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1981 Gerhard Kubik - Musica e Dança em África

1981 Gerhard Kubik - Musica e Dança em África

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Published by domingos morais
Tradução de Domingos Morais do artigo de Gerhard Kubik publicado in "Cultural Atlas of Africa", Oxford, 1981. pp. 90-93
Tradução de Domingos Morais do artigo de Gerhard Kubik publicado in "Cultural Atlas of Africa", Oxford, 1981. pp. 90-93

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Música e Dança na ÁfricaGerhard Kubik (1981)
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(tradução de Domingos Morais em 1994)Em sentido restricto, o termo sica/dança africana usa-se hojeexclusivamente para as culturas musicais dos povos africanos a sul doSahara, incluíndo os povos Khoisan do sudoeste. Na antiguidade a áreacultural da África negra extendia-se muito mais para norte comopodemos constatar em pinturas rupestres no Sahara. As culturasmusicais da África do norte actual são no fundamental diferentes dasda África negra, pertencendo a uma área afro-asiática mais do que auma área estilística africana. Do mesmo modo, a música e as dançasdas comunidades europeias fixadas no sul do continente africano nãose incluem no conceito de música e dança africanas.Em África, tal como a definimos, existem, citando Alan Lomax, asseguintes reges de estilos musicais: Sudão ocidental, Bantuequatorial, Caçadores/recolectores africanos, Bantu do sul, Bantu docentro, Bantu do norte, Sudão oriental, Costa da Guiné, Afro-americano,Sudão muçulmano, Etíope, Alto Nilo e Madagascar. A inclusão de umaregião Afro-americana significa que a cultura africana abrange adiáspora africana. As culturas musicais da costa da Guiné (Yoruba eFon, por exemplo), da região do Congo/Angola e com menor expressãodo sudeste africano têm extenções em várias partes do novo mundo.Só recentemente foi possível estabelecer com precisão a ligação dedeterminados elementos estilísticos de vários tipos de sica afro-americana com regiões estilísticas localizadas na África negra.Apesar das diferenças entre as tradições musicais da África do norte eda África negra, sabemos do intercâmbio histórico e do contacto inter-cultural entre as duas áreas. O comércio, a escravatura e a colonizaçãoislâmica tiveram como resultado a islamização da música africana emem muitas regiões da África negra, e também um forte impacto deaspectos musicais da África negra na África do norte e no sul deMarrocos. O Sudão muçulmano é uma das regiões musicais islamizadas.Na África oriental as formas musicais de influência árabe ou islâmicaencontram-se mesmo no interior, no sul do Uganda por exemplo, e nãoapenas ao longo da costa do oceano Índico. rios instrumentosmusicais introduzidos pelos árabes podem ser encontrados nestasregiões, sendo o violino de uma corda o exemplo mais visível. Noentanto, vastas áreas da África negra podem-se considerarvirtualmente livres da inflncia árabe ou ismica. As escolastradicionais de circuncisão para rapazes que encontramos a ocidente daÁfrica central, com as suas sicas e daas associadas, foramdesenvolvidas unicamente na África negra e o podem de formaalguma ser relacionadas com práticas islâmicas.É actualmente consensual que a sica/dança africana de váriasregiões do continente passou por mudanças decisivas ao longo dahistória. O que hoje se designa por música tradicional é com toda aprobabilidade diferente do que se ouvia há alguns séculos. Tambémnão se pode considerar a música africana como exclusivamente étnica,na acepção que é dado a este termo em etnomusicologia. As formas e
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in
"Cultural Atlas of Africa", Oxford, 1981. pp. 90-93.
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características musicais não se encontram rigidamente ligadas a gruposétnicos; de referir ainda a importância de cada músico, com o seu estiloe criatividade próprias.Os grupos étnicos foram por sua vez submetidos a um fluxo constantede influências e características musicais; modas foram trocadas aolongo das fronteiras étnicas e lingsticas. Quando o
likembe
, umpequeno lamelofone de caixa de ressonância oriundo da região da fozdo Zaire, começou a ser conhecido ao longo do curso do rio em finaisdo século XIX, levado por servos coloniais Lingala, foi rapidamenteadoptado por povos não-Bantus, como os Ngbandi, Gbaya e Azande. Amúsica para
likembe
, caracterizada por traços estilísticos dos grupos delíngua Bantu da África central, foi pouco a pouco modificada para seadaptar aos estilos musicais locais. No início do século XX a área dedistribuição do
likembe
chegava já ao nordeste, ao Uganda, onde foiadoptado pelos povos Alur, Acholi e Langi. Mais tarde, trabalhadores donorte do Uganda levaram o instrumento para o sul do país, onde ospovos de língua Bantu, Soga e Gwere, o adoptaram, o que permitiu oaparecimento de vários autores e intérpretes excepcionais. Na Áfricacentral ocidental o
likembe
espalhou-se gradualmente para sul, doKasai (Zaire) ao leste de Angola, tendo sido adoptado pelos anos 50 porpovos como os !Kung (do grupo Khoisan) do sudeste de Angola. Esteexemplo mostra como a distribuição (de um instrumento) pode mudarmuito rapidamente; os mapas de distribuição apenas são válidos sebaseados em exemplares recolhidos num lapso de tempo relativamentecurto, podendo mesmo assim apresentar imagens fragmentadas e quenos confundem.Regiões muito afastadas entre si apresentam com frequência traçossimiliares ou mesmo idênticos, enquanto áreas contíguas podemapresentar diferenças estilísticas. A música polifonica dos Baulé, daCosta do Marfim, a três vozes e em sistema tonal equi-heptatónicoestá muito próxima, podemos mesmo dizer que é idêntica, da músicavocal dos Ngangela, Chokwe e povos de língua Luvale do leste deAngola, e como tal reconhecida por informadores das várias culturasreferidas. As duas regiões eso separadas por rios países comformas muito diferentes de canto polifónico. Outro enigma da história éa presença de estilos de tocar xilofone em instrumentos idênticos nonorte de Moçambique (entre os Makonde e os povos de língua Makua) eem alguns povos da Costa do Marfim e da Libéria (especialmente osBaulé e os Kru). O
 jomolo
dos Baulé e a
dimbila
dos Makonde sãoinstrumentos virtualmente idênticos. Teorias difusionistas de rios autores tentaram resolver estesenigmas. Uma das soluções, proposta por Arthur M. Jones, sugere apresença de colonos indonésios em certas regiões da África do leste,central e ocidental durante os primeiros séculos da era cristã, queteriam sido responsáveis pela introdução dos xilofones e de algunssistemas tonais e harmónicos (equipentatónico, equiheptatónico eescalas de Pelog). Os etnohistoriadores tendem por outro lado adestacar a importância da navegação costeira, em barcos europeus quetransportavam trabalhadores escravos ou contratados, como umacausa para a difusão cultural.As tentativas para se reconstruir a história da música em África sãosempre especulativas, sem o recurso a fontes históricas. Essas fontesPág. 2
 
