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Artigo - Como Escrever a Tese Certa e Vencer - José Murilo de Carvalho

Artigo - Como Escrever a Tese Certa e Vencer - José Murilo de Carvalho

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Categories:Types, Research
Published by: Helena Velčić Maziviero on Mar 13, 2011
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08/10/2013

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Como escrever a tese certa e vencer
José Murilo de Carvalho
Ter que fazer uma tese de doutoramento na incerteza de como será recebida e nainsegurança quanto ao futuro da carreira é experiência traumática. Quando passei por ela,gostaria de ter tido alguma ajuda. É esta ajuda que ofereço hoje, após 30 anos de carreira, aum hipotético doutorando, ou doutoranda, sobretudo das áreas de humanidades e ciênciassociais. Ela não vai garantir êxito, mas pode ajudar a descobrir o caminho das pedras.Dois pontos importantes na feitura da tese são as citações e o vocabulário. Vocêserá identificado, classificado e avaliado de acordo com os autores que citar e aterminologia que usar. Se citar os autores e usar os termos corretos, estará a meio caminhodo clube. Caso contrário, ficará de fora à espera de uma eventual mudança de cânone, quepode vir tarde demais. Começo com os autores. A regra no Brasil foi e continua sendo: citesempre e abundantemente para mostrar erudição. Mas, atenção, não cite qualquer um. Épreciso identificar os autores do momento. Eles serão sempre estrangeiros. Atualmente, apreferência é para franceses, alemães e ingleses, nesta ordem. Cito alguns, lembrando quea lista é fluida. Entre os franceses, estão no alto Chartier, Ricoeur, Lacan, Derrida,Deleuze, Lefort. Foucault e Bourdieu ainda podem ser citados com proveito. Quem selembrar de Althusser e Poulantzas, no entanto, estará vinte anos atrasado, cheirará anaftalina. Se for para citar um marxista, só o velho Gramsci, que resiste bravamente, ou onorte-americano F. Jameson. Entre os alemães, Nietzsche voltou com força. Auerbach eBenjamin, na teoria literária, e Norbert Elias, em sociologia e história, são citaçãoobrigatória. Sociólogos e cientistas políticos não devem esquecer Habermas. Dentre osingleses, Hobsbawm, P. Burke e Giddens darão boa impressão. Autores norte-americanosestão em alta. Em ciência política, são indispensáveis. Robert Dahl ainda é aposta segura,Rorty e Rawls continuam no topo. Em antropologia, C. Geertz pega muito bem, o mesmopara R. Darnton e Hayden White em história. Não perca tempo com latino-americanos (ouafricanos, asiáticos, etc.). Você conseguirá apenas parecer um tanto exótico. Da Península
 
 2
Ibérica, só Boaventura de Souza Santos, e para a turma de direito. Brasileiros não ajudarãomuito mas também não causarão estrago, se bem escolhidos. Um autor brasileiro, noentanto, nunca poderá faltar: seu orientador ou orientadora. Ignorá-lo é pecado capital.Você poderá ser aprovado na defesa da tese mas não terá seu apoio para negociar apublicação dela e muito menos a orelha assinada por ele, ou ela. Se o orientador ouorientadora não publicou nada, não desanime. Mencione uma aula, uma conferência,qualquer coisa.O vocabulário é a outra peça chave. Uma palavra correta e você será logo bem visto.Uma palavra errada e você será esnobado. Como no caso dos autores, no entanto, é precisodescobrir os termos do dia. No momento, não importa qual seja o tema de sua tese, procureencaixar em seu texto uma ou mais das seguintes palavras: olhar (as pessoas não vêem,opinam, comentam, analisam: elas lançam um olhar); descentrar (descentre sobretudo oEstado e o sujeito); desconstruir (desconstrua tudo); resgate (resgate também tudo o que forpossível, história, memória, cultura, deus e o diabo, mesmo que seja para desconstruirdepois); polissêmico (nada de ‘mono’); outro, diferença, alteridade (é a diferença erudita),multiculturalismo (isto é básico: tudo é diferença, fragmente tudo, se não conseguir juntardepois, melhor); discurso, fala, escrita, dicção (os autores teóricos produzem discurso,historiadores fazem escrita, poetas têm dicção); imaginário (tudo é imaginado, inclusive aimaginação); cotidiano (você fará sucesso se escolher como objeto de estudo algum aspectonovo do cotidiano, por exemplo, a história da depilação feminina); etnia e gênero(essenciais para ficar bem com afro-brasileiros e mulheres); povos (sempre no plural, “ospovos da floresta”, “os povos da rua”, no singular caiu de moda, lembra o populismo dosanos 60, só o Brizola usa); cidadania (personifique-a: a cidadania fez isso ou aquilo,reivindicou, etc.). Para maior efeito, tente combinar duas ou mais dessas palavras. Resgatea diferença. Melhor ainda: resgate o olhar do outro. Atinja a perfeição: desconstrua, comnovo olhar, os discursos negadores do multiculturalismo. E assim por diante.Como no caso dos autores, certas palavras comprometem. Você parecerá
démodé
se falar em classe social, modo de produção, infra-estrutura, camponês, burguesia,nacionalismo. Em história, se mencionar descrição, fato, verdade, pode encomendar a alma.Além dos autores e do vocabulário, é preciso ainda aprender a escrever como umintelectual acadêmico (note que acadêmico não se refere mais à Academia Brasileira de

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