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Tião Rocha ganhou o prêmio Empreendedor Social de 2007.
 Ele criou a “pedagogia da roda”, fezde um pé de manga uma sala de auladiferente e inventou jogos educativospara ensinar alunos com dificuldadesem determinadas áreas. O educadormineiro Tião Rocha, de 59 anos,fundou o Centro Popular de Culturae Desenvolvimento (CPCD) há 24 anoscom uma metodologia de educaçãoque “incomoda aqueles que nãoquerem sair do lugar”, nas palavrasdele mesmo, e critica a chamada“escolarização”, atualmente praticadapela maioria das escolas brasileiras.A experiência de Tião foi exportadapara países como Moçambique,Angola e Guiné-Bissau, na África,e sua iniciativa foi reconhecidarecentemente pela Fundação Schwabe o Jornal Folha de São Paulo, como prêmio Empreendedor Social de2007, que busca identificar líderesde organizações que desenvolvamprodutos ou serviços voltados àmelhoria da qualidade de vida e quesão exemplos a serem seguidos. Em entrevista concedida ao Portal Pró- Menino, o educador conta sobre suasexperiências pessoais e profissionais,e como são as concepções inovadorasque possui na área da educação.Confira abaixo a conversa na íntegra.
“Educador é aquele que aprende”
MARCELO IHA
Da redação do Portal Pró-Menino
Imagem: Divulgação
Portal Pró-Menino - O querepresentou para o senhor ser eleito oempreendedor social de 2007?
Tião Rocha - Primeiramente, foi uma boasurpresa e uma honra ter esse prêmio. Poroutro lado, é também um grande desafioser reconhecido por um trabalho e, aomesmo tempo, tornar-se uma referênciapara outras pessoas, educadores, projetose ter que me manter sempre atualizado.
Pró-Menino - Qual é sua principalcontribuição para a educaçãobrasileira nos dias atuais?
Tião - Fazer a separação entre o que é“educação” e o que é “escolarização” epropor não só caminhos alternativos,mas também alterativos, opções paraque tenhamos uma escola mais eficientee comprometida com a nação e comuma educação verdadeira e integral paratodos os meninos. Acredito que nossagrande contribuição é pensar fora dacaixa, do padrão ou do modelo histórico einstitucionalizado que está incrustado nosistema educacional escolar brasileiro.
Pró-Menino - Faz sentido a separaçãoentre a educação formal, aquela quese dá dentro do espaço físico, e aeducação informal, que acontece emoutros espaços de aprendizagem comoprojetos sociais, que são cada vez maispresentes no Brasil?
Tião - Primeiro precisamos separaro que eu chamo de “educação” e“escolarização”. Educação é um fim.Escolarização é um meio. Existe umprojeto de escolas que trabalha dentroda fôrma e, na maioria das vezes, dentrodo formol, ou seja, é uma escola que estáfechada em si mesmo, tem um conteúdo já pronto, um currículo fossilizado epré-definido há muitos anos, que nãose atualiza. Por isso o formol. Só mudaa data de ano para ano, mas o conteúdo,o programa e as matérias são os mesmos.E, na maioria das vezes, até o jeito deensinar é o mesmo. Essa dita educaçãoproduzida nesta escola não educa, masapenas escolariza, se reproduz ano apósano. Este é o aspecto crucial para mim,pois a escola não consegue cumprirnenhuma função social importante,nem a formação educacional integral(desejada por todos), nem a preparaçãopara vida profissional (desejada pelomercado), por exemplo. Alguns anosatrás, a gente dizia que a escola era oaparelho ideológico do Estado. Hoje, elaé o aparelho ideológico do Mercado, poisatende aos interesses dele e está à suamercê, preparando gente como mão-de-obra para um mundo volátil, excludente,seletivo, individualista, amoral ecompetitivo. Esta privatização da escolanão produz educação, mas escolarização,e esse é o ponto fundamental. Para quehaja educação de verdade e integral,temos que pensar além dos murosda escola, além das necessidades domercado e além do conteúdo focado pré-formatado. Temos que pensar em outrasformas de aprendizagem e não apenasde “ensinagem”, por isso a chamadaeducação não-formal está fora da fôrma,pois se aprende e se ensina outras “coisas”relativas ao dia-a-dia, à cidadania, à ética,à rua, à casa, à solidariedade, ao trabalho,à igreja, ao clube, às relações sociais, à vidasocial ativa. Se pensarmos em educaçãointegral no sentido pleno, ela vai muitoalém da escola, já que esta sozinha nãoconsegue, nem pode e nem deveria quererdar conta de tudo, da complexidade queé a vida de hoje. Precisamos construirmais espaços e tempo de aprendizageme de humanidade, portanto, de educação.Precisávamos mesmo separar e clarear otrigo do joio nessa história.
