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Justo e Injusto

Justo e Injusto

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06/08/2013

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A Justiça Será Uma Convenção?
 Quando Antígona
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comparece diante de Creonte, seu tio recém-nomeado governante deTebas, nem lhe passa pela cabeça negar os factos de que é acusada. Ela reconhecemesmo encontrar-se fora da lei, tendo em conta as regras estabelecidas na Cidade. Emcontrapartida, nega convictamente que seja moralmente culpada e reivindica insistente-mente a legitimidade da sua acção, colocando-se, assim, acima da lei dos homens.Creonte, por seu turno, julgando Antígona culpada e condenando-a à morte, identificaimplicitamente os seus próprios decretos com a norma acerca do justo e do injusto, e a
justo e injusto
Jorge Barbosa
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Depois de ter acompanhado o pai, Édipo, no exílio até à sua morte, Antígona regressa a Tebas, onde os seus dois irmão lutavam pelotrono. Como a guerra, chamada do “sete contra Tebas” não deu em nada, os dois irmãos decidem disputar o trono em combate singular.Morrem ambos nesse combate, e Creonte, tio deles, herda o trono. Sepultou, então, com todas as honras um dos irmãos, Etéocles, edeixou o outro, Polinice, no sítio onde caiu morto, proibindo que quem quer que fosse o enterrasse. Antígona
, indignada, tenta conven-cer o novo rei a enterrá-lo, pois, quem morresse sem os rituais fúnebres, seria condenado a vagar cem anos nas margens do rio quelevava ao mundo dos mortos, sem poder ir para o outro lado. Como o rei, seu tio, não lhe fez a vontade, Antígona enterrou Polinicecom as próprias mãos e foi presa enquanto o fazia. Creonte mandou que ela fosse enterrada viva.
Devemos, então,conceber o justoconforme à lei, ouconceber a lei con-forme ao justo?uma noção de justoe de injusto, base-ada em convenções,só poderá valer oque valham essasmesmas conven-ções.O justo, se existe,é sem dúvida maisuniversal e maisconstante do que oútil.
 
