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Ambigüidades do pensamento latino-americano - intelectuais e a idéia de nação na Argentina e no Brasil

Ambigüidades do pensamento latino-americano - intelectuais e a idéia de nação na Argentina e no Brasil

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CPDOC/FGV
 
Estudos Históricos, Rio de Janeiro, nº 32, 2003 
 
1
Ambigüidades do pensamento latino-americano: intelectuais e a idéia denação na Argentina e no Brasil
Marco A. Pamplona
  
1.
 
Nacionalismo e intelectuais latino-americanos oitocentistas na articulação daidentidade nacional
 É amplamente sabido que a nação, como constructo cultural, é sempre o trabalhocoletivo de muitos. Comunidades letradas e iletradas, grupos dominantes e dominados,nacionalmente integrados ou excluídos, todos contribuem com distinta intensidade, demodo diferente e em ocasiões diversas, para a produção desse dinâmico e mutável“caldo” cultural ao qual o nacionalismo costuma vir identificado. Entretanto, nosapropriamos apenas das expressões deste último, sob circunstâncias, tempos e formasvariados. O nacionalismo pode ser expresso por meio de discursos e imagens pictóricas,rituais populares e cerimônias oficiais, ícones e lugares “sagrados”, mitos e costumes eoutra infinidade de formas de imaginar e de atitudes que nos permitem conjurar essacomunidade bastante particular de vez em quando.
1
 Embora não seja a única comunidade política imaginada possível, a nação é de umtipo bastante especial. Ela é um constructo da imaginação concebido, ao mesmo tempo,como “soberano e limitado” e exige fortes compromissos daqueles que dela fazemparte. As pessoas devem sentir-se prontas para morrer por ela se for necessário, uma vezque tal ato parece satisfazer a sua promessa de identificação com a posteridade,permitindo ao indivíduo que a ela se sente ligado superar a terminalidade representadaquer pela morte, quer pelo esquecimento. Essa busca de conexão entre passado, presentee futuro talvez seja o que permite à nação parecer eterna. A aura sagrada que envolvemuitos dos seus símbolos e rituais reforça igualmente a idéia de que ela étranscendente.
2
 Porém, a imaginação do Estado-nação emergindo no mundo ocidental ao tempo doocaso, ou ao menos da retração, de um universo cultural fortemente marcado pelasinfluências da Igreja e da dinastia necessita de uma reflexão mais cuidadosa. De acordocom a perspectiva de Anderson, para que essas relações se dessem, algumas condiçõesnecessárias deveriam existir. Entre elas, uma de fundamental importância para o autor
 
