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Marilena Chaui - Cultura e Racismo

Marilena Chaui - Cultura e Racismo

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Published by Eduardo Amaral
Aula inaugural FFLCH-USP 10/3/93
Aula inaugural FFLCH-USP 10/3/93

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Categories:Types, Speeches
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Cultura e racismo
(Aula inaugural FFLCH-USP 10/3/93)
Marilena Chauí 
Foi o discurso anti-racista que ofereceu ao neo-racismo os elementos,operando como espelho, para sua aparição. Pensamento eficaz devebuscar elaborar discurso não-racista.
Começarei fazendo algumas observações preliminaresque me permitam delimitar o tema que me foiproposto para esta aula inaugural, que é vastíssimo.a)vou me ocupar, aqui, com um fenômeno que, paramim, é tão ou mais preocupante do que oressurgimento de formas exacerbadas de racismo noBrasil: o fato de que foi o discurso anti-racista queofereceu ao neo-racismo os elementos para suaaparição. O que havia e o que há no discurso anti-racista que o faz servir, como disse um estudioso, deespelho para o discurso racista?b)vou me ocupar aqui das formas mais recentes doracismo no Brasil, pois há três maneiras, pelo menos,de encarar a atitude racista: a atitude histórica, queconsidera o racismo como um conceito e umaideologia que se constituíram apenas no século XIX,quando a idéia de raça, em sentido biológico egenético, tornou-se critério social e político dediferenciação; a atitude a-histórica, que considera oracismo como uma forma milenar e difusa deestabelecer diferenças, classificações e hierarquiasentre os seres humanos; a atitude que opera comanálise de ideologias e as considera temporais edinâmicas, portanto, sujeitas a transformaçõeshistóricas, de tal modo que o racismo difuso dosgregos e romanos, na antiguidade, ou o racismoexplícito do século XIX, são momentos de uma históriaideológica.c)vou me referir ao racismo contemporâneo, noBrasil, usando três referenciais de análise: ideologia,mitologia e nacionalismo. Evidentemente, onacionalismo poderia ser incluído tanto na ideologiaquanto na mitologia e se eu o separei, aqui, ésimplesmente porque darei a ele uma ênfase especial.Tomarei ideologia num sentido muito simplificado erestrito, significando: 1) uma forma de representaçãoda realidade que torna natural o que é cultural; 2)torna legítimos processos de dominação e deexploração econômico-social; 3) Opera como umalógica que organiza, ordena, classifica, diferencia,agrupa, explica e interpreta a realidade, lógica queconserva a coerência sob a condição de que sejamafastados ou silenciados todos os aspectos darealidade que poderiam perturbar ou desmentir acoerência proposta; 4) opera, portanto, porconstrução de imagens ou representações queocultam e dissimulam a realidade; 5) não é uma causanem efeito da realidade, mas é parte dessa mesmarealidade que ela ajuda a construir por meio deimagens (por isso, hoje em dia, muitos falam emimaginário social).Tomarei mito, também, num sentido muitosimplificado e restrito para significar: 1) o momentoem que uma ideologia se cristaliza e se consolida,tornando-se a narrativa cotidiana que os sujeitossociais fazem de sua sociedade; 2) opera com signos esímbolos de identificação do grupo, servindo-lhe dereferência fundamental para explicar e interpretarsituações e fatos novos, referindo-os ao já pensado, jáfeito e já dito; 3) tem uma função pacificadora ouapaziguante diante das situações de tensão e crise; 4)oferece aos sujeitos sociais e políticos um mundoideal perfeito que compensa as imperfeições domundo real onde vivem. Tratarei o racismo comoideologia e mito, cujas relações principais estãoestabelecidas pelo nacionalismo.d) cultura será tomado, aqui, no sentido vasto que lhedá a antropologia cultural (ou antropologia social epolítica), isto é, como a criação coletiva derepresentações, valores, símbolos e práticas quedeterminam para essa coletividade suas formas derelação com o espaço, o tempo, a Natureza e osoutros homens, definindo o sagrado e o profano, onecessário e o possível, o contraditório e o impossível,o justo e o injusto, o verdadeiro e o falso, o belo e ofeio, o legítimo e o il
egítimo, o “nós” e o “eles”. Como
 
