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pedro demo_sociedade da desinformação

pedro demo_sociedade da desinformação

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Published by Sarnaglia Valderes
Ambivalências da sociedade da informação
Ambivalências da sociedade da informação

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Categories:Types, Research, Science
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INTRODUÇÃO
Em obra marcante recente, Bauman discute aambivalência das relações sociais, em suas faces negativase positivas, permanecendo a impressão de que a vida emsociedade é essencialmente ambígua, como são, ademais,as relações de poder: podemos até encontrar o poder queenobrece, mas é bem mais comum o poder manhoso,dissimulado, que se aproveita da sombra para prosperar
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.O poder, como bem diria Foucault, se esgueira pelasbeiradas, busca não ser percebido para influir tanto mais,procura a obediência do outro sem que este a perceba,inventa privilégio que a vítima pensa ser mérito, usa omelhor conhecimento para imbecilizar
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. Não seriadiferente com a informação: desinformar pode ser seuprojeto principal. Não se trata apenas de nos entupir cominformação de tal forma que já não a saibamos manejar,mas sobretudo de usá-la para seu oposto, no sentido maispreciso de cultivo da ignorância. Mais que tudo,conhecimento é ambivalente: sempre foi nossa arma maisdecisiva da emancipação, mas não o é menos dacolonização. O processo atual de globalização aponta paraesta direção de modo ostensivo: o que mais se globalizasão formas globalizantes de discriminação. Longe de aschances estarem mais bem distribuídas, concentram-seem clivagens tanto mais drásticas. Neste texto,pretendemos abordar muito preliminarmente o outro ladoda sociedade da informação, com o objetivo de alargar oespectro da discussão sobre a importância marcante dainformação em nossa sociedade.
SOCIEDADE E ECONOMIA DA INFORMAÇÃO
Utiliza-se a nomenclatura da “sociedade doconhecimento” praticamente como sinônimo de“sociedade da informação”, mesmo que esta última noçãocontenha, como mostra com grande verve Castells, aindaa perspectiva da “rede”
3
. O conceito de rede está bemmais próximo do campo da informática, apontandoademais para o mundo virtual da rede não física, emboranão menos real. Sem rebuscar filigranas conceituais, creioque a problemática se concentra em dois patamares maisvisíveis:
Ambivalências da sociedade da informação
Pedro Demo
PhD em Sociologia, Alemanha, 1967-1971. Professor Titular da UnB,Departamento de Serviço Social. Pós-Doutor pela UCLA, LosAngeles, agosto de 1999 a abril de 2000. Mais de 40 livros nas áreasde política social e metodologia científica.
Resumo
O texto discute a possibilidade da desinformação em processos informativos como componente intrínseco dacomunicação humana. Em parte é fenômeno normal, por contade dupla seletividade: nosso aparato perceptor capta o que lheé viável captar, e cada sujeito capta de acordo com seusinteresses. O problema está sobretudo na manipulaçãoexcessiva da informação, provocando efeitos imbecilizantesmais ou menos ostensivos. É o caso do advertising que pretende causar um tipo de influência imperceptível muitoefetiva, porque se apóia em estratégias refinadas deconhecimento especializado. É fundamental preservar oambiente crítico e autocrítico para poder reduzir e controlar ainformação.
Palavras-chave
Sociedade da informação; Sociedade do conhecimento;Globalização; Manipulação da informação; Economia dainformação.
Ambivalence of the information societyAbstract
This text argues the possibility of de-information in informative processes as an intrinsic component of the human communi-cation. Partially it is a normal phenomenon due to double se-lectivity: our perceptive apparatus picks up what is viable to perceive, and each subject picks up according to his own in-terests. The problems lies mainly in the excessive manipula-tion of information, implying more or less ostensive “imbeciliz-ing” effects. It is the case of advertising that pretends to pro-duce a type of very effective non perceived influence, since it isbased in refined strategies of expert knowledge. It is funda-mental to preserve the critical and self-critical environment inorder to be possible to reduce e control the manipulative infor-mation.
Keywords
Information society; Knowledge society; Globalization;Information manipulation; Information economy.
Ci. Inf., Brasília, v. 29, n. 2, p. 37-42, maio/ago. 2000
 
