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Fazemos humorcom as nossas vidas
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22.AGO.201022.AGO.2010
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É um actor de comé-dia e
lamenta queo teatro de revistaseja tão malcompreendidoem Portugal
.Até porque os portu-gueses gostam destetipo de humor tãonacional… Em Agos-to é possível vera sua interpretaçãode «Zazá», a divada comédia musical
A Gaiola das Loucas 
, no Centrode Congressosdo Arade,em Portimão.
ENTREVISTA
SARAH ADAMOPOULOS
FOTOGRAFIA
JORGE AMARAL/GLOBAL IMAGENS
ENTREVISTA DE VIDA
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22.AGO.2010
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22.AGO.2010
Há quem considere o género musicaldemasiado ligeiro e ultrapassado…
 As pessoas que dizem essas coisas nãoimaginam a receptividade do público quevai ver os musicais.
 A Gaiola das Loucas
,um espectáculo que poderia considerar--se datado (é uma peça francesa dos anossetenta) continua a granjear grande inte-resse. O teatro de massas não é só o teatrodo entretenimento, porque as pessoassaem de um espectáculo como
 A Gaioladas Loucas
a pensar de maneira diferen-te, dispostas a reflectir sobre os seus pre-conceitos – relativamente à homossexua-lidade ou à adopção de crianças por ca-sais não-tradicionais.
O público dos musicais de Filipe LaFéria não é grandemente formado pelopúblico da revista?
Sem dúvida. Há muitas pessoas que vãover esses musicais pensando ir ver re-vista.
Isso vê-se na reacção que as pessoastêm na plateia, batem palmas a cada mo-mento, como no teatro de revista.
 A adaptação que o La Féria faz é aportugue-sada, digamos assim. Há uma colagem à nos-sa realidade e ao nosso tipo de humor, muitoinspirado no chamado humor revisteiro. Sefor ver esta peça a Londres ou a Nova Iorqueverificará que o humor é trabalhado de outra maneira. Houve uma adaptação aos nossos
 gags
, trocadilhos, ao nosso tipo de piadas. Nãose trata de «arrevistar» o musical, mas deadaptar os textos ao humor nacional.
Que humor é esse?
É o humor que se praticava nas comédiasclássicas do nosso cinema, o dos antigos co-mediógrafos portugueses. O sucesso dessascomédias devia-se ao facto de eles usaremum tipo de humor que nos interpelava.
O que é que nos faz rir?
Temosum humor muito característico, quetem que ver com a nossa cultura. A anedo-
São unânimes os seustalentos, a sua versatili-dade, capacidade de tra-balho, entrega ao quefaz. José Raposo temdado aulas de teatro naGuilherme Cossoul, acentenária Sociedade deInstrução onde Raul Sol-nado e outros começa-ram. Diz que não é nemserá jamais professor,que não sabe dar aulas,que dá a volta ao texto,convidando outros acto-res e gente do teatro paralá ir falar das suas vivên-cias. Diz que não perce-be nada de dar aulas,mas adora falar da pai-xão da sua vida, um
métier 
com mais ciênciado que por vezes parece.Nasceu há 47 anos, emAngola. Em 1976 veio pa-ra Portugal, onde se tor-nou actor aos 18 anos.Foi casado durante 22anos com a actriz MariaJoão Abreu, com quempartilhou os palcos darevista e também umaprodutora, a Toca dosRaposos – o «casal-ma-ravilha» do teatro, conhe-cido pela grande cumpli-cidade em cena. Receiater estado demasiadodedicado ao género derevista. Talvez pudesseter feito um outro tipo deteatro, mas foi uma cau-sa que abraçou, a de fa-zer com qualidade aque-le teatro. Um trabalhoque, embora sendo reco-nhecido pelo público doteatro popular, não o épelos pares, o que consi-dera injusto. Luta talvezincompreendida, os seusfrutos são visíveis a cadadesempenho – nos pal-cos, como nos
plateaux 
de cinema ou de televi-são. Como actor, consi-dera ter sido na revistaque fez os melhores tra-balhos. Mas há quem nãoencare essas experiên-cias como actos teatrais,ou artísticos, o quemuito o entristece. Dizque a palavra «revista»arrepia muita gente,que o rótulo é inibidor,que a palavra tem umaconotação negativaque não entende.Na série televisiva
Conta-me como Foi 
in-terpretou o engenheiroRamires, um tipógrafotransformado em pato--bravo que encarna o pa-trão-tirano português.Em
A Gaiola das Loucas 
,o musical que acabou acarreira em Lisboa no fimde Junho (este mês estáem Portimão), interpretaZazá, ou Carlos Alberto,um travesti que é umadiva, num surpreendentetributo às mulheres. Foiem Pontével, aldeia doCartaxo onde ainda vi-vem os pais, que desco-briu a liberdade, a andarde bicicleta até ao fim domundo de todas as infân-cias. Para além do palcoe de África (onde nasceue passou parte da vida decriança) os caminhos doCartaxo são os seus lu-gares naturais. Explicaque o que gostava, paraalém de fazer comédiacom os actores, autores,encenadores e demaisgente do teatro de quemverdadeiramente gosta,era de voltar ao Dundo,à terra mágica africana.
