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Tyrion

Tyrion

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01/25/2014

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Tyrion
Bebeu todo o caminho através do Mar Estreito.O barco era pequeno e sua cabine ainda mais, e o capitão não o deixava subir nacoberta. O balanço da maré sob seus pés lhe provocava náuseas, e a horrível comida quelhe serviam tinha até um sabor pior quando voltava a subir por sua garganta. Ademais, para que precisava de carne salgada, queijo duro e pão esmagado com minhocas quandotinha vinho para alimentar-se? Era vermelho e avinagrado, muito forte. Às vezestambém lhe dava náuseas, mas sempre havia mais.-O mundo está cheio de vinho-, murmurava na escuridão da cabine. Seu painunca havia tolerado os bêbados, mas o que importava? Seu pai estava morto. Tyrionsabia; ele o havia matado. “Uma flecha na barriga, meu senhor, e tudo para você. Sefosse melhor com a balestra, teria metido ela através do pau com o que você me fez,maldito bastardo.”Debaixo da coberta nunca era de dia nem de noite. Tyrion media o tempo pelasidas e vindas do garoto que lhe trazia a comida que ele não comia. O garoto sempretrazia um balde e uma escova, para limpar.-Isto é vinho dorniense? –perguntou-lhe Tyrion uma vez, enquanto tirava a rolhade um odre-. Me faz lembrar certa serpente que conheci. Um companheiro curioso, atéque uma montanha caiu sobre ele.O garoto não respondeu. Era feio, embora nem tanto como certo anão com meionariz e uma cicatriz do olho até o queixo.-Ofendi você? –perguntou ao garoto fosco e silencioso enquanto esfregava ochão-. Ordenaram a você não falar comigo? Ou é que algum anão enganou sua mãe?Tampouco houve resposta. “Isto é inútil”, Tyrion sabia, mas tinha que falar com alguémou ficaria louco, então insistiu.-Para onde navegamos? A Braavos? Tyrosh? Myr? -Tyrion teria preferidoDorne. “Myrcella é mais velha que Tommen, segundo as leis de Dorne o Trono de Ferrolhe pertence. Ajudarei ela a reclamar seu direito, como o Príncipe Oberyn sugeriu”.Oberyn estava morto; sua cabeça transformada numa ruína sangrenta peloguante de Ser Gregor Clegane. E sem a Víbora Vermelha para insistir, chegaria DoranMartell a considerar uma ideia tão arriscada? “Ao invés disso, poderia acorrentar-me eme levar de volta para minha querida irmã.” O Muro seria mais seguro. O Velho UrsoMormont dissera que a Guarda da Noite precisava de homens como Tyrion. “Mormont pode estar morto, entretanto. Talvez Slynt seja agora o Lorde Comandante”. Esse filhode um carniceiro não esqueceria quem o enviou ao Muro. Quero passar o resto da minhavida comendo carne salgada e mingau com assassinos e ladrões?” Ainda que o resto desua vida não seria muito longa. Janos Slynt se encarregaria disso.O garoto molhou a escova e esfregou com força.-Você já viu as casas de prazer de Lys? –perguntou-lhe o anão-. Pode ser aondevão as putas? -Tyrion não conseguia se lembrar da palavra valyriana para “puta”, e emtodo caso, já era tarde demais. O garoto jogou a escova no balde e saiu.“O vinho entorpeceu meus sentidos”. Aprendera a ler Alto Valyrio nos joelhosde seu maestre, embora o que falavam nas Nove Cidades Livres... bem, não era tantoum dialeto como nove dialetos a caminho de tornar-se línguas distintas. Tyrion sabiaum pouco de Braavosi e tinha noções de Myriano. Em Tyroshi era capaz de xingar osdeuses, chamar de trapaceiro um homem e pedir uma cerveja, graças ao mercenário queconheceu em Rocha Casterly. “Ao menos em Dorne falam Língua Comum”. Como acomida dorniense e a lei dorniense, o idioma dorniense estava temperado com os
 
aromas do Rhoyne, mas se podia entender. “Dorne, sim, prefiro Dorne.” Andou até acama agarrando esse pensamento como uma menina sua boneca.O sonho nunca chegava facilmente para Tyrion Lannister. A bordo desse barcorara vez chegava, embora de vez em quando conseguia beber bastante vinho para perder o sentido um momento. Ao menos não sonhava. Já havia sonhado bastante para umavida curta. “E que estupidezes: amor, justiça, amizade, glória. Tão útil como sonhar com ser alto.” Não poderia conseguir nada disso, ele sabia. Mas não sabia aonde vão as putas.-Ao lugar de onde vêm as putas-, dissera seu pai. “Suas últimas palavras, e que palavras”. A balestra assoviou, lorde Tywin voltou a sentar-se, e Tyrion Lannister seencontrou andando através da escuridão com Varys ao seu lado. Devia ter entrado pelo buraco outra vez, duzentos trinta degraus até onde brasas laranjas brilhavam na boca deum dragão de pedra. Não lembrava de nada. Só do som da balestra, e o fedor dosintestinos do seu pai ao soltar-se. “Inclusive morrendo, encontrou uma maneira decagar-se em mim”.Varys o guiara através dos túneis, mas não falaram até que saíram ao lado doÁguasnegras, onde Tyrion havia conseguido uma célebre vitória e perdido um nariz.Então, o anão girou-se para o eunuco e disse:-Matei meu pai.Com o mesmo tom com o que um homem poderia dizer, ”Bati meu dedo”. Omestre dos sussurros se vestia como um irmão molambento, roupa acarunchada de tela basta com um capuz que ensombrecia suas gordas bochechas lisas e sua cabeça redondae calva.-Não deveria ter subido por essa escada, - reprochou-lhe.-Aonde vão as putas. -Tyrion advertiu seu pai para não dizer essa palavra. “Senão tivesse disparado, teria percebido que minhas ameaças eram vazias. Teria arrancadoa balestra das minhas mãos, como uma vez me arrancou Tysha de entre os braços. Já selevantava quando o matei.”-Também matei a Shae- confessou a Varys.-Você já sabia o que era.-Sim. Mas não sabia o que era ele.Varys vacilou.-E agora sabe.“Também teria que ter matado o eunuco”. Um pouco mais de sangue nas minhasmãos, que importaria? Não sabia o que detivera sua adaga. A gratidão não. Varys osalvara da espada do verdugo, mas só porque Jaime o obrigara. “Jaime... não, melhor não pensar em Jaime.”Ao invés disso encontrou um odre de vinho, e o chupou como se fosse o peito deuma mulher. O vinho amargo caiu sobre seu queixo, e ensopou sua túnica suja, a mesmaque usava na cela. Chupou até o vinho acabar. O chão se movia sob seus pés, e quandotentou levantar-se, se mexeu de lado e o jogou contra um anteparo. “Uma tempestade”supôs, “ou estou mais bêbado do que creio”. O vinho lhe deu náuseas e esteve assim por um momento, questionando se o barco afundaria.“É tua vingança, Pai? O Pai de Cima te transformou na sua Mão?”-É o preço de matar um familiar - disse enquanto o vento rugia no exterior. Não parecia justo afogar o garoto e o capitão e o resto da tripulação por algo que não haviafeito, mas desde quando os deuses eram justos? E de novo pensando nisso, a escuridão oengoliu.Quando pôde mover-se de novo, sua cabeça ardia e o barco girava em círculosmareantes, apesar do capitão insistir que haviam chegado em porto. Tyrion pediu para
 
