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A memória como murmúrio da multidão (PET - Direito & Ditadura)

A memória como murmúrio da multidão (PET - Direito & Ditadura)

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Published by murilodccorrea
O presente texto é fruto da comunicação realizada na mesa “Direito, Exceção e Ditadura”, do evento “Direito e Ditadura”, organizado pelo Programa de Educação Tutorial do curso de Graduação em Direito da Universidade Federal de Santa Catarina, sob a tutoria da Profª Drª Jeanine Nicolazzi Phillippi. Este pequeno ensaio busca lançar um novo olhar sobre as políticas da memória no Brasil e descrever a anistia como dispositivo de biopoder. A partir de uma leitura heterogênea e, talvez, inusitada – que passa por Espinosa, Bergson, Benjamin, Arendt, Foucault, Deleuze, Negri e Agamben, pretende-se conectar no seio das relações entre exceção, anistia e memória, uma série de questões tantas vezes desprezadas; trata-se de perguntar-se sobre o que significa, e quais as dimensões, de uma política da memória irredutível ao acesso aos arquivos documentais mas que, por outro lado, não pode deles prescindir. Isso coloca em tensão uma série de conceitos desde a narrativa histórica até a relação dos homens com seu tempo, com a memória e com o real.
O presente texto é fruto da comunicação realizada na mesa “Direito, Exceção e Ditadura”, do evento “Direito e Ditadura”, organizado pelo Programa de Educação Tutorial do curso de Graduação em Direito da Universidade Federal de Santa Catarina, sob a tutoria da Profª Drª Jeanine Nicolazzi Phillippi. Este pequeno ensaio busca lançar um novo olhar sobre as políticas da memória no Brasil e descrever a anistia como dispositivo de biopoder. A partir de uma leitura heterogênea e, talvez, inusitada – que passa por Espinosa, Bergson, Benjamin, Arendt, Foucault, Deleuze, Negri e Agamben, pretende-se conectar no seio das relações entre exceção, anistia e memória, uma série de questões tantas vezes desprezadas; trata-se de perguntar-se sobre o que significa, e quais as dimensões, de uma política da memória irredutível ao acesso aos arquivos documentais mas que, por outro lado, não pode deles prescindir. Isso coloca em tensão uma série de conceitos desde a narrativa histórica até a relação dos homens com seu tempo, com a memória e com o real.

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06/14/2013

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A memória como murmúrio da multidão
Murilo Duarte Costa Corrêa
i
 
Índice.
I O legível: à sombra das sobrevivências; II O invisível dos gestos: dosrastros ao resto; III O inaudível: a memória como murmúrio da multidão; IVAfectos, ressonâncias, rumores; V Notas.
Resumo.
O presente texto
é fruto da comunicação realizada na mesa “Direito, Exceção eDitadura”, do evento “Direito e Ditadura”,
organizado pelo Programa de Educação Tutorial docurso de Graduação em Direito da Universidade Federal de Santa Catarina, sob a tutoria da ProfªDrª Jeanine Nicolazzi Phillippi. Este breve ensaio busca lançar um novo olhar sobre as políticas damemória no Brasil e descrever a anistia como dispositivo de biopoder. A partir de uma leituraheterogênea e, talvez, inusitada
– 
que passa por Espinosa, Bergson, Benjamin, Arednt, Foucault,Deleuze, Negri e Agamben, pretende-se conectar no seio das relações entre exceção, anistia ememória, uma série de questões tantas vezes desprezadas; trata-se de perguntar-se sobre o quesignifica, e quais as dimensões, de uma política da memória irredutível ao acesso aos arquivosdocumentais. Isso coloca em tensão uma série de conceitos desde a narrativa histórica até a relaçãodos homens com seu tempo, com a memória e com o real.
Palavras-chave.
Memória; Exceção; Política; Ontologia; Real.
IO legível: à sombra das sobrevivências
Em 1977, Michel Foucault publicava em
Les Cahiers du Chemin
« La vie deshommes infâmes ». Em sua primeira frase, esboçava um gesto que já não era o do filósofoou do historiador, mas o
do homem infame e qualquer que o habitava: “Ce n‟est point
un
livre d‟histoire” (FOUCAULT, 2001, p. 237).
Em meio às três infâmias foucaultianas
ii
 
– 
 que a Deleuze causaram tanto gozo e riso
– 
, está em jogo uma memória que só pode sertranscrita naquele que Foucault (2001, p. 241) dizia ser
o “ponto mais intenso das vidas”,“bem ali onde se chocam com o po
der, se debatem com ele, tentam utilizar suas forças ou
escapar de suas armadilhas”
iii
.O encontro com o poder
– 
quotidiano, como o mais trivial corpo-a-corpo entrehomens e dispositivos
– 
, no entanto, produz algo mais que o entrechoque, o espanto ou oestampido da violência que investe de fora os corpos orgânicos. Mesmo as vidas quaisquer,destinadas a desaparecer
, a “passar por baixo de qualquer discurso sem nunca terem sidofaladas” (FOUCAULT, 2001, p.
241), no contato instantâneo com o poder, deixam-seafetar e, ruidosamente, esquecem atrás de si rastros narrativos.Os rastros são o que, embora essencialmente apagáveis, e sempre sujeitos àdesaparição (GAGNEBIN, 2006, p. 114), no entanto, restam; ficcionais, icônicos,
 