O raposo da toca
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ta à portuguesa é específica. O trocadilhofácil faz-nos rir. O português consegue fa-zer uma boa piada sem elaborar muito. Nósaté nas piadas usamos o desenrascanço. Seconseguíssemos internacionalizar o nossohumor, como os ingleses fazem, tenho a certeza de que seria muito apreciado nomundo inteiro. Se nós apreciamos as
brit-coms
, o humor francês ou o italiano, por querazão não apreciariam esses outros povoso nosso humor? Isso só não acontece por-que eles não o conhecem. Claro que o nos-so humor tem vindo a ser renovado por es-ses grandes inovadores que foram – e são –Raul Solnado, Nicolau Breyner ou HermanJosé. E na revista também houve autoresque inovaram essas linguagens e que foramactualizando o nosso humor.
Rimos da desgraça, como os italianos.
Talvez seja uma coisa latina. O Totó e o An-tónio Silva ou o Vasco Santana tinham gran-des parecenças. É o pobre honrado, com ca-
HUMOR NACIONAL
«Temos umhumor caracte-rístico. A anedotaà portuguesaé específica.O trocadilhofácil faz-nos rir.Até nas piadasusamos odesenrascanço.»
pacidade para se rir de si próprio e dos es-quemas que arranja para sobreviver. Ospovos do Norte fazem um humor mais ce-rebral, mais pensado. Nós fazemos com oque temos à mão, que são as nossas pró-prias vidas.
Era suposto ter sido bancário…
 A minha mãe arranjou-me uma entrevis-ta para um emprego na Caixa Geral de De-pósitos, e em vez de ir à entrevista fui fazeruma audição ao Teatro Adoque, e fiquei.Foi em 1981, apanhei o fim do Adoque. Es-treei-me numa peça infantil,
O Teatrinho
.Em 1982 entrei na última revista do Ado-que, antes de destruírem o barracão doMartim Moniz,
Tá Entregue à Bicharada.
O Adoque foi um teatro diferente. Fun-cionava num barracão ilegal, fez-se aliuma revolução no teatro popular.
O Adoque era uma cooperativa, gerida pe-los próprios actores, e foi nesse barracãoque se fizeram espectáculos muito diferen-tes daquilo a que as pessoas estavam habi-tuadas – alguns de grande qualidade, e quetiveram grande sucesso. Primava-se pela qualidade do texto, e acima de tudo, bem à portuguesa, pela engenhoquice – ou seja,pela enorme criatividade. Como não havia dinheiro tínhamos de arranjar outras ma-neiras de fazer. Uma vez andámos todos apanhar lixo durante uma semana para fa-zer o final de uma peça, e o Juan Soutullofez com esse lixo tudo aquilo de que preci-sávamos, e tivemos um final luxuosíssimo.
Foi um teatro muito interventivo poli-ticamente, tal como os tempos pediam.
Era a revista de esquerda. No ParqueMayer fazia-se a revista mais tradicional.Naquela época as coisas eram muito efer-vescentes, tudo era conotado, e vivia-se es-sa dicotomia entre ser de esquerda e ser dedireita. Havia espectáculos que eram au-tênticos comícios, à esquerda como à di-reita. Acho que isso ajudou a destruir a re-vista, que sempre foi um espectáculo decrítica política e social, embora no tempodo fascismo tudo fosse dito nas entrelinhas.Para fugirem à censura os autores eram ob-rigados a uma grande habilidade, de for-ma a poderem criticar sem ser explicita-mente, porque senão os textos eram cor-tados. Com o 25 de Abril, tudo passou a poder ser dito, e as críticas eram feitasabertamente, foi quando começou a entraro palavrão. E exagerou-se, mas isso faz par-te desses momentos pós-revolucionários.
Exagerou-se à esquerda e à direita?
Claro. Mas o Adoque tinha a particularida-de de ter textos de muita qualidade, e issoficámos a dever ao Francisco Nicholson.
Havia já caminho feito pelo César deOliveira e pelo Sérgio de Azevedo, o em-presário do ABC designadamente.

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