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ESTUDOS
Eulália H. MaimoniOrmezinda Maria Ribeiro
Família e escola: uma parcerianecessária para o processo deletramento
Resumo
Aborda questões que envolvem as práticas de leitura e escrita na escola e a interfe-rência da família nesse processo, considerando as concepções de letramento quesubjazem a essa prática e como a família tem contribuído para a mudança ou para acristalização das práticas escolares de leitura e escrita que emergem dessas diferentesconcepções. Com base em pesquisas realizadas na Universidade de Uberaba, são apre-sentadas as implicações da participação de pais para a proficiência em leitura e escritade alunos de ensino fundamental.Palavras-chave: letramento; práticas de leitura e escrita; família.
Compreender, na perspectiva discursiva,não é, pois, atribuir um sentido, mas co-nhecer os mecanismos pelos quais se põeem jogo um determinado processo designificação.(Orlandi, 1993, p. 117)
Nossa atenção, neste artigo, estará es-pecialmente voltada para as questões queenvolvem as práticas de leitura e escritana escola e a interferência da família nes-se processo. Dois aspectos são essenciaisa essa reflexão: as concepções deletramento que subjazem a essa prática e
 Abstract 
 Family and school: a necessary partnership for the literacy process
This article approaches questions that involve reading and writing in the school and the interference of the family in this process, considering the conceptions of literacy and  how the family contributes for the change or the crystallization of the schooling practicesof reading and writing that emerge from these different conceptions. According to researchescarried through in the University of Uberaba, the implications of the participation of  parents for the proficiency in reading and writing of basic education pupils are presented. Keywords: literacy; reading and writing; family.
R. bras. Est. pedag., Brasília, v. 87, n. 217, p. 291-301, set./dez. 2006.
como a família tem contribuído para amudança ou para a cristalização das práti-cas escolares de leitura e escrita que emer-gem dessas diferentes concepções.A maneira como encaramos nosso ob-jeto de estudo interfere no modo como li-damos com ele; portanto, para iniciarmosnossa reflexão, é fundamental que façamosalguns questionamentos. Assim, começa-remos indagando: o que é ler? A famíliado educando compreende o sentido de lei-tura tal como a escola à qual confia a edu-cação de seu filho? De que forma e quandose pode considerar uma pessoa letrada em
 
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R. bras. Est. pedag., Brasília, v. 87, n. 216, p. 291-301, maio/ago. 2006.Eulália H. MaimoniOrmezinda Maria Ribeiro
vez de alfabetizada e, principalmente,qual a diferença entre ser alfabetizado eser letrado?Pautaremos nossas reflexões tentandoresponder a essas questões empregando umcaminho oposto: partiremos da última ques-tão apresentada para chegarmos à primeira,de modo a suscitar a compreensão de umponto crucial a nossa reflexão, o que é ler.Uma pessoa pode ser considerada al-fabetizada se aprendeu a ler e escrever, masnão se apropriou da leitura e da escrita,incorporando as práticas sociais que as de-mandam. Assim, alfabetizados são aque-les que decodificam o sinal gráfico, que re-conhecem as letras, as copiam de formalegível, pronunciam os sons que elas re-presentam, mas não saem desse nível decompreensão - não são capazes de ''tradu-zir'' em outras palavras aquilo que ''leram''ou ''escreveram''. Letrada é aquela pessoaque se envolve nas práticas sociais de lei-tura e de escrita, alterando seu estado oucondição do ponto de vista social, cultu-ral, político, cognitivo, lingüístico e atéeconômico. O letrado não somentedecodifica os sinais gráficos, mas é capazde associar a eles situações específicas deum determinado grupo social nos momen-tos distintos de sua história, em dada situ-ação de interação verbal.Assim, o letramento pode ser enten-dido como resultado da