Pró-Menino - Algumas experiênciasiniciadas em Curvelo (MG) já estãosendo adotadas em outros países comoPortugal, Angola e Moçambique. Comofoi a entrada nesses países e por queeles se interessaram pela sua propostade educação?
Tião - Começamos em Curvelo há 24anos, a partir de uma pergunta: é possívelfazer educação sem escola, sem prédio,sem estrutura física, ou é possível a gentefazer uma boa escola e uma boa educação
 
“A escola atualmente não forma pessoas éticas, justas,dignas, solidárias, pois estácomprometida com os interessesdo mercado, do qual tornou-se aparelho ideológico” 
 
debaixo do pé de manga? Essa experiência gerouo projeto “Sementinha”, a escola debaixo damangueira, que demonstrou na prática e depoisde muita experiência e muita “desaprendizagem”que é possível, sim, fazer educação sem escola.Aprendemos também que só é possível fazerboa educação com os bons educadores. E istoé vital, porque os educadores ruins fazemeducação ruim. Essa experiência expandiu-segradativamente pelo interior de Minas, Vale deSão Francisco, depois para a Bahia, Maranhão, Vitória, no Espírito Santo, Vale do Jequitinhonha.Um belo dia, algumas fundações internacionaisque estavam muito preocupadas e atuandonessa questão da educação e da escolarizaçãonos paises do 3o. Mundo nos convidaram alevar isso para a África, e assim começamos atrabalhar em Moçambique, com educadores quetrabalhavam com crianças e jovens que viviamnos campos de refugiados de guerra. Ali, era umpaís destruído pela guerra civil e que tentavase reorganizar, realocar a população que viviaandando de um lado para o outro, perdida emcampos de refugiados. Buscavam fixar essaspessoas e criar um processo de educação. Elesreconheceram que o projeto “Sementinha” erauma possibilidade. Fomos para lá e a idéia seexpandiu, e depois adotaram nossas pedagogiastambém na Angola, Portugal e outros lugares,num processo de apropriação e adequaçãocomunitária, segundo as necessidades de cadapaís.
Pró-Menino - Na questão do espaço físicoda escola, ouvimos muito nos noticiários e jornais casos de crianças de diferentes sériesdividindo a mesma sala por falta de espaço,e que ficam sentadas no chão por falta decadeiras. O senhor defende que o espaçofísico é dispensável para a educação?
Tião - Recentemente, vi na televisão uma sériede denúncias e situações de escolas em fundosde casa, garagens e lugares absolutamenteinapropriados. O grande problema na minhaopinião não era o lugar, mas o conteúdo daquelaescola, pois em uma dessas reportagens, diziaque os meninos estavam ”aprendendo” sobremeio ambiente, enquanto estavam lá sentadosnum lugar que parecia um lixo! Por isso, oproblema maior não é o espaço, e sim o conteúdoe a forma, porque não depende se o menino estásentado em uma cadeira confortavelmente ousentado em cima de caixote. Se o aluno aprendealgo que não tem nada a ver com a sua vida esua realidade, isso não afeta sua formação. Oequivoco dessas matérias da imprensa é o focosimplesmente na escola como prédio, como seisso fosse a solução. Um outro aspectoé que, se mostrarmos escolas em prédioscom boa estrutura física, levantamosas seguintes perguntas: esses meninosestão aprendendo bem? Eles estão setransformando em cidadãos melhores? Épreciso começar a avaliar isso. Imaginemosos garotos que colocaram fogo no índioem Brasília. Com certeza eles estudaramnas melhores escolas da cidade, nosmelhores prédios e com ótima estruturae tiveram o máximo de escolarização. Noentanto, provavelmente a educação foizero, porque é impossível que um jovemseja capaz de fazer tamanha atrocidade.Então essa escola contribuiu ou deixoude contribuir com o quê? Por isso, não é olugar onde estão, mas o que efetivamenteaprendem e o que dá sentido à vida daspessoas.
Pró-Menino - E o que mais tedesagrada na educação formal?