2
 
inaudíveis, deixam vestígios da aparição singular daqueles homens em um mundo que seencarregou insidiosa e exaustivamente de suprimi-los.Walter Benjamin (1994, p. 114-119) qualificava como ingênua e ilusória a tentativade imprimir um rastro como forma de resistir ao anonimato nas sociedades capitalistas; sobessa condição, apenas o historiador trapeiro, ou sucateiro, cuja pobreza faz desejar nãodeixar nada se perder, pode encontrar o ponto em que a memória parece coincidir com oreal; em que é
o insignificante
que, ao ser pego pelo rabo, seria capaz de transmitir o que atradição inteiramente confiscada pela história oficial não pode recordar. Aquilo que otrapeiro transmite é, já, não legado ou corpo, mas
experiência
(BENJAMIN, 1994, p. 114).Nessa medida, o Foucault que se ocupa da vida dos homens infames
– 
de rastrosnarrativos que são verdadeiras formas de sobreviver na ficção da burocracia administrativa
– 
, recolhe elementos narrativos marcados pela ambiguidade do
 
legível reduzido aoinsignificante: a um só tempo, o insignificante como o que não significa e, portanto, nãoimporta, e o insignificante como aquilo que não importa e, portanto, já não significa.No entanto, aquilo que se recupera de uma história pobre em experiência, em que anarrativa de toda uma vida desprezível, comum, ignóbil, pode reduzir-se a um encontrocom os poderes, nada tem de original ou mais verdadeiro. Para além de Benjamin, opróprio Foucault (2001, p. 241), lendo as narrativas que, por descuido, restaram das vidasdos homens infames, reconhece que
“é, sem dúvida, para sempre impossível recuperá
-las
nelas próprias”
iv
.Os arquivos, produtos desses jogos de poder, só como lenda e ficcção podem, hoje,afetar-nos. São como vestígios de verdade à sombra da narrativa: inalcançáveis pelalinguagem, irrepresentáveis e, portanto,
inconscientes
reaparições de homens sem imagem.O paradoxo dos rastros que restam
– 
extensível dos aparelhos governamentais e desegurança aos relatos burocráticos por eles produzidos
– 
está em que, nos arquivos, essasmulheres e homens devem o lugar e o abrigo de sua precária aparição a um poder quecuidou exaustivamente de produzir seu desaparecimento.A história dos mortos torna-se, portanto, a lembrança infame
de “Vidas que são
como se não tivessem existido, vidas que só sobrevivem do choque com um poder que nãoquis senão aniquilá-las, ou pelo menos apagá-las, vidas que só nos retornam pelo efeito de
múltiplos acasos [...]”
v
(FOUCAULT, 2001, p. 243). Sua existência parece dever-se, agora,integralmente às poucas e terríveis palavras que sobreviveram para torná-los indignos derecordação; no entanto, Foucault lembra que é sob a forma pela qual essas mulheres ehomens infames foram expulsos do mundo que estes fazem seu retorno ao real.
 
3
 
II
O invisível dos gestos: dos rastros ao resto
Atualmente, muitos têm se perguntado sobre aquilo que resta da ditadura.Exemplares a esse respeito os gestos de Vladimir Safatle e de Edson Telles (2010, p. 09-12), que deslocam a avaliação dos efeitos perniciosos de uma ditadura e repetem
– 
comoconvém, diferentemente
– 
, o gesto filosófico-político de Hannah Arendt
vi
e GiorgioAgamben (2008). A
diferença
, sobretudo,
 
reside na tentativa de captar as peculiaridades daexperiência excepcional brasileira e da continuidade de seus fantasmas no presente.Segundo Safatle e Telles, não se deveria julgar ou mensurar aquilo que resta deuma ditadura pelo número de corpos mortos e violados que ela deixa para trás, mas, sim,procurar no presente o que, de fato, constitui aquilo que resta de uma ditadura: asestruturas políticas, administrativas e jurídicas que se prolongam e sobrevivem ainda hojeno seio do Estado democrático de Direito brasileiro.Portanto, perguntar-se sobre o que resta da ditadura demanda, essencialmente,lançar um olhar sobre o presente e os devires de nossas estruturas político-jurídicas; umatarefa essencialmente prática, consistente em um trabalho de diagnóstico que Foucaultsoubera fazer bem. Nas palavras de Philippe Artières (2004, p. 15-37), trata-se
de “dizer a
atualidade
; por isso, ao abrir
A vida dos homens infames
, o gesto filosófico foucaultiano
de dizer “isto não é um livro de história”
, deveria estender-se como a preocupação porexcelência dos filósofos: entranhados na atualidade, compreendê-la como um sintomaprecisamente daquilo que ela já não permite dizer. Isso porque aquilo que resta não seencontra simplesmente nos corpos, nos rastros ou no legível que uma ditadura deixa comolegado, especialmente quando ela não desapareceu por completo.Durante o transcurso dos debates e votos que compuseram a decisão sobre a ADPF153, os interlocutores exauriram-se em firmar o compromisso público de franquear livreacesso aos arquivos da ditadura militar brasileira; afirmavam, ainda
– 
como extensão dessapromessa
– 
, que a negativa a conferir interpretação constitucional conforme à Lei deAnistia não prejudicaria os direitos à verdade e à memória, uma vez que a Anistia nadateria a
ver com “esquecimento”
. Ambas as afirmações constituem sintomas de umaincompreensão mais profunda sobre o dispositivo de anistia e sobre a função ética, práticae ontológica das políticas da memória.Em primeiro plano, seria preciso descrever a anistia como dispositivogovernamental; portanto, como dispositivo complexo, envolvido na vida, mas integrado,

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