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 GIULIO CARLO ARGAN
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Qualidade, função e valor do desenho industrial.
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Qualidade, função e valor do desenho industrial.
 Todos já estão convencidos de que um objeto de uso ³ seja um móvel, uminterruptor elétrico, uma máquina de costura, um automóvel ou um telefone ³, para teruma qualidade estética, deve ser funcional. Mas o juízo que se formula com essa simplesafirmação é muito complexo; e implica, antes de tudo, uma ideia do belo, uma poética. Julgamos belo um objeto funcional, feio um objeto que seja muito ornamentado: oornamento é um crime, dizia Adolf Loos. Todavia, sabemos que: 1) o ornamento não énecessariamente um obstáculo para a função, e, portanto, se um objeto é belo porquefunciona bem, também um objeto ornamentado, desde que funcione bem, deveria poderser belo, embora contrário, nós o julguemos feio; 2) o nosso julgamento é válido emrelação às ideias estéticas de nosso tempo, porque todos concordamos que um objetotardo-gótico ou barroco, ainda que ornamentadíssimo e muito longe de ser funcional, temou pode ter um valor estético; 3) o nosso julgamento leva em conta a tecnologia queproduziu o objeto: a técnica do artesanato, que produziu o tardo-gótico, atingia seuobjetivo estético no ornamento, a técnica industrial atinge seu objetivo estético nafuncionalidade sem adornos. Perguntemo-nos agora em que consiste o valor estético dosobjetos ornamentadíssimos do passado. Eles contém ³ gravadas, modeladas ou pintadas ³ imagens que podemos facilmente referir ao mundo exterior, à natureza: flores, folhas,figuras, elementos arquitetônicos, muito embora, no mais das vezes numa escala diferente,aludam a uma dimensão espacial que não é propriamente a do objeto: uma criança debronze sobre a tampa de um tinteiro, embora não seja maior do que o polegar, evoca emnossa mente as dimensões reais de um menino. Assim, aquelas imagens alteram, aliáseliminam, os limites ´de fatoµ do objeto. Esse limite ´de fatoµ tinha sido determinado porexigências práticas: o tamanho de um copo está em relação com a quantidade de líquidoque se presume deva conter. Também a forma está, originariamente, em relação comexigências práticas: com o tipo de bebida, com o movimento da mão que pegará o copo e olevará à boca. Esses dois elementos, tamanho e forma, definem a porção de espaço que oobjeto ocupa materialmente. Mas o olho não percebe o objeto isolado no espaço, percebe-o em um contexto: surge portanto um problema de relação. Através das imagens doornamento o artista põe o objeto em relação com o mundo, subtrai-o ao limite de suasingularidade. Para o artista que produziu o objeto tardo-gótico ou do Renascimento oubarroto, o mundo era a natureza, a história, a cultura literária: por isso substituía asuperfície do copo, que isolava o objeto, por uma superfície na qual podiam crescer, emminiatura, flores e árvores, e desenrolar-se caçadas ou cenas da mitologia. Portanto, aquelasimagens naturalistas eram meio com o qual o artista superava o particularismo do objeto eo considerava na sua relacionalidade. E se existem, certamente, objetos nos quais oornamento é um friso ou um emaranhado de formas geométricas, não se deve esquecer queas formas geométricas são assumidas como símbolos de espaço, de modo que o problemapermanece.O objeto, por exemplo o copo de que já falamos, é realmente afuncional oupropriamente antifuncional? Se beber é apenas ingerir um líquido para matar a sede, aquelecálice ornamentadíssimo decerto não é funcional; mas ele serve, no banquete, para brindara saúde dos convivas e, no rito religioso, para celebrar um sacrifício. Evidentemente, tantoo brinde quanto a oferta de um sacrifício são atos que implicam, na origem, o ato de beberpara saciar a sede, mas o brinde é uma função social, o sacrifício é uma função religiosa, eno que diz respeito a essas funções a taça e o cálice são funcionais e o são exatamente namedida em que não são, formalmente, simples recipientes. O ornamento, portanto, éfuncional em relação a uma ordem de funções que exigem que o recipiente não seja apenas
 
