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Roda Viva - Entrevista com Gabriela Silva Leite, socióloga e prostituta‏

Roda Viva - Entrevista com Gabriela Silva Leite, socióloga e prostituta‏

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Published by Gilson Barbosa
Entrevista com a Sociologa Gabriela Silva Leite
Entrevista com a Sociologa Gabriela Silva Leite

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05/12/2014

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Gabriela Leite
1/6/2009
Diretora da ONG Davida conta sua trajetória como prostituta e relembra um pouco da história daprostituição feminina no Brasil entre os anos 60 e 70
Heródoto Barbeiro:
Olá, boa noite. Nesta terça-feira, dia 02 de junho, é o DiaInternacional da Prostituta. A data lembra quando 150 mulheres com o apoio da Igreja[Católica] e também da população ocuparam uma igreja na cidade francesa de Lyon,isso foi 1975. Elas protestavam contra a perseguição policial, cobrança de multa,detenções e também assassinatos. O ato terminou com uma violenta repressão dapolícia. A coragem em apresentar os problemas fez com que aquelas mulheresrompessem preconceitos e entrassem para a história. No Brasil os problemas sãoparecidos. Ainda hoje nós vamos falar sobre esse tema. E a entrevistada do
Roda Viva
 desta segunda-feira é Gabriela Leite, prostituta nos anos 70 e 80 e que atualmentetrabalha pelo reconhecimento da profissão e também pela defesa dos direitos dessasmulheres. A entrevista começa em trinta segundos.
[intervalo]
 
Heródoto Barbeiro:
E quando o assunto é como ela deve ser apresentada, a GabrielaLeite prefere ser chamada de prostituta apesar de não exercer mais a profissão. Elacritica termos politicamente corretos como "profissionais do sexo", pois considera queeles escondem um preconceito.
[Comentarista Valéria Grillo]:
Gabriela Silva Leite tem 58 anos, nasceu no dia 22 deabril de 1951 em São Paulo, é prostituta aposentada. Em seu livro recém lançado
Filha,mãe, avó e puta: a história da mulher que decidiu ser prostituta
, Gabriela Leite contasobre sua vida. Logo na primeira página, ela apresenta as suas três paixões: ³Adorohomens, gosto de estar com eles, e não conheço homem feio. Outra coisa que adoro éfalar o que penso, sem papas na língua. Quem ler este livro vai perceber isso. Existeuma terceira coisa que eu prezo muito, talvez a que mais prezo, aliás, que é a liberdade,liberdade de pensar diferente, de se vestir diferente, de se comportar diferente´. Filha deuma dona de casa conservadora e de um crupiê [empregado que nos cassinos ou outrosestabelecimentos de jogos de azar dirige o jogo, paga e recolhe as apostas], ela teve umavida marcada por acontecimentos marcantes na infância e resolveu enfrentar a falta deliberdade na adolescência. Gabriela Leite também aproveita as páginas do livro paraapresentar como deve ser o comportamento das prostitutas e as maneiras de seprevenirem de doenças. No final da década de 60, durante o regime militar, ela cursavafaculdade de sociologia na USP, tinha uma emprego em um escritório e freqüentavacírculos da boemia intelectual paulistana. Largou tudo menos a noite, para fazer a suaprópria revolução ao começar trabalhar como prostituta nos anos 70 e 80 em São Pauloe Belo Horizonte até se radicar no Rio de Janeiro. No Rio trabalhou no bairro boêmio daVila Mimosa e começou a colocar em prática a defesa dos direitos das prostitutas. Em1987 ajudou a organizar o Primeiro Encontro Nacional de Prostitutas. Hoje considera-seaposentada e se dedica a defender a categoria e a regulamentação da profissão. A ONGDavida, fundada por ela em 1991, não tem a intenção de tirar as prostitutas da rua.
 
