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CIÊNCIA E YOGA

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CIÊNCIA E YOGA: CONSTRUINDO PONTES
Roberto Simões
Mestrando e m Ciência da Religião
robertossimoes@uol.com.br
INTRODUÇÃO.

Parece haver um consenso geral permeando as mentes secularizadas de nosso tempo, onde o saber científico se assenta como o conhecimento mais confiável para se entender o ser humano e, consideram outras sabedorias, como o da religião, obsoletos, selvagens, primitivos e ultrapassados. No entanto, ao mesmo tempo em que a ciência nos abriu os olhos para um mundo interconectado pela internetwi- f i, mapeamento cerebral, teorias da mente, do inconsciente e toda a sua nanotecnologia globalizada, nos fez assistir impassíveis também ao aquecimento do planeta, avanço do estresse e ansiedade, queda na qualidade de vida, aumento do sedentarismo e todos os males característicos de uma civilização pós-moderna e, muitos outros problemas que sempre acompanharam a humanidade, como as guerras, a injustiça, a corrupção e a falta de compaixão.

Nem a religião e nem a ciência, portanto, foram capazes sozinhas de proporcionar a paz e a felicidade de todos os seres. Em outras palavras, essa ambivalência descrita, talvez seja fruto da própria natureza humana e, entender quem somos demande esforço de todos os setores do saber (ciência, religião, filosofia e arte) e não apenas de um deles.

No entanto, é a ciência o conhecimento mais recente em nossa história. Antes dela se estabelecer como uma fonte do saber1, os homens e mulheres já haviam criado maneiras de entender a si mesmos através de outros formatos, que durante milênios caminharam unidas2. Desde a última era glacial, há 13.000 anos, que os seres humanos buscam respostas para a sua dúvida mais importante, quem somos, afinal? Será que essa pergunta demanda esforço de apenas um conhecimento ou de todos disponíveis?

A ciência muitas vezes se preocupa em dar respostas precisas a perguntas tolas como, quantos neurônios visuais um macaco bonobo possui. E, respostas imprecisas a perguntas cruciais como, qual a diferença entre um cadáver e você agora lendo este texto? Da mesma forma ambivalente que a ciência, a religião, também construiu (e continua edificando) alicerces seguros e confiáveis de desenvolvimento comportamental para muitas pessoas no mundo. No entanto, sua outra face se mostra dogmática e

1Ciência surge como profissão no século XIX com a Fundação da Escola Politécnica e Escola Normal Superior de Paris (1794/1808)
e a fundação da Universidade de Berlim (1809) (cf.CRUZ, 2008, p.21).
2c f. LE VI -STR AUSS , 2 0 0 8 .
anacrônica frente ao saber óbvio que a ciência, por vezes, nos revela o debate entre evolucionismovs
criacionismo são exemplos disso.

Para muitos, a religião e a ciência sempre se enfrentaram numa luta de forças. Mas, isso nem sempre fora verdade, essas duas formas de saber possuem muitos pontos em comum relacionados aos seus métodos e conteúdos3. Não devemos confundir religião com instituições religiosas. É como dizer que os biólogos darwinistas da USP são a própria biologia. No entanto, hoje, os cientistas da religião podem ser considerados o elo que busca estreitar o caminho entre esses dois saberes (religião e ciência), construindo pontes seguras onde homens e mulheres consigam transitar sem problemas ou, ao menos, conversar sobre eles sem matar um ao outro.

Ao invés de excluirmos um em detrimento a outro, por que não somar forças? Ao invés de polemizar ou defender a religião e/ou a ciência, por que não a estudarmos e aprendermos com cientistas, religiosos, filósofos e artistas? Esse será o nosso esforço, tornar plausível o diálogo entre ciência e religião e, o faremos pela ótica da tradição religiosa do yoga e da fisiologia humana.

Sustentaremos em nossa exposição que o pano de fundo, tanto da religião quanto da ciência, está em compreender o ser humano em toda a sua complexidade. E a abordagem que traçaremos para essa construção será de natureza biológica. Os recentes estudos fisiológicos, neurocientíficos e cognitivos sobre o comportamento humano podem se aliar a doutrina clássica do yoga, sem ferir um ao outro, mas auxiliando essas duas formas de conhecimento mutuamente. Defenderemos nossos argumentos pautados em textos religiosos clássicos do yoga, como os Vedas, as Upanisads, os Yoga-Sutras de Patanjali, o Hatha-Yoga Pradipika e o Gheranda-Samhita e, em trabalhos fisiológicos recentes sobre as emoções, o corpo e a mente, como o das neurociências e da psicologia cognitiva.