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um recipiente, mas um objeto em relação com aquilo que se pensa ser o mundo; somenteassim o objeto pode superar o limite da função estritamente prática e satisfazer uma funçãosimbólica que tem uma importância social incontestável.Consideremos agora um objeto produzido pela indústria. Este não é ornamentado;sua dimensão e sua forma são rigorosamente estudadas em relação com sua funçãomecânica; uma forma ´belaµ não é sobreposta à forma ´útilµ. Mas não é verdade de modoalgum que a forma adira perfeitamente à função específica. A função específica de umtelefone ou de um aparelho de rádio é transmitir nitidamente o som, e pode-se dar aotelefone a forma de um grupo de tritões e nereidas, ou ao rádio a forma de um estojo doséculo XVI, sem diminuir totalmente a funcionalidade; sabemos, porém, que isso seria umerro estético. Não se cometerá esse erro porque o que realmente se quer não é que formarealize a função mecânica, mas que a represente. Na realidade, não se quer que a formadaqueles objetos mantenha com a função a relação do copo com a função de beber, mas arelação do copo com a função do brinde ou do rito sacrificial: a função mecânica, portanto,também é, no pensamento do homem moderno, uma função simbólica. O homemmoderno, o homem das grandes cidades, não identifica seu ambiente com a natureza, mascomo mundo das coisas artificiais, feitas pelo homem para o homem mediante umatecnologia da qual sente orgulho como de uma criação própria: ele quer, portanto, inserir oobjeto no contexto de um mundo não natural, mas social. A técnica artesanal do ornamento diferenciava os objetos, a técnica mecânica daindústria torna-os idênticos: de fato, à técnica do artesanato correspondia uma concepçãoda vida como autonomia econômica do indivíduo, à técnica da indústria corresponde umaconcepção da vida que coloca o indivíduo como uma unidade na série: o standard dosobjetos depende da necessidade que se sente de estabelecer um certo modo de vidacomum. A forma dos objetos corresponde assim a uma funcionalidade prática epsicológica; isso não quer dizer que coincidam sempre. Frequentemente a forma do objetoconstituí um invólucro, que certamente protege o mecanismo interno mas também nosprotege do mecanismo, o qual seria enfadonho ver, mas cuja presença e eficiênciaqueremos, de algum modo, perceber através da forma externa do objeto.Mas voltemos à questão do espaço, isto é, da relação entre o objeto idealizado econstruído segundo as técnicas modernas e a nossa concepção do espaço. Dando ao objetouma forma correspondente à função queremos substancialmente afirmar que o objeto éaquilo que é, e nada mais: damos a ele uma forma que equivale a um nome, uma forma queo caracteriza enquanto objeto. Nós o subtraímos assim do contexto naturalista, daobrigação de uma relação com as árvores, o céu, a história; mas não o dispensamostotalmente de situar-se num sistema de relações. Entretanto, sabemos que aquele objeto éfeito em uma série e que existem milhares de exemplares dele perfeitamente idênticos: éuma relação mental, mas é uma relação. Além disso, sabemos que aquele objeto está emrelação conosco, com determinadas exigências da nossa existência e do nosso trabalho:queremos que aquele objeto seja a imagem de uma tecnologia na qual temos fé porqueconfiamos a ela a solução da maior parte dos nossos problemas, uma tecnologia, aliás, quejá constitui um mito da sociedade moderna; pedimos a ela que cumpra sua função com aclareza, a presteza e a precisão que consideramos típicas do homem no nosso tempo;estabelecemos com aquele objeto o mesmo tipo de relação que estabelecemos com aspessoas com as quais tratamos de nossos negócios e com as quais, justamente, não nosinteressa manter relações sentimentais, mas de correção, utilidade, colaboração. A relação,enfim, que estabelecemos com aquele objeto é uma relação ´socialµ, porque na realidadeconcebemos o mundo como a dimensão na qual vive e opera uma comunidade, na qual se
 
