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Redução de Danos – outras palavras sobre o cuidado de pessoas que usam álcool e outras drogas

Redução de Danos – outras palavras sobre o cuidado de pessoas que usam álcool e outras drogas

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Redução de Danos – outras palavras sobre o cuidado depessoas que usam álcool e outras drogas
Dênis Roberto da Silva Petuco
1
 
A existência, porque humana, não pode ser muda, silenciosa,nem tampouco nutrir-se de falsas palavras, mas de palavrasverdadeiras, com que os homens transformam o mundo.Existir, humanamente, é
pronunciar 
o mundo, é modificá-lo.
2
 
Hoje eu gostaria de construir um caminho reflexivo que nos permitisse irpara além das contribuições instrumentais da Redução de Danos, de suadimensão preventivista. Como a Redução de Danos nos ajuda a pensar ocuidado de pessoas que usam de álcool e outras drogas? Que aportes clínico-políticos emergem quando nos debruçamos sobre a Redução de Danos, nãocomo um cardápio de estratégias pontuais para drogas específicas, mas comoum construto ético-estético já anunciado por Chico Bastos quando de seufamoso artigo “Por uma economia das trocas simbólicas... de seringas”
3
.Mas há mais. Além disto, também quero hoje falar de uma Redução deDanos feita no Brasil, com nosso jeito, nossa cara, nossas ideias. Nestesentido, vou pular a parte em que costumo falar dos dois nascimentos daRedução de Danos (Inglaterra e Holanda), partindo direto para o contexto desua chegada no Brasil, e dos diálogos estabelecidos com os movimentos daReforma Sanitária, de luta contra a Aids e da Luta AntimanicomialEm 1986, a 8ª Conferência Nacional de Saúde lança as bases para oSistema Único de Saúde. O movimento de Reforma Sanitária mostra toda suaforça, numa conferência que reúne mais de cinco mil delegados de todo o país,coroando um processo de mais de um ano, numa época em que se fazia estascoisas sem a internet (como conseguiam?). Em 1988, a Constituição Cidadãtraz consigo o Artigo 196, dizendo que a saúde é direito de todos e dever doEstado. Em 1990, as leis 8080 e 8142 instituem o SUS, em textos que aindahoje se apresentam como potentes disparadores de movimentos detransformação da realidade política, econômica e social de nosso país.Um ano antes da lei do SUS, temos em Santos a primeira experiênciabrasileira com Redução de Danos.Eu acho interessante olharmos desse modo, porque percebemos em quecaldo de reflexibilidade político-sanitária estávamos naquele momento histórico,quando Davi Capistrano, Telma de Souza, Fábio Mesquita e outros deramaquele primeiro passo, naquela primeira experiência. Santos é muitoimportante para nós, que estamos pensando em Saúde Mental e nas questõesrelacionadas ao uso de álcool e drogas, pois temos não apenas a primeiraexperiência de Redução de Danos, como também o fechamento da CasaAnchieta, momento marcante da Luta Antimanicomial brasileira. Dois marcosque acontecem no mesmo ano, na mesma cidade.
1
Mestrando do PPG em Educação da UFPB; graduado em Ciências Sociais pela UFRGS; redutor dedanos no CAPSad Primavera (Cabedelo, PB) e CAPSad Jovem Cidadão (João Pessoa, PB); consultorsobre Redução de Danos para a Secretaria de Saúde do Governo do Estado de Pernambuco.
2
FREIRE, Paulo. Pedagogia do oprimido. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 2005. p. 90.
3
BASTOS, Francisco Inácio. “Por uma economia das trocas simbólicas... de seringas”. In.: BASTOS,Francisco Inácio; MESQUITA, Fábio & MARQUES, Luis Fernando.
Troca de seringas: drogas e Aids 
.Brasília: Coordenação Nacional de DST e Aids/Ministério da Saúde, 1998. p. 91-100.
 
