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R. bras. Est. pedag., Brasília, v. 87, n. 216, p. 291-301, maio/ago. 2006.Eulália H. MaimoniOrmezinda Maria Ribeiro
vez de alfabetizada e, principalmente,qual a diferença entre ser alfabetizado eser letrado?Pautaremos nossas reflexões tentandoresponder a essas questões empregando umcaminho oposto: partiremos da última ques-tão apresentada para chegarmos à primeira,de modo a suscitar a compreensão de umponto crucial a nossa reflexão, o que é ler.Uma pessoa pode ser considerada al-fabetizada se aprendeu a ler e escrever, masnão se apropriou da leitura e da escrita,incorporando as práticas sociais que as de-mandam. Assim, alfabetizados são aque-les que decodificam o sinal gráfico, que re-conhecem as letras, as copiam de formalegível, pronunciam os sons que elas re-presentam, mas não saem desse nível decompreensão - não são capazes de ''tradu-zir'' em outras palavras aquilo que ''leram''ou ''escreveram''. Letrada é aquela pessoaque se envolve nas práticas sociais de lei-tura e de escrita, alterando seu estado oucondição do ponto de vista social, cultu-ral, político, cognitivo, lingüístico e atéeconômico. O letrado não somentedecodifica os sinais gráficos, mas é capazde associar a eles situações específicas deum determinado grupo social nos momen-tos distintos de sua história, em dada situ-ação de interação verbal.Assim, o letramento pode ser enten-dido como resultado da participação empráticas sociais que usam a escrita comosistema simbólico. Ter o domínio da lin-guagem escrita de uma língua não é somen-te aprender as palavras, familiarizar-se comseus sons e aspectos gráficos, mas apro-priar-se de seus significados culturais e, apartir deles, entender como as pessoas deseu meio social compreendem e interpre-tam a realidade.Portanto, ser alfabetizado não é o mes-mo que ser letrado. Embora se associe le-tra a alfabeto e, conseqüentemente, surjaa idéia de que alfabetizar é conhecer asletras, a diferença conceitual é bastantesignificativa.Indivíduos há que reconhecem as le-tras, pronunciam suas combinações, que seapresentam em forma de palavras, frases eaté em forma de texto, assinam seus no-mes, copiam outros textos, mas não com-preendem o exercício que realizaram. Issoé facilmente perceptível nas crianças emfase de ''alfabetização''. Elas, embora sejamfalantes da língua na qual estão se alfabe-tizando, apresentam uma habilidade emcopiar o que está escrito no livro ou no qua-dro-de-giz, repetem de forma mecânica acombinação de sons representados pelasletras, mas não estabelecem, em princípio,a relação simbólica que há entre essa com-binação sons/letras e a realidade.Em outras palavras, a aprendizagemda língua escrita não é apenas a transcri-ção da oralidade, mas está associada às ati-vidades discursivas nas quais os indiví-duos estão envolvidos.Se viajarmos na História, vamos per-ceber que o grande divisor de águas paraa Humanidade foi exatamente a apropria-ção da escrita. Caminhando no tempoconstataremos que as grandes revoluçõesse fizeram a partir das letras, da "luz" queelas trouxeram ao mundo, em oposição às"trevas", representadas pela ausência deleitura, pela não apropriação da cultura,depositada nos livros e patrimônio sólidoe bem guardado daqueles que, coinciden-temente, detinham o poder. Aproximan-do-nos dos tempos atuais reconhecemosque a história não mudou. Aquele quedetém o poder de comunicação, aquele quede fato lê e escreve, detém também o po-der sobre os demais. Em um mundo car-regado de símbolos, no qual a palavra é oelemento de poder, não se pode fechar osolhos para essa questão. Quem lê se so-bressai aos demais. O grande marcodivisor ainda é a escrita. Quer seja sobre opapel ou cristal líquido.A leitura é, mais do que antes, a cha-ve para a ascensão social. A própria trans-formação da sociedade exigiu umaredefinição das práticas sociais, que hojeincluem fazer uso constante da leitura eda escrita como condição para ser um ci-dadão no sentido pleno da palavra. Porisso, em nossa sociedade, hoje, é comum,por exemplo, crianças ainda ágrafas já se-rem letradas, pois estão rodeadas de ma-terial escrito e já percebem seu uso e suafunção, já adentraram, portanto, ao mun-do do letramento.Esse fato nos leva a compreender a di-ferença conceitual entre letramento e alfa-betização. Nossas crianças, devido à gran-de exposição à leitura do universo no qualestão inseridas, ao contato com as múlti-plas possibilidades de leitura, embora en-trem na escola sem saber ler e escrever, jásão crianças, de certa forma, letradas.Ao incorporar esse novo conceito nonosso vocabulário educacional, começa-mos a compreender, como educadores, que