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A Prece Cura

A Prece Cura

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bsbm
38
brasíliamédica
Brasília Med 2004; 41:38-45
AR T I G O ESPECIAL
A PRECE CURA?
CARLOS EDUARDO TOSTA1
1 Faculdade de Medicina,Universidade de Brasília.
Coorespondência: Laboratório de Imunologia Celular, Faculdade de Medicina, Universi-
dade de Brasília. CEP: 70910-100 - Brasília - DF.
RESUMO
prece tem sido utilizada, desde tempos imemoriais, como instrumento

de cura. A crença de que a prece pode beneficiar pessoas doentes ou necessitadas generalizou-se em todos os povos, indepen- dentemente da religião, e é aceita até entre praticantes de religiões não- teístas ou mesmo ateus. Apesar da freqüência com que é utilizada, a prece só recentemente tem recebido a atenção da comunidade científica. O primeiro artigo a utilizar um correto delineamento metodológico foi publicado em 1988 e, desde então, várias investigações têm atribuído à prece um efeito curativo. A presente revisão tem como objetivo proceder a uma análise crítica sobre o possível papel da prece como instrumento de cura ou de preservação da saúde. Conclui-se que, embora se desconhe- ça como atua, várias evidências parecem indicar que a prece é capaz de influenciar a cura de doenças, possivelmente por concorrer para a estabilização de importantes funções do organismo como o sistema imu- nitário.

PALAVRAS-CHAVE
Prece; cura; cura à distância; cura espiritual; fagocitose.
ADesde a mais remota antigui-

dade, a prece e outros procedi- mentos não convencionais, como o toque, têm sido utilizados no pro- cesso de cura. A Bíblia contém várias passagens em que esses mé- todos foram usados com sucesso, como para a cura de um leproso (Mateus 8:1-4; Lucas 4:38-39), de cegos (Mateus 9:27-31), de epilético (Mateus 17:14-21; Mar- cos 9:18-29; Lucas 9:37-42) e mesmo para ressuscitar uma mor- ta (Atos 9:36-41).

Em algumas sociedades e gru-
pos religiosos, a prece é conside-

rada como a principal intervenção terapêutica, e a crença de que pos- sa beneficiar pessoas doentes ou necessitadas é quase generalizada em todos os povos, independen- temente da religião e, até entre praticantes de religiões não-teístas ou ateus. Apesar da freqüência com que é utilizada para manter a saúde ou tratar doença, a prece só recentemente tem recebido a aten- ção da comunidade científica. O primeiro artigo a utilizar um corre- to delineamento metodológico, publicado em 1988,1 avaliou o efeito da prece sobre a recupera- ção de enfermos. Desde então,

39
tem sido publicado um número cres-
cente de revisões a respeito.2-6
O QUE É A PRECE?

Segundo o Dicionário Houaiss de Língua Portuguesa, a palavra “prece” se origina do latimpre x,

precisque significa ‘pedidos, sú-

plicas; votos, desejos’. Duas das formas mais comuns de prece se incluem claramente nesse significa- do: a petição e a intercessão. Na prece do tipo petição aquele que ora pede algo para si, ao passo que, na prece por intercessão, pede-se algo para outrem.

Como o alvo mais comum das preces é Deus, ou algum ser su- perior próximo a Ele, existe a ten- dência para definir como prece “... pedir algo a Deus numa atitu- de reverente” ,7 ou “... qualquer ato que nos coloca em contato com o transcendente”,8 ou mesmo “...a comunicação com o divino em nós”.9 Entretanto, temos que ad- mitir que não dispomos (e talvez jamais viremos a dispor) de pro- vas de que a prece atue por inter- médio de Deus.

Algumas investigações recentes têm avaliado as alterações funcio- nais de indivíduos durante a pre- ce. Demonstrou-se que a recita- ção da Ave Maria, no ritmo de seis vezes por minuto, resultou em me- lhora de alguns aspectos da fun- ção cardíaca, provavelmente em decorrência da redução do ritmo respiratório. Os mesmos efeitos foram obtidos por meio da recita- ção rítmica de mantras.10 Por ou- tro lado, utilizando-se técnicas de

neuroimagem, mostrou-se que freiras franciscanas e monges bu- distas durante prece meditativa apresentaram alterações do fluxo sangüíneo em determinadas áreas do cérebro.11

A PRECE COMO METENERGIA

Os efeitos da prece parecem não ser limitados ao tempo e ao espaço12,13 e, se decorrer de al- gum tipo de energia, esta não obe- dece às leis da física clássica. De fato, o efeito da prece parece ser o mesmo independentemente se feita próxima à pessoa-alvo ou se o intercessor estiver a milhares de quilômetros de distância.1 Para encobrir nossa atual ignorância sobre a natureza da prece, criou- se o neologismo metenergia, com significado de algo que vai além, que transcende a energia física.

Existe crescente tendência para considerar a existência de uma interconectividade entre os seres.14,15 Erwin Schrödinger, físico e filósofo austríaco, assim se manifestou: “Por

mais inconcebível que possa pa- recer ao nosso senso comum, nós estamos em todos os demais se- res, que também estão em nós, de modo que a vida que cada um de nós vive não é somente uma por- ção da existência total, mas, em certo sentido, é o todo”.16 Nesse

contexto, não se pode excluir a pos- sibilidade de considerar a prece como fenômeno decorrente da ex- pansão da consciência (ou da di- mensão do espírito) individual e que atuaria por meio de interco- nexões entre os seres. Várias teo- rias têm sido elaboradas para ex-

plicar a ação da consciência à dis- tância, como fenômeno não loca- lizado no tempo ou no espaço.17,18 Em uma análise sistemática de 832 estudos envolvendo a influência da consciência humana sobre sistemas microeletrônicos encontraram-se resultados consistentes e reprodu- zíveis.19

ESTUDOS SOBRE O EFEITO
DA PRECE EM SERES HUMANOS

Com base em pesquisa no sis- tema Medline, usando como pa- lavras-chave “prayer”, “distant healing”, “spiritual healing”, “noetic therapy” e “therapeutic touch”, apresentamos, em ordem crono- lógica, dez resumos de artigos so- bre os efeitos da prece interces- sória em seres humanos em que foram utilizada metodologia cien- tífica e publicados em revistas com corpo de revisores.

