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Os dilemas da sociologia da técnica: do construtivismo social à teoria do actor-rede
José Pinheiro NevesCECS - Centro de Estudos Comunicação e Sociedadee CICS – Centro de Investigação das Ciências Sociais (Universidade do Minho)
Resumo
A palavra “técnica” tem origem no grego
techné
cuja tradução é
arte
. No ser humano,distinguindo-se dos animais, a técnica surge da sua relação com o meio e caracteriza-se por ser consciente, reflexiva e inventiva (Wikipedia, 2008). Na sociedade industrial, acontece umaintensificação da exteriorização iniciada pelo homem pré-histórico com o uso do lex e osurgimento da técnica da linguagem. Como é que os pensadores e cientistas sociais têm pensado atécnica? Em primeiro lugar, olhando-a como um mero instrumento de progresso. Em segundo,alguns autores optam por fazer um exorcismo da técnica como se ela fosse desumana. E finalmente,numa terceira óptica, o mundo da técnica e do humano entram numa espécie de fusão por vezescontraditória e difícil de compreender. Na fase actual da história da humanidade, as ligações“livres”, modernas e racionais sublinhadas pelo determinismo tecnológico e as ligações atractivasdo romantismo ligadas aos poetas e aos revoltados contra a técnica desumana, que nos aparecemcomo aparentemente opostas, são, de acordo com esta terceira visão, duas faces da mesma moedaque tornaram as ligações técnicas quase invisíveis e por isso mais eficazes e alienantes.Palavras chave: sociologia da técnica, construtivismo social, teoria do actor-rede
Abstract
The word "technique" is based on the Greek 
techné
whose translation was art. In humans,1
 
distinguishing themselves from the animals, the technique is a relationship with the environmentand it is characterized as conscious, reflexive and inventive (Wikipedia, 2008). In industrial society,happens an intensification of exteriorization started by prehistoric man with the use of flint and theemergence of the technique of language. How did the thinkers and social scientists have thought thetechnique? First, looking at it as a mere instrument of progress. Second, some authors choose to dosomekind of exorcism of the technique as it were inhumane. And finally, third view argues that theworld of the technical and the human is a kind of fusion sometimes contradictory and difficult tounderstand. At this stage of human history, the free links, underlined by the modern and rationaltechnological determinism and the links related to the romantic poets against inhumane technique,which appear as seemingly opposite, are, in this third approach, two sides of the same coin thatmade the connections techniques almost invisible and therefore more effective and alienating.Keywords: sociology of technique, social constructivism, actor-network theory
Introdução
A palavra ''técnica'' tem origem no grego
techné
cuja tradução é
arte
. A técnica, portanto,confundia-se com a arte tendo sido separada desta ao longo dos tempos. A técnica consisteactualmente nos procedimentos ou no conjunto de procedimentos que têm como fim atingir umresultado específico na área da Ciência, da Tecnologia, das Artes ou em outra actividade humana talcomo no trabalho. A técnica não é específica da espécie humana, pois também se manifesta, comformas muito rudimentares, na actividade de todo ser vivo como um factor essencial para a suasobrevivência. No ser humano, contudo, a técnica surge da sua relação com o meio e caracteriza-se por ser consciente, reflexiva e inventiva (Wikipedia, 2008). Na sociedade industrial, acontece umaintensificação da exteriorização iniciada pelo homem pré-histórico com o uso do lex e osurgimento da técnica da linguagem. A principal transformação situa-se num aspecto aparentementeinofensivo: o homem portador do objecto-ferramenta, que era acima de tudo um prolongamento damão, começa a desaparecer sendo substituído por agrupamentos de conjuntos técnicos e humanos2
 
com objectos cada vez mais concretos, mais atravessados pela intencionalidade que antes era um privilégio quase total do animal homem. Este deixa de ser o portador intencional da ferramenta para passar a fazer parte de um conjunto sócio-técnico (Stiegler, 1994 e 2004).
Quadro-síntese do pensamento acerca da técnicaCaracterísticasdas teoriasRealismo ligado aodeterminismo tecnológicoConstrutivismo social doshumanistasSimétria do humano e nãohumano (teoria do actor-rede,pós-feminismo, etc.)
Níveis de análisemais focalizados
Individual, grupo limitado ouredes de inovação técnica. Maso papel decisivo é reservado aoíndividuovel macro e também meso(níveis intermédios eorganizacionais ligados àsempresas e instituições).Rede/
agenciamento
que envolvehumanos e não-humanos(um nível
beyhond/above
grupo social)repensando a dicotomiamicro/macro. Vio ecológica.Importância das redes baseadas naInternet.
Posiçãoepistemológica eontológica
Predominantemente positivistadefendendo o modelos dasciências exactas. Domínio doracional.Mista: positivista nalgunsaspectos e interpretativa nosoutros. Defendem a ideia que sedeve resistir ao técnicovalorizando o papel do humano.Interpretativa ou interpretativa/críticavalorizando a ontologia edesmontando o papel da ciência.Valorização da investigação/acção.Importância dos saberes práticosdos actores sociais.
Conceptualizaçãogeral do processode mudança
Desenvolve-se principalmenteatravés de decisões racionais.Estas decisões são afectadaspor factores contextuais ligadosao processo: psicológicos,sociais e organizacionaisAtravés de modificações nasrelações de poder e nosaspectos culturais.A mudança implica processos detradução/deslocação e inscriçãodurante a evolução e estabilizaçãode um actor-rede. O processo de
tradução/deslocação
[
translation
]leva à criação de um novo actor-rede durável que corporizaobjectivos e intenções. Os aspectosracionais e irracionais aparecemmisturados em que as emoçoes têmum papel importante.
Fonte
: Mähring e outros (2004) [inspirado num quadro destes autores com profundas modificações].
De que forma os pensadores e cientistas sociais têm pensado a técnica? Em primeiro lugar,olhando-a como um factor determinante e refugiando-se em fronteiras bem definidas entre social enão social, vendo a técnica de uma foma realista como um mero instrumento de progresso. Emsegundo, alguns autores das ciências sociais e da filosofia optam por fazer um exorcismo da técnicacomo se ela fosse, nalguns casos, algo de maligno e desumano que nos pode mesmo destruir, ou,numa versão mais elaborada, como sendo atravessada pelo social, como um constructo dasinteracções humanas. E finalmente, numa terceira óptica, existem os que defendem que estamos3

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