/  15
 
Afinal, o que é o cibercrime?Sumário
Afinal, o que é o cibercrime?Propriedade privada e propriedade intelectualA exploração comercial monopolista das distribuidorasA cópia domésticaAs distribuidoras contra a cópia domésticaAs redes P2PSoftware livreCrime ou desobediência civil?CopyleftO estímulo ao criador E como fica o autor?As distribuidoras e a propaganda anti-piratariaA ampliação dos direitos autorais para as distribuidorasE a pedofilia e os crimes violentos?O cibercrimeConsiderações sobre a criminalização da pirataria digitalConclusãoReferências bibliográficas
Afinal, o que é o cibercrime?
Curiosamente, uma boa resposta que se pode dar a essa pergunta é entender porque ela está sendo feita. Assim, precisaremos definir alguns termos e recuar um poucona história para conseguir chegar a um razoável entendimento.
Propriedade privada e propriedade intelectual
Até a Idade Média havia um enorme controle da divulgação de ideias, pois o númerode cópias de cada obra era pequeno e limitado pelo trabalho manual, longo e tedioso, doscopistas.Aproximadamente em 1455, as contribuições do inventor alemão Gutemberg para atecnologia da impressão e tipografia, introduzindo tipos individuais de metal,desenvolvendo tintas à base de óleo e aperfeiçoando uma prensa gráfica, começaram amudar essa realidade.A iminente democratização da informação fez com que soberanos se sentissemameaçados e logo concederam aos donos dos meios de produção dos livros o monopólioda comercialização de todos os títulos que editassem. Em contrapartida, os editoresvigiariam para não fossem editados conteúdos desfavoráveis à ordem vigente, inclusiveexercendo censura.Esse privilégio, portanto, não tinha como objetivo dar qualquer direito ao escritor daobra, mas apenas garantir o monopólio de sua reprodução, daí sobrevindo o termoCopyright, ou seja, o direito de cópia.
 
Só durante a Revolução Francesa foi reconhecido o direito do autor sobre a suacriação. Em 1777 foi estabelecida uma distinção na natureza jurídica entre autor e editor:ao”trabalho intelectual” do primeiro foi dado o privilégio de “propriedade intelectual”, aopasso que o privilégio do editor foi uma “liberalidade”Até a virada do século XIX para o XX as leis referiam-se apenas à reprodução detextos em papel e a material impresso, já que havia preocupação em regular o uso deuma única máquina, a imprensa.Entretanto, por volta de 1900, para garantir lucros com as novas tecnologias queestavam surgindo, o Copyright foi ampliado de modo que abrangesse quaisquer obras,independentemente do meio (media) em que eram distribuídas. Assim, foramdesenvolvidas regras de direitos de cópia específicas para cada novo meio: cinema,gramofone e rádio.Entretanto, propriedade é algo muito bem definido juridicamente.Note-se que alguém que comprou algo está garantindo para si a utilização de umbem. Por exemplo, se alguém possui uma caneta, a propriedade privada desse objetogarante ao dono o acesso a ele quando bem entender e o seu uso da forma que desejar,inclusive de poder vendê-la, doá-la ou emprestá-la. Atenção especial deve ser dada àexclusividade de uso que muito interessa ao proprietário, pois, se a caneta for compartilhada com alguém, no momento em que a segunda pessoa a estiver usando, aprimeira estaria privada do uso.Evidentemente esses fatos são válidos para os bens materiais.No entanto, há muito tempo se sabe que a propriedade intelectual é bastantediferente. Por exemplo, uma ideia só pode ser possuída se não for divulgada. E, quando oé, a ideia passa a pertencer a todos que a entenderam. E o mais interessante é que,mesmo então, a pessoa que a formulou nada perde com isso. Aliás, em geral acontece ocontrário, quanto mais pessoas conhecerem seus textos, sua arte, sua música, maior seráa boa reputação que o autor ganhará na sociedade.Paralelamente, um escritor ou um compositor não produz sua obra para o seupróprio deleite. Assim, quanto maior for o número de pessoas que tomar conhecimento desuas criações mais o autor terá seu talento reconhecido.Portanto, canções, poemas, invenções e ideias não têm a mesma natureza dosobjetos materiais cuja posse é garantida pelas leis de proteção à propriedade de bensmateriais. Efetivamente, cultura não é mercadoria.Exatamente porque as ideias têm essa característica de, uma vez expressas,poderem ser assimiladas por todos que as recebem, surgiu o conceito de que deveriamser protegidas de alguma maneira, para que seus criadores não ficassem desestimuladosem criá-las e expressá-las.Foi proposto que aquele que cria a ideia deve ter direito sobre ela, de modo quequando outra pessoa a utilize ou a receba, o autor tenha uma recompensa material. Ouseja, o direito autoral concedia ao autor um monopólio sobre a exploração comercial desua obra, de modo que aquele que desejasse ler um livro, usar alguma invenção, ou ouvir uma música teria que pagar ao autor.Quando a propriedade intelectual foi concebida no final do século XVIII, suafinalidade era conceder ao autor um monopólio sobre a exploração comercial da obra, deforma que quem quisesse ler o livro que tinha escrito ou escutar a música que tinhacomposto, teria que pagar a ele.Na constituição dos E.U.A., de 1787, já está prevista a promoção do progresso das
 
