APRESENTAÇÃO
O presente texto aborda a questão da Iniciativa deIntegração da Infra-Estrutura Regional Sul-americana(IIRSA), acordo estabelecido entre os doze governossul-americanos (agosto/setembro, 2000, Brasília), como apoio técnico-financeiro do Banco Interamericano deDesenvolvimento (BID), da Corporação Andina de Fo-mento (CAF) e do Fondo Financiero para el Desarrollode la Cuenca del Plata (FONPLATA). Este acordo resul-tou em um mega-plano de integração física do Continente,processo multisetorial que pretende integrar as áreas detransporte, energia e telecomunicações.Este documento trata-se de uma compilação de tra-balhos elaborados por Ongs e pessoas que estudam oassunto, com o objetivo de condensar informações eanálises consideradas relevantes para o entendimento daquestão. Ao produzir este texto, pensamos estar cola-borando com a divulgação de um tema que interfere di-retamente na vida da população do continente Sul-americano e que, até o momento, é pouco conhecido,principalmente, pela falta de transparência no processo deimplementação conduzido pelos governos da região epelas instituições financeiras envolvidas.Baseamo-nos, prioritariamente em dois estudos: É estaIntegração que Queremos? (Elisangela Soldatelli Paim,2003), e A Integração Sul-americana e o Brasil: oprotagonismo brasileiro na implementação da IIRSA (Gui-lherme Carvalho, 2004), respectivamente pela qualidadedas informações técnicas e pelos pressupostos teóricos queembasam a análise política.Por se tratar de um texto que tem como objetivosistematizar o que há de mais relevante e ampliar de formaágil o conhecimento da questão, optamos por não seguir asexigências acadêmicas, a exemplo da conclusão, onde, nolugar de tomarmos uma posição fechada, preferimos expor“um recorte” das contradições da realidade dos países sul-americanos e, em especial, da realidade brasileira atravésde fotos e manchetes de jornais, podendo assim, cada leitorformular as suas próprias conclusões.
CONSIDERAÇÕES INICIAIS
A idéia de integração latino-americana remete-nos,inevitavelmente, à questão conceitual na medida em que,para nós, defensores das transformações do modelo só-cio-econômico excludente, sob o qual vivemos há sécu-los, a integração envolve, acima de tudo, a solidariedadeentre os povos sul-americanos. Seguramente não é este ocaso da IIRSA que tem como objetivo a integração docontinente através da interconexão física. Para isto, implan-tam-se reformas do Estado a fim de facilitar a livremovimentação do grande capital, viabilizada pelaimplementação dos “Eixos de Integração e Desenvolvimen-to” para a América do Sul, e dos “Eixos de IntegraçãoNacional”, no caso do Brasil. Através de sua política externa,tendo como principal instrumento econômico o BancoNacional de Desenvolvimento Econômico e Social(BNDES), o governo brasileiro tenta consolidar a suahegemonia neste processo de integração continental.
AS ORIGENS
Desde a época de Artigas (Séc. XIX) que se fala-va na questão da integração sul-americana, naquelemomento, com uma conotação muito mais de caráterpolítico-militar, devido às peculiaridades da conjunturahistórica. Com Simon Bolívar surge o Hispano Americanismo– formação de uma única nação latino-americana, livre esoberana, alternativa ao Panamericanismo proposto pelosEstados Unidos, diretamente ligado à adoção da DoutrinaMonroe (Séc. XIX). Já em 1815, Bolívar lança a idéia deconstituição de uma Confederação Americana, de onderesultou, em 1826, no Congresso do Panamá, ao qual nãocompareceram nem os Estados Unidos, nem o Brasil. Em1889, foi realizada em Washington a 1ª ConferênciaPanamericana, momento em que os Estados Unidos con-solidam a sua política externa contrária às teses bolivarianas.Esta Conferência significou a afirmação da política dogoverno americano para a América, calcada na DoutrinaMonroe, deixando-se a Europa num plano secundário.Houve reação nos países que mantinham relações comer-ciais privilegiadas com países europeus, como a Argentinae o Chile, restringindo-se, então, as decisões da Conferênciaà esfera da “união aduaneira” entre os países.Para muitos, a perspectiva integracionista dosEstados Unidos sobre o continente era direcionada parasua hegemonia política e conômica. Consequentemente,surgem várias conferências promovidas pela Organiza-ção Latino-Americana de Solidariedade (OLAS), cujaliderança ficava a cargo de Cuba, e que incorporava vá-rios países da Ásia, África e América Latina. Este movi-mento deu origem à Tricontinental, cujo objetivo maior eraa articulação da luta contra o imperialismo Americano, vin-do porém a se enfraquecer nos anos sessenta e setenta,com a ascensão dos governos totalitários em di-versos países, e com a consolidação do poder dosEstados Unidos no mundo em vias de seglobalizar.A volta do “Estado deDireito” em muitos países sul-americanos significou, tam-
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