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fogo
EDUCAÇÃO
Viam-se a si próprios até há pouco tem-po como uma corporação de bombeiros,que se dedicava nas escolas a apagarincêndios:os decorrentes das incongruên-cias das sucessivas políticas para a edu-cação.
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Agora são eles que estão de-baixo de fogo,num processo incendiáriocriado,acusam,para transformar a ac-tividade docente numa competiçãoagreste e a escola numa linha de mon-tagem de alunos medíocres.
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Mas aescola pública,lembram,tem de poderser mais do que uma estatística favorá-vel à imagem de Portugal na Europa.
debaixo de
professores
TEXTO
Sarah Adamopoulos
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FOTOGRAFIA
Pedro Azevedo
 
Paulo Guinote é o responsávelpelo
blog 
que congrega as preocupaçõesdos professores.
 
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noticiasmagazine
16.MAR.2008
A
ndam absolutamenterevoltados com o quelhes está a acontecer ul-timamente. Queixam--se de que há, entre eles e o Ministério da Educação, um muro que se ergue, cada vezmais intransponível: de um lado a realidadecomplexa das escolas, do outro as urgênciasde um governo a braços com um pacote dereformas, destinado antes de mais, acusam, a resolver os problemas estatísticos que enver-gonham os portugueses na Europa. Um pa-cote que consideram excessivo, e irrealista,sobretudo porque posto em prática a meiode um ciclo lectivo, lançando o caos na gene-ralidade das escolas. Um pacote regulamen-tador que visa transformar um sistema deensino, intervindo simultaneamente em do-mínios tão diferentes como a avaliação dosprofessores, o estatuto dos alunos ou o mode-lo de gestão das escolas. Um pacote cujo últi-mo grande objectivo, dizem, é acabar com a exclusão escolar, sim, porém de maneira in-sensata. Doa a quem doer. E até mesmo aosvisados pelo benéfico pacote normativo, osalunos – sendo certo para os professores queobrigar os meninos a ir à escola não chega pa-ra acabar com os alarmantes níveis de ilitera-cia no país. Pelo meio fica por fazer o queconsideram o mais importante: a reforma curricular passível de inflectir o nível cultu-ral dos portugueses. Pedem diálogo, queremser ouvidos, ser considerados numa reforma que pretende mudar a vida nas escolas. Que-rem tempo, que os novos modelos possamser testados, que haja debate entre a classe econtribuições passíveis de tornar exequíveisas novas regras preconizadas pelo governo.
Blog mobiliza professores
Nas últimas semanas, as visitas ao seu
blog 
quadruplicaram. E a média do volume de co-mentários deixados por quem passa impres-siona. Tratou-se, de início, de uma platafor-ma criada por Paulo Guinote, 42 anos, profes-sor de Português e História do segundo ciclo,para colocar textos seus resultando da sua ac-tividade como historiador investigador econferencista, mas a verdade é que o
blogEdu-cação do Meu Umbigo
(http://educar.word-press.com/) passou no final de Maio de 2006(altura em que se inicia o debate sobre o Esta-tuto da Carreira Docente) a servir a causa dosprofessores, com um texto eloquentementeintitulado «O Estatuto da escravidão docen-te». Diz que é «um bocadinho compulsivo a escrever», e que rapidamente passou a assi-nar cinco
 posts
por dia. Compulsão que resul-ta também da disponibilidade mental quecriou para se manter informado e actualiza-do sobre os decretos que começaram a inun-dar de preocupação as escolas, fatalmenteperturbadas no seu dia-a-dia pela burocracia entretanto gerada pelos ofícios do ministério.Incansável afã que tem exemplarmente ser-vido para colmatar as falhas de uma impren-sa tradicionalmente alheada das questões da educação, área em que quase não há especia-listas, e escassa reflexão crítica.
