Welcome to Scribd, the world's digital library. Read, publish, and share books and documents. See more
Download
Standard view
Full view
of .
Look up keyword
Like this
1Activity
0 of .
Results for:
No results containing your search query
P. 1
Análise do 22 alem do bem e do mal

Análise do 22 alem do bem e do mal

Ratings:

5.0

(1)
|Views: 37 |Likes:
Published by Gullar

More info:

Published by: Gullar on Jul 01, 2008
Copyright:Attribution Non-commercial

Availability:

Read on Scribd mobile: iPhone, iPad and Android.
download as DOC, PDF, TXT or read online from Scribd
See more
See less

06/16/2009

pdf

text

original

 
Análise do §22 de Para Além de Bem e mal, deFriedrich Nietzsche
por Miguel DuclósO parágrafo em questão é citado em negrito, por partes.
(...) Perdoem este velho filólogo, (...)
Aqui o autor faz referência à sua juventude, quando foi professor precoce de filologia na Basiléia,onde ministrava cursos sobre a Grécia e filologia clássica. Nietzsche teve uma formação severa,desde o tradicional colégio de Pforta até o tempo na Universidade em que adquiriu uma notávelerudição, consultando até cem livros por dia. É assim que entendo a expressão "velho filólogo".Começou muito cedo a exercer esta profissão, mas não é de forma algum velho à época dapublicação de Para Além de Bem e Mal (85-86), quando era um jovem senhor de 41 anos. Afilologia será também importantíssima na obra filosófica do autor - como este próprio aforismomostra mais adiante -, sobretudo na construção do método genealógico.O "perdoem" faz lembrar uma postura irônica que o autor adota no início do aforismo. Aqui falatambém o ermitão, que tem uma postura diferente, construída a partir de seus estudos emeditações solitários, mas que levanta a sua voz para falar contra uma postura firmemente aceitana sociedade científica em sua época, oferecendo uma visão que, entretanto, não expressa a suameditação mais íntima, pois, há algo de inexprimível no que a solidão revela.
(...) que não pode resistir à maldade de pôr o dedo sobreartes de interpretação ruins: (...)
A ironia prossegue. Àquele "perdoem" tão cristão do primeiro trecho, segue-se a afirmação de queo que o autor irá fazer como é uma "maldade". Com isso o autor prepara o terreno para desbancar aquilo que a ciência física moderna faz atualmente, e já prevê uma possível reação negativa deseus adversários.Temos a introdução de um conceito, o de artes-de-interpretação (
Kunst der Auslegung 
?), cujatotalidade, evidentemente, me escapa. No aforismo inteiro parece estar presente aquela máximade que "não existem fatos, somente interpretações". A interpretação é uma atividade que expressaa força criadora de quem interpreta, um movimento que não se conclui, mas se prolongainfinitamente, aonde se pode provar tanto uma coisa quanto o seu contrário, sendo ambas - comoo autor coloca mais abaixo - a produção de uma vontade que é doadora de sentidos. "Qualquer coisa pode ser verdade, desde que pronunciada com a entonação certa", poder-se-ia dizer zombeteiramente.O autor já passa da ironia à crítica, ao dizer que irá falar de artes-de-interpretação ruins, ou seja,rotula a atividade do cientista físico segundo o seu próprio conceito onde tudo pode ser visto comointerpretação, e produz uma valoração negativa, segundo uma "perspectiva avaliadora". Vejamos anatureza desta crítica.
(...) mas aquela "legalidade da natureza", de que vósfísicos falais com tanto orgulho, como se ... - (...)
 
Confirmado, o autor elege o alvo do martelo: trata-se dos físicos de sua época em geral. A ironiaprossegue ao apontar o "orgulho" com que os físicos falam de certo aspecto de sua doutrina.Entendo isso como ironia uma vez que as ciências naturais pretendem para si uma certa"objetividade", baseada na repetição e comprovação de experiências e resultados. A "maldade"então se revela, o autor pretende retirar dos físicos uma certeza que é de certa forma o orgulhoingênuo de seu ofício.As aspas em "legalidade da natureza" também indicam ser este um conceito próprio da física,talvez também se atinja aí o positivismo, ou um determinismo. De qualquer maneira, o conceitopassa a noção de um direito baseado na experiência, na impessoalidade da lei natural, universal atodos, que, portanto devem a ela se conformar.Não entendi a função do "como se ..." . A frase fica inconclusiva.
(...) só subsiste graças a vossa interpretação e "filologia"ruim - (...)
Confirma-se que o autor vê os conceitos físicos segundo o seu próprio conceito de artes-de-interpretação. Só temos interpretações, diz o filósofo. É necessária ainda a construção de uma"arte" de interpretar, de um esmerar-se e de uma técnica, portanto. Já há aqui uma contraposiçãoentre uma postura privilegiada, superior, e outra mais disseminada. A ligação entre interpretação efilologia se faz novamente sentir, e podemos supor que Nietzsche, como o "velho filólogo" é quempossui uma arte de interpretação superior, ou pelo menos a anuncia para o porvir.Ao meu ver está implícita também uma postura antidogmática na afirmação de que a "legalidadeda natureza só subsiste etc", se tomarmos o dogmatismo no seu significado original - filosófico enão religioso - como uma opinião admitida e repassada por uma escola sem que passe pelo crivoda crítica, ou de um exame mais detalhado.
(...) não é nenhum estado de coisas, nenhum texto, (...)
O martelo fala, a postura é claramente afirmativa, abandona-se a ironia. O estado de coisas é algode que fala a física clássica, uma determinação de forças segundo leis do universo, que, seconhecidas, podem levar o homem a conhecer o funcionamento da natureza e agir de acordo. Apretensão de se alcançar tais leis é negada, e criticada como ingênua como veremos a seguir.A colocação do termo "texto" entre aspas é curiosa, não creio, mais uma vez, que compreendibem. Mais adiante o autor reforça a oposição entre texto e interpretação; talvez o sentido dado sejao de "palavras que se citam para provar qualquer doutrina", ou a pretensão da física de que sepode ler a natureza como a um texto.
(...) mas somente um arranjo ingenuamente humanitário euma distorção de sentido, (...)
O "somente" reforça o objetivo avassalador da crítica, anteriormente citado, uma vez que associaum caráter diminutivo a algo orgulhosamente sustentado. A postura humanitária é também tachadade ingênua. Isso remete à postura refletida do ermitão, do Zaratustra que medita dez anos namontanha (embora Zaratustra desça da montanha para discursar, justamente por "amor aoshomens"), em contraposição ao senso comum. Mesmo a física pode pertencer a um populacho, sepretende que a lei da natureza seja comum a todos e ignora o que é "senhor de si ou privilegiado".Este arranjo "humanitário" é oposto, também, àquela lei universal independente, factual, de que os
 
