debaixo do pé de manga? Essa experiência gerouo projeto “Sementinha”, a escola debaixo damangueira, que demonstrou na prática e depoisde muita experiência e muita “desaprendizagem”que é possível, sim, fazer educação sem escola.Aprendemos também que só é possível fazerboa educação com os bons educadores. E istoé vital, porque os educadores ruins fazemeducação ruim. Essa experiência expandiu-segradativamente pelo interior de Minas, Vale deSão Francisco, depois para a Bahia, Maranhão, Vitória, no Espírito Santo, Vale do Jequitinhonha.Um belo dia, algumas fundações internacionaisque estavam muito preocupadas e atuandonessa questão da educação e da escolarizaçãonos paises do 3o. Mundo nos convidaram alevar isso para a África, e assim começamos atrabalhar em Moçambique, com educadores quetrabalhavam com crianças e jovens que viviamnos campos de refugiados de guerra. Ali, era umpaís destruído pela guerra civil e que tentavase reorganizar, realocar a população que viviaandando de um lado para o outro, perdida emcampos de refugiados. Buscavam fixar essaspessoas e criar um processo de educação. Elesreconheceram que o projeto “Sementinha” erauma possibilidade. Fomos para lá e a idéia seexpandiu, e depois adotaram nossas pedagogiastambém na Angola, Portugal e outros lugares,num processo de apropriação e adequaçãocomunitária, segundo as necessidades de cadapaís.
Pró-Menino - Na questão do espaço físicoda escola, ouvimos muito nos noticiários e jornais casos de crianças de diferentes sériesdividindo a mesma sala por falta de espaço,e que ficam sentadas no chão por falta decadeiras. O senhor defende que o espaçofísico é dispensável para a educação?
Tião - Recentemente, vi na televisão uma sériede denúncias e situações de escolas em fundosde casa, garagens e lugares absolutamenteinapropriados. O grande problema na minhaopinião não era o lugar, mas o conteúdo daquelaescola, pois em uma dessas reportagens, diziaque os meninos estavam ”aprendendo” sobremeio ambiente, enquanto estavam lá sentadosnum lugar que parecia um lixo! Por isso, oproblema maior não é o espaço, e sim o conteúdoe a forma, porque não depende se o menino estásentado em uma cadeira confortavelmente ousentado em cima de caixote. Se o aluno aprendealgo que não tem nada a ver com a sua vida esua realidade, isso não afeta sua formação. Oequivoco dessas matérias da imprensa é o focosimplesmente na escola como prédio, como seisso fosse a solução. Um outro aspectoé que, se mostrarmos escolas em prédioscom boa estrutura física, levantamosas seguintes perguntas: esses meninosestão aprendendo bem? Eles estão setransformando em cidadãos melhores? Épreciso começar a avaliar isso. Imaginemosos garotos que colocaram fogo no índioem Brasília. Com certeza eles estudaramnas melhores escolas da cidade, nosmelhores prédios e com ótima estruturae tiveram o máximo de escolarização. Noentanto, provavelmente a educação foizero, porque é impossível que um jovemseja capaz de fazer tamanha atrocidade.Então essa escola contribuiu ou deixoude contribuir com o quê? Por isso, não é olugar onde estão, mas o que efetivamenteaprendem e o que dá sentido à vida daspessoas.
Pró-Menino - E o que mais tedesagrada na educação formal?
Tião - A educação formal não cumpresua missão, pois a escola não educa,só escolariza. E outro ponto é que,atualmente, ela não forma pessoaséticas, justas, dignas, solidárias, masestá comprometida como um aparelhoideológico do mercado que, como falei,é volátil, e está formando pessoas parao mercado de trabalho, para seremcompetitivos, eficientes, e ganharem omáximo no mínimo de tempo, não importase eticamente ou não. E o pior é que nemisso a escola brasileira está fazendo bem.Basta vermos os últimos resultados doexame do Programa Internacional deAvaliação de Alunos (Pisa), que mede aavaliação de estudantes de 15 anos noscampos da leitura, escrita, matemáticae ciências. Os alunos brasileiros foramuma calamidade, e ficaram nos últimoslugares, ou seja, essa escola não conseguenem preparar gente para esse mercado,muito menos pessoas dignas e decentes.E quando falo escola, não é apenas aescolinha lá do interior, de ensino básicoou pública, mas também a universidade.Por exemplo, o ex-juiz Nicolau dos SantosNeto teve todas as escolas, fez MBA, pós-graduação, etc, mas esse individuo, comcerteza, nunca teve uma aula de éticae não sabe o que é isso, caso contrário,não faria tanta roubalheira. Para um casodesses, que é um desastre, a universidadeonde ele estudou deveria tomar-lheo diploma, porque ele rompeu com o juramento. Era o mínimo que deveria serfeito a bem da moralização do ensinosuperior brasileiro. E a universidadedeveria pedir desculpas à sociedade porter formado e diplomado pessoas comoo Dr. Lalau. Da mesma forma que eladeveria ser cumprimentada pelos bonsexemplos de cidadãos formados. Paramim, nossa escola deve nos prepararpara a construção de uma nação, de umpaís, e não apenas de mão-de-obra. Sequeremos um país ético, justo, com menoscorrupção, solidário, como podemos teruma escola que prepara pessoas só parao mercado, em que vale tudo e o maisesperto leva todas as glórias? Acreditoque esse modelo é um grande equívoco eque estamos em um momento crucial, emque é necessário rever tais parâmetros eparadigmas para construirmos o Brasil quequeremos e necessitamos. Se temos umaescola medíocre, de segunda categoria, opaís também continuará assim, um paísde segunda, então precisamos pensarqual escola queremos ter. Eu acho quepodemos vir-a-ser os campeões mundiaisde educação e construir escolas tão boase eficientes quanto as nossas seleções eequipes esportivas.
Pró-Menino - O Portal Pró-Meninoé um projeto comprometido com aimplementação dos direitos da criançae do adolescente. Qual é, na suavisão, a contribuição do Estatuto daCriança e do Adolescente (ECA) paraa educação brasileira?
Tião - A grande conquista do ECA foitrazer para a pauta da sociedade e daspolíticas públicas a importância e ovalor da criança e do adolescente comoprioridade em todas as ações e políticas.Já temos alguns anos de existência dessalei e da dificuldade de implementação,ou seja, sair do desejo e da legitimidadepara a prática, e fazer com que aspessoas e instituições assumam oECA como um exercício diário de vidadigna e cidadania plena para todos os
“É necessário rever os parâmetros e paradigmaseducacionais para construirmoso Brasil que queremos”
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Sandra Regina Mengardaleft a comment