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DIVERSIDADE AGRÍCOLA EM TERRAS DE ASSENTAMENTO RURAL

DIVERSIDADE AGRÍCOLA EM TERRAS DE ASSENTAMENTO RURAL

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Neste trabalho objetivamos descrever e analisar o autoconsumo alimentar e a diversificação agrícola nos lotes de um assentamento rural. Pretendemos apresentar uma proposta metodológica para adentrar 5 escalas de diversificação (mosaicos), baseando-se em observação direta, registros em diário de campo, questionário, coleta de cardápios, desenhos, inventários e a fotodocumentação dos lotes. Também foram utilizadas imagens de satélite e foto aérea (respectivamente, da região e de uma microbacia da qual faz parte o assentamento). O autoconsumo aparece como um aspecto essencial nas estratégias
familiares para se viver melhor, por exemplo, em relação a se alimentar daquilo que lhes dá identidade e de ter segurança alimentar. As produções comercial e empresarial convivem, no mesmo lote, com a produção de autoconsumo, no entanto esta é ligada a práticas e princípios agroecológicos. Os sistemas de produção de autoconsumo são responsáveis pela maior diversificação de um lote agrícola, mas nem sempre têm esse valor reconhecido, até pela dificuldade de sua mensuração econômica.
Neste trabalho objetivamos descrever e analisar o autoconsumo alimentar e a diversificação agrícola nos lotes de um assentamento rural. Pretendemos apresentar uma proposta metodológica para adentrar 5 escalas de diversificação (mosaicos), baseando-se em observação direta, registros em diário de campo, questionário, coleta de cardápios, desenhos, inventários e a fotodocumentação dos lotes. Também foram utilizadas imagens de satélite e foto aérea (respectivamente, da região e de uma microbacia da qual faz parte o assentamento). O autoconsumo aparece como um aspecto essencial nas estratégias
familiares para se viver melhor, por exemplo, em relação a se alimentar daquilo que lhes dá identidade e de ter segurança alimentar. As produções comercial e empresarial convivem, no mesmo lote, com a produção de autoconsumo, no entanto esta é ligada a práticas e princípios agroecológicos. Os sistemas de produção de autoconsumo são responsáveis pela maior diversificação de um lote agrícola, mas nem sempre têm esse valor reconhecido, até pela dificuldade de sua mensuração econômica.

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03/17/2014

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1º FÓRUM PAULISTA DE AGROECOLOGIA
Centro de Ciências Agrárias (CCA), Universidade Federal de São Carlos – UFSCar, campus de ArarasDe 13 a 15 de outubro de 2010.
DIVERSIDADE AGRÍCOLA EM TERRAS DE ASSENTAMENTO RURAL
DUVAL, H.C.¹; FERRANTE, V.L.S.B.² e VALENCIO, N.F.L.S.³¹ UNICAMP, henriquecarmona@hotmail.com; ² UNIARA; ³ UFSCAR.
Resumo
Neste trabalho objetivamos descrever e analisar o autoconsumo alimentar e a diversificaçãoagrícola nos lotes de um assentamento rural. Pretendemos apresentar uma propostametodológica para adentrar 5 escalas de diversificação (mosaicos), baseando-se emobservação direta, registros em diário de campo, questionário, coleta de cardápios,desenhos, inventários e a fotodocumentação dos lotes. Também foram utilizadas imagensde satélite e foto aérea (respectivamente, da região e de uma microbacia da qual faz parte oassentamento). O autoconsumo aparece como um aspecto essencial nas estratégiasfamiliares para se viver melhor, por exemplo, em relação a se alimentar daquilo que lhes dáidentidade e de ter segurança alimentar. As produções comercial e empresarial convivem,no mesmo lote, com a produção de autoconsumo, no entanto esta é ligada a práticas eprincípios agroecológicos. Os sistemas de produção de autoconsumo são responsáveis pelamaior diversificação de um lote agrícola, mas nem sempre têm esse valor reconhecido, atépela dificuldade de sua mensuração econômica.
Palavras-chave
: Autoconsumo, Segurança Alimentar, Antropologia Rural 
Introdução
Os assentamentos rurais da reforma agrária ocasionam uma transformação sócio-espacial.Neste estudo, tomamos como exemplo o assentamento rural Monte Alegre, que possui emtorno de 450 lotes, de 14 hectares em média cada. Os dois primeiros núcleos foram criadosem 1985 após luta dos trabalhadores volantes por melhores salários e condições detrabalho nas greves no município de Guariba/SP e outros da região. O início de suas lutasfoi o processo de proletarização do trabalhador rural volante, cortador de cana-de-açúcar.As greves, que começaram em 1984, foram momentos de eclosão de um sentimento derevolta frente às péssimas condições de vida pelas quais passavam (BARONE, 1996). Afalta de acesso a alimentos e à água foram condições reais dos bóias-frias, que semobilizaram junto ao movimento liderado pelo Sindicato dos Trabalhadores Rurais, paralutar pela terra. Nas memórias desses trabalhadores rurais residiam elementos de um outromodo de vida, de quando foram sitiantes, arrendatários ou outras formas de trabalhadorrural mais fixado à terra, que de certa forma motivaram a luta pelo assentamento rural. Oretorno à terra, como assentado rural, é uma situação na qual as práticas agrícolas inscritasno seu
habitus 
cultural (conforme Bourdieu), podem ser resgatadas e reaplicadas pelaspessoas na interação com o lote, ocorrendo, a partir daí, uma reconstrução da identidade doagricultor como tal. Por outro lado, cabe caracterizar o que foi a transformação espacial quea reforma agrária ocasionou. A fazenda Monte Alegre, na época da implantação doassentamento, era propriedade da FEPASA (Ferrovia Paulista S. A.) e administrada pelaCAIC (Companhia Agrícola Imobiliária e Colonizadora), foi por quarenta anos umamonocultura de eucalipto utilizada como insumo para a empresa. Era uma terra pública jánão tanto utilizada pela FEPASA, que enfrentava dificuldades em ser mantida pelo Estado efoi reivindicada por não cumprir função social. A madeira da fazenda estava sendo utilizadapara produção de celulose para empresas privadas. Portanto, o uso dessa fazenda passoudo interesse em produzir dormentes para a estrada de ferro e posteriormente celulose paraempresas privadas, para ser o local de moradia de centenas de famílias. Essas, por suavez, passaram de uma situação de privação dos meios produtivos de provimento e deprecariedade de seus trabalhos, para uma terra com possibilidades de garantir seu sustentoalimentar e de lhes devolver a um trabalho digno, numa nova temporalidade.
 
