriais
.
(VIEIRA, 1999)
Os direitos n
ão nascem todos de uma vez (...) Nascem quando o aumento do poder do homem sobre ohomem
que acompanha
inevitavelmente o progresso técnico, isto é, o progresso da capacidade dohomem de dominar a natureza e os outros homens
ou
cria novas ameaças à liberdade do indivíduo, oupermite novos remédios para suas indigências: ameaças que são enfrentadas através de demandas delimitações do poder; remédios que são providenciados através da exigência de que o mesmo poderintervenha de modo protetor
(BOBBIO, 1992
)
A Idade Mídia redimensiona a política, resignificando
-a: como uma política realizada em redeseletrônicas (telepolítica); através do aparecimento de novos ingredientes políticos e pela redefinição dofuncionamento e dos formatos da política realizada em territórios, espaços geográficos determinados(aqui representados pela metáfora da rua), pela virtualidade da sua possível absorção em redesmidiáticas (definidas pela noção metafórica de tela). (RUBIM, 2000)
 
informações providas por particulares. Duas são as conseqüências imediatas advindas dessas considerações: uma nova discussão sobre o papel mediador do jornalismo e a pluralidade de opiniões(GOMES, 2001).Muitos de nós já recebemos em nossas caixas de e-mail, por exemplo, mensagens cujo conteúdo têm relação com campanhas virtuais de Organizações Não-Governamentais (ONGs). São abaixo-assinados repudiando determinada empresa ou atitudes de Estados, textos destinados à captação de recursos financeiros, disseminação de informações e pesquisas e, sobretudo, presençainstitucional. Com a popularização da Internet, a partir de 1996, essas organizações ganharam mais um espaço de divulgação, interação e aglutinação de seus componentes. O acesso a umcomputador conectado à Internet dá ao usuário a possibilidade de participar de ações promovidas por movimentos sociais com de um ponto nas redes telemáticas. Não há a dependência deintermediação, filtros ideológicos e editoriais da chamada grande mídia, que podem destacar, deturpar ou ocultar de acordo com sua conveniência, além de impor barreiras burocráticas. É diferente,por exemplo, acompanhar a cobertura da ocupação de um prédio público por membros do Movimento dos Sem Terra (MST) a partir das grandes redes de televisão brasileiras ou através do jornalonline disponibilizado pelo movimento; foi diferente a cobertura dos protestos gerados pela reunião da cúpula da Organização Mundial do Comércio em Seattle (ano de 1999) feita pela grandeimprensa internacional em relação ao reportamento dos fatos pelo Independent Media Center9. Entra aí também a questão da credibilidade. Isto quer dizer, em suma, que o próprio agente socialagora tem um canal de interlocução com a sociedade10.Em um dosmaiores portais de notícias da Internet, o espanhol
El
Mundo
(www.el
-mundo.es), uma notícia divulgada no último dia 12 de março11 nos faz refletir sobre a eficácia da Internet enquantosuporte de uma comunicação alternativa para trocar,tornar público e prover opiniões ou mesmo acontecimentos omitidos pela mídia convencional. Os tais
panelaços (ou cacerolazos)
organizados pelos argentinos contra o
corralito (congelamento de todos os depósitos bancários para evitar a
fuga de capitais do país), que apesar de pacíficos na maioria das vezes sãoreprimidos pelo governo local por manchar a imagem do país junto ao exterior, foram transplantados para a rede mundial de computadores. Foram criados em poucos dias site como o C-a-z-e-r-o-l-a-z-o,o El cazerolazo, o Cazerolazo.info e o Cazerolazo.unlugar, todos estes trazendo editoriais, fóruns online, enfim, estimulando a participação e o debate políticos.Algumas ONGs, como o WWF, por serem internacionais, terem milhares de filiados e, justamentepor isso, receberem maiores recursos, acabam conseguindo um maior poder de divulgação e deinfluência por sustentarem campanhas não apenas na Internet, investindo somas de capital em outros meios de comunicação. No próprio site do Greenpeace podemos assistir, a partir de recursosmultimídia disponibilizados, os anúncios que a entidade produziu para a televisão. Desta forma, a rede mundial de computadores acaba se tornando mais um canal de divulgação dentre outros.Geralmente para essas entidades com maiores orçamentos a Internet não é colocada como principal veículo de comunicação, pois ainda é superada principalmente por jornais e revistas. Entretanto,para pequenas ONGs, que não podem gastar com impressão de material ou veicular publicidade em rádio e televisão, a Internet inaugura uma nova condição na comunicação. É justamente aí quese percebe como o ciberespaço pode agrupar as mais diferentes formas de vida e organização.Entendendo esses novos atores sociais como formas particulares de intervenção, como uma luta pela reestruturação da sociedade e até mesmo novas formas de expressão política, através deações, fiscalização e de estímulo ao debate, não podemos deixar de tocar no assunto
esfera
pública
, cujo principal expoente e refer
ência é o alemão Jürgen Habermase seu clássico MudançaEstrutural da Esfera Pública.Para dar início a este ponto, adotaremos o conceito de esfera pública enunciado pelo professor Wilson Gomes em seu texto