A experiência de Santos foi absolutamente inovadora, e arcou com asconsequências da inovação. Houve pessoas processadas pelo artigo 12 daantiga lei de drogas, o mesmo artigo que definia os crimes de tráfico. Então,fazer Redução de Danos em 1989 era tido, pelo menos pelos operadores doDireito em Santos, como um crime idêntico ao crime de traficar drogas. Lembrode Yasser Arafat, que dizia ter orgulho em ser chamado de terrorista, pois elepercebia que diversos lutadores da liberdade em diversos países do mundotambém haviam sido acusados de terroristas em algum momento. Do mesmomodo, ser chamado de traficante por juízes ignorantes e conservadores nãodeve ser considerado como uma ofensa... Hoje, Telma de Souza é umaimportante deputada federal, Fábio Mesquita trabalha para a OrganizaçãoMundial de Saúde, cuidando de aspectos da luta contra a Aids no continenteasiático, e David Capistrano Filho é considerado um herói da Reforma Sanitáriabrasileira. Quanto aos juízes santistas que os processaram, alguém recordaseus nomes?Em 1994, vamos ter o primeiro PRD que consegue se instituir epermanecer, em Salvador, como projeto de extensão do curso de Medicina, naUFBA. Protegida pela universidade, envolta em um ambiente de pesquisa, deextensão, a Redução de Danos conseguiu se desenvolver. O ambienteacadêmico permitiu um pouco mais as ousadias. Pesquisadores como TarcísioAndrade, Antônio Neri, Gey Espinheira, bem como redutores de danos doquilate de um Marco Manso ou de uma Fátima Cavalcanti, desenvolvem-seneste caldo de cultura ao mesmo tempo rebelde e responsável. Na Bahia, aRedução de Danos chegou para ficar.Apenas um ano depois é que o Programa Nacional de DST e Aids vaicomeçar a investir em outras cidades. Aí, aparecem projetos-piloto em PortoAlegre, Itajaí, Rio de Janeiro e São Paulo. Em 1997, temos o surgimento daAssociação Brasileira de Redutores de Danos (ABORDA). Isso dá conta daprópria articulação, da própria quantidade de Programas de Redução de Danosque surgiram naquele momento, a tal ponto de justificar inclusive anecessidade de um movimento de articulação entre todos estes projetos, emnível nacional.
Redução de Danos: aspectos epistemológicos
Mas, afinal de contas, o que é Redução de Danos? Há várias formas dedefini-la, muitas delas interessantes, como as ministeriais ou dospesquisadores que se dedicam ao tema. Eu prefiro a definição do movimentosocial, que encontramos no folder institucional da ABORDA. Ali está posto quea Redução de Danos é um paradigma, um conjunto de estratégias e umapolítica pública.Gosto de pensar na Redução de Danos como paradigma. Sobre isto, épreciso que tomemos uma noção de paradigma comum às ciências humanas esociais, ou seja: não estamos falando de uma ideia que substitui todas asanteriores, como no caso dos paradigmas das ditas “ciências duras” (e mesmoali esta noção está ruindo, como vemos em Niels Bohr e Humberto Maturana).Estamos falando aqui de um paradigma que deve ser compreendido como umanova forma de ver o problema, mas que não surge para substituir as formasanteriores. Como
mais uma 
possibilidade de olhar e constituir uma
 
problemática, que se por um lado não se arroga o primado de ser
forma,
 novo paradigma, por outro obriga todos os paradigmas anteriores a serepensarem. Não é mais possível esquecer que aquilo surgiu.A Redução de Danos não chegou para derrubar, mas para dialogarcriticamente com o que está instituído, porque acreditamos que temoscontribuições que não se limitam àquilo que fazemos nas noites em que vamosa campo. Temos contribuições para o cuidado das pessoas que usam drogasque englobam ética, política e epistemologia. Assim, a Redução de Danos seapresenta como possibilidade clínica e política, ainda que grande parte de nós,redutores de danos, não sejamos exatamente “profissionais da clínica”.
Redução de Danos, SUS e Reforma Psiquiátrica: esgarçando movimentosinstituintes
Gosto de pensar na Redução de Danos como uma intervenção política, anos lembrar princípios do SUS e da Reforma Psiquiátrica, esgarçando-os.Quando uma pessoa que usa drogas chega a um serviço de saúde dizendoque não quer ou não consegue parar de usar drogas, ela testa nossoscompromissos com a Universalidade, com a Integralidade, com a Equidade. Épara todos? Então inclui quem não quer parar de usar. Pensa o ser humanopor inteiro? Então deve olhar para além do uso de drogas, acolhendo outrasdemandas, sem condicionar o cuidado à abstinência. Percebe o sujeito emsuas singularidades, sem diminuí-lo? Então há que pensar projetosterapêuticos igualmente singulares. Por vezes, singularíssimos.Estes elementos já estavam presentes na 8ª Conferência Nacional deSaúde, em 1986. Eles não são novos, bem sabemos, mas é a Redução deDanos que pergunta: “As pessoas que usam drogas têm estes direitosrespeitados?”. Os movimentos políticos das prostitutas, das travestis, daspessoas que vivem nas ruas, os movimentos que trabalham com populaçõessobre as quais recaem efeitos do preconceito e da exclusão social, todos estesmovimentos esgarçam os princípios do SUS, o tempo todo. Até onde vão estescompromissos? Eles realmente se efetivam aqui no cotidiano da vida, junto aosditos “excluídos”, junto àqueles por quem nutrimos preconceitos?Em relação à Reforma Psiquiátrica, a Redução de Danos faz esse mesmomovimento, mas com uma potência até maior, porque é uma potência doinstituinte, e não do instituído. Ela é uma potência que se aproxima muito maisda Luta Antimanicomial que da Reforma Psiquiátrica. Considero importantefazer essa separação: a Reforma Psiquiátrica, com tudo que tem demaravilhoso e que precisamos defender, é um momento da LutaAntimanicomial, luta esta que existia antes da reforma, e que segue existindodepois. A Luta Antimanicomial é o movimento da vida transbordando,transformando a realidade com rebeldia e paixão, enquanto que a ReformaPsiquiátrica é quando tentamos dar contornos a este movimento vital,cristalizando-o em uma lei, a Lei Paulo Delgado. É importante defender o queestá na lei? Claro que sim! Mas talvez seja ainda mais importante defendereste espírito rebelde e transformador presente na Luta Antimanicomial. Vejoque a Redução de Danos, em suas relações com a Reforma Psiquiátrica, têmestas mesmas características rebeldes, que esgarçam princípios.

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