sua autoridade de tirano como o próprio fundamento do direito. Ora, serão o justo e oinjusto simples convenções? Ou será que Antígona tem razão ao invocar, como ela ofaz, “leis não escritas, essas, mais intangíveis” que não seriam “nem de hoje, nem de on-tem, mas em vigor desde a origem e que ninguém terá visto nascer”?O problema não é, evidentemente, só o de saber se, de facto (isto é: na realidade soci-al, política, histórica), o justo e o injusto só podem ser definidos e distinguidos por con-venção, como uma simples questão de facto. O problema é sobretudo o de saber se elespodem e devem ser o que são por direito, isto é, por essência ou por princípio. Estaquestão de direito ou de princípio é, no fundo, a única que interessa aqui, a única que éfilosoficamente pertinente Com efeito, em qualquer caso, uma noção de justo e de injus-to, baseada em convenções, só poderá valer o que valham essas mesmas convenções.Devemos, então, conceber o justo conforme à lei, ou conceber a lei conforme ao justo?Que valor poderia ter a lei se se reduzisse a uma simples convenção? Só haverá leis po-sitivas? O justo e o injusto não passarão de valores “institucionalizados”?Este tipo de questões confronta-nos com o que parece ser um dilema. Será que podemos,a propósito do justo e do injusto, falar de convenções, de instituições, de valores sim-plesmente estabelecidos pelos homens, sem cair no arbitrário e no relativismo? Mas seráque, pelo contrário, podemos falar de “leis não escritas”, como faz Antígona, sem ter derecorrer a uma religião, isto é, a uma fé irracional; ou então a um saber racional, filosó-fico, mas de essência metafísica, com tudo o que isso comporta de incerto e de arrisca-do, problemático e até mesmo quimérico?Não será, então, o justo simplesmente um valor “instituído”? Que devemos pensar a res-peito das convenções compreendidas como usos e costumes, como instituições? Justo se-ria, então, o que é considerado justo e recebido como tal no seio das sociedades; seriainjusto o que é proibido pela lei dos homens (pela lei positiva) ou o que transgride asregras. Quais são as consequências de uma posição como esta? A resposta é clara eimediata. Esta concepção convencionalista, portanto relativista, do justo e do injustoconstitui um duplo problemas para a razão:1.Por um lado, é moralmente ilegítima;2.Por outro lado, é um absurdo gico.Vejamos, em primeiro lugar, em que consiste essa ausência radical de legitimidade. Oreino dos costumes é o reino do arbitrário e da contingência, em que a norma do direitoé simplesmente retirada dos factos, isto é, das tradições e dos costumes em vigor. Seriaum reino, onde a lei, desprovida de toda a necessidade intrínseca ou mesmo extrínseca,segue futilmente “as fantasias e os caprichos de Persas e Alemães”, como diz Pascal.Universalmente diverso e sempre inconstante, o direito positivo tem “as suas épocas”. Oaborto já foi considerado um crime punido com a pena de morte; actualmente a pena demorte foi abolida num grande número de países e o aborto legalizado. O direito positi-vo tem, portanto, a sua história - e também a sua geografia: um nada, um meridiano, umcurso de água, uma fronteira desenhada no mapa bastam para limitar a autoridade da
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lei, alterando, por isso, a concepção de justo e de injusto. “Engraçada justiça limitadapor um rio! Verdade para cá dos Pirinéus; erro para lá”, ironizou Pascal
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.As convenções humanas têm, seguramente, uma origem, fontes múltiplas e até incomen-suráveis, mas não têm nenhum fundamento verdadeiro. Ou melhor: não têm nenhumfundamento para além delas mesmas e da sua própria duração no tempo que, pouco apouco, as confirma e consagra. É o tempo que lhes confere a respeitabilidade de umatradição ancestral. Sem o tempo, as convenções não seriam mais do que uma moda pas-sageira… Se não tivermos algum cuidado, legalidade passaria a rimar com frivolidade.Mas esta relatividade rima também com absurdo, absurdo lógico: a inconstância, a con-tingência, o arbitrário, fontes de ilegitimidade, são também princípios de confusão lógi-ca, de auto-contradição. Com efeito, o justo por convenção é basicamente paradoxal -como uma contradição nos termos. Na verdade, conceber o justo como pura convençãoé confessar o seu carácter “factício” ou fictício, e, por essa via, negá-lo como justo. Osparticularismos culturais, os “idiotismos” jurídicos e morais não só se justapõem, tambémse opõem, contariam, combatem e neutralizam. A sua contradição é tão possível quantoreal, actual, efectiva e também multiforme, variada, e tão infinitamente diversa quanto opanorama geral dos usos e costumes humanos.Afirmar que o justo e o injusto são simples convenções é o mesmo que dizer que o Justonão é um valor, mas um facto; ou este valor é uma ilusão, quimera pura ou pura ficção,ou então a distinção entre justo e injusto é, no fundo, impossível, não nos sendo possíveljulgar em função deles. Por esta via, chegamos ao cinismo moral ou ao niilismo.Será que poderíamos dar a este valor “instituído”, que mais parece um pseudo-valor, al-guma racionalidade - fazendo-o portanto menos arbitrário e mais legítimo - se o baseás-semos numa convenção útil, assimilando o justo ao útil e o injusto ao prejudicial? Descar-temos, desde já, a ideia de que o útil possa ser puramente subjectivo, pessoal, individu-al, isto é, que se identifique com o objecto de um interesse particular, o que o identifica-ria com o desejável, e, deste modo, de novo com o irracional, tão contingente como umerro ou um capricho, ou como o “que nos dá prazer”, princípio que motivava os éditosdos monarcas absolutos. Neste caso, o justo útil mereceria exactamente as mesmas críti-cas que foram feitas ao justo convencionado, a partir dos costumes.Poderíamos, no entanto, pensar que seria possível tornar as convenções úteis mais racio-nais, e portanto mais legítimas, baseando-as em contratos (outra forma de dizer conven-ção) visando o interesse comum dos contratantes. Hipótese sedutora, esta, mas não to-talmente convincente. Pois reduzir o justo ao útil, seja ele comum, seria, por um lado re-lativizá-lo segundo os interesses próprios das comunidades ou dos Estados particulares -isto é, seria negar a sua universalidade. Por este andar, uma sociedade de assassinospoderia construir uma noção própria de justo e de injusto. Por outro lado, estaríamos avalidar o sacrifício dos direitos do indivíduo aos interesses do grupo. Seria uma apologia
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Numa das suas numerosas facetas, a de teólogo e escritor, Pascal pode ser considerado um mestre tanto do racionalismo como doirracionalismo modernos, e a sua obra, neste domínio, influenciou os ingleses Charles e John Wesley, fundadores da Igreja Cristã Me-todista.

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