1º FÓRUM PAULISTA DE AGROECOLOGIA
Centro de Ciências Agrárias (CCA), Universidade Federal de São Carlos – UFSCar, campus de ArarasDe 13 a 15 de outubro de 2010.
Segundo Whitaker e Fiamengue (2000), mosaicos são formados na paisagem com oadvento dos assentamentos rurais, o que implica a heterogeneidade do espaço. Aconstrução desse espaço heterogêneo, segundo as autoras, se dá em até cinco escalas.Isso em muito se deve à rica diversidade cultural das famílias e ao resgate da tradição deproduzir seu próprio alimento (autoconsumo), relacionando-se posteriormente com oaumento da diversidade agrícola nos lotes. Há uma hipótese de que as práticas deprodução de autoconsumo trazem benefícios ambientais, sobretudo quanto ao aumento dacomplexidade do sistema ecológico de espaços que, antes de serem assentamentos, erammonoculturas. O que se tenta demonstrar aqui são essas cinco escalas de diversificaçãoagrícola, mencionadas pelas autoras supracitadas.
Metodologia
Três autores com estudos (já clássicos) em comunidades agrícolas formam a base teóricada presente comunicação: Cândido (1979), Brandão (1981) e Garcia Jr. (1983). Para estesautores, realizar o estudo de um determinado agrupamento rural, pelos seus modos de vidae formas de reprodução econômica, implica caracterizar os processos históricos deconstituição estrutural, marcados por leis e políticas macroeconômicas brasileiras, levando-se em conta as condições históricas (num plano regional) das relações de poder, detrabalho e da estrutura fundiária subjacente. Por outro lado, faz-se necessário um trabalhomais qualitativo e etnográfico de descrever os agrupamentos rurais enquanto categoriassociais e suas especificidades, para analisar os meios pelos quais conseguem asubsistência e as transformações enfrentadas por essas populações tidas como “pobresrurais” frente ao processo de modernização social (e agrícola). Para Ferrante (1994), aspesquisas em assentamentos rurais devem levar em conta a (re)construção de novosmodos de vida. Isto implica, de uma perspectiva histórica, em caracterizar as famíliasassentadas em suas origens (principalmente aspectos culturais) e lutas sociais que aslevaram ao assentamento. Empiricamente, um olhar atento também sobre o cotidiano esobre todos os aspectos que envolvem a vida familiar no assentamento. Conforme Whitakere Fiamengue (2000), as cinco escalas de diversificação em assentamentos se referem: 1)ao contraste que eles fazem com a estrutura fundiária do entorno; 2) ao contraste que cadalote tem entre si; 3) aos diferentes sistemas produtivos no interior de cada lote; 4) àdiversificação em cada sistema (explícita, por exemplo, em práticas como consorciamentosde milho, feijão e abóbora, hortas e pomares diversificados); e 5) à diversificação da basegenética de cada cultivo e mesmo das criações animais.
Resultados e DiscussãoImagens de satélite
mostram uma
primeira escala de diversificação
dos assentamentosem relação ao seu entorno espacial, pois eles formam mosaicos numa área homogeneizadapelo plantio de cana. Já um
mapa sobre fotografia aérea
, da microbacia na qual oassentamento está inserido, mostra a diversificação numa
segunda escala
, que é aheterogeneidade existente na construção interior do assentamento (a diversidade de cadalote). Nos
desenhos feitos por um assentado
de seu lote em dois momentos diferentes,existe um claro exemplo do efeito da reforma agrária nesse espaço do lote. Ao estabelecer-se produtivamente no lote, o território passou a servir a diversas funções: local de moradia,culturas diversas comerciais e para o autoconsumo, imprimindo, pois, a
terceira escala
dediversificação: a existência de vários sistemas num mesmo lote familiar, conforme desenhosa seguir.
 