O YOGA: HISTÓRIA, FILOSOFIA E RELIGIÃO.

Entender realmente o que é o yoga requer, assim como qualquer estudo acadêmico de tradições religiosas, compreender a sua totalidade e não apenas suas partes; percebê-lo vivo e em transformação; e aventurar-se verdadeiramente no entendimento de seu sistema de atos, doutrinas, comunidades e experiências místicas4.

No entanto, achamos importante “limpar o terreno” do conceito atual do yoga inicialmente e, contextualizá-lo na sua história antiga para compreendê-lo contemporaneamente. A prática do yoga ganhou popularidade no ocidente estima-se, por exemplo, que 20 milhões de cidadãos norte-americanos o pratiquem. Portanto, resgatar as origens de sua história, filosofia e religiosidade se fazem necessários. Pois, como bem disse Carl Jung, podemos (nós, ocidentais) aprender muito com o yoga, mas não

3CRUZ, 2008, p.22.
4c f.GRESC HA T, 2 0 0 6 .
devemos praticá-lo “sem mais nem menos”, pois faremos “mau uso dele” se não retornarmos “à nossa
natureza” primeiramente5.

Na segunda parte deste momento (Yoga: história, filosofia e religião), nos ocuparemos em discutir a posição do yoga nos dias atuais, numa sociedade secular. A grande maioria dos adeptos e pesquisadores sobre o yoga6, ou o encaram como um método de treinamento físico: desenvolvimento da flexibilidade, força, equilíbrio, terapia e cura; ou, como é popularmente dito, uma “filosofia-prática”, que não acrescenta muito em seu sentido propriamente dito. Trataremos da definição deste complexo milenar intitulado hoje como yoga, pois demarcar o que venha sê-lo contribuirá para seu entendimento científico- religioso. O yoga veio adaptando-se às diversas culturas, crenças e sociedades por qual visitou ou foi visitado e, hoje pode ocupar os ta tu s não apenas de filosofia e/ou prática, mas se afirmar como possível religião, se não para todos os seus praticantes, para muitos deles que o seguem como verdadeiros adh ana (lit. caminho espiritual).

Por fim, divulgaremos sucintamente a filosofia do yoga. Isso será importante para o nosso segundo momento (Yoga e Ciência), onde será edificado uml in k com os estudos neurocientíficos atuais e, a contribuição que o yoga tem prestado à ciência e vice-versa.

Históri a.O início do yoga nos remonta a uma Índia pré-ariana, da tradição aborígene dos drávidas7. Este

povo parece ter florescido como grande civilização às margens do Vale do rio Indo, semelhantes em grandeza com outros povos de seu tempo, como os egípcios, no Nilo e os sumerianos, no Tigre e Eufrates.Os arianos conquistaram o território dravidiano por volta de 1500-1200 a.C., ocupando suas duas

grandes capitais, Harappa e Mohenjo Daro8. Acredita-se que um tipo de yoga já era praticado pelos drávidas ou povo harappiano. Escavações arqueológicas no Vale do rio Indo (atual Paquistão) encontraram sinetes de barro cozido com uma figura muito semelhante ao deus tutelar do yogaSh iva sentado emp ad ma sa na (postura clássica de yogues em meditação)9. Era uma prática religiosa voltada para a concentração mental, controle da respiração, adoração ritualística e cânticos. Seus objetivos principais eram a invocação, a visualização e a união com inúmeras divindades10. Como a religião védica dos brâmanes não aceitava esse“pr o t o-yoga, ele foi sumariamente considerado um sistema religioso heterodoxo pelos brâmanes, a alta casta dos sacerdotes arianos11.

Mas, assim como o fez com o budismo, a religião bramânica (hoje considerada como
hinduísmo), absorveu o yoga como parte de sua própria “filosofia”12 ao logo dos tempos, na forma de um

5 JUNG, 1982, p.57.
6 Haja vista o avanço nos estudos sobre o yoga e a medicina integrativa e complementar.
7ELI AD E, 2 0 0 1 , p .2 9 6 .
8GU LMI NI , 2 0 0 2 , p .2 4 .
9GU LMI NI , 2 0 0 2 , p .2 3 .

10FEU ERS TEI N, 2 0 0 5 , p .1 9
11 ZIMMER, 2000, p.67.
12 Coloco aqui filosofia entre aspas, pois o conceito ocidental de filosofia não corresponde corretamente, pois na Índia a filos ofia
deve conduzir seu adepto a um estado divino e está, portanto, ligado estreitamente a religião (c f. ZIMMER, 2000, p.52).

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