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© Cosac & Naify, 2003Lasar Segail, gravuras do álbum Die SanJóe, 1918© Museu Lasar Segall/IPHANPreparação; Harue Ohara Avritscher Revisão: Samuel Titan Jr. e Rubens FigueiredoProjeto gráfico: Elaine RamosCatalogação na Fonte do Departamento Nacional do LivroFiódor MikhailovitchDostoiévski[ Biblioteca Nacional]Dostovski, Fiódor Mikhailovitch [Umavl A CRIATURA DÓCILF. M. Dostoiévski: Uma criatura dócilTítulo original: KrotkaiaTtradução Fátima Bianchinarrativa fantásticaIlustrações: Lasar SegailSão Paulo: Cosac & Naify, 200396 p. 5 ilust.ISBN 85-7503-197-x CDD 89173ftadução de Fátima Bianchi1 Literatura russa 2. Narrativa russaIlustrações de Lasar Segail3. F. M. Dostoiévski 4. Lasar SegalICOSAC & NAIFYRua General Jardim, 770 2° andar 01 223-010 — São Paulo SP TB1 [ 11] 3218.1444 Fax [ 11] 3257.8164 infowww.cosacnaify.com.br Atendimento ao professor [ 11] 321 8.1466Cosac & NaifyPRIMEIRA PARTEDo autor Peço desculpas aos meus leitores por lhes oferecer desta vez apenas uma novela,em vez do Diário em sua forma habitual. Mas esta novela simplesmente me tomou amaior parte do mês. Em todo caso, peço condescendência aos leitores.Agora sobre a história em si. Intitulei-a ‘fantástica”, ainda que eu mesmo a considererealista no mais alto grau. Mas aqui de fato ocorre o fantástico, e justamente naprópria forma da histó ria, o que eu considero necessário esclarecer de antemão.Acontece que não se trata nem de um conto nem de memó rias. Imaginem ummarido, em cuja casa, sobre a mesa, jaz a pró pria mulher, suicida, que algumashoras antes atirou-se de uma janela. Ele está perturbado e ainda não conseguiu juntar os pen samentos. Anda pelos cômodos da casa e tenta entender o queaconteceu, “concentrar os pensamentos em um ponto”. De mais a mais, trata-se deum hipocondríaco inveterado, daqueles que falam sozinhos. Aí é que está, ele falaconsigo mesmo, conta o
 
A novela Uma criatura dócil foi publicada originalmente nonúmero de no vembro de 1876 da revista Diário de um escritor. (N. T.)ocorrido, tenta esclarecê-lo para si próprio. Apesar da aparente coe rência dodiscurso, algumas vezes se contradiz, tanto na lógica como nos sentimentos. Aomesmo tempo em que se justifica e culpa a mulher deixa-se levar por explicaçõesesquisitas: há nisso tanto rudeza de pensamento e de coração como um sentimentoprofundo. Aos poucos ele consegue esclarecer para si o ocorrido e “concentrar ospensamentos num ponto”. Por fim, evoca uma série de recordações queinevitavelmente o levam à verdade; a verdade inevitavelmente eleva seu espírito eseu coração. No fim, até o tom da narrativa se modifica, se o compararmos ao iníciodesordenado. A verdade revela-se ao infeliz de modo bastante claro e preciso, aomenos para ele.É este o tema. Certamente, o processo da narração prolonga- se por algumashoras, com interrupções e pausas, de modo in coerente: ora ele fala para si mesmo,ora volta-se para um ou vinte invisível, para algum juiz. E na realidade é sempreassim mesmo que acontece. Se um estenógrafo pudesse ouvi-lo às es condidas eanotar tudo em seguida, o resultado seria um pouco mais escabroso e mais toscodo que o apresentado por mim, mas, ao que me parece, é provável que a ordempsicológica fosse a mesma. Bem, esta suposição de um estenógrafo que ano tassetudo (e sobre cujas anotações eu trabalharia em seguida) é o que eu chamo defantástico na narrativa. Mas o certo é que, em matéria de arte, já se admitiu coisasemelhante mais de uma vez: Victor Hugo, por exemplo, em sua obra-prima Oúltimo dia de um condenado, utilizou quase que a mesma técnica e, aindaque não tenha lançado mão do estenógrafo, permitiu-se uma in verossimilhançaainda maior, ao admitir que um condenado à morte pudesse (e tivesse tempo de)registrar as memórias não apenas do último dia, mas até da última hora eliteralmente do derradeiro minuto. Porém, se ele não se tivesse permitido essafantasia, não existiria nem mesmo a obra — a mais real e mais verossímil de todasas que escreveu. j891. Quem era eu e quem era ela• . pois é, por enquanto ela está aqui, ainda está tudo bem: venho olhá-la a cadainstante; mas amanhã