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Myrian Sepúlveda dos Santos - Integração e Diferença

Myrian Sepúlveda dos Santos - Integração e Diferença

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11/13/2012

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Introdução
O tema da interdisciplinaridade é cada vezmais debatido no meio acadêmico. Os organiza-dores do encontro da SBPC em 2006, cujo títulofoi “Semear a Interdisciplinaridade”, procuraramnão só intensificar o debate sobre o tema, masincentivar a formação de grupos de trabalho comespecialistas de diferentes campos disciplinares.O ponto de partida do encontro foi o diagnósticode que a progressiva especialização nas variadasáreas do conhecimento pode levar a uma visãoretalhada e incompleta do mundo. Questões rela-cionadas à nanotecnologia, à biodiversidade, aomapa genético ou à criminalidade, por exemplo,não são mais respondidas com base em marcosdisciplinares já estabelecidos. Na área das ciênciassociais, o debate é também muito intenso. Emduas publicações recentes, há a preocupação emultrapassar as limitações da especialização cres-cente do conhecimento e fronteiras disciplinares.
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O que presenciamos, hoje, portanto, é ummovimento inverso àquele responsável pela frag-mentação do mundo em campos disciplinares, ouseja, a tentativa de que esses campos se comuni-quem, permitindo a formação de um conhecimen-to mais adequado às necessidades de intervençãoprática, política e social. Ao reduzirem a complexi-dade do mundo real, as diversas disciplinas enfren-tam impasses na compreensão e na explicação deseus objetos, bem como no desenvolvimento e naaplicação de suas descobertas. Cabe ressaltar,
Artigo recebido em novembro/2006 Aprovado em setembro/2007 
RBCS Vol. 22 nº. 65 outubro/2007 
INTEGRAÇÃO E DIFERENÇA EMENCONTROS DISCIPLINARES*
Myrian Sepúlveda dos Santos
* Agradeço a Rosane Prado, Hector Leis e FredericVandenbergue a leitura cuidadosa e os comentáriosa este texto, inicialmente apresentado na mesaredonda “Limites e Trânsitos Interdisciplinares nasCiências Sociais Hoje”, Anpocs, 2006.
 
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REVISTA BRASILEIRA DE CIÊNCIAS SOCIAIS - VOL. 22 N
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nesse sentido, a advertência de Bruno Latour sobrea separação moderna entre ciências exatas, bioló-gicas e humanas. Ao levantar questões relaciona-das com aquecimento global, poluição, camada deozônio e aumento demográfico, cujos temas sãohíbridos e envolvem natureza e cultura, o autor sepergunta: Em que campo do conhecimento deve-mos abrigar tais temas? Na biologia, na sociologia,na história natural, na sociobiologia? (Latour, 1991,pp. 72-73). Entretanto, apesar do foco crescente nainterdisciplinaridade, não se observa no campocientífico um aumento significativo de pesquisasinterdisciplinares.Há dois aspectos que precisam ser enfatiza-dos para compreendermos as dificuldades relati-vas ao estabelecimento de novas abordagens. Emprimeiro lugar, o conhecimento está organizadosob formas disciplinares nas diversas instituiçõesde pesquisa. A relação de poder e prestígio entrea pesquisa disciplinar e a interdisciplinar não éhomogênea. Aqueles que trabalham em conso-nância com as fronteiras disciplinares consagradasraramente acham necessário ter mais do que umanoção aproximada da linguagem, dos princípios edos conceitos defendidos pelos que trabalham deforma interdisciplinar. Eles só precisam se adaptaraos comitês de avaliação, distribuição de recursos,seleção de recursos humanos, bem como aosdiversos meios de divulgação já existentes. Emcontrapartida, pesquisadores que optam pelainterdisciplinaridade necessitam aprender a lin-guagem e a cultura das diversas disciplinas, mes-mo aquelas que se situam fora de seu campo deinteresse. Abordagens interdisciplinares, como é ocaso dos recentes estudos feministas, têm maiordificuldade de obter legitimidade em departamen-tos e instituições acadêmicas e raramente se cons-tituem em prioridades para o investimento econô-mico das instituições a que pertencem.O segundo aspecto a ser ressaltado ocorreno plano teórico, pois as pesquisas que se locali-zam na fronteira entre uma ou mais disciplinasnão só desafiam o conhecimento disciplinar esta-belecido, como também necessitam estabelecernovos paradigmas para o conhecimento. Nemsempre, entretanto, encontramos nas novas abor-dagens interdisciplinares definições conceituaisclaras de objeto e metodologia.O objetivo deste artigo é aprofundar algunsaspectos relativos aos impasses teóricos relacio-nados à interdisciplinaridade. Como ponto departida desta reflexão tenho por base minhaexperiência profissional – como membro de umprograma de pós-graduação que se autodefinecomo interdisciplinar e editora de uma revistatambém de cunho interdisciplinar – e minha car-reira acadêmica, que, embora inicialmente calca-da nas premissas da teoria sociológica, foi seaproximando gradativamente das opções ofereci-das por outros campos do conhecimento.
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A análise de Thomas Kuhn sobre a estruturadas revoluções científicas tornou-se uma referên-cia obrigatória para este debate, não só porqueele apontou a dinâmica e a evolução da ciência apartir da substituição de paradigmas, mas tambémporque rejeitou a relação direta entre conheci-mento e realidade (Kuhn, 1987). Segundo o autor,as disciplinas científicas são constituídas historica-mente por um paradigma, isto é, um conjunto deregras, princípios e instrumentos que permitementender e classificar fenômenos dentro de umadeterminada visão de mundo.Embora o ponto de partida deste artigo sejao de que projetos sociais e políticos se relacionamàs demandas da sociedade, é importante reco-nhecer a crítica feita por Kuhn à relação diretaque se faz entre uma ciência positiva e o mundoreal. As transformações ocorridas nos diversoscampos do saber têm ritmos e especificidadesdiversas e no que tange ao conhecimento acadê-mico seu desenvolvimento tem característicaspróprias. A especialização do saber da forma queconhecemos hoje tem uma clara demarcação noséculo XVIII e corresponde a uma série de fenô-menos apontados pelos grandes pensadores doinício do século XX. Acreditava-se que a crescen-te divisão do trabalho, da racionalidade, da buro-cracia e dos processos de individualização eramaspectos oriundos do desenvolvimento, da evolu-ção ou progresso da humanidade.O saber acadêmico e institucionalizado orga-nizou-se com base na separação entre natureza ecultura. A explicação de fenômenos da naturezapassou a ser dada a partir da observação empíri-ca e de métodos indutivos claros. A redução e afragmentação da realidade tiveram como objetivoproporcionar conhecimentos cada vez mais espe-
 
