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Gilberto Freyre - Sobrados e Mucambos (Trechos)

Gilberto Freyre - Sobrados e Mucambos (Trechos)

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07/31/2013

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GILBERTO FREYRESOBRADOS E MUCAMBOS
A casa patriarcal perdeu, nas cidades e nos sítios, muitas de suas qualidades antigas: ossenhores dos sobrados e os negros libertos, ou fugidos, moradores dos mucambos, foram setornando extremos antagônicos.
CAPÍTULO IO SENTIDO EM QUE SE MODIFICOU A PAISAGEM SOCIAL DO BRASIL PATRIARCALDURANTE O SÉCULO XVIII E A PRIMEIRA METADE DO XIX
Com o donio holandês e a presença, no Brasil, o Recife, simples povoado depescadores em volta de uma igrejinha, e com toda a sombra feudal e eclesiástica de Olindapara abafá-lo, se desenvolvera na melhor cidade da colônia e talvez do continente.Passados trinta anos de donio holandês, o Norte voltaria à rotina agcola e àuniformidade Católica.O “tempo dos framengo” deixara no brasileiro do Norte, insignificante como realidade,mas considerável pelo potencial – que não era senhor nem escravo, mas o primeiro esboço depovo e de burguesia miúda que houve entre nós.O conflito entre Olinda e o Recife. Tesido principalmente um choque entre osinteresses rurais e os burgueses.Nos documentos brasileiros do século XVIII, já se recolhem evidências de uma novaclasse, ansiosa de domínio: burgueses e negociantes ricos querendo quebrar o exclusivismodas famílias privilegiadas de donos simplesmente de terras, no domínio sobre as Câmaras ouos Senados.O mercador ou reinol de origem baixa, como o aventureiro das minas, a maior seduçãopor que se deixava empolgar, quando bem-sucedido nos negócios, era a de tornar-se membroda nobreza rural, imitar-lhe o gênero de vida, comprando engenho, plantando cana ou café.O financiamento à grande lavoura colonial atraiu desde cedo agiotas, que parecem terse dedicado ao mesmo tempo à importação de escravos para as plantações. Judeus. Daí, orelevo que alguns historiadores dão aos judeus na fundação da lavoura de cana e na indústriado açúcar no Brasil.A capacidade de diferenciação que revelaram esses burgos, crescendo de simplespontos de armazenagem e embarque dos produtos da terra, em populações autônomas, comos senhores dos sobrados falando grosso e forte para os das casas-grandes do interior, ouperdoando-lhes as dívidas mediante os ajustes de casamento entre a moça burguesa e o filhode senhor de engenho, parece ter sido conseqüência das fortunas acumuladas pelosintermediários e negociantes, alguns de origem israelita.De modo que a figura do intermediário – negociando principalmente com escravos – nãopodia deixar de assumir importância considerável dentro do regime mórbido de economiapatriarcal. O intermediário viveu dessas feridas conservadas abertas. As cidades começaram acrescer à custa dos senhores de terras e de escravos, assim explorados.A figura do judeu não teve essa grandeza de criador, viveu à sombra do portuguêspatriarcal. E quase sempre móvel e provisório nos lugares. Também entre os Mineiros se exerceu a atividade do intermediário e do usuário.
Comboeiro
ficou se chamando na região das minas esse papão. Horror enorme, mas não semcerta atração. Tinha os mesmos lucros de cento por cento sobre fazendas e mercadorias das cidadesvendidas nos engenhos.No século XVIII e através do XIX, a força do intermediário, vinda do século XVII, só fezacentuar-se. Sua fugira acabou enobrecida na do correspondente, na do comissário de açúcarou de café, na do banqueiro.
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Repita-se que a lavoura no Brasil gozara nos primeiro tempos de favores excepcionais.Favores com que a Coroa prestigiou a iniciativa particular dos colonos de posse, concedendo-lhes grandes privilégios políticos e, à sombra desses, privilégios econômicos.Mas com o desenvolvimento da indústria das minas, com o crescimento das cidades edos burgos, sente-se declinar o amor Del-Rei pelos senhores rurais.A política econômica da Metrópole portuguesa que, a partir do século XVIII, foi a dedeixar a grande lavoura um tanto de lado, colocando sob o seu melhor favor as cidades e oshomens de comércio, e até a gente miúda, encontraria continuador em Dom João VI.A cobrança de dívidas. Seria menos um abuso que a regularização de relações entrecredor e devedor – outrora irregularíssimas, o devedor da casa-grande quase não fazendo casodo credor de sobrado.As próprias gerações mais novas de filhos de senhores de engenho, foram-se tornandodesertores de uma aristocracia.O bacharel, o aliado do Governo contra o próprio Pai ou o próprio Avô. Aliados da Cidadecontra o Engenho.Bacharéis e médicos raramente voltavam às fazendas e engenhos patriarcais depois deformados.Pelo número de escravos se avaliava, com efeito, a importância do senhor rural.Em toda parte, o processo de agrucultura destruidora da natureza dominou com maiorou menor intensidade no Brasil patriarcal.Mauá e os ingleses modernizariam a técnica de transporte. Os serviços urbanos seaperfeiçoariam e com eles – iluminação, calçamento, e, por fim, saneamento – os estilos devida nas cidades. A vida ficaria mais livre da rotina doméstica. A rua – outrora só de negros,mascates, muleques – se aristocratizaria.
CAPÍTULO IIO ENGENHO E A PRAÇA; A CASA E A RUA
