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Pequena escola de liberdade
- Espere você ter filho, me diziam, quando eu falava sobre minha "filosofia da educação".Tive filho e o eduquei segundo minha filosofia. A frase virou: "Ah, bom, mas ele é especial, nãoconta". Acho que terei que produzir uma dezena de filhos, todos com mães diferentes, empaíses distintos, para provar que minha tese tem fundamento. Mesmo assim, como ocorreainda hoje com a Semco, haverá pessoas que dirão "ah, mas vá fabricar freezers na Sibériacom pigmeus do Benin para ver o que é bom".Foi assim quando lancei meu último livro em inglês e os editores queriam pagar U$$ 1.000pelos direitos em japonês. "O Japão é o contrário de tudo que você pensa, viu como o primeirolivro vendeu pouco lá. É só para constar, você vai achar graça em ter uma cópia em japonêspara mostrar para os netos." Uma semana depois de lançado, em 2006, estava em segundolugar como bestseller no Japão, perdendo apenas para o novo Harry Potter.Aprendi a ser persistente, a esperar os verdadeiros resultados, ao invés de contar com o "bomsenso" das pessoas e da sabedoria popular. Afinal, o bom senso é necessariamente o sensocomum, e o senso comum é, por definição, não inovador.Isso ficava evidente quando eu percebia como a escola do senso comum entregava à Semcoadultos totalmente condicionados. E, como Orwell previu, condicionados a serem submissos, aesperarem instruções, a se submeterem à uniformização. Depois de passar mais de duasdécadas tendo de desprogramar no trabalho o que lhes foi transmitido desde o jardim deinfância, resolvemos mudar o sistema no momento certo: o jardim de infância.Assim nasceu o projecto Lumiar da Fundação Semco, presidida por Caio Túlio Costa. Quandocomecei a Fundação há 15 anos, com o dinheiro da venda do Virando e das palestras, resolvifocar nos talentos brasileiros que não teriam financiamento e que provavelmente veriam seupotencial desperdiçado.Passamos anos trabalhando com escolas, entidades, governo e associações que incentivavamtalentos especiais, e até superdotados. Tivemos casos bonitos, mas, no frigir dos ovos,fracassamos. Procurávamos crianças que se destacavam pela inteligência, o que, comfrequência, é ruim para elas próprias. Afinal, uma criança que tem a mente especialmentedireccionada à matemática morre de tédio nas aulinhas bobas, e se desliga - muitas vezesevadindo-se, ou nem sequer passando nos exames.Talento vem, portanto, em todos os formatos. Para ser recepcionista ou vigia, atendente outriangulista profissional (sou fissurado em triangulista, o músico que mais me intriga - espera,espera, e bate naquele instrumento uma única vez!). A Fundação procurou, e achou essescasos interessantes, mas percebeu que tarefa muito mais gratificante seria conceber umconceito de escola que o expelisse ninguém, dos mais talentosos aos que menosdemonstram vocação.Era preciso bolar uma nova arquitectura de aprendizado. Ficamos intrigados com isso, esaímos à cata de exemplos, para entender o estado da arte do ramo. Comecei a marcar almoços com ex-secretários e ministros da Educação, professores, filósofos. Conseguia reunir uma dezena deles para cada conversa, a questão era quente. Aos poucos, fui percebendo que,assim como ocorria no mundo das empresas, havia um pensamento monolítico. Que nãoconvencia, tinha defeitos gritantes, mas que as pessoas do ramo consideravam o possível.Inconformado com a pobreza desse conformismo, comecei a ler as bíblias do ramo. Freinet,Vygotsky, Piaget, Engestrom, Montessori e Dewey habitavam a mesinha de cabeceira. Fuitentando formatar um conceito na minha cabeça. Estava claro que a magia do aprendizado quehabitava a cabeça dos pensadores não encontrava reflexo na realidade das escolas.Como acontece no mundo das empresas, onde gurus de management desfilam exemplossaltitantes de empresas com funcionários apaixonados, radiantes e lucrativos - raramente
 
