Revista da ADUEL
Setembro de 2003Página
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No modelo neoliberal,as crises do capitalismonunca são endógenas aomercado, mas decorrentesde fatores externos
cursos, tempo, trabalho, docência,pesquisa etc. Com efeito, a autonomia,na formulação de Hayek, permite que arazão última da universidade sejadeterminada pelo mercado. Esta con-cepção de autonomia desinstitucionalizaa universidade, transformando-a emorganizações sociais que, entretanto, jácomeçam a se configurar como novasinstituições que não poderão merecer onome de universidade.Para me desincumbir da tese aquiproposta, discuto: 1) a noção deautonomia nos neoliberais (Hayek, BancoMundial); 2) no pensamento moderno(Humboldt); 3) na universidade bra-sileira, em um breve histórico “dauniversidade interrompida às atuaismedidas governamentais” destinadas a“desregulamentar” a ConstituiçãoFederal, e 4) algumas mudanças nauniversidade de hoje que corroboram atese da privatização, como o redi-recionamento das pesquisas para omercado, a difusão de um “novo espíritodo capitalismo” em consonância com o
management
e a desregulamentação eflexibilização decorrentes das políticas doEstado.
2.1 Autonomia no pensamentoliberal
Em sua origem, o liberalismo é umpensamento da emancipação: eman-cipação do social em relação à he-teronomia religiosa e emancipação doindivíduo em relação ao social. Estemovimento conduz a um espaço deliberdade política, metafísica e ética. Oproblema, cedo identificado pelosclássicos, é como restringir a liberdade. Aqui, segundo Hayek (1998), se definemduas correntes liberais:i) a dos antigos liberais ingleses – David Hume, Adam Smith, Burke,Gladstone, entre outros. “Foi essaconcepção de liberdade individual dentroda lei que inspirou os movimentos liberaisno continente europeu e se tornou a baseda tradição política dos EUA. Alguns dosprincipais pensadores políticos nessespaíses como B. Constant, Tocqueville,Kant, Schiller, Humboldt, Madison,pertencem integralmente a ela” (Hayek,1998:47) eii) o racionalismo construtivistafrancês. Em vez de advogar limitaçõesde poder ao governo, acabou defen-dendo os poderes ilimitados da maioria(Voltaire, Rousseau, Condorcet e daRevolução Francesa, a base do socialismomoderno).Em comum, as duas correntessustentam que a liberdade individual éfreada pela razão. A primeira com-preende as leis como o resultado daevolução cultural (tradição, ordemautogerada, espontânea, mão invisível);a segunda, como construção deliberadados homens que requer instituiçõescomo parte deum plano so-cialmente con-cebido.
Autonomia eneoliberalismo
Na tradi-ção liberal rei- vindicada pelosneoliberais, omercado é oespaço da autonomia. O liberalismoassocia mercado e liberdade. Como vistoacima, para os neoliberais, toda normaemanada da maioria acaba sufocando aliberdade individual. A regulação domercado é muito mais condizente com a“natureza” humana do que aempreendida pelo Estado. Hayek tentasustentar que o livre mercado naInglaterra surgiu por uma evolução lenta,na qual o Estado desempenha umreduzido papel. Entretanto, não explicaa intervenção do Estado para transformara terra comum em propriedade privada,um dos pilares que explicam osurgimento de uma classe capitalizada,capaz de empreender a industrialização(Gray, 2000). As análises neoliberais do Estado sefundamentam nos pressupostosneoclássicos sob a sua forma maisortodoxa. Sustentam que a extensão dopapel do Estado é a causa exclusiva dasdificuldades das sociedades con-temporâneas. A crise não é da economiade mercado e do capitalismo, mas doEstado, das atividades e instituiçõespúblicas. A ação do Estado na economiaé desestabilizadora e perturba omercado; o funcionamento dos serviçospúblicos é necessariamente ineficaz, e ofuncionamento das instituições políticas,no regime democrático, conduz a umahipertrofia do Estado e das intervençõespúblicas.Segundo Friedman, as políticaseconômicas do Estado são inflacionárias,em especial, a do pleno emprego, queimpede o equilíbrio do mercado em tornoda “taxa natural de desemprego”. Para a“Public Choice”, é necessário examinaros mecanismos endógenos subjacentes àspolíticas de Estado. Conforme estacorrente, as intervenções públicasproduzem uma “burocracia” que utilizaas verbas públicas de forma menos eficazdo que o mercado. Argumentam quenunca existe um controle pleno doscidadãos sobre osburocratas quegastam mais do queseria necessário, visto que o objetivodo burocratismo é amaximização de seuorçamento. Paraalcançarem essesobjetivos, estabe-lecem alianças comgrupos de pressão, por meio de práticasclientelistas. O funcionamento do sistemademocrático tende a dar mais poder aosinteresses particularistas – quedemandam mais gastos públicos – queaos contribuintes.Em suma, na perspectiva da “PublicChoice”, as ações dos políticos,burocratas e eleitores, são análogas àsdas firmas no mercado. As firmasmaximizam a busca de lucros, os políticosmaximizam a busca de votos; as firmasdesejam consumidores, os políticos,eleitores. Em retribuição, a classe políticapromete verbas para os distritos eleitoraise a ampliação dos serviços públicos.Similarmente, os burocratas buscamampliar os seus salários e o orçamentode seu setor. Com isso, mais impostossão requeridos, rebaixando a taxa delucro. Estes teóricos concluem que fazparte do jogo democrático o (indese-jável) crescimento do Estado. O objetivodas políticas neoliberais é, então, rompercom este círculo vicioso. Com efeito, aprivatização é defendida neste escopocomo uma medida capaz de reduzir osgastos estatais e, ao mesmo tempo, adívida pública, pelo ingresso da receitadas privatizações (equilíbrio fiscal). A ideologia neoliberal celebra aauto-organização do mercado: é umaideologia do equilíbrio, da auto-regulação do sistema e da autonomia(aqui compreendida como desconexão emrelação ao Estado). Nesse modelo, ascrises do capitalismo nunca são endó-