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mercado, provocando forte seletividade nos cursos, emdesfavor de compromissos históricos com os interessescoletivos da humanidade. Com efeito, o conhecimentomais inovador é provocado pelo mercado, que necessitado ímpeto desconstrutivo do conhecimento,particularmente do conhecimento dito pós-moderno,colocando a inovação mercantilizada como razão maiorde ser. Neste sentido, ao falarmos de sociedade dainformação ou do conhecimento é fundamental nãoperder de vista seu contexto econômico, para nãosupervalorizarmos o aspecto tecnológico, como se a facedo progresso fosse a única. Trata-se de novo e sempre nocapitalismo de progresso unilateral, extremamenteconcentrador de renda e poder, como se pode averiguardas grandes fusões de empresas, cujo resultado notável époder eximir-se, na prática, das “regras” do mercado.Como aponta De Landa, trata-se de um “antimercado”,porque se torna dono dele
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. Apenas as pequenas e médiasempresas se submetem, por exemplo, à competição capazde favorecer ao consumidor, enquanto as grandesliteralmente “fazem” os preços. Não por acaso, a grandeempresa tem peso residual na produção do emprego.O pano de fundo capitalista revela que não se trata apenasda “sociedade”, mas principalmente da “economia” dainformação, que, ademais, facilita enormemente avolatilidade do capital, sem pátria, globalizado
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. Esta marcaestiola as expectativas ingênuas de que a globalização trariabenefícios repartidos com todos globalmente. As pretensões“universalizantes” do conhecimento, tão bem expressas naidéia de “universidade”, redundaram no aprisionamentoostensivo de suas energias no mercado, assinalando que oefeito redistributivo é, como regra, inverso. O mundotornou-se uma “pequena aldeia”, não tanto porque nosvemos e comunicamos mais facilmente, mas porque aslinhas de força se fizeram tanto mais convergentes. Aenergia mais forte da globalização pareceria ser a“dolarização” de tudo, refazendo a trajetória colonizadoracom tanto maior vigor e discriminação. Estereconhecimento não poderia negar as potencialidadesextremas aí contidas, como a intercomunicação maisdisponível, mas sua ambivalência não é menos flagrante.De uma parte, a interdependência dos povos e pessoaspode repercutir em graus maiores de liberdade, à medidaque todos estamos no mesmo barco, mas, de outra, podeproduzir amarras ainda mais rígidas, quando sua dinâmicafoge ao controle da maioria, concentrando-se, comoprivilégio extremo, em poucas mãos. Um dos resultadosmarcantes deste processo de globalização é a situaçãoconfortável dos Estados Unidos, que, ao contrário dosoutros países centrais, apresenta um horizonte bem maispalatável de inserção no mercado, ainda que se reconheçaa) de um lado, temos o desenvolvimento sem precedentesdo conhecimento como base emancipatória ambígua destasociedade, provocando condições mais favoráveis decondução autônoma, como bem mostram Böhme/Stehrem sua discussão sobre a “sociedade do conhecimento”
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:“o que distingue uma sociedade do conhecimento acimade tudo, do ponto de vista de suas precursoras históricas éque se trata de uma sociedade que é, a um nível semprecedentes, o produto de sua própria ação. A balança entrenatureza e sociedade, ou entre fatos além do controle doshumanos e aqueles submetidos a seu controle, elevou-sede modo impressionante. Elevou-se mais e mais para ascapacidades que são construídas socialmente e permitemque a sociedade opere por si mesma” (p. 19); embora setrate de uma trajetória de emancipação muito ambivalente,por conta dos efeitos colonizadores persistentes, não sepode evitar de reconhecer que a capacidade de conduçãoda história aumentou flagrantemente; o processogalopante de informatização pode ser reconhecido comoseu carro-chefe, porque condensa os mais evidentesimpactos teóricos e práticos do conhecimento;b) de outro lado, porém, é mister observar que outra molamestra comparece à cena, que é a competitividadeeconômica baseada na produção e uso intensivos deconhecimento, revelando que a dinâmica desta sociedadedo conhecimento é feita de modo preponderante pelomercado neoliberal; em termos teóricos, estaríamos vivendoagora a “mais-valia relativa”, como assinalava Marx, fundadaem ciência e tecnologia, ou seja, a produtividade econômicaé alimentada essencialmente, não mais pela força física dotrabalhador, mas por sua inteligência; Marx, sem fazermaiores aprofundamentos sobre a mais-valia relativa, previuque traria consigo repercussões inimagináveis no processoprodutivo, embora sem desfazer seu caráter espoliativo
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; aocontrário, como mostram outros autores, o trabalho duro,em vez de recuar, parece, amplamente, tornar-se ainda maisdramático; enquanto para uma menor parte dostrabalhadores é sempre possível produzir mais e melhor commenos horas trabalhadas, para muitos, sob o efeito da mais-valia, é mister trabalhar ainda mais para obter ou manter osmesmos salários, cuja tendência de decréscimo é geral
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.A conjugação da sociedade do conhecimento com a lógicaabstrata da mercadoria
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parece nítida, como mostra comgrande ênfase Aronowitz em sua obra sobre “a fábrica doconhecimento”. Analisando as universidades norte-americanas, deplora que tenham abandonadopraticamente seu mandato educativo e social, pararestringir-se ao atrelamento capitalista, perfazendo o panode fundo da competitividade sem limites
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. A criatividadeacadêmica estaria em grande parte aprisionada pelo
Pedro Demo
Ci. Inf., Brasília, v. 29, n. 2, p. 37-42, maio/ago. 2000
 
