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Aquilino Ribeiro - Andam faunos pelos bosques

Aquilino Ribeiro - Andam faunos pelos bosques

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06/26/2012

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1
 Aquilino RibeiroAndam faunospelos bosques
 CÍRCULO DE LEITORESCapa e Frontispício:ex-libris de Aquilino Ribeiro, desenho de Abel Manta1983, Livraria Bertrand, S.A.R.L., Lisboa
 
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 Ao Senhor Dr. Brito CamachoSe V. Ex. a fosse hoje chefe de partido, ministro de Estado, ou AltoComissário em África, eu teria acanhamento em lhe dedicar este livro. Sempretive em horror parecer lisonjeiro, e poucos seriam os que me não vissem nestahora, como na anedota latina, de pega sábia em punho a fazer-lhe palrar o AveCaesar.Dá-se a circunstância de V. Ex a se achar em ostracismo, ostracismovoluntário, é certo, mas nesta conjuntura de todo eficiente Para que na minhafruste homenagem mais não transpareça que admiração pelo seu nome,ilustre não só na política, a que melhor se adapta ao meu modo de ver esentir, como nas letras, que honram a nossa terra.Porventura, ao folhear este livro, terá V. Ex. a impressão de queembarcou num comboio para Lurdes, tão incessante é o frufru das roupetas. Tranquiliza-me a ideia de que V. Ex. a é o homem despido de preconceitos, eos meus eclesiásticos são boa e afável gente. Por sua humanidade não tenhode dar contas à classe. Nenhum roubou, assassinou, nem fugiu com a mulherdo próximo, pecadilho muito em voga na honesta sociedade. Não me digamque são devassos ou pagãos; são sacerdotes de Cristo, dignos sacerdotesdentro da lei natural, com lisura e singeleza. Todavia, não requeiro para eles abênção dos senhores bispos. Pintei-os como os conheci na minha infância ecomo julgo que vêm da genuína tradição lusitana. Esses outros de olharseráfico, à S. Luís Gonzaga, parecem-me uma aberração debaixo do nosso sol.Compreendo que este ou aquele seja fanático, capaz de soprar ao lume dasfogueiras para frigir os judeus e puxar à corda da forca para esganar ospedreiros-livres; não compreendo o melífluo, o que se derrete em jaculatóriasno meio das Filhas de Maria.Mas, neste livro, os abades não são mais que um acidente; a personagemcentral é o génio da espécie. Às almas santas, aos censores que me acoimamde cronista encartado de clérigos como Camilo de brasileiros, direi que sãoestes os últimos e irrevogáveis do meu guinhol. Tinha-os apartado da segundaedição das Filhas de Babilónia, era tempo de lhes levantar o interdito.Aí ficam definitivamente, em caixilho próprio, contra o fundo pitoresco deseus presbitérios e casinhas rurais. Andou com eles, de Herodes para Pilatos,a minha insatisfação de novelista; mas repousam agora. Por esses baldões,respondo que não julgo um livro produto estático na carreira do profissionaldas letras. Antes o suponho o que o jardim é para o jardineiro e a lição para odidáctico. Ano por ano, um e outro enxertam, podam, corrigem. Edição poredição, o escritor, sequioso de aperfeiçoamento, pode trepar um degrau nestadolorosa e infinita escada de Jacob que é a arte literária. Numa palavra, umlivro para mim é como as pedras que Deucalião atirava para trás das costas ese convertiam em almas; podem desamparar-se almas?Ao refundir a minha obra, sinto a tenacidade teimosa, um poucoabsurda, talvez indefensavelmente idealista, dos camponeses da Beira, meusavós, que viviam e morriam no sonho de converter chavascais em floridosvergéis, Esse meu empenho - seja questão de probidade, seja atavismo da rijae obsessa alma beiroa - é superior ao meu raciocínio, aos raciocínios maisrobustos deste mundo.Porventura, ao baixar à cidade, perca esse escrúpulo nato. Por issomesmo, se não temesse a pedantaria, aqui deixava a frase heróica eimoderada: fecha com este trabalho o meu primeiro ciclo. Reparando para o
 
3
caminho percorrido, que por breve se abarca ao lance de olhos, estou napersuasão de que pecados de lesa-literatura não tenho a purgar no tribunal darecta e conceituosa crítica. O que fiz é honrado; não plagiei; não extorqui a Jóia mais humilde ao mais invulgar dos escritores; não cedi às correntes quehoje são cortejos triunfais, amanhã depenadas Danjas da Bica. Perdurei o quesou por temperamento, e adquiri por educação e algum estudo. Confesso essasoberba. Escrevi com o meu sangue; nunca molhei a pena na pia da águabenta, nem nos lavabos perfumados das viscondessas. Arranquei as minhasfiguras aos limos da terra, às mãos ambas, e amassei-as com a devoção deMachado de Castro ao mundo gnómico de seus presépios. Valem pelo que são.Criando, no sentido restrito do vocábulo, rendo como S. Francisco de Assis aminha homenagem ao Criador.Vou descer à urbe, depondo a pena que a crítica suficiente classificou deregionalista. Em verdade, se regionalista é ter descrito outra coisa que nãoLisboa, não reclamo melhor diploma. Porém, se ser regionalista é dar o meio ea comparsaria na sua modalidade léxica, descer o escritor, despersonalizando-se, à reprodução e não interpretação, só me convém o título para duas ou trêscentenas de páginas de meia dúzia de livros que escrevi.A quem chamar este livro regionalista direi, pois, que me não molesta,mas que tenho por viciado o prisma mediante o qual divisa o fenómenoliterário. Compu-lo com a linguagem que, juvante Deo, amanhã me há-deservir para pintar o que por aí abunda: quebra-esquinas, banqueiros quevendem a alma e venderiam a pátria, se fosse veniaga ao seu alcance,mulheres que arremedam a francesa na moda e na moral, sábios balofos,políticos sem vergonha e sem ideias, e uma que outra pessoa de bem.Quero ainda dizer ao pio leitor - só a esse - que, melhor que romance,este livro é uma fábula. Fábula em onze jornadas, tragicómica, sorte derapsódia pagã em bemol. Sinto que Passa nela um sopro da loucura que vaidobrando o canavial secular das ideias e dos bons costumes. Por aí perde, oupor aí ganha.Perdoe-me o Senhor Dr. Brito Camacho inscrever-lhe o nome que torçadeste livro jacecioso, e digne-se ver na mão que empunhou o escopro a mãovotiva de sincero admirador e leal amigo.Santo Amaro, Novembro de 1926.
 Aquilino Ribeiro

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