escreveu um filósofo, a ordem humana da cultura é ada relação simbólica com o ausente, isto é, alinguagem, o trabalho, a história e a morte. Ésintomático que me tenha sido proposto como tema
para esta aula o título “cultura e racismo”, pois isto
indica que os proponentes já colocaram o racismocomo uma forma cultural de representação esimbolização da alteridade ou da diferença. Em outraspalavras, já pressupuseram que o racismo é umconstruto cultural e, portanto, é algo historicamentedeterminado.e) minha última observação preliminar é um convitepara irmos, rapidamente, aos dicionários, pois elesnos fornecem sempre duas contribuições preciosas:em primeiro lugar, oferecem os vários modos pelosquais uma cultura e uma sociedade usam certosconceitos, tanto no nível do senso-comum ideológicoquanto no nível da pretensão filosófico-científica; emsegundo lugar, porque nos trazem a surpresa de verfamílias de palavras que, à primeira vista, nãoveríamos. As palavras que proponho que busquemosnos dicionários são: no dicionário grego, éthnos egénos; no dicionário latino, natio, genus e ratio; noluso-brasileiro, nação, raça e etnia.éthnos: classe de seres de origem ou de condiçãocomum, donde: 1) em geral, raça, povo, nação, tribo;i) em particular, de pessoas: a raça dos mortais, a raçados homens, a raça dos povos; ii) em particular, deanimais: a raça dos animais selvagens, a raça dasabelhas, dos pássaros, dos peixes etc.; iii) poranalogia: classe, corporação: a raça dos médicos, araça dos artesãos, a raça dos rapsodos; iv). poranalogia, segundo o posto ou a fortuna: a raça dosmagistrados, a raça dos ricos; v). por analogia, o sexo:a raça das mulheres. 2) em sentido absoluto: raça,povo e nação, isto é, grupos que têm a mesma origeme os mesmos costumes.génos: 1) Nascimento, donde: i) o tempo donascimento (o mais velho, o mais jovem);ii)o lugar oua condição do nascimento (cidadão por nascimento,filho por nascimento, filho por adoção); iii) origem edescendência, tanto significando origem a partir dealguém, quanto origem a partir de um lugar; 2) todoser criado, reunião de todos os seres criados (deuses,homens, animais, coisas), significando raça, gênero eespécie: a raça dos deuses, a raça dos metais; ousignificando a família, isto é, o sangue e a raça; gentede família nobre, gente de nobre raça, família derenome, mas também, os ancestrais e osdescendentes; 3) por analogia, associações religiosas,corporações profissionais, grupos políticos: o gênerodos adivinhos, a espécie dos filósofos, e os génos queformam as fratrias na organização dos cidadãos emAtenas; 4) com idéia de nacionalidade: raça, povos,tribos; 5) na classificação científica: gêneros eespécies ou classes dos seres; 6)com a idéia degeração e idade, ou de duração; uma geração dehomens.Como se observa, na língua grega, durante pelomenos 20 séculos, os sentidos de éthnos e génos seespalha, se recobre, se diferencia, reúne sentidosfísicos ou biológicos e sentidos político-sociais.Formado um sentido geral de etnia e gênero, quandoreferido aos helenos como povo ou raça, encontrarãoum vocábulo ao qual se oporão: bárbaros, quesignifica o estrangeiro, o não-heleno, o que nãopertence à raça, ao povo ou à estirpe dos helenos. Osentido de bárbaros se amplia: como helenos eestrangeiros não se entendem, a língua dos bárbarosé incompreensível e, por extensão, bárbaro passa asignificar: confuso, incompreensível, grosseiro e rude;como helenos e bárbaros se guerreiam, novaampliação de sentido: os bárbaros são cruéis e nãocultivados; como os bárbaros não vivem sob aorganização política isto é, não criaram o poderpolítico, mas vivem sob a autoridade pessoal de umrei, vivem sob o despotismo e são os autores dodespotismo oriental. Justamente porque não foramcapazes de criar a política, mas vivem submetidos àautoridade patriarcal do chefe, os bárbaros não foramfeitos para a política; ora, somente na política ohomem é livre; sendo incapazes de política, osbárbaros são escravos por natureza. A raça doshelenos
política, culta e livre
se diferencia daraça dos bárbaros
despótica, grosseira e escrava.Passemos ao latim.natio: vem de nascor: nascer, ser posto no mundo.Diz-se dos seres vivos (plantas, animais e homens) epor extensão e analogia, das coisas inanimadas.Nascença: se diz do que nasce da terra. Dependendoda declinação do substantivo, o verbo nascor significaidade, filho/filha, as crianças. Natales: nascimento,origem, raça, Nativus: que tem nascimento, que temum começo; inato, natural, nativo, oposto a artificial.Natio: 1) nascimento; 2) personificada e divinizada,Nação é a deusa que preside as mulheres no parto; 3)
 