Só depois de bem iniciado o século XVIII é que na área mineira foram-se radicando, emnúmero considerável, famílias ao solo. Burgos cenográficos que desapareciam e reapareciamcomo se fossem cenários de teatro de feira.Seus contatos de cultura com a Europa quase que se interrompiam de todo à proporçãoque se distanciavam do litoral.A diferença regional de estilos de vida na América Portuguesa: a maior predominância depadrões europeus de cultura, nos pontos de colonização por homens casados; e menos,naquelas regiões colonizadas por homens, em sua maioria, solteiros, ou simplesmenteamasiados com caboclas da terra.Que haviam de fazer as senhoras de sobrado, às vezes mais sós e mais isoladas que asiaiás dos engenhos? Quase que só lhes permitiam uma iniciativa: inventar comida.Nos sobrados e nas próprias casas-grandes de sítio, ou assobradadas, de subúrbio, acozinha não teve a mesma importância que nas casas de engenho; nem a mesa, onde sesentava para cear quem aparecesse.Nas cidades e nos subúrbios, a vida era, em certo sentido, mais retraída e menosexposta aos hóspedes que nos engenhos.A senhora de engenho quase nunca aparecia aos estranhos.Foi no Rio de Janeiro que a mulher começou a aparecer aos estranhos.Os burgueses de sobrado foram naquelas cidades do Norte do Brasil homens de praça oude rua, ao contrário dos do Rio de Janeiro e da Bahia que raramente deixavam o interior dossobrados.As ruas, parece que tiveram nas cidades mais antigas do Brasil seu vago carátersindicalista ou medievalista. Ou de certa procedência. Rua dos Pescadores. Rua dos Judeus.Foi a Cidade que, aliada à Igreja, desenvolveu entre nós não só a assistência social,representada pelos hospitais, pelos hospícios, pelas santas-casas, como a medicina pública,geralmente desprezada pela família patriarcal.
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Ouro exemplo de sentido cooperativista deram os negros em Ouro Preto, organizando-sesistematicamente para fins de alforria e de vida independente. E os negros forros, operários daindústria do ouro, terminaram donos da mina da Encardideira ou Palácio Velho.A relativa facilidade de vida na região do açúcar, já afetada pela descoberta das minas,foi declinando ainda mais com o surto do café. Tudo foi ficando mais caro: mais difícil de seradquirido pelos fidalgos rurais do açúcar. Os fidalgos do açúcar começaram a ser eclipsadospelos do café. As casas-grandes do interior a ser eclipsadas pelos sobrados das capitais.As fazendas do Sul principiaram a absorver os negros do Norte. O Norte começou a ficarsem negro para plantar cana.Foi quando os furtos de escravos tornaram-se uma calamidade e um escândalo nas ruasdas cidades do Norte.Os interesses agrários dominavam ainda a presidência da maior parte das províncias, a justiça e a polícia. Compreende-se assim a benignidade para com as quadrilhas de ladrões deescravos em províncias como a de Pernambuco.Mas também se desviam escravos de uns engenhos para outros. Dos engenhos menorespara os maiores.Não se pode generalizar a respeito do Brasil, afirmando que a aristocracia rural, entrenós consolidada principalmente nas casas-grandes de engenho, encarnou sempre os interessesconservadores e de ordem, enquanto as cidades, os sobrados burgueses, as próprias ruas,teriam sido sempre os focos de revoluções democráticas e de movimento liberais. Aintervenção da Metrópole por intermédio do vice-rei ou do capitão-general na economiaparticular e a favor da gente miúda – deve ter atuado poderosamente nas atitudes políticas dosproprietários de terra do século XVIII e da primeira metade do XIX.
CAPÍTULO IIIO PAI E O FILHO
 Towner lembra que nas sociedades primitivas o menino e o homem são quase iguais.Dentro do sistema patriarcal, não: há uma distância social imensa entre os dois.Morto nessa idade Angélica, o menino era adorado.Essa espécie de volúpia talvez se derivasse dos Jesuítas: do seu afã de neutralizar orancor dos índios contra os brancos e particularmente contra eles, padres, diante da granemortalidade de culuminzinhos que se seguiu aos primeiros contatos dos dominadores europeuscom a população nativa.Dos seis ou sete anos aos dez, ele passava a menino-diabo.O menino branco também apanhava. Castigado por uma sociedade de adultos em que odomínio sobre o escravo desenvolvia, junto com as responsabilidades de mando absoluto, ogosto de judiar também com o menino. O regime das casas-grandes continua a imperar, umtanto atenuado, nos sobrados.Dos seis aos dez ou aos doze anos, idade teologicamente imunda, durante a qual oindivíduo apenas se fazia tolerar pelas maneiras servis, pelos modos acanhados, pelo respeitoquase babugento aos mais velhos.Pelo colégio, como pelo confessionário e até pelo teatro, o Jesuíta procurou subordinar àIgreja os elementos passivos da casa-grande: a mulher, o menino, o escravo.Mas a educação do Jesuíta foi a mesma que a doméstica e patriarcal nos seus métodosde dominação, embora visando fins diversos dos patriarcais.Os colégios dos padres foram talvez as massas mais imponentes de edificação urbana noBrasil dos primeiros séculos coloniais.O gosto pelo diplomata de bacharel, pelo título de mestre, criaram-no bem cedo os Jesuítas no rapaz brasileiro.Esses alunos de colégios de padres foram, uma vez formados, elementos de urbanizaçãoe de universalização, num meio influenciado poderosamente pelos autocratas das casas-grandes e até dos sobrados mais patriarcais das cidades ou vilas do interior.
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