Reacções corporativas ao rubro
«Quando começaram a surgir assuntos maissensíveis, começaram a aparecer reacçõescorporativas», e cada vez mais gente a seguiras discussões. «Quando algumas pessoas li-gadas aos movimentos que apareceram emvários pontos do país me contactaram para divulgar as posições delas, porque conhe-ciam a audiência do
blog 
, a coisa entrou emefeito bola-de-neve», conta Paulo Guinote.«Quando os
 Prós&Contras
pegaram no tema dos professores, as visitas dispararam para números que me deixam perfeitamente es-pantado. 21 mil entradas, é muita gente...»Paulo conta que ainda assim recebeu algunsataques pessoais de anónimos, na sequência por exemplo da publicação de um recenteprotocolo entre o Ministério da Educação ea CONFAP [Confederação Nacional das As-sociações de Pais] e das críticas de Paulo Gui-note à falta de independência do organismoque representa os pais. «Começaram a apa-recer pessoas que questionavam a minha in-dependência, sugerindo que eu tinha uma organização por trás, ou a dizer que se eu es-crevia assim tanto era porque não dava au-las.» Comentários rasteiros que não impe-dem que o
 A Educação do Meu Umbigo
tenha sido em 2007 considerado o melhor
blog 
so-bre educação.
Desacreditados e amedrontados
Guinote diz que o
blog 
é um canal para todosaqueles que sentem que a sua voz não é ou-vida, e que se revêem no que é ali dito. Umespaço de liberdade para aqueles que habi-tualmente são vistos como funcionáriosque usurpam a escola aos alunos. «Isso foiempurrando os professores para um esta-tuto que a sociedade se empenha em rebai-xar, quando por exemplo sugere que se tor-naram professores porque não consegui-ram ser advogados ou engenheiros, e aspessoas começaram a ficar ressentidas»,explica Guinote. Sobre os testemunhosanónimos que se seguem, Paulo pensa queé compreensível que não se tenham dispos-to a dar a cara, e o nome, pelas suas convic-ções. Diz que é porque desconhecem os me-canismos que podem eventualmente atin-gi-los nas suas vidas pessoais e profissionais.Uma corporação de gente que se sente afi-nal isolada, à mercê das divisões sindicaisque a criação de uma ordem porventura ini-biria. Guinote acusa o ministério de estar a pressionar os professores de maneiras pou-co sérias, não os deixando falar, perseguin-do quem o faz, obrigando-os a retractar-se.«Quando se percebe que há aqui uma guer-ra, há quem não se importe de fazer partedo exército, mas não para dar a cara por to-dos os outros. Parece-me sensato. Porqueninguém tem o lugar garantido. As pessoasnão sabem o que vai acontecer quando hou-ver um novo concurso. Mas sabem que coma nova classificação há itens de relaciona-mento com a comunidade e com a comuni-dade escolar em que esse tipo de atitudespode ser motivo de penalização.»
Farinha vem do leitee porcos do céu
Talvez pareça um lugar-comum dizer-seque o nível de conhecimentos dos alunosbaixou preocupantemente. Mas a verdadeé que há meninos que com 11 anos pensamque a farinha vem do leite e os porcos docéu. Ou que não sabem fazer uma subtrac-ção sem usar a calculadora. «Se eu não mequiser chatear, dou positiva a toda a gente»,diz Paulo Guinote. Mas um professor não éisso. Antes alguém que os alunos respei-tam, precisamente pela sua exigência eperseverança. «Há uma ética profissional.Nós preocupamo-nos com aquilo que an-damos a fazer. Sim, acredito que a genera-lidade da classe tem essa consciência ética.Mas há um grau de saturação a partir doqual as pessoas cedem. Para darmos uma classificação negativa a um aluno temos defazer três ou quatro relatórios, se tivermosseis ou sete turmas, com duzentos alunos,está a ver a papelada que é preciso produ-zir. Nós dispomo-nos a isso, mas agora, sequisermos, deixamos de fazer e então pas-sa toda a gente.» Acontece que apesar de seter baixado e muito o nível de exigência desde meados dos anos noventa, o insuces-so escolar não baixou como se estava à es-pera. Porque os miúdos começaram a tirarpartido das fragilidades do sistema. Estadode coisas para o qual poderá contribuir ne-gativamente o novo estatuto do aluno, en-tretanto suspenso até novas ordens.