Tião - A educação formal não cumpresua missão, pois a escola não educa,só escolariza. E outro ponto é que,atualmente, ela não forma pessoaséticas, justas, dignas, solidárias, masestá comprometida como um aparelhoideológico do mercado que, como falei,é volátil, e está formando pessoas parao mercado de trabalho, para seremcompetitivos, eficientes, e ganharem omáximo no mínimo de tempo, não importase eticamente ou não. E o pior é que nemisso a escola brasileira está fazendo bem.Basta vermos os últimos resultados doexame do Programa Internacional deAvaliação de Alunos (Pisa), que mede aavaliação de estudantes de 15 anos noscampos da leitura, escrita, matemáticae ciências. Os alunos brasileiros foramuma calamidade, e ficaram nos últimoslugares, ou seja, essa escola não conseguenem preparar gente para esse mercado,muito menos pessoas dignas e decentes.E quando falo escola, não é apenas aescolinha lá do interior, de ensino básicoou pública, mas também a universidade.Por exemplo, o ex-juiz Nicolau dos SantosNeto teve todas as escolas, fez MBA, pós-graduação, etc, mas esse individuo, comcerteza, nunca teve uma aula de éticae não sabe o que é isso, caso contrário,não faria tanta roubalheira. Para um casodesses, que é um desastre, a universidadeonde ele estudou deveria tomar-lheo diploma, porque ele rompeu com o juramento. Era o mínimo que deveria serfeito a bem da moralização do ensinosuperior brasileiro. E a universidadedeveria pedir desculpas à sociedade porter formado e diplomado pessoas comoo Dr. Lalau. Da mesma forma que eladeveria ser cumprimentada pelos bonsexemplos de cidadãos formados. Paramim, nossa escola deve nos prepararpara a construção de uma nação, de umpaís, e não apenas de mão-de-obra. Sequeremos um país ético, justo, com menoscorrupção, solidário, como podemos teruma escola que prepara pessoas só parao mercado, em que vale tudo e o maisesperto leva todas as glórias? Acreditoque esse modelo é um grande equívoco eque estamos em um momento crucial, emque é necessário rever tais parâmetros eparadigmas para construirmos o Brasil quequeremos e necessitamos. Se temos umaescola medíocre, de segunda categoria, opaís também continuará assim, um paísde segunda, então precisamos pensarqual escola queremos ter. Eu acho quepodemos vir-a-ser os campeões mundiaisde educação e construir escolas tão boase eficientes quanto as nossas seleções eequipes esportivas.
Pró-Menino - O Portal Pró-Meninoé um projeto comprometido com aimplementação dos direitos da criançae do adolescente. Qual é, na suavisão, a contribuição do Estatuto daCriança e do Adolescente (ECA) paraa educação brasileira?
Tião - A grande conquista do ECA foitrazer para a pauta da sociedade e daspolíticas públicas a importância e ovalor da criança e do adolescente comoprioridade em todas as ações e políticas.Já temos alguns anos de existência dessalei e da dificuldade de implementação,ou seja, sair do desejo e da legitimidadepara a prática, e fazer com que aspessoas e instituições assumam oECA como um exercício diário de vidadigna e cidadania plena para todos os
“É necessário rever os parâmetros e paradigmaseducacionais para construirmoso Brasil que queremos” 
 
meninos. Nesse aspecto ainda falta muito, porexemplo, segundo dados do SIMAVE, de 2003,dos alunos com oito anos de escola, somente3,3% das crianças do Vale do Jequitinhonhaalcançaram o índice de suficiência, enquanto96,7% estavam abaixo desse índice em umacategoria chamada de insuficiência. E mais de50% deles estavam num estágio chamado deestado crítico. Essa estatística mostra a falênciado sistema de ensino porque se mais de 96%desses estudantes não aprenderam, a escolaformou uma massa de gente analfabeta e semi-analfabetos. Essas crianças não serão cidadãospor inteiro, mas só meio cidadãos, pois nãoterão acesso e possibilidade de se desenvolverplenamente, nem no próprio no mercado detrabalho. E o que aconteceu? Nada! A culpa dofracasso escolar ficou na conta das própriascrianças, de vitimas passaram a culpados pelopróprio analfabetismo. O Conselho Tutelar ou oConselho de Direitos deveriam intervir nessasescolas e obrigá-las a alfabetizar e bem todasas crianças. É um direito inalienável delas.Todos os meninos que passam oito anos noensino fundamental deveriam sair da escolabem formados, alfabetizados integralmente, eisso é obrigação do Estado e da Sociedade, umdireito previsto pela Lei. Nunca vi ou ouvi falar,mas gostaria de ver um Conselho de Direito ouTutelar pedir ao Ministério Público para fecharuma escola por incompetência ou a obrigassea alfabetizar todos os alunos, sem exceção.Metade das escolas desse país teriam queser fechadas ou multadas pelo PROCON (porenganarem o consumidor) por não entregaremà sociedade os estudantes preparados comoprometido e previsto pelo ECA. Não adiantaficar fazendo programas paralelos, a escola deveter o compromisso e a obrigação de ensinar atodos sem excluir. Se o menino não aprende, aculpa não é dele, mas da escola, pois todos sãoaptos para aprender tudo, no seu tempo e noseu ritmo. Deveria ser proibido deixar qualquercriança sair da escola sem aprender o mínimonecessário para sua vida social, como cidadãobrasileiro. No dia em que isso acontecer, o ECAtorna-se efetivo.