são, de facto, mais abundantes do que poderiamos esperar, mas devemser diferenciadas na sua origem interna ou externa, quer dizer, seprovêm dos próprios africanos ou de observadores externos. As fontesafricanas mais importantes e antigas são arqueológicas (objectos deferro, como sinos ou placas de lamelofone), pinturas rupestres (como asencontradas em abunncia no Sahara), e objectos de arte maisrecentes reunidos por observadores contemporâneos. Igualmenteimportante é a evidência derivada das tradições orais.Entre as mais importantes fontes externas encontramos textos eimagens de visitantes e viajantes. Os árabes percorreram a costa lestede África a partir do culo X. Alguns documentos dos primeiroseuropeus a visitar África aguardam ainda uma análise detalhada porafro-musicologistas conhecedores das regiões musicais que referem.Um grupo espefico de fontes o notações musicais dos últimosséculos. Existem algumas do século XVIII, mas as do século XIX são asmais ricas. que dizer no entanto que as notações por sicosformados no Ocidente raramente fazem justiça às qualidadesintrínsecas da sica africana, dando uma imagem distorcida,dependente da formação específica de cada observador, acrescidapelos padrões culturais próprios da notação ocidental. No entanto,estes registos não são completamente inúteis. Embora não permitam arestituição musical directa, é possível com o recurso a uma análisecuidada reconstituir, pelo menos aproximadamente, o que o viajanteterá ouvido. Foi possível, por exemplo, interpretar a notação de CarlMauch (1872) da afinação do lamelofone
mbira dze midzimu
que esteautor observou junto das ruínas da cidade de Zimbabwe, comparando-acom as actuais afinações dos
mbira
da mesma região.Por vezes, informação sobre a história da música e dança africanaspode ser obtida indirectamente de fontes latino-americanas. Os povosdeportados de África para o Novo Mundo vieram na sua maioria dointerior, trazidos pelos traficantes africanos que actuavam comointermediários dos traficantes europeus que vinham até à costa. OsOvimbundu de Angola, por exemplo, desempenharam esse papel,vendendo prisioneiros de guerra do leste de Angola aos portugueses.Daí resultou que a música e dança de povos do interior de Angola eMoçambique era acessível nos séculos XVIII e XIX no Brasil, numa épocaem que os observadores europeus ainda não tinham chegado a essasregiões interiores de África.A música e dança africanas da actualidade resultam de riasmudanças históricas: ecológicas, culturais, sociais, religiosas, políticas emuitas outras. A mudança dos ecosistemas afectou a longo prazo asdeslocações dos povos, que provocaram por sua vez mudanças nassuas manifestações culturais, inclndo a sica e daa. Com oavanço da seca no Sahara, as populações deslocaram-se para sul. Na Tanzânia, nos últimos 20 anos, os Maasai apascentam os seus rebanhoscada vez mais a sul e desde 1977 podem ser vistos no território dosSangu (a leste de Mbeya). Quando as populações fixadas aceitam osrecém-chegados, adoptam com frequência os seus estilos e formas demúsica e dança. Daí o estilo coral dos Maasai ter tido uma influênciaimportante na sica vocal dos Gogo da Tanzânia central, comopodemos observar nos seus cantos
nindo
e
msunyunho
.Pág. 3

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