ele estar quieto, e esperneou debilmente enquanto um marinheiro enorme e careca olevantava debaixo dum braço e o levava, contorcendo-se, até a adega, onde o esperavaum barril de vinho vazio. Era um barril pequeno e rechonchudo, apertado até para umanão. Tyrion se debateu, mas não serviu de nada. Acabou dentro do barril, a cabeça primeiro, com os joelhos apertados contra suas orelhas. O buraco que era seu nariz lhedoía de forma horrível, mas tinha os braços tão apertados que não conseguia se coçar.“Um palanquim feito para um homem da minha estatura”, pensou enquanto martelava atapa e o carregavam. Ouviu gritos enquanto o tiravam dali. Cada movimento fazia comque sua cabeça golpeasse o fundo do barril. O mundo girou e girou enquanto o barrilrodava para baixo, depois parou com um súbito choque que quase o fez gritar. Outro barril bateu contra o seu, e Tyrion mordeu a língua.Foi a viagem mais longa da sua vida, ainda que certamente não durou mais demeia hora. Subiram ele e o baixaram, o giraram e o empilharam, o deixaram em pé e decabeça pra baixo e depois o giraram de novo. Através das barras de madeira ouviahomens gritando, e uma vez um cavalo relinchando perto. Suas pernas atrofiadascomeçaram a doer, e logo doiam tanto que esqueceu o martelar na sua cabeçaAcabou como havia começado, com outro empurrão que o deixou tonto e maisatordoado. Vozes estrangeiras falavam fora em uma língua que não conhecia. Alguémcomeçou a martelar o topo do barril e a tapa partiu-se de repente. A luz inundou o barril,e depois o ar frio. Tyrion arquejou ansiosamente e tentou levantar-se, mas só conseguiudeitar o barril de lato e derramar-se sobre um chão de terra compacta.Sobre ele se levantava um grotesco homem gordo com uma barba amarela partida em duas, segurando uma marreta de madeira e um cinzel de ferro. Suas roupaseram grandes o bastante para servir de pavilhão de um torneio, mas seu cinturão soltara-se, expondo uma barriga enorme e um par de peitos pesados que caiam como sacos desebo cobertos por um grosso pelo amarelo. Fez Tyrion se lembrar de uma foca marinhamorta que uma vez acabou nas cavernas debaixo de Rocha Casterly.O homem gordou olhou para baixo e sorriu.-Um anão bêbado- disse na Língua Comum de Ponente.-Uma foca marinha putrefacta-. A boca de Tyrion estava cheia de sangue.Cuspiu aos pés do homem gordo. Estavam em um adega escura e longa com abóbodasno teto, paredes manchadas de salitre. Barris de cerveja e vinho os rodeavam, bebidamais que suficiente para manter um anão sedento durante as noites. “Ou durante umavida.”-Você é insolente. Gosto disso num anão. –Quando o homem gordo riu, suascarnes balançaram-se tão forte que Tyrion temeu que cairia e o esmagaria-. Está comfome, meu pequeno amigo? Está cansado?-Sedento. -Tyrion se ajoelhou tristemente-. E sujo.O homem gordo farejou.- Um banho primeiro, isso sim. Depois comida e uma cama macia, sim? Meusserventes cuidarão disso-. Seu anfitrião deixou a marreta e o cinzel. -Minha casa é sua.E um amigo do meu amigo de além-mar é um amigo de Illyrio Mopatis, sim.“E qualquer amigo de Varys a Aranha é alguém em quem confiarei até poder sair daqui.”O homem gordo cumpriu sua promessa do banho, ao menos... apesar de que logoque Tyrion afundou-se na água quente e fechou os olhos, adormeceu.Acordou pelado em uma cama de pluma de ganso tão suave e profunda quesentiu como se uma nuvem o embalasse. Tinha a garganta áspera e sentia a língua comose crescesse pelos nela, mas tinha o pau tão duro como uma barra de ferro. Rodou dacama, encontrou um urinol e começou a enchê-lo com um gemido de prazer.

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