Pró-Menino - O que o senhor achana mudança do LBD que insere osdireitos da criança e do adolescenteno currículo do Ensino Fundamental?
Tião - Tenho muito receio dessas medidasque visam “curricularizar” a vida, poisquando se pega qualquer assunto e ocoloca em uma grade curricular, podeser uma forma de se ter controle evirar apenas uma matéria a mais. Oque era para ser bom, vira uma chatice.Imagina se o tema Solidariedade virarmatéria curricular, nada garante que oíndice de solidariedade entre as pessoasvá aumentar. O que precisa é praticarsempre, todo dia, a solidariedade e nãoter trabalho e prova sobre o assunto. Naépoca dos governos militares, em todaescola tínhamos uma disciplina chamada“Educação Moral e Cívica” no ginásio,Organização Social e Política Brasileira/OSPB no 2o. Grau, e Estudo dos ProblemasBrasileiros/EPB nas universidades, que amoçada chamava de “estuprobrás”. Todaseram obrigatórias, repletas de doutrinas eideologismos, quando não de propagandaestatal. Por isso, tenho receio dessamudança na lei, porque deve haver umaprática diária dos direitos das crianças edos adolescentes, e não ficar guardandoisso como aula na grade curricular. Comoação viva da educação, acho muito legal eimportante, mas o duro é ter uma aulinhadisso por semana no meio de dez aulasde matemática e outras tantas matérias,e a cidadania tornar-se um adereço oualegoria. Aí é bobagem e perda de tempopara quem ensina e quem aprende.
Pró-Menino - Como suas experiênciasescolares influenciaram as opçõesprofissionais e a prática comoeducador atualmente?
Tião - Minha experiência na escolafoi ruim, como a maioria das criançasno Brasil. Tive uma escola excludente,seletiva, preconceituosa e racista, porqueera uma escola branca, européia, cristãe capitalista como é, até hoje. Percebique tinha duas alternativas: ou eu meajustava e aceitava aquilo como valor,ou me rebelava. É claro que optei pelasegunda, e isso tem um preço a sepagar, pois a maioria daqueles que serebelam, tornam-se os marginais, osmeninos-problema. Por outro lado, tiveuma compensação que foi fundamentale me marcou muito, pois meu ambientecomunitário era muito bom. Isso meajudou muito não só a enfrentar, mastambém a estabelecer uma formaçãomelhor. Por isso sou contra tirar osmeninos da rua. Não quero tirá-los de lá,mas sim mudar a rua, pois ela é o lugarda cidadania, da manifestação cívica, poronde passam as procissões religiosas,onde se comemoram títulos de futebol,onde há o ato público, a festa popular,a passeata pela greve ou manifestaçãopelos direitos da criança, pelos direitoshumanos, etc. Quer dizer, a rua é umespaço importante de aprendizagem,então por que temos que tirar os meninose meninas dali? O lugar deles é na rua,na praça, no coreto, no shopping, nosestádios, nas escolas, em todo lugar. Ouele é cidadão por inteiro ou ele é cidadão“meia boca”, e me incomoda muito essesdiscursos que dizem demagogicamente“lugar de criança é na escola”, pois eu faloque é na escola só se for aprendendo. Eo que tento fazer atualmente é trabalharem comunidades que façam das suasruas e bairros, espaços permanentesde educação. Eu tive a possibilidadede viver numa rua muito boa, que meajudou muito para a não-aceitação domodelo padrão e autoritário de escola ede educação. Tudo isso foi fundamentalpara minha vida e para a opção do quefaço e acredito hoje.
Pró-Menino - Como a família foiimportante na sua formação?
Tião - A família é importante para todomundo, mas quando falamos nela,também temos que ter claro do que e dequem estamos falando. Família pode sero pai, a mãe, os irmãos, os primos e todasas relações de parentescos envolvidas.Boa parte das famílias de nosso país sótem a mãe com uma penca de filhosporque o pai sumiu. Outras têm só aavó, e há crianças que saíram de casa
“Gostaria de ver um Conselho de Direito ou Tutelar que pedisse aoMinistério Público para fechar uma escola por incompetência oua obrigasse a alfabetizar todosos alunos, sem exceção”.“Ao contrário de a maioriadas instituições dizerem que temos de tirar os meninos darua, não quero tirá-los de lá,mas sim mudar a rua” 

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