físicos se orgulham. A distorção de sentido é apontada pela avaliação filológica, que no trechoanterior já afirmava a interpretação ruim.
(...) com que dais plena satisfação aos instintosdemocráticos da alma moderna! (...)
Uma ligação entre modernidade, democracia e humanitarismo, como coisas que interessam a todoo gênero humano, é associada com a lei natural a qual todos estão sujeitos segundo a física. Essadoutrina é determinada no tempo, como uma postura típica de uma época passageira. Em épocasantigas esse "conhecimento científico" não seria possível, e pode certamente ser superado emépocas futuras, como aliás, a teoria das mudanças de paradigmas afirma. O conhecimento, comodiz o belo trecho §1 de "Sobre verdade e mentira no sentido extra-moral", gerou o minuto maismentiroso e soberbo da história do universo cintilante.Há uma crítica sagaz ao esclarecimento ilustrado, racional, que gerou a ciência moderna, uma vezse nega a ela a certeza racional e a determina como fruto de instintos não-racionais. A crítica ficaainda mais aguda se considerarmos que a "igualdade, liberdade e fraternidade" que apregoou arevolução francesa derivou, de certa forma, do esclarecimento iluminista.
(...) "Por toda parte igualdade diante da lei - nisto anatureza não está de outro modo nem melhor do quenós": (...)
Com essa "citação" reforça-se o que se disse antes. O homem espelha na natureza aquilo que vêem sua própria natureza e sociedade. Uma crítica algo feurbachiana, atéia, contra a arrogância doser humano, ínfimo diante da imensidão do universo, e que não tem os modos cavalheirescos paraconquistar a verdade, essa dama que costuma se velar, que ama somente um guerreiro.
(...) um maneiroso pensamento oculto, em que mais umavez está disfarçada a plebéia hostilidade contra tudo oque é privilegiado e senhor de si, do mesmo modo queum segundo e mais refinado ateísmo. (...)
Um desmascaramento. A doutrina dos físicos é algo que é expresso exteriormente com vistas àuniversalidade, mas que apenas oculta um ressentimento de pessoas inferiores contra o que énobre ou privilegiado, contra o que a si mesmo comanda, o "homem superior", - que não ésubjugado por uma moral ou que participa da mesma lei que comanda o populacho - mas sim queafasta de si com apenas uma inflexão todo ressentimento, toda mágoa, e pode viver, zombeteiro,alegremente e plenamente. Este desmascaramento faz parte do pensamento do autor, que afirmatoda filosofia ser filosofia de fachada, mesmo a sua própria filosofia (como se vê no §289 domesmo livro). À filologia, se une, talvez, uma espécie de psicologia, já que o autor identifica umpadrão - a hostilidade contra tudo o que é privilegiado - que determina um comportamento e acriação de pensamentos, doutrinas ou conceitos que apenas disfarçam esse aspecto negativo ouderivam dele. Isso será mais bem desenvolvido no próximo livro de Nietzsche, "Para umagenealogia da Moral", nos anos seguintes. Contudo, o alvo lá será o desmascaramento da moralreligiosa, do bem e mal como algo divino ou absoluto. Aqui se vê que Nietzsche não criticasomente a religião, mas usa os mesmos argumentos para atacar a ciência. A ciência,pretensamente atéia, não se livrou, contudo, do não-relativismo, de algo universalmente válido. Nocampo das experiências e dos fenômenos abandona a "coisa-em-si" da metafísica ou da religião,

You're Reading a Free Preview

Download
scribd
/*********** DO NOT ALTER ANYTHING BELOW THIS LINE ! ************/ var s_code=s.t();if(s_code)document.write(s_code)//-->