ciências e das artes úteis assegurando aos autores e inventores, por um período limitado,o direito exclusivo aos seus escritos e descobertas e conseguir a justa recompensa peloseu esforço e talento, sempre visando o bem comum.Entretanto, se só uma pessoa poderá explorar os benefícios da ideia, até que pontoa introdução do direito de propriedade intelectual, ao invés de promover, termina por constranger o progresso do saber, da cultura e da tecnologia? E por quanto tempo o autor terá acesso exclusivo a esse bem? Evidentemente, se a duração do direito for longademais, pode-se dificultar o aproveitamento social da criação. Portanto, é necessárioatingir um ponto de equilíbrio entre o estímulo à criação e o interesse social em usufruir oresultado da criação.Em 1710, a primeira lei inglesa sobre direitos autorais deu ao criador o direitoexclusivo sobre um livro por 14 anos, com direito a renovação por mais 14 anos, desdeque o autor estivesse vivo quando o período inicial expirasse.Curioso é notar que as práticas da “propriedade intelectual” são severamente anti-capitalistas. Deve-se lembrar aqui que o capitalismo pressupõe concorrência e tantopatentes, como direito de cópia, ou marcas, são monopólios garantidos pelo estado. Osprimeiros por um período de tempo determinado e as marcas por um períodoindeterminado.
A exploração comercial monopolista das distribuidoras
Assim, quando a propriedade intelectual foi concebida sua finalidade era conceder ao autor os ganhos exclusivos sobre a exploração de cópias da obra, sem concorrência.Entretanto, de fato os autores poderiam auferir algum lucro?Seria muito difícil. Pois, diferentemente do trabalho manual que modifica a matériaprima, e produz alterações nos objetos, aumentando seu “valor de uso”, o trabalhointelectual não possui necessariamente “valor de uso” vinculado a um objeto que possaser vendido, ,já que as ideias não são materiais.E, se uma ideia for reproduzida verbalmente não terá “valor de troca”, por maior queseja o seu “valor de uso”, pois não está limitada à produção de um meio material.No entanto, isso acontecerá se a ideia for copiada em algum meio material, como opapel, por exemplo.Assim, um escritor só poderá explorar a sua obra se também se tornar um editor econfeccionar um objeto vendável, como um livro ou um CD. E teria que possuir umaeditora, com todos os seus equipamentos e funcionários. Evidentemente, a grandemaioria dos escritores não quer assumir esse papel e não tem condições para tal.Entretanto, a compra de uma obra intelectual implica na aquisição conjunta de umbem e de serviços, ou seja, um meio material (por exemplo: o papel) sob o qual érealizado um serviço (a cópia). Após a invenção da imprensa, houve grande diminuição decustos dos serviços de cópia, o que obrigou os autores a alienarem seu “trabalhointelectual” aos editores, os detentores dos meios de produção que, em contrapartida,exigiram dos autores a concessão do monopólio da distribuição das obras.Portanto, embora o “trabalho intelectual” tenha um grande “valor de uso” emqualquer sociedade, seu “valor de troca” será sempre determinado por um produto(exemplos: o papel, o CD) em que estão embutidos serviços (exemplos: cópia manual,cópia impressa).Assim, o autor precisa ceder seus direitos de exploração, sem concorrência, e acaba

Share & Embed

More from this user

Add a Comment

Characters: ...