Pretende promover a cidadania das mulheres com ações nas áreas de educação, saúde,comunicação e cultura. A grife Daspu [inspirada no nome da luxuosa loja de grifesinternacionais de São Paulo chamada Daslu] inaugurada em 2005 ajuda nessa missão.Ela surgiu para gerar visibilidade e recursos para os projetos da ONG. Desfiles já foramrealizados em várias cidades do país e a moda Daspu despertou também o interesseinternacional. Gabriela Leite tem duas filhas, uma neta e ajudou a criar o filho domarido, o jornalista Flávio Lens.
Heródoto Barbeiro:
Dentre nossos convidados para entrevistar a prostituta GabrieleLeite, está aqui conosco a jornalista Kátia Mello, editora de comportamento da revista
É 
poca
. Também a jornalista Carla Gullo, que é redatora-chefe da revista
Marie Claire
.O jornalista Sérgio Torres, que é repórter da sucursal do Rio de Janeiro, do jornal
Folhade S.Paulo
. A professora Margareth Rago, professora titular do Departamento deHistória da Unicamp e autora do livro
Os prazeres da noite: prostituição e códigos esexualidade feminina em São Paulo (1890 e 1930)
. Conosco também está aqui o PauloCaruso com as suas charges, retratando os melhores momentos do programa. Tambémtemos ao nosso lado a nossa companheira, a repórter Carmen Amorim, que apresentaaqui as perguntas encaminhadas pelos nossos telespectadores ao nosso endereçoeletrônico. Gabriela, boa noite, muito obrigado aqui pela entrevista.
Gabriela Leite:
Boa noite, e eu é que agradeço pelo convite de estar aqui.
Heródoto Barbeiro:
Gabriela, quando a gente fala aqui em regulamentação daprofissão, o que a gente poderia estabelecer? Salário, décimo terceiro, direito àaposentadoria, recolhimento para a previdência social? Como é que a gente pode reduzir ou resumir quais são esses direitos trabalhistas?
Gabriele Leite:
Então, a prostituição no Brasil não é crime. Crime é manter casa deprostituição. E como tudo que é proibido e existe cria máfias, existia uma máfia muitogrande no meio dos chamados exploradores da prostituição, que não pagam direitonenhum para as prostitutas. Então, a gente está lutando para tirar do Código Penal essessenhores e senhoras, para que eles assumam os seus deveres com as prostitutas. E nadaimpedindo também que a prostituta consiga, como autônoma, pagar todos os seusimpostos e também receber os seus direitos.
Heródoto Barbeiro:
Essas pessoas que você citou seriam então os empregadores, éisso?
Gabriela Leite:
É, empregadores, isso.
Heródoto Barbeiro:
Aí eles recolheriam a previdência social como qualquer outroempregador no país?
Gabriela Leite:
Exatamente. Porque da forma que é hoje, as prostitutas sãoextremamente maltratadas. Existem lugares no Brasil, por exemplo, em que elas ficamem cárcere privado. Eu vi isso lá no Oiapoque. As prostitutas presas numa casa, e odono da casa dizia que as trancava com cadeado para elas não fugirem. Eles fazem oque querem porque como estão proibidos, pagam um dinheirinho para a polícia, parapoder funcionar, e as prostitutas não têm nada.
 
M
argareth Rago:
Gabriela, eu queria dizer que é um prazer enorme estar aqui comvocê, e que a primeira vez que a vi você causou uma surpresa enorme no programa doJô Soares. Isso faz mais de vinte anos, e acho que de lá para cá você continua nossurpreendendo sempre. Com toda sua experiência de luta pelos direitos das prostitutas,de questionamento na sua própria vida, dos estereótipos lançados sobre as mulheres,seja como vítima, seja como fatais, ameaçadoras para a cultura, com toda essa largaexperiência e essa trajetória enorme, eu queria lhe perguntar o seguinte: você acha que asociedade brasileira mudou em relação à prostituta? Você acha que os pânicos moraisestão mais abrandados? Você acha que há um outro olhar em relação à prostituição?Entendendo que você é uma pioneira na construção desse novo olhar.
Gabriela Leite:
O que eu acho é assim: a sociedade sempre, com relação à prostituição,é meio a meio. Quando eu participo de algum programa que tem uma enquete, é sempreassim: 49%, 51%, contra, a favor. E sempre é contra e sempre é muito a favor, não temmeio termo com relação à prostituição. Com relação aos preconceitos, ao pânico morale essa coisa toda, eu particularmente acho que piorou ultimamente. Eu sou uma pessoaque viveu a juventude na década de 70, quando a gente queria se abrir para tudo. Derepente, como a sociedade, na minha opinião, vive em ondas, nós estamos vivendo umaonda muito conservadora. Outro dia eu dei uma entrevista aí para um jornal, para umsite de um jornal, depois tinha lá os comentários das pessoas. Nossa! Era terrível! Aspessoas me chamavam de vadia [enquanto relata, vai enumerando com os dedos], desem-vergonha, que precisava de um tanque de roupa para lavar. Eu até mandei um e-mailzinho dizendo: ³gente, hoje ninguém precisa lavar roupa no tanque, tem máquina delavar, né´?. [risos] Então mandei e-mail falando isso. É assim, as pessoas ainda têmmuito preconceito. Mas tem também as pessoas que acham que tem que ser por aí, quetem que mudar, que a prostituta tem que sair de debaixo do tapete. E eu continuofalando a mesma coisa há trinta anos: ³prostituta é acima de tudo também uma mulher como outra qualquer´.
M
argareth Rago:
Porque é uma novidade muito grande que você traz, eu realmentenão conheço outra pessoa que trouxe dessa maneira ± eu conheço pessoas que vieramdepois de você ± que mudou o patamar de relacionamento com a prostituição. Quer dizer, você abriu um espaço em que não há uma pretensão de salvar a prostituta naquelesentido de retirá-la da prostituição, o que era uma estratégia que nunca deu certomesmo, não é?
Gabriela Leite:
Nunca, nunca deu certo.
M
argareth Rago:
Então, talvez você pudesse contar um pouco para nós isso, essa novarelação que você estabelece com a coisa, e de dentro.
Gabriela Leite:
Eu acho que a princípio é muito boba essa história de querer salvar pessoas, né? É de uma pretensão imensa. E salvar o quê? As pessoas fazem suas opções,às vezes as opções são menores, às vezes são um pouquinho maiores, mas as pessoasfazem. E elas vão para os seus lugares porque elas estão optando por isso. E se elaquiser sair, eu acho que ela, como mulher, sai por si mesma. Ela começa a pensar: ³nãoquero, não me dou bem nessa história, vou fazer outra coisa´. Como todas as pessoas.Então isso sempre me incomodou porque eu nunca quis que ninguém me salvasse, eusempre tomei as minhas decisões. E quando o pessoal da igreja e tal dizia: ³não, vocêprecisa ter uma outra vida, se encontrar com Deus´. Eu dizia: ³Não, eu quero ter minha

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