Avaliação pública
Guinote defende um sistema de avaliaçãopúblico. «Não é uma ideia muito popular»,explica, «porque remete para as provas pú-blicas de acesso à profissão durante o EstadoNovo. Mas talvez fosse uma hipótese a con-siderar. Para mudar de escalão, um professorsubmeter-se-ia, como se faz na universida-de, a uma prova pública: daria uma aula,apresentaria um pequeno relatório crítico da sua actividade, perante um júri. Em vez deestarmos de dois em dois anos a fazer trinta grelhas, ou a dar aulas para coordenadoresimpreparados avaliarem.» Guinote defendeque se teste o novo sistema, antes de o aplicarna escuridão à generalidade das escolas. E já agora que se reveja o recém-nomeado Con-selho Científico, onde alguns nomes foramcatrapiscados num programa de televisão (oPrós&Contras), e as associações de professo-res de Português e de Matemática não estãorepresentadas.
Estatuto
«A sociedade rebai-xa-nos,diz que fomos para professoresporque não conseguimos ser advogadosou engenheiros...»
 
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Este trabalho encontrou vários obstáculos. Entre professores negando-se a dar a cara e o nome pe-la sua indignação, interesses, convicções, professores a aceitar colaborar, mas logo reconsideran-do, e voltando atrás na sua intenção, ou simplesmente indisponibilizando-se no último momento (sen-ti a pressão que os cerca diariamente nas escolas, a insegurança, o
stress 
), ficou a sensação amargade estar em vão a pretender elucidar os leitores da
nm
sobre questões que, dada a conjuntura, ex-cedem em muito os âmbitos da educação.
D
e que têm afinal medo os professo-res?
«
 A minha éa geração mais palpi-tante do 25 de Abril, e este medo faz--nos muita impressão, embora seja genera-lizado, não é só na classe dos professores.Sinto isso na escola. Tem havido muitas mu-danças em termos legais, e os ConselhosExecutivos [CE] começaram a distanciar-sedos professores. É certo que há atitudes queeles têm de tomar que não são do agrado detodos.» Tem de poder haver, parece-lhe evi-dente, um compromisso de razoabilidadeentre os objectivos do Ministério e a realida-de das escolas. Mas admite: «A escola não es-tava bem, era preciso mudar, e nós estáva-mos muito acomodados. Uma parte da resis-tência vem daí, da oposição à mudança.»
Urgência normativa a meiode um ciclo
O programa de avaliação do desempenhodos professores entrou em vigor em Janei-ro, ou seja, a meio de um ciclo lectivo, lan-çando o caos nas escolas.«Sempre achá-mos a outra avaliação muito injusta, por-que bastava fazer um relatório e toda a gente transitava. Mas a avaliação que foicomeçada agora acaba também por dife-renciar pouco o trabalho dos professores.Por outro lado, a nossa profissão tornou-semuito burocrática, há uma avalancha depapéis, as escolas estão muito mais cinzen-tas e muito mais tolhidas, e o ambiente é degrande desânimo. Nunca vi as escolas as-sim tão em baixo.» Paula lamenta porexemplo que quase não haja hoje visitas deestudo, «porque estão em contra-horáricom tudo o que ultimamente lhes é pedidopela actual ministra da Educação [ME],Maria de Lurdes Rodrigues.
Avaliação dos professores
Segundo as novas regras, os professores se-rão punidos na avaliação feita pelos paresse faltarem. Mesmo que seja porque têmum filho doente ou por qualquer outra ra-zão humana. «Sim, sentimo-nos muitocondicionados. Mas sabemos que durantemuitos anos havia professores que falta-vam muito, e alguns tinham carreiras pa-ralelas. A maioria não são esses, mas lá es-tá, levamos todos pela mesma tabela. Ou-tra coisa é aquele tempo que agora somosobrigados a estar na escola, e que eu consi-dero completamente inútil, que me faz fal-ta para fazer outras coisas mais produtivaspara a escola. Penso também que a compe-tição vai aumentar, e não forçosamente pa-ra melhorar o desempenho dos professo-res. A Educação Visual [EV] é uma área criativa, que requer uma certa liberdade, eonde os resultados não são imediatos. Al-guém que vá assistir a duas ou três aulasminhas, poderá dizer que eu sou boa ou má professora? Eu não acredito nisso. Esta avaliação está condenada, porque não écom três aulas que podemos avaliar um tra-balho que dura meses e que é, ao contráriodos decretos, um processo lento.»
