Resende, 2010.
AUTO DA BARCA DO INFERNOGil Vicente
O primeiro interlocutor é um Fidalgo que chega com um Pajé, que lhe leva um rabomuito comprido e uma cadeira de espadas. E começa o Arrais do inferno antes que o fidalgo venha
DIABO Olha a Barca, Olha a Barca.Que temos maré boa!Ora venha o carro a réCOMPANHEIRO Pronto, Pronto!Bem estae Aperte bem aquela Cordae despeja bem aquele bancopara a gente que virá.COMPANHEIRO Olha a barca, Olha barca, hu-u!Sem demora, que se quer ir.Oh, que tempo de partir,louvores a Berzebu!Ora seu! O que tem feito?Despeja todo esse leito!COMPANHEIRO Em boa hora! Feito,Feito!DIABO Faça o nó daquela corda da vela elance aquele cabo do pavilhão.COMPANHEIRO Oh-oh,caça! Oh-oh,iça, iça!DIABO oh, que caravela bela.Põe as bandeiras para festaVelas para o alto! Âncora a pique!- Ó poderoso dom Anrique,aqui que você vem?... Que coisa é esta?
Vem o fidalgo e, chegando a barca infernal diz:
FIDALGO Esta barca, para onde vai,que assim está apercebida?DIABO Vai para a ilha perdida,e loro ira partir.FIDALGO Para lá vai à senhora?DIABO senhor, a vosso serviço.FIDALGO Isso mais me parece um cortiço...DIABO É por esta vendo ela de foraFIDALGO Porém, a que terra passais?3