será levada, e como é que irei me arranjar sozinho? Agoraela está na sala, em cima da mesa, juntaram duas mesas de jogo, o caixão vemamanhã, branco, com mortalha de seda branca, mas, aliás, não se trata disso... Eusó faço andar e tentar esclarecer isso tudo para mim mesmo. Já faz seis horas queestou tentando esclarecer e não há meio de concentrar meus pensamentos numponto. Acontece que eu só faço andar, andar, andar... Eis como tudo se passou. Eusimples mente contarei pela ordem (ordem!). Senhores, eu estou longe de ser umliterato, e isso os senhores verão, mas não importa, contarei o caso tal como ocompreendo. E todo o meu horror reside justamente no fato de compreender tudo!Se querem sabei isto é, se eu começar bem do início, ela veio à minha casa naquelaépoca, sem a menor cerimônia, penhorar uns objetos para pagar um anúncio noGolos em que ela, precep tora, coisa e tal, concorda até mesmo em viajar dar aulasa
 
Voz, semanário da época. (N. T.)11domicílio etc etc. Isso foi bem no começo, e eu certamente não fazia diferença entreela e os outros: ela vinha como todos, e até com mais simplicidade. Mas depoispassei a fazer. Ela era tão franzi na, loirinha, mais para alta do que baixa, sempredesajeitada no trato comigo, parecia perturbar-se (acho que era assim com todos osestranhos, e eu, sem dúvida, era igual a qualquer outro para ela, isto é, não pelolado do penhorista, mas da pessoa). Tão logo recebia o dinheiro, no mesmo instantedava meia-volta e saía. E o tempo todo calada. Os outros discutem, insistem,regateiam de todo modo para que eu lhes dê mais; ela não, o que dessem... Pareceque estou confundindo tudo... Sim, fiquei surpreso, antes de mais nada, com osseus objetos: brincos de prata dourada, uma medalhinha ordinária, jóias baratas. Eela mesma sabia que va liam, quando muito, uns dez copeques, mas pelo seu rostoeu via que eram preciosas para ela — e de fato isso era tudo o que tinha sobrado deseu paizinho e de sua mãezinha, soube depois. Somente uma vez eu me permiticaçoar de seus objetos. Isto é, vejam, isso eu não me permito nunca, meu tom como público é de gentleman: poucas palavras, cortesia e seriedade. «Seriedade, seriedade, seriedade.” Mas ela de repente se permitiu trazer os restos (isto é,literalmente) de uma jaquetinha velha de pele de lebre — então eu não me contive ede repente disse algo, fiz uma espécie de chiste. Deus meu, como ela corou! Elatem os olhosazuis, grandes, pensativos, mas como se inflamaram! No entan to, sem deixar escapar uma palavra, pegou seus «restos” e foi-se embora. Nessa altura, pelaprimeira vez eu reparei nela de um modo particular e pensei sobre ela algo nogênero, isto é, justa mente algo num sentido particular. Sim, e lembro ainda a impressão, isto é, possivelmente, se querem saber; a impressão principal, a síntese detudo: justamente que ela era jovem demais, tão jovem que parecia ter catorze anos.Entretanto, faltavam na época três meses para completar dezesseis. Aliás, não eraisso o que eu queria dizer; não era nisso, em absoluto, que residia a sín tese. No diaseguinte, veio de novo. Soube depois que havia levado a jaquetinha para Mozer eDobronrávov, mas estes, afora ouro, não aceitam nada e nem quiseram conversa.Quanto a mim, cer ta vez recebi dela um camafeu (assim, baratinho), e depois, aoponderar, me surpreendi: eu, afora ouro e prata, também não aceito nada, masaceitei o camafeu. Esse então foi meu segundo pensamento sobre ela, disso eu melembro.Dessa vez, isto é, depois do Mozer, ela trouxe uma piteira em âmbar, uma pecinha àtoa, coisa de amador, mas que para nós realmente não tem nenhum valor, porquede valor, para nós, só o ouro. Como ela voltou mesmo depois da revolta do diaanterior, eu a recebi com um ar sério. Seriedade em mim é secura. Entre tanto, aoentregar-lhe dois rublos, não me contive e disse, apa rentando uma certa irritação:“Só faço isso para a senhora, Mozer não aceitaria esse tipo de coisa”. Frisei demodo especial as palavras: “para a senhora”, e justamente com certa intenção. Fuicruel.“Strogo, strngo i strogo”: o narrador cita O capote, de Gógol. (N. T.)1213
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