encontrados no mundo real - os educadores viam crianças que aprendiam com amor, apoio einteresse dos pais - que também mal existiam. Da mesma forma que o pensamento teóricoempresarial me parecia absurdo, as teorias pedagógicas careciam de substância e, sobretudo,de versão real.Formulei então minha teoria das caixinhas. No mundo adulto, a ideia é deixar a vida pessoalpara trás, sair de uma caixinha (apartamento) pela manhã, entrar em outra, sobre rodas(ónibus, metro ou carro) e chegar em outra maior (escritórios ou fábricas sem vista para fora),para ficar o dia inteiro, e voltar via caixa-sobre-rodas para a caixa-mãe. Lá, é sentar na frenteda caixinha-com-tela ou daquela caixa-com-Internet, depois cair desacordado por sobre umacaixa-com-colchão. No dia seguinte, transitar novamente entre caixinhas. Que vida!Na infância, a mãe deixa a criança na porta da escola, muitas vezes contra a vontade dabichinha, para ser "cuidada" e educada por terceiros. Uma caixinha da qual ela não pode sair,na qual ela é empilhada com outras 20 crianças, sem poder sair para o pátio (outra caixinha,aliás, da qual ela também não pode sair).Se isso for treinamento para uma vida insossa em caixinhas claustrofóbicas, é realmente umsistema exemplar. Se for para ensinar à criança que a vida é cruel, que nunca é possível fazer o que se quer, que mais tarde tudo será assim - cinzento, duro e repetitivo -, então o sistemaeducacional é um sucesso. Prepara, de fato, a criança para o miserável mercado de trabalhoque os pais míopes acham que será igual daqui a 15 anos, quando suas crianças virarem jovens adultos prontos para brigar, competir, atropelar e acotovelar, para serem capazes decomprar caixinhas maiores para morar, caixinhas mais rápidas para dirigir e caixinhas de cantono escritório para trabalhar. Onde pessoas dentro de caixinhas de organograma mandam emcaixinhas de cronogramas. Ora...O que está no âmago do que os pais procuram na educação? Afinal, as crianças são papéisem branco, prontas como esponjas para serem inculcadas com conhecimento e práticassociais? São matéria-prima para o difuso rei-pagão, o mercado de trabalho? Devem ser sacrificadas no altar do emprego, para eno serem declaradas sucesso ou fracasso,dependendo de quanto subirem na hierarquia das caixinhas?Se remontarmos à origem antropológica, é patente que a educação serve para desenvolver aspossibilidades da criança e expô-la ao contexto, para que ela possa superar rituais depassagem e se transformar num membro completo e autónomo da tribo.O nosso ritual de passagem ocorre aos 18 anos, quando uma criança ganha autonomia jurídicae é vista como tendo encerrado o ciclo em que deveria ser tutelada pelos pais e pela escola.Nesse meio tempo, sua educação é terceirizada pelos pais para a escola. Pais podem ir lá devez em quando para reuniões, mas, efectivamente, não mandam nada. Quem manda é oEstado, ou a instituição de ensino que é especializada em seu filho, instituições essas nãomuito chegadas a aceitar palpites.Quando me reúno com professores costumo perguntar a razão da estrutura das férias naescola: por que três ou mais meses de férias por ano, e agrupadas? Afinal, que criança precisade dois meses seguidos para se recuperar do ritmo escolar? E que nexo tem um sistema deférias que sujeita a criança a um stress intenso, seguido de tempo livre em demasia?As pessoas do ramo respondem com questões adultas, e mencionam clima, calor, tempo deplaneamento da escola. Não é a explicação, que vem a ser bem mais simples: as férias sãohistoricamente assim porque no âmbito rural - a origem da escola que conhecemos - ascrianças eram necessárias para ajudar na colheita.E o que colhem, hoje? Depois de duas semanas de férias, temos urgentemente de achar actividades para os pequenos. Toca colónia de férias, viagens stressantes com filas paralugares abarrotados. Oras, bolas, que sistema mal pensado.
 
O mesmo é verdade em relação ao currículo, concebido expressamente para os adultos. Asdisciplinas seguem a compartimentalização industrial: departamentos, disciplinas, onde cadaum se foca nas suas especialidades, fazendo discretos esforços para criar referências laterais.
Colombo e a dinastia Ming
É assim na escola, resultando em três horas por dia de lição de casa maçante e disciplinas quenão dialogam entre si. Em biologia, estudam-se sapos dilacerados enquanto em químicapensa-se em hidrogénio expandido, sai-se correndo para ler Machado de Assis e entregar alição sobre Átila, o Huno. Haja paciência. E capacidade hercúlea para juntar os pontinhos.De fato, nunca se juntam. Pergunto aos professores o que acontecia no Ocidente durante afamosa dinastia Ming, e todos fazem cara de pequinês diante de um lobo guará. Ora, CristóvãoColombo foi contemporâneo da dinastia Ming, quem diria.Pergunto sobre Gregor Mendel. Onde podemos encaixá-lo: como importante agostiniano, ouprecursor da teoria dos jogos, ou da probabilística, ou como pai da genética? Talvez, ao invésde inseri-lo na matemática, biologia ou história religiosa, devesse colocá-lo em culinária,capítulo das ervilhas.O mesmo com Leonardo da Vinci, que conviveu com a teoria das proporções antes de Mendel,mas também foi estudioso da aviação, dissecava cadáveres escondido e achava tempo parapintar frescos e a risonha Mona Lisa.Dividir disciplinas em áreas estanques leva, necessariamente, ao esquartejamento dasabedoria e da magia da referência cruzada. O resultado a Universidade de Chicago mediu: agente retém apenas 6,33% do que nos foi ensinado. Ora, quem quer desenhar um sistema deeducação que tenha uns 93% de perda total? O que poderia ser mais ineficaz e estúpido?O argumento que se segue é que a escola ensina as crianças a aprenderem a aprender. Ora,que bobagem. É só assistir a um bebé. Aprende a negociar depois de alguns meses. Comquem? A mãe dá aula de negociação?Depois de nove meses de vida, o bichinho começa a engatinhar. Somos nós que ficamos dequatro à frente, demonstrando como se faz? Depois de um pouco, começam, cambaleantes, aandar. Quem os ensina a aprender a aprender a andar? No fim dessa fase, começam a falar!Se nós achamos tão difícil aprender uma segunda língua, o que se dirá de aprender a falar dozero, para alguém que nunca falou? Somos nós, com ma-má, pa-pá e outras ingenuidadestolas que os ensinamos?Crianças vêm de fábrica com a habilidade de aprender a aprender. Ou foi você que ensinouseu filho ou sobrinha a dominar teclas obscuras de videogames - que nem leituras demoradasdo manual ensinam e que os pequenos entendem de imediato?Lembro de um jogo do Harry Potter, em que eu, com ar sábio, me propus a achar a saída deum labirinto para meu filho, quando ele tinha quatro anos.- Aqui, veja, meu filho, eu entoava com ar de mestre, enquanto corria com o famigerado Harrypor todas as salas.Depois de 12 minutos, concluí que o jogo estava com defeito, e estava pronto para devolver àloja com bilhete raivoso.- Empresta aqui, papai.- Hmmm...Ele desatou a bater com o Harry de frente numa parede. Eu, complacente, esperava que eledesistisse. Ele, porém, persistia, esmurrando a muralha, e eu alertando-o que isso não faziamuito sentido.

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