participação empráticas sociais que usam a escrita comosistema simbólico. Ter o domínio da lin-guagem escrita de uma língua não é somen-te aprender as palavras, familiarizar-se comseus sons e aspectos gráficos, mas apro-priar-se de seus significados culturais e, apartir deles, entender como as pessoas deseu meio social compreendem e interpre-tam a realidade.Portanto, ser alfabetizado não é o mes-mo que ser letrado. Embora se associe le-tra a alfabeto e, conseqüentemente, surjaa idéia de que alfabetizar é conhecer asletras, a diferença conceitual é bastantesignificativa.Indivíduos há que reconhecem as le-tras, pronunciam suas combinações, que seapresentam em forma de palavras, frases eaté em forma de texto, assinam seus no-mes, copiam outros textos, mas não com-preendem o exercício que realizaram. Issoé facilmente perceptível nas crianças emfase de ''alfabetização''. Elas, embora sejamfalantes da língua na qual estão se alfabe-tizando, apresentam uma habilidade emcopiar o que está escrito no livro ou no qua-dro-de-giz, repetem de forma mecânica acombinação de sons representados pelasletras, mas não estabelecem, em princípio,a relação simbólica que há entre essa com-binação sons/letras e a realidade.Em outras palavras, a aprendizagemda língua escrita não é apenas a transcri-ção da oralidade, mas está associada às ati-vidades discursivas nas quais os indiví-duos estão envolvidos.Se viajarmos na História, vamos per-ceber que o grande divisor de águas paraa Humanidade foi exatamente a apropria-ção da escrita. Caminhando no tempoconstataremos que as grandes revoluçõesse fizeram a partir das letras, da "luz" queelas trouxeram ao mundo, em oposição às"trevas", representadas pela ausência deleitura, pela não apropriação da cultura,depositada nos livros e patrimônio sólidoe bem guardado daqueles que, coinciden-temente, detinham o poder. Aproximan-do-nos dos tempos atuais reconhecemosque a história não mudou. Aquele quedetém o poder de comunicação, aquele quede fato lê e escreve, detém também o po-der sobre os demais. Em um mundo car-regado de símbolos, no qual a palavra é oelemento de poder, não se pode fechar osolhos para essa questão. Quem lê se so-bressai aos demais. O grande marcodivisor ainda é a escrita. Quer seja sobre opapel ou cristal líquido.A leitura é, mais do que antes, a cha-ve para a ascensão social. A própria trans-formação da sociedade exigiu umaredefinição das práticas sociais, que hojeincluem fazer uso constante da leitura eda escrita como condição para ser um ci-dadão no sentido pleno da palavra. Porisso, em nossa sociedade, hoje, é comum,por exemplo, crianças ainda ágrafas já se-rem letradas, pois estão rodeadas de ma-terial escrito e já percebem seu uso e suafunção, já adentraram, portanto, ao mun-do do letramento.Esse fato nos leva a compreender a di-ferença conceitual entre letramento e alfa-betização. Nossas crianças, devido à gran-de exposição à leitura do universo no qualestão inseridas, ao contato com as múlti-plas possibilidades de leitura, embora en-trem na escola sem saber ler e escrever, jásão crianças, de certa forma, letradas.Ao incorporar esse novo conceito nonosso vocabulário educacional, começa-mos a compreender, como educadores, que
 
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R. bras. Est. pedag., Brasília, v. 87, n. 216, p. 291-301, maio/ago. 2006.Família e escola: uma parceria necessária para o processo de letramento
