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Este trabalho encontrou vários obstáculos. Entre professores negando-se a dar a cara e o nome pe-la sua indignação, interesses, convicções, professores a aceitar colaborar, mas logo reconsideran-do, e voltando atrás na sua intenção, ou simplesmente indisponibilizando-se no último momento (sen-ti a pressão que os cerca diariamente nas escolas, a insegurança, o
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), ficou a sensação amargade estar em vão a pretender elucidar os leitores da
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sobre questões que, dada a conjuntura, ex-cedem em muito os âmbitos da educação.
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e que têm afinal medo os professo-res?
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A minha éa geração mais palpi-tante do 25 de Abril, e este medo faz--nos muita impressão, embora seja genera-lizado, não é só na classe dos professores.Sinto isso na escola. Tem havido muitas mu-danças em termos legais, e os ConselhosExecutivos [CE] começaram a distanciar-sedos professores. É certo que há atitudes queeles têm de tomar que não são do agrado detodos.» Tem de poder haver, parece-lhe evi-dente, um compromisso de razoabilidadeentre os objectivos do Ministério e a realida-de das escolas. Mas admite: «A escola não es-tava bem, era preciso mudar, e nós estáva-mos muito acomodados. Uma parte da resis-tência vem daí, da oposição à mudança.»
Urgência normativa a meiode um ciclo
O programa de avaliação do desempenhodos professores entrou em vigor em Janei-ro, ou seja, a meio de um ciclo lectivo, lan-çando o caos nas escolas.«Sempre achá-mos a outra avaliação muito injusta, por-que bastava fazer um relatório e toda a gente transitava. Mas a avaliação que foicomeçada agora acaba também por dife-renciar pouco o trabalho dos professores.Por outro lado, a nossa profissão tornou-semuito burocrática, há uma avalancha depapéis, as escolas estão muito mais cinzen-tas e muito mais tolhidas, e o ambiente é degrande desânimo. Nunca vi as escolas as-sim tão em baixo.» Paula lamenta porexemplo que quase não haja hoje visitas deestudo, «porque estão em contra-horário»com tudo o que ultimamente lhes é pedidopela actual ministra da Educação [ME],Maria de Lurdes Rodrigues.
Avaliação dos professores
Segundo as novas regras, os professores se-rão punidos na avaliação feita pelos paresse faltarem. Mesmo que seja porque têmum filho doente ou por qualquer outra ra-zão humana. «Sim, sentimo-nos muitocondicionados. Mas sabemos que durantemuitos anos havia professores que falta-vam muito, e alguns tinham carreiras pa-ralelas. A maioria não são esses, mas lá es-tá, levamos todos pela mesma tabela. Ou-tra coisa é aquele tempo que agora somosobrigados a estar na escola, e que eu consi-dero completamente inútil, que me faz fal-ta para fazer outras coisas mais produtivaspara a escola. Penso também que a compe-tição vai aumentar, e não forçosamente pa-ra melhorar o desempenho dos professo-res. A Educação Visual [EV] é uma área criativa, que requer uma certa liberdade, eonde os resultados não são imediatos. Al-guém que vá assistir a duas ou três aulasminhas, poderá dizer que eu sou boa ou má professora? Eu não acredito nisso. Esta avaliação está condenada, porque não écom três aulas que podemos avaliar um tra-balho que dura meses e que é, ao contráriodos decretos, um processo lento.»
Massificação do ensino público
Desde os tempos em que quem ia (e se man-tinha) à escola eram as elites cultivadas, a es-cola mudou muito. Paula não tem dúvidas deque «as classes médias com mais recursospõem os seus filhos nas escolas particulares,porque a escola pública se transformou numdepósito de meninos cheios de problemasde toda a ordem. Muitas vezes é difícil sepa-rar o nosso papel de professores do nossopapel de psicólogos ou de amigos.» Diz quehá escolas muito complicadas, onde a per-centagem de alunos oriundos de famílias ca-renciadas (são dois milhões) é elevadíssima.«Parecem doutro país», como se de um paísdiferente do dela, diz referindo-se à ilitera-cia, à falta de horizontes, aos «meninos quesó conhecem o bairro deles», o centro co-mercial deles, que vão para as aulas de EVsem um lápis (!), «que não sabem pedir ascoisas por favor».
Escola e família de costas viradas
Paula pensa que é um clássico português, enão uma coisa nova. Diz que a família e a es-cola sempre estiveram de costas viradas, eque sempre se arremessaram responsabili-dades. Estado de coisas para o qual conside-ra que contribui o facto de as escolas não va-lorizarem os bons comportamentos. «Quemé que é chamado às escolas? São os pais dosmeninos que estão com problemas escola-res, e quase só esses. Mas quando há activi-dades dentro da escola os pais aparecem, es-sa é que é a verdade. Por outro lado, há mui-tos pais que se cansaram de ouvir falar maldos filhos, e por vezes mal deles próprios.É preciso valorizar as boas atitudes. Os pro-fessores deviam poder telefonar aos pais a contar as coisas boas. Mas a escola tem esta tradição de chamar os pais pela negativa. Pa-ra os mortificar por causa dos trabalhos decasa, que maioritariamente só são feitos pe-los alunos que têm apoio em casa. É precisover que há pais que não têm capacidades in-telectuais para acompanhar os filhos nostrabalhos de casa. Para além de todos os ou-tros, que não têm tempo. Isto dos TPC cava ainda mais a diferença entre os bons e osmaus alunos, e acumula as acusações entreos professores e os pais.»
Vocação cumprida
Há, ninguém duvida, percursos equivoca-dos, pessoas tornadas professores pelas ra-zões erradas. Não é o caso dela. «Eu gostomuito de ser professora. Toda a minha for-mação e o meu estar são os de uma professo-ra. Gosto de estar numa sala de aula, apesardos momentos desgastantes. Porque há ou-tros que são muito gratificantes, por exem-plo quando trabalhamos com miúdos com-plicados e conseguimos chegar a eles. Te-nho vivido situações relacionadas comabandono escolar, e também com disciplina,e sei que a escola pode fazer a diferença.»
Insegurançapressão,stress
PAULA
Professora de Educação Visuale Tecnológica dos 2.º e 3.º ciclos (6.º, 7.º e 8.º anos)
Com pouco mais de cinquenta anos, passou, aolongo de mais de 25, por dezena e meia de es-colas, algumas em Lisboa. Gosta de «saltitar» eacha que demasiado tempo passado numa es-cola é um mau princípio. Contra o pensamentodominante, defende o enriquecimento profis-sional também pela mobilidade – uma mobilida-de compatível com a vida familiar e pessoal, ouseja, que ponha os professores a circular entreescolas vizinhas ou dentro de um raio quilomé-trico que não inviabilize o resto da vida. Na suaopinião, e apesar de as coisas estarem muitodifíceis nas escolas, os professores têm algu-mas conquistas pela frente, novos projectosescolares para erguer, passíveis de lhes devol-ver o prazer de ensinar. Mas para isso têm de irà luta, nunca deixando de fora o superior inte-resse os alunos.
MENSAGEM PARA A MINISTRA DA EDUCAÇÃO:
«Que vá passar um mês a uma escola difícil,a 2+3 dos Olivais, por exemplo,ou a 2 de Telheiras.Pode ser que a torne um bocadinhomais dialogante.»
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