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fernando pessoa

fernando pessoa

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04/23/2013

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Autopsicografia (Intelectualização do sentir)
 
- A julgar pelo título, estamos perante uma descrição da própria alma,apresentada em três estrofes, constituindo cada uma delas uma parte dopoema:
 
1. Na primeira estrofe temos já, em síntese, o pensamento implícito noconjunto do poema. Sendo ³um fingidor´, o poeta não finge a dorque não sentiu. Finge aquela de que teve experiência directa. Assimse afasta qualquer possibilidade de se interpretar o conceito de ³fingimento´ na poesia de F. Pessoa como completa simulação deuma dor ou de uma experiência emocional que não se teve. Oreconhecimento dessa dor ou experiência emocional como ponto departida da criação poética está bem expresso nesta primeira quadra.Todavia, a dor que o poeta realmente sente não é aquela que devesurgir na sua poesia. Pessoa não considerava a poesia a passagemimediata da experiência à arte, opunha-se a toda a espontaneidade.Por isso, exigia a criação de uma dor fingida sobre a dorexperimental.
 
O poeta, desde que se propõe escrever sobre uma dor sentida, deveprocurar representar, materializando-a, essa dor, não nas linhasespontâneas em que ela se lhe desenhou na sensibilidade, mas nocontorno imaginado que lhe dá, voltando-se para si mesmo e vendo-se a si próprio como tendo tido certa dor (inteligibilização dosensível). Todavia, a metamorfose a que submete a sua dor,fingindo-a, representando-a, apenas altera o plano onde essa dordecorre. A dor real, ou seja, a dor dos sentidos, primeiro, é a dorimaginária (dor em imagens), depois. O poeta materializa as suasemoções em imagens susceptíveis de provocar no leitor (e o poeta éo seu primeiro leitor) o regresso à emoção inicial.
 
Sobre o modelo da sua dor inicial, ou melhor, originária, o poetafinge a dor em imagens e fá-lo tão perfeitamente que o fingimentose lhe apresenta mais real do que a dor fingida. Assim, a dor fingidatransforma-se em nova dor (imaginária), cuja potencialidade decomunicação absorve todas as virtualidades da dor inicial. Tratando-se duma transformação do plano vivido em plano imaginado, elaprepara a fruição impessoal das dores que a poesia podeproporcionar ao leitor.
 
 
2
. Na segunda estrofe, os leitores de um poema não terão acesso aqualquer das dores ± a dor real ou a dor imaginária: a dor real ficoucom o poeta; a dor imaginária não é já sentida pelo leitor como dor,porque o não é (a dor é do mundo dos sentidos e a poesia ± dorimaginária ou representada ± é da esfera do espírito). Assim secompreende o último verso desta estrofe (³Mas só a que eles nãotêm´): os leitores só têm acesso à representação de uma dorintelectualizada, que não lhes pertence.
 
3. Na terceira estrofe, se a poesia é uma representação mental, ocoração (³esse comboio de corda´), centro dos sentimentos, nãopassa de um entretenimento da razão, girando, mecanicamente, ³nas calhas´ (símbolos de fixidez e impossibilidade de mudança derumo) do mundo das convenções em que decorre a vida quotidiana.Sempre a dialética do ser e do parecer, da consciência (razão) e dainconsciência (coração = comboio de corda), a teoria do fingimento.
 
- A tripartição que apresentamos é denunciada pela conjunção ³e´ queinicia as
e 3
ª
estrofes. No entanto, consoante o assunto, acomposição poderia ser dividida em duas partes: a primeira constituídapelas duas primeiras estrofes onde o sujeito poético explica a sua teoriada intelectualização do sentir e a segunda constituída pela última estrofeonde ele conclui, através de uma metáfora, a veracidade dessa teoria.
 
- O carácter verdadeiramente doutrinário deste poema faz com quepredominem as formas verbais no presente (sendo o pretérito perfeito ³teve´, no terceiro verso da segunda estrofe, a única excepção), tempoque conota uma ideia de permanência e que aqui aparece utilizado parasugerir a afirmação de algo que assume foros de verdade axiomática (³Opoeta é um fingidor´) em que o facto de se utilizar a 3
ª
pessoa dosingular do presente do Indicativo do verbo ser vem reforçar o atrásafirmado e impor, desde logo, a tese do poema.
 
A outra categoria morfológica com peso neste poema é o substantivo(poeta, fingidor, calhas, roda, razão, comboio, corda, coração), duasvezes substituído por pronomes demonstrativos (³os´ no primeiro versoda
quadra e ³a´ no último verso da mesma estrofe).
 
Há três advérbios de significado semelhante que é necessário referir,pela importância que assumem na caracterização das três ³dores´ abordadas no poema:
 
. ³finge («)
completamente
´ (o poeta)
 
 
. ³«
everas
sente´ (o poeta)
 
. ³«sentem
b
em
´ (os leitores)
 
- De notar ainda o seguinte:
 
. Na primeira quadra, há três palavras da família doverbo
fi 
ng
(a tese) ± fingidor, finge e fingir ± e repete-se a palavra
or 
nos 3º e 4º versos.
 
. Na segunda quadra, surgem-nos as formasverbais
lêem
,
escreve
,
sentem
,
teve
(= sentiu) e
nãotêm
(= não sentem), que conglobam os três tipos dedor de que atrás falamos: a dor verdadeira que opoeta
teve
; a dor que ele
escreve
e aquelas que osleitores lêem e
não têm
.
 
. Na terceira estrofe, realçamos as formas verbais ³gira´ e ³entreter´, porque sugerem a feição lúdica da poesia,cabendo à razão um papel determinante na produçãopoética. Enquanto ao coração cabe girar em calhas eentreter, fornecer emoções, à razão fica reservado opapel mais importante de toda a elaboração que foiapresentada nas duas primeiras quadras.
 
- Ao nível sintáctico, verificadas as características de autêntico textoteórico que o poema reveste, o tipo de frase teria de ser o declarativo.Predomina a hipotaxe, com relevo para a subordinação, embora já atrástenhamos reconhecido a importância da coordenativa ³e´.
 
- A nível fónico, este é um poema semelhante a muitos outros de Pessoaortónimo, de versos curtos (sete sílabas), se bem que haja, por vezesrecurso ao transporte. Os versos agrupam-se em quadras e apresentamalgumas irregularidades rimáticas e métricas, que não são de estranharem F. Pessoa.
 
- No aspecto semântico, verifica-se a utilização de uma linguagemseleccionada e simples, o que não quer dizer que a sua compreensãoseja fácil. Tal fica a dever-se a vários factores:
 
. Aproveitamento de todas as
capacidades expressivas daspalavras
e a repetição intencional de algumas (dor, cognatas defingir e ter, com o significado de sentir, verbo que também é usadoduas vezes).
 

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