Esfera Pública
Política e Media
:
A partir dessasbases, é justamente esta a questão que queremos levantar: existe a possibilidade de uma remissão da Esfera Pública? Na visão dos mais otimistas do assunto, o crescimento da atuação e influênciados movimentos sociais bem como o advento de mídias eletrônicas de caráter interativo12 nos dão a possibilidade de ver renascida uma nova modalidade de Esfera Pública. Se a sociedade demassa e os meios de comunicação demassa, que funcionam na relação emissor
receptor, haviam limitado o
encontro face-a-face dos cidadãos para o debate racional do que é benéfico para asociedade, podem recursos multimidiáticos (que se utilizam de áudio, vídeo, permitem a interatividade de pessoas, numa comunicação todos-todos, como sugere Pierre Lévy) nos fazer deslumbrarum novo espaço para o exercício livre/direto da democracia? Há uma reviravolta nos meios de veiculação e publicação de uma opinião em um ambiente descentralizado e sem fronteiras temporaisou espaciais como a Internet?O fato de a emissão das mensagens se dar de forma multilateral(
horizontalizada) n
ão é suficiente para admitirmos a remissão de uma
esfera públicaatravés da Internet (nem elimina as
formas verticais deemissão...). Não é fácil admitir a alternativa teórica da existência de uma esfera pública contemporânea que se realiza plenamente na rede mundial de computadores. A esferapública pensada por Habermas requer o uso público da razão, a posse de vontade livre e de uma maturidade racional. A esfera pública do pensador de Frankfurt perdeu, sobretudo com o adventoda comunicação de massa, três de suas características fundamentais: acessibilidade, discursividade e racionalidade. Falando em termos normativos, a opinião pública teria se distorcido e emergirianão mais de um debate claro, sincero entre o Estado e a sociedade civil, mas das disputas entre a esfera política (busca votos, manutenção do poder e administração do erário) e os meios decomunicação de alcance generalizado (busca de audiência, função fiscalizadora, mas sem perder de vista o fato de que funcionam como empresa).Podemos afirmar, porém, que na contemporaneidade há a reunião de um público representativo para debater temas coletivamente relevantes (outro problema é como dimensionare mensurar essedado em diferentes sociedades)? O melhor argumento sempre vence ou muitas vezes ele é dominado pelo poder político e econômico, pelas denominadas
hierarquias
sociais
(o debate sobre se
existe ou não uma
paridade entre os
sujeitos
)? Fato
res como o marketing e a midiatização da sociedade e da política acabam influenciando a formação da opinião pública (se é que podemosfalar em opinião pública, como ataca Bourdieu)? A acessibilidade não é uma barreira, visto que grupos de pessoas estão excluídas de debates? Imagino que essas respostas são a chave paracomeçar a compreender o cerne da questão.Por outro lado, a questão da multilateralidade, da variedade de fontes, dos próprios atores sociais poderem divulgar os fatos a partir de sua ótica,da possibilidade da reunião de pessoas em salasde bate-papo, em grupos de atuação social, acaba criando ou fortalecendo identidades e, de alguma forma, dinamiza o processo.Além disso, o fatoa se destacar é que o modelo rizomático, descentralizado, possibilita uma maior autonomia no tocante às normas culturais e barreiras impostas por determinados Estados. Na China, por exemplo, oMinistério da Indústria da Informação determinou há alguns meses que os provedores do país vasculhem salas de bate-papo e o correio eletrônico dos usuários em busca de material considerado
subversivo.
Afora isso, já há pouco tempo foi publicada em vários jornais do mundo a notícia de que Pequim havia mandado fechar mais de 2000 cibercafés. Numa
guerra, a primeira vítima
é a verdade, a informação. Não interessam o debate e o questionamento a uma forma de governo ditatorial.
O que se busca é promover a dissemin
ão de idéias e o máximo de intercâmbios. Poder interagir comquem quer apoiar, criticar, sugerir ou contestar. Como também driblar o monopólio de divulgação,permitindo que forças contra-hegemônicas se expressem com desenvoltura, enquanto atores sociaisempenhados em alcançar a plenitude da cidadania e a justiça social
(MORAES,
2001b)
A esfera pública é um âmbito
da vida social protegido de influências não-comunicativas e não-racionais, tais como o poder, o dinheiro e as hierarquias sociais. A pública argumentação que nela serealiza constringe por princípio os parceiros do debate a aceitar como única autoridade aquela queemerge do melhor argumento. A esfera pública como que impõe uma paridade inicial entre os sujeitos depretensões até que a sua própria posição se torne discurso; depois disso, há de se submeter apenas àsregras internas ao processo de conversação ou debate público
. (GOMES,
1997)
Comunidades da Internet funcionam como locais diferenciados
e de resistência à sociedade moderna.Nesse sentido, elas exercem a função de esfera pública habermasiana sem a intenção de ser uma. Sãolocais onde não há presença de causas válidas ou da realidade da razão crítica, mas de inserção de novasmaneiras do ser13
(POSTER,
1995)

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