1º FÓRUM PAULISTA DE AGROECOLOGIA
Centro de Ciências Agrárias (CCA), Universidade Federal de São Carlos – UFSCar, campus de ArarasDe 13 a 15 de outubro de 2010.
Figura 1.
Desenho de quando chegou ao lote.
Figura 2.
Desenho atual do lote.
A
quarta escala
de diversificação refere-se aos cultivos no interior de cada sistema agrícolado lote e é diretamente ligada à presença de cultivos para o autoconsumo familiar. Confere-se essa escala em
inventários de lotes
, nos quais constam todos os cultivos que se fazuso alimentar, sem importar sua escala produtiva. O resultado é uma exaustiva relação quedá conta da diversificação que existe dentro de cada lote, individualmente.
Quadro 1.
Exemplo de inventário de lote.
cultivos energéticos
– mandioca, milho, batata, batata doce;
cultivos protéicos
– feijão(guandú e catador), criação de gado leiteiro e porco;
cultivos fontes de vitaminas e saisminerais (incluindo temperos e medicinais)
– manga (aden, palmer, coquinho, rosa eespada), laranja (pêra, lima e lima da pérsia), acerola, pitanga, castanha do pará,macadâmia, jaca, limão (cravo, galego e taiti), mamão, abacate, goiaba vermelha, banana(nanica, maça e “de fritar”), abacaxi, maracujá, maça, guaraná, cajá-manga, nectarina,tamarindo, uva japonesa, morango, cana-de-açúcar (garapa), abil, ingá, gabirova, pequi,alface, couve, almeirão, espinafre, pimenta (doce e ardida), cebolinha, cebolinha japonesa,salsinha, cebola, alho, urucum, vagem, quiabo, abóbora, tomate, pimentão, berinjela,chuchu, maxixe, erva-doce, coentro, arruda, alecrim, hortelã, manjericão, poejo, sabugueiro,babosa. Capins e pastos para as criações de gado.
Fonte:
Duval, 2009.Por fim, a
observação direta e o registro fotográfico, junto com os inventários
, podemdar conta da
quinta escala
de diversificação, conforme Whitaker e Fiamengue (2000),expressa nas variedades genéticas de cada sistema do lote. O feijão, por exemplo, é poucocultivado no assentamento como um todo, mas nos lotes de todos nossos entrevistadosapresenta-se cultivado com alta variedade genética. Cada um dos assentados entrevistadosdeclarou ter, pelo menos, duas variedades de feijão cultivadas, mas alguns chegam a ter atésete tipos diferentes, como no caso de um assentado de origem mineira. Ele possui feijãocatador, de vara, guandú, fava, preto, orelha de padre e “bourbon”. Esta última, conformeexplicou, uma variedade “lá da terra dele”, da qual ele gosta muito e sempre fez usoalimentar porque carregou consigo suas sementes por onde andou. Porém, isso não tira anecessidade deles terem que comprar feijão no mercado ou no vizinho em alguma época doano.Muitas vezes a produção de autoconsumo não entra no cálculo de produtividade doassentado rural, bem como de técnicos e pesquisadores, mas representa importanteestratégia para a reprodução social e econômica das famílias assentadas. Destacamos

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