nossa questão não é apenas ensinar a lere escrever, mas é muito mais do que isto:é possibilitar a plena participação sociala partir das práticas sociais da leitura eda escrita, que deverão ser desenvolvidascotidianamente.De um modo geral, a escola trabalhacom diferentes práticas de leitura. Pela suaprópria função e especificidade, essas prá-ticas diferem de outras práticas de leiturano campo social, já que não se trata so-mente de uma necessidade da vida coleti-va, mas têm como objetivo explícito a for-mação de leitores. Todavia, essaespecificidade da leitura escolar não adesvincula do campo social mais amplo,pois a leitura só tem sentido como umaprática social porque é parte de uma ca-deia de significação, conforme postulaBakhtin (1990, p. 58).Se, por um lado, a escola objetiva aformação do sujeito, o que implica todo umleque de intencionalidades para formar lei-tores em potencial, por outro, é imprescin-dível a busca de resgatar as funções e usossociais da leitura, que vão garantir que esseleitor alcance seus objetivos e processos nouso da leitura.Contudo, no espaço de sala de aula,onde as experiências de leitura deveriamse aprofundar, a ênfase recai no processode sistematização da leitura, quase queem detrimento das outras possibilidades,e os responsáveis pelo processo deletramento ou leiturização acabam em-pregando como pretextos textos e frag-mentos de textos retirados quase que ex-clusivamente de livros didáticos e pro-pondo uma leitura destinada unicamen-te a desenvolver ou avaliar conhecimen-tos lingüísticos, no sentido restrito.Nesse caso percebemos que a concep-ção de linguagem que subjaz a esse traba-lho é, quase sempre, a de linguagem comoexpressão do pensamento, ou como instru-mento de comunicação, em que o sentidoestá dado pelo signo lingüístico,desvinculado de suas condições de produ-ção e de seus usos e funções reais. Nãoimportam as estratégias ou os veículosmateriais; a revista e o jornal são trabalha-dos na mesma lógica que os textos didáti-cos ou os livros de literatura. Dá-se ênfaseapenas à capacidade de verbalização daleitura. Suas possibilidades sociais nãosão trabalhadas ou discutidas, uma vezque a professora, apesar de ciente delas,não encontrou formas de incorporaçãodesse suporte que sejam diferentes daque-las historicamente escolarizadas.Bortone e Ribeiro (2000, p. 66) desta-cam que a prática de leitura na escola fra-cassa justamente pela forma como éoperacionalizada. A leitura do texto é tra-balhada linearmente, com a decodificaçãode conteúdos a serem avaliados. Soma-sea esses fatores o fato de se reduzir a leituraapenas a textos literários, tornando o pro-cesso irreal e particularizado. Dessa ma-neira, as agências de letramento não con-tribuem no sentido de explicar os usos eas funções sociais da leitura e da escrita.As diversidades de práticas discursivas quecaracterizam as várias modalidades de lei-tura são, pois, reduzidas às de prestígio natradição escolar.E quais seriam as condições para quea escola desenvolvesse essas habilidades?Onde entra a família nesse processo? Qualé efetivamente o seu papel para a constru-ção de um processo de letramento ideal?Bortone e Ribeiro (2000, p. 66) afir-mam, ainda, que a primeira condição é ga-rantir uma escolarização real e efetiva.Toda a escola – direção, professores, corpodiscente – e as famílias dos alunos deveri-am engajar-se em um amplo projeto deleiturização que propusesse formas alter-nativas e produtivas para tornar não só osalunos, como também os professores (in-dependentemente de sua área de atuação),cada vez mais proficientes nos diversos ti-pos de textos. Desse modo, a leitura não seresumiria à decodificação de sons em le-tras, mas trabalharia as habilidadescognitivas e metacognitivas que incluiri-am a capacidade de interpretar idéias, defazer analogias, de perceber o aspectopolissêmico da língua, seus diversos sen-tidos, entre eles a ironia, de construirinferências, de combinar conhecimentosprévios com a informação textual, de alte-rar as previsões iniciais, de refletir sobre oque foi lido, sendo capaz de tirar conclu-sões e fazer julgamentos sobre as idéiasexpostas, entre outros.A segunda condição, para Bortone eRibeiro (2000), é que haja um material deleitura disponível e de qualidade. Comoé possível tornar nossos alunos letradossem uma boa biblioteca, sem a leitura derevistas e jornais, ou seja, sem um ambi-ente real de letramento? É necessário,portanto, que os alunos tenham acessoconstante a bons livros didáticos eparadidáticos, obras técnicas e teóricas,
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