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articula a dialética da sociedade ativa. Vimos que a relação entre o objeto produzido peloartesanato e o mundo natural ocorria por analogias formais: como ocorrerá, na prática, arelação entre o objeto produzido pela indústria e a dimensão ou o espaço social? Antes demais nada, é preciso ter em conta que uma das características da tecnologia moderna é aespecificidade de cada procedimento no âmbito de uma metodologia geral, que fixa o tipo eo modo do comportamento operacional do homem moderno. Essa metodologia seconcretiza num determinado processo, que é a elaboração do projeto: o que caracteriza oobjeto moderno, produzido mediante técnicas industriais, é justamente o fato de ser umobjeto projetado, isto é, executado em todos os seus pormenores numa fase conceitual edepois impresso do mesmo modo como se imprime o texto de um livro. Evidentemente, oprojeto deve ser ´viávelµ isto é, deve prever
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os meios e as fases de execução; mas a viabilidade técnica não é o único fator da elaboração do projeto. Na medida em que se querque o objeto corresponda a uma função, deve-se considerar essa função como inerente à vida social moderna e inevitavelmente correlata a todas as demais funções; devem-se levarem conta as condições de consumo, isto é, a possibilidade de inserção daquele objeto nocontexto da economia da sociedade. Na prática, o projetista deve imaginar um quadropreciso da vida moderna e em seguida estabelecer o lugar do objeto que quer projetar noconjunto desse quadro. Assim o objeto nasce, ao mesmo tempo, como objeto específico,correspondente a uma função particular, e como objeto ´relacionadoµ ao conjuntodinâmico das funções. Também o aspecto que chamamos simbólico das funções sociais é,e vimos isso, uma necessidade prática, para que a sociedade crie seus símbolos na medidaem que eles concretamente sirvam a ela. A metodologia da elaboração do projeto tende, portanto, a identificar-se com todoo modo de comportamento do homem moderno: quer-se projetar ou planejar tudo, daforma da cidade à forma dos utensílios de cozinha, e quer-se planejar, por meio deprogressivas reformas das instituições jurídicas e políticas, a própria existência dacomunidade. Existem necessariamente um lógica, um elo daquela coerência: somentequando cumprir essa condição o objeto adquirirá direito de existência no espaço daexistência humana. Ora, na base da metodologia moderna está a busca de certos elementossimples que podem combinar-se segundo esquemas associativos ou combinatóriosinfinitos: somente quando a forma do objeto se fundamentar nesses elementos simples e oscombina num esquema associativo correto, o objeto poderá explicar sua própria funçãoespecífica no âmbito daquela função geral, unitária e continua que é o comportamentosocial do homem moderno.Resta, porém, uma pergunta: existe uma ordem de forma precisa, um princípiodefinido de estilo que possam ser identificados como característicos dos objetosproduzidos segundo a metodologia projetística do desenho industrial? Não existe:nenhuma analogia formal poderia ser identificada na configuração dos objetos que, comuma infinita variedade de tipos, forma a fenomenologia do desenho industrial. Aocontrário, quando um objeto nos parece concebido segundo aquilo que é chamado, comcondenação implícita, ´estilo designµ, podemos estar certos de que ele implica um erro deprojetação, ostenta a função em vez de representa-la, é a caricatura de si mesmo, como nocaso de certas carrocerias monstruosas dos automóveis americanos. E no
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Nota da digitação: "
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é uma expressão latina, que significa literalmente "em uma noz". Foi ditapor Plínio, o Velho, referindo-se a uma versão da Ilíada, que, de tão resumida, caberia dentro de uma noz.Significa, portanto, "de forma concisa", "em suma". Também pode ter o sentido de algo que está em seuestágio inicial, embrionário, e sobre o qual é possível intuir ou elaborar hipóteses acerca dos seusdesenvolvimentos futuros. A expressão normalmente se aplica a ideias, teorias ou conceitos apresentados demaneira muito sintética ou ainda em fase embrionária de desenvolvimento." (Fonte: Wikipédia).

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