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E
m 1981, seis anos após a independência de Moçambique, o governotomou a decisão de criar uma televisão nacional. A entidade governa-mental responsável pelo projeto tinha aproveitado, na fase de preparaçãoda resolução final, um mês de emissões promocionais para realizar umapesquisa sobre os gostos e expectativas da população em relação ao novomídia. Fez-se um curto vídeo, numa área da periferia urbana,  registrandoas reações do público a um
western
americano e entrevistando, no final,alguns dos espectadores, quase todos jovens, que tinham aderido à projeçãocom mais evidente entusiasmo. Para grande surpresa de todos nós, ne-nhum dos entrevistados havia entendido que o filme tinha uma história.Esta constatação foi o início de uma profunda reflexão do grupo de trabalhono decurso da qual tomamos consciência de que, no processo de apropriaçãodo que aqueles espectadores acabavam de ver no
ecran
, a percepção senso-rial antecedia e se sobrepunha à racional. O seu entusiasmo, a alegria de-monstrada, a participação intensa do que passava diante dos seus olhosrespondia à força intrínseca de cada cena, violenta ou cômica, espetacularou movimentada. Descreviam as cenas que os haviam impressionado maseram incapazes de recordar a conexão existente com o que as antecedia oulhes sucedia.Estávamos perante uma situação extrema de um dos conflitos emblemá-ticos da África em transição. Constatávamos a clivagem existente entredois mundos. De um lado, uma realidade pré-industrial, fundada na oralidade,limitadamente aculturada, em que os fenômenos só ganham sentido quan-
A QUESTÃO DA DIFERENÇA NALITERATURA MOÇAMBICANA
José Luís Cabaço
Universidade de São Paulo
 
62 via atlântica n. 7 out. 2004
do, no plano místico ou no plano do concreto, se encaixam na unidade har-mônica do seu mundo de certezas. Do outro, uma sociedade culturalmenteindustrial, impregnada do simbolismo da escrita e da imagem, onde a com-preensão dos fenômenos procede da sua abordagem analítica e da dúvidacomo pressuposto de método.Os espectadores/camponeses, porque a linguagem cinematográfica seguiaprincípios e regras semânticas cuja gênese e cujas referências se situavam nasociedade industrial e, portanto, no exterior do próprio patrimônio cultural,não dispunham de elementos para decifrar o conteúdo. As cenas surgiam-lhes,assim, isoladas, apenas inteligíveis nalguns dos seus elementos e, principal-mente,  quando as variáveis de espaço e  de tempo eram fixas. Em síntese, alinguagem cinematográfica era tão pouco compreensível para a massa dos neo-espectadores quanto a linguagem escrita para a multidão dos analfabetos.O debate alargou-se, por conseqüência, para a necessidade de se repen-sarem os ritmos, a utilização do tempo e espaço, as acentuações narrativas, ovalor dos símbolos, em função de um espectador com o qual era essencialaprender muito para saber como ajudá-lo a descodificar a imagem.Esta descoberta da profundidade da diferença passava-se num paísmarcado, na véspera da independência, por uma taxa de analfabetismo queatingia 92% dos seus, então, 12 milhões de habitantes. Cerca de 10% dapopulação vivia em zonas urbanas, a quase totalidade nas áreas periféricasde cidades e vilas ocupadas pelos colonos. Não havia televisão e a rádio erao único mídia tecnológico que cobria  os centros urbanos e sensivelmentemetade das zonas rurais. Ao cabo de 500 anos de soberania portuguesa, quena realidade foram pouco mais de 100 anos, as populações negras que habi-tavam o território de Moçambique continuavam vivendo, não por incompe-tência do colonialismo mas por uma deliberada política de dominação, numasociedade dominantemente oral.“Miséria do povo, opressão nacional e inibição da cultura, são uma e amesma coisa”, sintetizou Franz Fanon (s.d., p.233).A experiência de intervenção na área cultural evidenciava cada diaque a noção de diferença, palavra estigmatizada pelo discurso hegemônico,estava indissociavelmente contida no conceito de periferia. A África era e énaturalmente marcada pela diferença em relação à referência universal domundo em que somos periferia: o da cultura euro-americana.
 
A questão da diferença na literatura moçambicana 63
A dominação colonial foi o instrumento essencial desse processo deperiferização. A história recente de Moçambique, antes da independência,evidencia como as formas de expressão cultural pré-industriais foram irre-mediavelmente segregadas.Aquilo que o sistema português considerava “cultura”, sempre sob a aus-tera vigilância da censura oficial, cingia-se à produção artística, literária e cien-tífica, de matriz ocidental, levada a cabo na sociedade urbana. O espaço criati-vo, limitado pelos gostos de um público em que a cultura do ocupante erahegemônica, desempenhava, entre outras, a função de  aproveitar os talentose aptidões para afirmar a supremacia da cultura do colono junto das minoriasafricanas alfabetizadas e, deste modo, reforçar a política de assimilação.Opunham-se duas sociedades, como já referi, dois estágios de desen-volvimento, dois modos de estar na vida, constituindo, num  mesmo territó-rio, as duas margens divididas pela águas caudalosas do desconhecimento eda exclusão.Foi logicamente no movimento cultural das cidades que os primeirosintelectuais moçambicanos, mestiços e negros, se foram paulatinamente afir-mando. Deste período, no primeiro quarto de século de 1900, destacam-se ostextos vigorosos dos irmãos João e José Albasini e de Estácio Dias nas pági-nas do seu jornal
O Brado Africano 
. A palavra escrita revelou-se a forma maisdireta de exprimir as sofridas angústias, de denunciar as iniqüidades e injus-tiças, de fazer ouvir a própria voz. Os textos desses intelectuais assimilados,veiculados através da imprensa, dirigiam-se ao colonizador reclamando umespaço na sociedade urbana e moderna ao qual, como burguesia nascente ecomo elite iluminada, se sentiam com direito. Esmeravam-se no uso da lín-gua portuguesa porque não se podiam permitir que uma imprecisão formalos desqualificasse como assimilados ou comprometesse o valor da sua argu-mentação.O sistema respondia com a repressão e, acentuando a diferença, dis-criminava-os racialmente e remetia-os para a periferia social. A sua discri-minação, portanto, não se fundamentava na diversidade de comportamen-tos, mas sim na cor da pele.Naquele contexto, gradualmente adquire consciência de que, a despei-to de sua cultura urbana, ele nunca seria aceite como cidadão pleno, masseria sempre visto como diferente, como colonizado. No mundo implantado
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