CPDOC/FGV
 
Estudos Históricos, Rio de Janeiro, nº 32, 2003 
 
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era o advento de uma nova concepção de tempo – o tempo “homogêneo, vazio ecronológico” – ocupando o lugar das concepções medievais e da Antiguidade quepensavam um “tempo simultâneo”.Quando imaginadas ou concebidas desse modo, as nações apresentariam asreferências comuns que as tornariam singulares. Elas poderiam então ser identificadas aalguns poucos heróis, associadas a certas paisagens naturais e espaços públicos emesmo a certos períodos cronológicos da história. De forma a aparecer vívida paratodos, a descrição de todos esses detalhes deve ser capaz de atingir, com a mesmaeficácia, todos os membros identificados com essas “nações culturais”. Daí aimportância atribuída por Anderson à difusão da imprensa em geral, aos jornais erevistas, aos romances e às apresentações de teatro e ópera no século XIX, como formaseficazes de vulgarização das referências comuns acima mencionadas. O advento da“tecnologia do capitalismo editorial” – termo também cunhado por Anderson –, queampliou a produção em massa do livro impresso, somado ao progresso do transportetransoceânico, teria contribuído bastante para a possibilidade de começar-se a imaginare narrar, precoce e simultaneamente, a nação nas Américas e na Europa. Tais“condições operacionais” – como são por ele chamadas – para a difusão do novoimaginário associado ao Estado-nação teriam existido desde o início dos temposmodernos, embora o seu progresso mais intenso tivesse ocorrido apenas nos séculosXVIII e XIX.
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 Comentando os desenvolvimentos da identidade nacional na Ásia de 1860 a 1920 (ediscutindo basicamente os casos da China e da Índia), Prasenjit Duara apresenta-nosnovas contribuições para esse debate. Duara chama a nossa atenção para o fato de que onacionalismo, como forma de identificação, embora necessariamente relacionado aosistema de Estados-nação modernos desenvolvidos no mundo ocidental, não deveconfundir-se com ele. Negando, pois, o excesso de linearidade e mesmo uma certateleologia, presentes no trabalho de Anderson, Duara analisa um tempo da históriachinesa em que identificações de grupos haviam se tornado politizadas e começavam aaparecer como “nacionais”, ainda que permanecendo “pré-modernas” em grandemedida. Para Duara (1996: 152-4), foi o contato com um “outro” agressivo –personificado pelas potências européias do século XIX – que acelerou na China atransição de um certo “culturalismo” (aqui entendido como convicção natural desuperioridade cultural) para o “nacionalismo” (entendido como a politização da culturaou a sua proteção pelo Estado).
 
CPDOC/FGV
 
Estudos Históricos, Rio de Janeiro, nº 32, 2003 
 
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É importante lembrar que essa análise constitui uma importante exceção àinterpretação clássica de Anderson. Em outras palavras, o nacionalismo passa a ser vistocomo uma identidade relacional, mas esse sentido restrito de unidade não é consideradonem único, nem exclusivo da sociedade moderna. Duara (1996: 153) afirma que“indivíduos e grupos em sociedades quer modernas quer agrárias identificam-sesimultaneamente com várias comunidades, todas elas imaginadas. Tais identificaçõessão historicamente mutáveis e com freqüência conflituosas, internamente e umas com asoutras”. Enfatiza, em suma, que essas identificações políticas chamadas por alguns de“pré-modernas” não necessariamente precisam se desenvolver no sentido de se tornaremidentificações nacionais dos tempos modernos. Nas sociedades que estuda, percebe, aocontrário, como os novos vocabulário e sistema político também selecionam, adaptam,reorganizam e recriam velhas identidades, fazendo assim com que as sociedadesmodernas não sejam as únicas capazes de criar comunidades políticas conscientes de sipróprias como tal.Creio que esse raciocínio pode ser aplicado não apenas às sociedades orientais, masigualmente a outras chamadas periferias do mundo ocidental – incluindo-se aqui aAmérica Latina, considerada por alguns como uma espécie de longínquo ou “ExtremoOcidente” (Rouquié, 1989).Conseqüentemente, apesar da aceitação inconteste de que o Estado-nação representauma “idéia histórica poderosa” que emergiu no Ocidente, como resultado dodesenvolvimento das “tradições do pensamento político e da linguagem literária”(Bhabha, 1990), o modo como essa “idéia poderosa” apresentou-se e evoluiu em outrasculturas revela profundas singularidades. O modelo do Estado-nação foi legitimadohistoricamente no Ocidente por duas experiências bastante bem-sucedidas: as da Grã-Bretanha e da França. Não representa nenhuma coincidência que as idéias maisinfluentes disseminadas a respeito do nacionalismo fossem referidas basicamente aesses dois países e também à Alemanha, cujo importante papel cultural e políticotambém contribuiria para ofuscar os demais nacionalismos dispersos, desenvolvidos noséculo XIX.A análise que Mary Ann Perkins realiza sobre esses três casos permite-nos umentendimento mais aprofundado do porquê do fenômeno mencionado acima. Seuscomentários detalhados sobre as relações entre a linguagem, a religião e as idéiasdifundidas sobre o Estado-nação desde o Iluminismo, na Europa, revelam a importantecontribuição desses países.

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