na linguagem camponesa: as crias, a ninhada, a prole;donde: conjunto de indivíduos nascidos no mesmolugar ao mesmo tempo da mesma mãe e,finalmente,nascidos no mesmo lugar, em temposdiferentes e de mães diferentes. De nascor não vemapenas nação, mas também Natureza: ação de fazernascer, nascimento, natureza de alguma coisa, ordemdas coisas geradas e os órgãos da geração.genus: vem de geno: engendrar e, por extensão,produzir, causar (donde: genitor). Genus: nascimento,raça, nascimento nobre, estirpe, e por extensão:reunião de seres tendo uma origem comum ecaracterísticas semelhantes naturais; o vocábulogenus é, por este motivo, sempre associado a natio.Gênero natural e nação caminham juntos. De genovem gens: o grupo de todos os que se prendem pelosmachos a um ancestral comum, ancestral que émacho e livre, formando a comunidade de origem(clã, família, tribo, raça e povo). Gentes designa opovo romano por diferença e oposição aos não-romanos (afora os helenos, todos os não-romanos ouas não-gentes, serão designados como bárbaros). Édessa palavra, gentes, que os cristãos farão a oposiçãoentre cristãos e pagãos, isto é, os gentios, traduçãolatina do hebraico: goi.ratio: vem de reor: contar, calcular. Ratio: conta,cálculo, faculdade de contar e calcular, por extensão,faculdade de julgar e pensar, método, razão. Aocontrário de todos os termos que vimos até aqui, nãoencontramos em ratio nenhum sentido que permitissefalar em raça e, no entanto, é deste termo latino queraça deriva.Vejamos, então, nossos dicionários.raça: do italiano razza (século XV): espécie, tipo; vindode ratio, contagem por semelhança de espécie e tipo.Donde: 1) famíla, considerada na seqüência degerações e continuidades de caracteres
só se dizdas grandes famílias, isto é, das dinastias quegovernam (a raça dos Capetos, a raça dos Tudor, araça dos Orléans e Bragança). Por extensão: família,sangue, comunidade de sangue ou linhagem; espécie.2) subdivisão da espécie zoológica, dividida em sub-raças ou variedades, constituídas por indivíduos quereúnem características comuns hereditárias; 3) gruposhumanos: século XVII: grupo étnico que se diferenciados outros por um conjunto de caracteres físicoshereditários (cor da pele, forma da cabeça, proporçãodos grupos sanguíneos etc), representando variaçõesnaturais no seio da espécie (raça branca, negra,vermelha, amarela); a partir do século XIX: gruponatural de homens que possuem caracteressemelhantes, físicos, psíquicos, culturais, provenientesde um passado comum; etnia, povo, nação.nação: 1270: nascimento, raça; 1) grupo de homenspara os quais se supõe uma origem comum; raça; 2)grupo humano geralmente bastante vasto que secaracteriza pela consciência de sua unidade e pelavontade de viver em comum; povo; 3) grupo humanoconstituindo uma comunidade política estabelecidanum território definido ou um conjunto de territóriosdefinidos e personificada por uma autoridadesoberana; Estado; 4) conjunto de pessoas queconstitui o grupo da comunidade étnica; 5) pessoajurídica constituída pelo conjunto dos indivíduos quecompõem o Estado, mas, distintas dele e portadorasdo direito subjetivo de soberania.etnia: conjunto de indivíduos próximos por certostraços comuns de civilização, notadamente acomunidade de língua e da cultura, ao contrário daraça, que depende de caracteres anatômicos.Antes de qualquer comentário, observemos que tantono dicionário grego como no de latim, a palavra raçanão existe e, no entanto, os tradutores não tiveramdúvida em traduzir ethnos, genos, natio, genus porraça e, curiosamente, não tem como traduzir ratio porraça. Vemos também que os dicionários não têmdúvida em transformar os dois termos gregos e osdois termos latinos em sinônimos de povo, país,Estado. Em suma, os dicionários traduzem para ossentidos dos séculos XVIII, XIX e XX termos clássicos,cuja significação não possui correspondentes emnossa sociedade e em nossa cultura. Esseanacronismo dos dicionários, porém, não é infundado:as teorias sobre a nação, a raça e o Estado sempreforam buscar na antiguidade greco-romana oselementos com que pudessem legitimar sua própriaformulação. Em resumo: com seu anacronismo e comsua a-historicidade, os dicionários nos oferecem emestado bruto os elementos conceituais com quenação, raça e Estado foram elaborados, de modo adeixar claro, para nós, que a formulação moderna osassociou, combinou e identificou.Podemos evidenciar este fato, lembrando, porexemplo, que, antes do surgimento do Estado-nação

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