INTEGRAÇÃO E DIFERENÇA...
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cíficos e precisos sobre os objetos estudados. Acisão entre natureza e cultura, portanto, permitiua formação de uma racionalidade científica queinicialmente se voltou para os fenômenos da na-tureza, mas, logo em seguida, se expandiu para ocampo da Biologia e das atividades humanas.Alguns autores trouxeram para as ciênciassociais os métodos utilizados na explicação defenômenos da natureza, e os acontecimentossociais passaram a ser conceituados em bases rígi-das e comparados entre si. Regularidades, funçõese estruturas foram ressaltadas. Concomitantemente,a abordagem histórico-hermenêutica foi defendidacomo base do conhecimento aplicado às humani-dades. Negava-se, neste caso, o distanciamentoentre pesquisador e objeto e defendia-se o conhe-cimento derivado da proximidade e empatia exis-tentes entre ambos. O caráter científico continuavaa existir, sendo dessa vez derivado do rigor dométodo interpretativo aplicado. Em ambos oscasos, rejeitava-se a existência de afinidades entrea espécie humana e outros seres vivos.Embora a compartimentalização do conheci-mento jamais tenha alcançado consenso no inte-rior do debate permanente acerca dessa questão,atualmente ela tem sido alvo de críticas maisduras. A primeira das grandes fronteiras estabele-cidas pela ciência, aquela entre natureza e cultu-ra, tem sido cada vez mais questionada. De umlado, ativistas dos diversos movimentos ecológi-cos e da luta pela paz, dos movimentos feminis-tas, pós-colonialistas e tantos outros repudiam aracionalidade do Ocidente, considerada opresso-ra, e resgatam novas dimensões relacionadas à es-pécie humana, como pulsões, sentimentos e emo-ções irredutíveis à razão. De outro lado, novasdescobertas científicas, como aquelas relaciona-das à manipulação da herança genética, tornamevidente a impossibilidade da separação entrecientificidade e moralidade.
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Diante desse movimento progressivo na dire-ção de um maior diálogo entre diferentes camposdisciplinares, surge a necessidade de es-tabelecermos alguns critérios que facilitem a com-preensão do lugar do qual falamos. Embora o ter-mo interdisciplinaridade possa ser utilizado paraindicar diferentes formas de complementaridade eintegração entre disciplinas, os termos
multi 
disci-plinaridade,
inter 
disciplinaridade e
trans 
discipli-naridade têm sido cada vez mais utilizados paraindicarem de modo mais específico as diferentesformas e graus de comunicação entre disciplinas,isto é, domínios do conhecimento. Eles serão ado-tados ao longo do texto como indicação de hori-zontes possíveis de diálogo a serem respeitados.
Multidisciplinaridade: o encontroentre monólogos disciplinares
O prefixo “multi”, derivado do latim, indicaque algo se apresenta de forma numerosa, emabundância e profusão. Por multimídia, porexemplo, compreendemos a combinação de di-ferentes formas de comunicação – sons, ima-gens, textos – em um único sistema. Multidis-ciplinaridade, portanto, pode ser um termoutilizado para indicar pesquisas de campos dis-ciplinares distintos, os quais, no entanto, seunem em torno de um objetivo comum. As fron-teiras disciplinares são mantidas; a forma de tra-balho em conjunto é complementar e não visa àformulação de conceitos unificados; os resulta-dos das pesquisas são integrados, mas não oprocesso de investigação do objeto. Projetosmultidisciplinares, portanto, são aqueles queapontam para uma colaboração entre pesquisa-dores de diferentes disciplinas, sem que umnovo aparato conceitual seja discutido.Diferentes especialistas desenvolvem investiga-ções e análises com base nos princípios estabe-lecidos por suas disciplinas, sem que se estabe-leçam diálogos e trocas conceituais oumetodológicas entre eles.Os especialistas em nanotecnologia, porexemplo, sem abrirem mão de seus princípiosmetodológicos e conceituais, precisam cada vezmais do conhecimento da biologia ou da medici-na, para que o conhecimento adquirido possa seraplicado no combate a doenças, na produção dealimentos e assim por diante. Da mesma forma,podemos dizer que a engenharia ambiental ne-cessita cada vez mais do conhecimento da antro-pologia sobre populações nativas para que a apli-cação do monitoramento e do controle ambientalpossa se efetivar. Estes são apenas alguns exem-plos da necessidade crescente de comunicaçãoentre campos disciplinares.

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