Massificação do ensino público
Desde os tempos em que quem ia (e se man-tinha) à escola eram as elites cultivadas, a es-cola mudou muito. Paula não tem dúvidas deque «as classes médias com mais recursospõem os seus filhos nas escolas particulares,porque a escola pública se transformou numdepósito de meninos cheios de problemasde toda a ordem. Muitas vezes é difícil sepa-rar o nosso papel de professores do nossopapel de psicólogos ou de amigos.» Diz quehá escolas muito complicadas, onde a per-centagem de alunos oriundos de famílias ca-renciadas (são dois milhões) é elevadíssima.«Parecem doutro país», como se de um paísdiferente do dela, diz referindo-se à ilitera-cia, à falta de horizontes, aos «meninos quesó conhecem o bairro deles», o centro co-mercial deles, que vão para as aulas de EVsem um lápis (!), «que não sabem pedir ascoisas por favor».
Escola e família de costas viradas
Paula pensa que é um clássico português, enão uma coisa nova. Diz que a família e a es-cola sempre estiveram de costas viradas, eque sempre se arremessaram responsabili-dades. Estado de coisas para o qual conside-ra que contribui o facto de as escolas não va-lorizarem os bons comportamentos. «Quemé que é chamado às escolas? São os pais dosmeninos que estão com problemas escola-res, e quase só esses. Mas quando há activi-dades dentro da escola os pais aparecem, es-sa é que é a verdade. Por outro lado, há mui-tos pais que se cansaram de ouvir falar maldos filhos, e por vezes mal deles próprios.É preciso valorizar as boas atitudes. Os pro-fessores deviam poder telefonar aos pais a contar as coisas boas. Mas a escola tem esta tradição de chamar os pais pela negativa. Pa-ra os mortificar por causa dos trabalhos decasa, que maioritariamente só são feitos pe-los alunos que têm apoio em casa. É precisover que há pais que não têm capacidades in-telectuais para acompanhar os filhos nostrabalhos de casa. Para além de todos os ou-tros, que não têm tempo. Isto dos TPC cava ainda mais a diferença entre os bons e osmaus alunos, e acumula as acusações entreos professores e os pais.»
Vocação cumprida
Há, ninguém duvida, percursos equivoca-dos, pessoas tornadas professores pelas ra-zões erradas. Não é o caso dela. «Eu gostomuito de ser professora. Toda a minha for-mação e o meu estar são os de uma professo-ra. Gosto de estar numa sala de aula, apesardos momentos desgastantes. Porque há ou-tros que são muito gratificantes, por exem-plo quando trabalhamos com miúdos com-plicados e conseguimos chegar a eles. Te-nho vivido situações relacionadas comabandono escolar, e também com disciplina,e sei que a escola pode fazer a diferença.»
Insegurançapressão,stress
PAULA
Professora de Educação Visuale Tecnológica dos 2.º e 3.º ciclos (6.º, 7.º e 8.º anos)
Com pouco mais de cinquenta anos, passou, aolongo de mais de 25, por dezena e meia de es-colas, algumas em Lisboa. Gosta de «saltitar» eacha que demasiado tempo passado numa es-cola é um mau princípio. Contra o pensamentodominante, defende o enriquecimento profis-sional também pela mobilidade – uma mobilida-de compatível com a vida familiar e pessoal, ouseja, que ponha os professores a circular entreescolas vizinhas ou dentro de um raio quilomé-trico que não inviabilize o resto da vida. Na suaopinião, e apesar de as coisas estarem muitodifíceis nas escolas, os professores têm algu-mas conquistas pela frente, novos projectosescolares para erguer, passíveis de lhes devol-ver o prazer de ensinar. Mas para isso têm de irà luta, nunca deixando de fora o superior inte-resse os alunos.
MENSAGEM PARA A MINISTRA DA EDUCAÇÃO:
«Que vá passar um mês a uma escola difícil,a 2+3 dos Olivais, por exemplo,ou a 2 de Telheiras.Pode ser que a torne um bocadinhomais dialogante.»

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