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A revolução silenciosa do Zen: um encontro com o Mestre Igarashi Tokuda

A revolução silenciosa do Zen: um encontro com o Mestre Igarashi Tokuda

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O ensaio fala do contexto político e existencial da cidade de Belo Horizonte, nos anos 70, com a chegada do Mestre Zen Igarashi Tokuda
O ensaio fala do contexto político e existencial da cidade de Belo Horizonte, nos anos 70, com a chegada do Mestre Zen Igarashi Tokuda

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Published by: Luiz Carlos Garrocho on Aug 31, 2010
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A revolução silenciosa do Zen: um encontro com o MestreIgarashi Tokuda
Luiz Carlos Garrocho ±
O cenário da contra cultura -
Estamos nos anos 70 em Belo Horizonte. Sob os anos de chumbo domilitarismo havia, além da vida subsumida aos ditames do conformismo, duassaídas: uma política e outra existencial. Ecos de Maio de 68 ressoavam entrenós. No meio dessa bifurcação, misturando-se em uma e outra opção, oscaminhos da arte. Como as vias de participação política estavam fechadas,sendo que a guerrilha acabava de ser praticamente exterminada, somenterestava a arte. E para alguns, a arte deveria arcar com a missão de expor acrise da sociedade brasileira. Para outros, era um meio de instaurar umterritório existencial, dando dignidade aos corpos que apenas envelhecem oumorrem sem saber o sentido disso tudo. A opção pela abertura existencial era, muitas vezes, vista como alienaçãopelos segmentos que optavam pela via política. No chamado ³mundo livre´,extraído do pós-2ª Guerra Mundial, a revolta contra a Guerra do Vietnam, aexploração do homem pelo homem, as modalidades de assujeitamento, adestruição da natureza externa e a repressão da natureza interna conflagravamum plano unívoco para a vida. Celebrava-se uma nova ordem de corpo eespírito e aspirava-se a uma libertação social. Porém, na sociedade brasileira,ou você se opunha ao regime ou optava pela realização interna. Ou um, ououtro. Celebrar a vida era pura alienação. E o caminho político, ao contrário,apenas discursava (ou reagia) sobre o mundo.De repente, muitas pessoas insistiam na univocidade e no não dualismo: a vidavalia mais a pena se sentida na própria pele, não para morrer lutando contra oregime, mas para expandir a própria consciência. Encontrávamo-nos, assim,diante dos caminhos do misticismo oriental, que tomaram grande parte da juventude. Uma via psicodélica, informações sobre novas práticas de cura e
 
alimentação ± e até de nascimento - surgia como opção ao cientificismo e aosimperativos da sociedade industrial. Porém, alguma parte disso era uma novaforma de consumo. Os esquerdistas farejaram isso. Não passa de fuga, diziam.Gilberto Gil traduzia essa angústia que dominava os jovens nos idos 70, naletra de música intitulada sugestivamente de
 Abra o olho
, e que expunha odiálogo hipotético entre as tendências existenciais e políticas:
Ele disse: "Abra o olho" Caiu aquela gota de colírioEu vi o espelhoEle disse: "Abra o olho" Eu perguntei como é que andava o mundoEle disse: "Abra o olho" O telefone tocouSoando como um grilo de verdadeEu ouvi o griloO grilo cantandoTava eu no mato de novoNo mato sem cachorroEu pensei: "Tá direito?" Que eu nunca tive cachorro ao meu lado(...)
E num dos pontos altos do diálogo, o interlocutor alerta novamente:
(...) "É delírioNavegar nas águas de um espelho" 
(...)
O exército de um homem só -
Vivendo esse conflito, exercitava-se uma juventude na busca de seus próprioscaminhos. No entanto, tais exercícios não se tornavam capazes, sempre, de
 
criar uma via que ultrapasse o romantismo boêmio, buraco de recaídas eoutras melancolias. Ou que não ficasse atada ao fator geracional. Até porqueas pessoas não continuarão eternamente nos seus 20 anos, e a entrada nomundo da produção ocorreria mais cedo ou mais tarde. Nem que fosse paraser marcado pela exclusão.Faltava uma disciplina que abrisse as vias de uma
opção outra
para a vida.Mesmo porque as vias da arte contaminavam-se muito rapidamente pelasnecessidades do mercado e de suas vicissitudes. Estou falando de umadisciplina pessoal: não a possuíamos. E é nesse ponto que entra o monge emestre Ryotan Igaraschi Tokuda. Talvez redescobríssemos a arte nessaperspectiva: que possa ensinar a viver e a morrer.O escritor e jornalista Marco Lacerda fez o convite para uma conferência queum Monge Zen Budista daria no auditório da Fafich (Faculdade de Filosofia eCiências Humanas da UFMG, em Belo Horizonte), lugar histórico deconfluências de opções existenciais e políticas (experiências estéticas epsicodélicas, pesquisas acadêmicas, marxismo, psicologia transpessoal, focosde resistência ao regime etc. Foi um susto enorme: esperava eu que as nossasprojeções coloridas de um mundo melhor nos encantassem e nosdeslumbrassem. O que vi foi um japonês por volta dos seus 35 anos,aparentando mais um praticante de artes marciais, vestido com um hábitonegro e funcional, sem atrativos de qualquer natureza, comportando-se demodo muito sóbrio e espontâneo. E não prometia nem paraísos artificiais enem consolos metafísicos. Nenhum tom salvacionista. O que ele queria?Marco Lacerda, ao apresentar o Monge Tokuda e referir-se ao Budismo Zen,empunhou diante do auditório uma revista estadunidense de ampla circulação,cuja capa dizia: ³a revolução silenciosa do zen´.Tokuda, que passaríamos, por influência de Marco Lacerda, a chamar carinhosa e respeitosamente de Tokuda San, começou a falar. Fiquei atônito.Não consigo me lembrar integralmente daquela conferência. Mas sei que fuibombardeado por uma série de frases que diziam uma coisa só: retorno à vidaconcreta e isso não é pouca coisa! E, para quem esperava o deslumbre do

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