1. Byrd (1988)1 observou, em es- tudo duplo-cego, a ação da pre- ce à distância em 393 pacientes internados em unidade de tera- pia coronariana, divididos em dois grupos aleatorizados (com prece ou sem prece). Resulta- do: os indivíduos do grupo com prece desenvolveram menos in- suficiência cardíaca congestiva e pneumonia, necessitaram de menos suporte ventilatório e de tratamento com antibióticos e diuréticos. Não houve diferen- ça na mortalidade entre os dois grupos nem na duração da per- manência na unidade de terapia intensiva ou no hospital. Co- mentários: trata-se de investiga- ção bem delineada e bem

Brasília Med 2004; 41:38-45
A PRECE CURA?
40conduzida, incluindo número re-

presentativo de pacientes. En- tretanto, dos 29 parâmetros avaliados, somente em seis hou- ve diferença significativa entre os grupos com prece e sem pre- ce, todos favoráveis ao primei- ro grupo.

2. Walker e colaboradores (1997)20 realizaram um estudo prospec- tivo, duplo-cego, incluindo 40 indivíduos submetidos a progra- ma de tratamento de alcoolis- mo, divididos em dois grupos: sem prece e os que recebiam prece por seis meses. Resulta- do: o grupo que recebeu prece apresentou maior comprometi- mento com o programa. Entre- tanto, não houve diferença no consumo de álcool entre os dois grupos. Comentário: trata-se de projeto-piloto cujos resulta- dos ainda não foram confir- mados.

3. Sicher e colaboradores (1998)21 avaliaram a eficácia de dois métodos de cura à distância (prece e ‘cura psíquica’) em 40 indivíduos em estado avançado de síndrome de imunodeficiên- cia adquirida (SIDA) por meio de estudo prospectivo, duplo- cego, aleatorizado e com con- trole. Resultado: o grupo trata- do apresentou, após seguimen- to de seis meses, redução signi- ficativa da freqüência de doen- ças definidoras de SIDA, redu- ção da gravidade do quadro clí- nico, menor freqüência a con- sultas médicas e menor duração da hospitalização, além da me-

lhora do humor; não houve di- ferença nos níveis de linfócitos T CD4. Comentário: algumas inconsistências na análise esta- tística indicam necessidade de confirmação dos resultados.

4. Harris e colaboradores (1999)22 investigaram o efeito da prece à distância em 990 doentes inter- nados em unidade de terapia intensiva coronariana por meio de estudo duplo-cego, aleatori- zado, com dois grupos parale- los, que receberam ou não pre- ce. Resultado: o grupo que re- cebeu prece (por 28 dias) ob- teve melhores índices de evolu- ção na unidade coronariana do que o que não recebeu; não houve diferença na duração da hospitalização entre os dois gru- pos. Comentários: em nenhum dos 35 parâmetros individuais avaliados houve diferença entre os dois grupos, o que só ocor- reu quando foi utilizado um sis- tema de ‘escores’ de evolução clínica, ainda não validado; tam- bém não houve diferenças entre os grupos quando foram utiliza- dos os critérios de evolução clí- nica utilizados por Byrd (1988)1.

5. Matthews e colaboradores (2000)23 conduziram estudo, sem grupo-controle, de quaren- ta pacientes que apresentaram artrite reumatóide sob tratamen- to medicamentoso. Todos rece- beram prece intercessória por contacto direto com os inter- ventores, ao passo que deze- nove desses receberam também prece suplementar à distância.

Resultado: depois de um ano de seguimento, todos os casos apresentaram melhora; e a pre- ce suplementar não causou be- nefícios adicionais. Comentário: a ausência de grupo-controle enfraquece os resultado. Como somente a prece com a presen- ça do interventor causou bene- fício, este pode ter sido conse- qüência de efeito placebo ou do próprio curso clínico do proces- so de base, já que os pacientes vinham em uso de medicação regularmente.

6. Aviles e colaboradores (2001)24 avaliaram o efeito da prece intercessória à distância, aplica- da pelo menos uma vez por se- mana durante 26 semanas, so- bre a progressão de doença cardiovascular em 799 casos após terem alta de unidade de terapia coronariana. As inter- corrências avaliadas foram mor- te, parada cardíaca, re-hospita- lização por doença cardiovas- cular, revascularização corona- riana ou atendimento em urgên- cia cardiovascular. Resultado: não houve diferença significante na freqüência de intercorrências entre o grupo de intervenção (25,6%) e o grupo-controle (29,3%), nem entre os pacien- tes de alto risco, nem entre os de baixo risco. Comentário: ar- tigo com adequado delineamen- to metódico, mas que seria mais consistente se houvesse melhor padronização das condições em que a prece foi feita e, princi- palmente, do número de indiví- duos para os quais cada inter-

CARLOS EDUARDO TOSTA
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Brasília Med 2004; 41:38-45

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