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o ritmo decadente dos salários
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. Enquanto a globalizaçãoforça todos a alinhamentos drásticos, este impacto parecepreservar os Estados Unidos, pela razão simples de que é ocentro deste alinhamento. Todos precisam alinhar-se aeles, o que permite comandar confortavelmente talprocesso de alinhamento. Em nada mudou o fenômenoda mais-valia, ainda que sua dinâmica esteja marcada poroutro momento histórico, no qual a produção e o usointensivo de conhecimento se tornaram a mola mestra
12
.
INFORMAR PARA DESINFORMAR
É já comum a queixa de que estamos entupidos deinformação, cercados de um bombardeio do qual já nãotemos qualquer controle. Na verdade, pensamos que setrata de informação, mas na verdade trata-se demanipulação sibilina. Em parte, esta contaminação serianatural, por conta do ambiente ambivalente de todoprocesso comunicativo. Ao contrário do que Habermaspropõe, a ilação estratégica, longe de ser espúria, éconstitutiva da comunicação humana. Sobretudo paracientistas sociais é difícil aceitar que o primeiro impulsoda fala seja comunicar, não mais que comunicar, porquesabemos que, em sociedade, o contexto do poder éintrínseco, com suas linhas de força, muitas vezesdespercebidas, como quer Bourdieu em sua crítica aHabermas. Sem desmerecer que todo contextocomunicativo supõe um pano de fundo não questionadoque permite transitar símbolos e semânticasreciprocamente compreensíveis, é preciso levar em contaque a validade do discurso não se restringe a tal contexto,mas se remete ao ambiente social, cuja normatividade nãoé apenas dada, mas também historicamente construída
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.O pós-modernismo, por sua vez e desconsiderando aquiseus excessos, não está disposto a aceitar este tipo dekantismo transcendental, que acaba desgarrando avalidade de seu leito concreto de facticidade
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. Sfez, emsua “crítica da comunicação” chega a falar de “mofokantiano”, referindo-se a pretensões de validadetranscendental universalista
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.Neste sentido, não seria correto falar de “contaminação”,porque a ambigüidade é intrínseca ao fenômenocomunicativo, como qualquer hermenêutica atestaria semmaiores problemas: todo processo interpretativo supõeum sujeito culturalmente contextuado. Desinformar fazparte da informação, assim como a sombra faz parte da luz.Trata-se do mesmo fenômeno, apenas com sinais inversos.Estudos sobre a tessitura do conhecimento apontaramfreqüentemente para esta característica ambivalente, acomeçar pela idéia de “conhecimento proibido”. Estanoção tão comum na sociedade e em muitos de seus mitose narrativas religiosas (por exemplo, no Gênesis, o pecadopropriamente dito de Adão e Eva foi comer da árvore doconhecimento), aponta para a periculosidade própria doconhecimento: quanto mais inovador, menos bemcomportado
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. Emancipar-se, com efeito, implicacapacidade de confronto, quebra da ordem vigenteconsiderada impositiva e injusta, consideração dealternativas. Sua face disruptiva parece evidente, porqueconhecer implica intrinsecamente questionar. Suatendência desconstrutiva é frontal, embora possa serfacilmente dissimulada.Mas seria ingênuo pensar que a capacidade disruptiva estejaapenas a serviço do bem, como seria grotesco imaginarque a ideologia seja predominantemente “contra-ideologia” em favor dos oprimidos. A habilidadeinovadora do conhecimento não é menor quandomotivada por projetos colonizadores. A história poderiafacilmente mostrar que a inovação científica se fez sempresob o impacto preferencial da guerra, destruição,dominação. Se comparássemos a capacidade que temos defazer guerra com a que temos de fazer paz, teríamos algumanoção de como a primeira está avançada e a segundaabsurdamente atrasada. É sempre possível, pois, usar omelhor conhecimento para construir o mais refinadoprocesso de imbecilização. Desinformar será, portanto,parte fundamental do processo de informação. Em parteeste resultado é comum, porque, quando construímos ainformação, procedemos seletivamente perante umcabedal por vezes transbordante disponível de dados, ouseja, selecionamos o que é possível captar, sem falar quepreferimos o que nos interessa. Há, pois, dois vetoresseletivos no fundo muito naturais: como mostra a biologia,nosso aparato perceptor não capta tudo, mas o que épossível captar, dentro de seu trajeto evolucionário; nossosolhos não vêem tudo, mas o que conseguem ver
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; ademais,entram em cena nossos interesses, através dos quais ainterpretação ganha forros claros de politicidadeinegável
18
. Como asseveram Maturana e Varela, apercepção está condicionada ao “ponto de vista doobservador”, o que nos faz, ademais, prisioneiros de nossaspróprias descrições
19
.Entretanto, a questão mais dura refere-se ao processomanipulativo por vezes ostensivo que a sociedade dainformação nos impinge. Basta olha para a lógica do
advertising 
: seu objetivo é claramente manipular nossasmotivações, atingindo de preferência níveis subliminares.Somos levados a comportamentos atrelados sob aexpectativa de que estamos exercendo nossa liberdademais criativa
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. Rushkoff, em tom irritado, pergunta-sepor que acreditamos nisso tudo de maneira tão inocente,
Ambivalências da sociedade da informação
Ci. Inf., Brasília, v. 29, n. 2, p. 37-42, maio/ago. 2000

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