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Inquisição pacto com o demônio e magia africana em Lisboa no século XVIII

Inquisição pacto com o demônio e magia africana em Lisboa no século XVIII

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OPOI 
, v. 5, n. 8, jan.-jun. 2004, pp. 9-70.
Inquisição, pacto com o demônio e“magia” africana em Lisboa noséculo XVIII
 Didier Lahon
Em 1787, algumas “negras bruxas” vivem nas cavernas das ribeirasíngremes do Tejo. Para sobreviverem, dizem a sina e vendem sortilégioscontra malefícios. William Beckford, durante um passeio, assistiu à deten-ção pela Inquisição de uma destas miseráveis sibilas [...] hediondo ser, cujosuivos (o) encheram de terror”.
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Por si só, o testemunho do famoso dândiinglês não permite afirmar a existência de uma importante bruxaria africa-na em Lisboa no fim do século XVIII. No entanto levanta a questão daspráticas mágicas na população negra da capital e a possibilidade de que traçose crenças de origens africanas tivessem sobrevivido, adaptando-se e inse-rindo-se nas práticas locais. Pouco conhecidos, menos estudados ainda, sobo ângulo desta problemática, acrescentar-se-iam então aos elementos des-se rio submerso que terá sido em Portugal a heterodoxia, o descontenta-mento, a marginalidade, mesmo a heresia, que se opuseram, numa resis-tência de séculos, ao domínio das consciências, à intolerância, à perseguição,ao ostracismo”.
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Os arquivos da Inquisição constituem neste campo a principal se nãoa única fonte à qual podemos recorrer. Contudo, esta não se presta facil-mente ao exame da heterodoxia considerada do ângulo que aqui nos inte-ressa. Com efeito, quando um processo diz respeito a um negro ele perdeo caráter de confrontão econômica ou política que, sobre fundo religio-so, opõe regularmente a Inquisição aos cristãos novos e mouriscos que afir-mam a crença dos seus antepassados às vezes até a morte.
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Para a Inquisi-ção de Lisboa, entre os processos de escravos e forros, negros e mulatos,residindo em Portugal, os condenados entregues ao braço secular são rela-tivamente raros, em especial quando se tratava de bruxaria. Em certos pro-cessos, perante a gravidade dos fatos indiciados, a sua qualidade de pagãos
 
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recém-convertidos pesou em seu favor e a Inquisição parece mesmo de-monstrar uma certa clemência. Esta impressão, deixada por vários proces-sos, precisa ser verificada pela análise de um maior número de situações.Assim, nos casos que conhecemos, a suspeita de um regresso à reli-gião dos antepassados nunca foi explicitamente indicada, mesmo quandoa acusação era a de ter negado a Fé católica. Nunca aparece o termo idola-tria, nunca é feita uma referência explícita às crenças africanas. Mesmotardiamente, em 1796 por exemplo, quando o escravo Lourenço é denun-ciado por adorar freqüentemente o sol à vista de toda a vizinhança, embo-ra seja “cristão batizado”.
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Um negro, quer africano, quer natural da metrópole ou do Brasil, eratratado como um cristão velho: respeitou ou transgrediu as regras e dogmasda religião e da igreja. Os atos que lhe são imputados são considerados comocometidos sob a influência do demônio com quem o acusado teria feitoum pacto, pois, como observa José Pedro Paiva
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no seu estudo sobre os sé-culos XVII e XVIII, a ideologia do pacto diabólico foi objeto de uma ver-dadeira propaganda.
Dos púlpitos pela voz de alguns párocos e missionários, dos confessioná-rios, nas igrejas onde os exorcistas atuavam, dos palcos onde se liam senten-ças dos autos-da-fé os populares foram bombardeados com a mensagem dafiliação diabólica dos actos mágicos. Nem sempre é possível confirmar atra-s dos relatos dos réus a influência desta “propaganda” nas suas narrativas,mas em alguns casos essa influência é evidente e até confessada.
Os inquisidores procuravam de maneira obsessiva o menor sinal des-se pacto com o diabo. Esperavam ou desesperavam de ouvir a sua confis-são seguida do sincero arrependimento, as duas vertentes de um processoàs quais o acusado devia submeter-se e sem as quais ele não podia esperar oseu perdão, a salvação da sua alma, a reintegração na comunidade espiri-tual e, num plano mais prosaico, a redução do seu castigo corporal.Em inumeráveis casos, para os inquisidores, o pacto com o demônioconstituiu o único fio condutor da instrução do processo, o único filtroque permitia analisar a lógica dos acontecimentos e do comportamentodo réu. Se as práticas de bruxaria, de adivinhação ou de curas mágicas, ascartas de tocar ou as bolsas, nomeadamente de mandinga, entravam nesta
 
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NQUISIÇÃO
,
PACTO
 
COM
 
O
 
DEMÔNIO
 
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MAGIA
AFRICANA
 
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NO
 
SÉCULO
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categoria, a blasfêmia, em algumas circunstâncias, podia igualmente ser dodomínio demoníaco. Com este condicionamento, a maior parte das ve-zes, os elementos da confissão dos acusados já estavam contidos nas per-guntas dos inquisidores.
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Ser ou não ser um bom cristão, ter conservado asua Fé apesar de um delito mais ou menos grave, ter-se mais ou menosapartado da religião católica constituíam os temas recorrentes dos interro-gatórios. Na maioria dos casos, o acusado entrava no molde que lhe eraimposto, quer por medo, tivesse sido ou não torturado, quer por compreen-der que era do seu interesse. Aqui, como em outros lugares da Europa, soba tortura ou para satisfazer os inquisidores, os acusados confessaram fatose eventos materialmente impossíveis, prestando-se mais ou menos cons-cientemente aos quadros teológicos da demonologia.Em
 Bruxaria e Superstição
, entre as centenas de processos da Inquisi-ção de Lisboa analisados por José Pedro Paiva, entram uma dúzia de casosde negros e negras por nós estudados. Relativamente a esta população emais alguns casos das Inquisições de Évora e Coimbra, J. P. Paiva chega auma constatação particularmente significativa. Apesar da obsessão da In-quisição de conseguir a confiso de um pacto com o demônio, há “da partedos rústicos uma grande obstinação em não confessarem os pactos diabó-licos.” E sem essa “prova” os juízes não podiam aplicar sanções mais “pesa-das”. Assim, apenas 12,6% dos acusados terminaram por confessar o pac-to, mas perto da metade mediante tortura. No entanto, mesmo confessandoo pacto, “não afirmavam de seguida a sua renegação de Deus e da Igreja”porque “a interiorização da crença em Deus era tão sólida que era quaseimpossível admitir a sua negação”. Pelo contrário, no que diz respeito aosnegros escravos e forros, J. P. Paiva nota “a tendência para, muitas vezeslogo às primeiras perguntas dos inquisidores, confessarem o pacto e a ado-ração do Diabo ser muito mais facilmente admitida do que entre a popu-lação branca, cristã-velha”, o que o autor explica por “um compreensívelmenor enraizamento da crença e discurso católico por parte destes extra-tos da população”.
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À esta constatação, que corresponde à nossa própriaanálise, acrescentaremos a mesma freqüente recusa de confessar a renegaçãode Deus e da Igreja. Ainda assim, quando a renegação era admitida, aliásfreqüentemente por ter sido feita perante numerosos testemunhos,
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o acu-sado tentava encontrar uma desculpa num estado de paixão momentânea

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