Welcome to Scribd, the world's digital library. Read, publish, and share books and documents. See more
Download
Standard view
Full view
of .
Save to My Library
Look up keyword
Like this
22Activity
0 of .
Results for:
No results containing your search query
P. 1
Sobre a retórica e os sofistas

Sobre a retórica e os sofistas

Ratings: (0)|Views: 4,396 |Likes:
Published by Eduardo Amaral
Registro das aulas no primeiro semestre de 2010 para as turmas de 2º e 3º anos do ensino médio e publicado no blog CRÔNICAS DE ESCOLA: http://edu74.wordpress.com
Registro das aulas no primeiro semestre de 2010 para as turmas de 2º e 3º anos do ensino médio e publicado no blog CRÔNICAS DE ESCOLA: http://edu74.wordpress.com

More info:

Categories:Types, School Work
Published by: Eduardo Amaral on Apr 10, 2011
Copyright:Public Domain

Availability:

Read on Scribd mobile: iPhone, iPad and Android.
download as PDF, TXT or read online from Scribd
See more
See less

09/01/2013

pdf

text

original

 
SOBRE A RETÓRICA E OS SOFISTAS*
Eduardo AmaralA retórica é a arte de convencer os outrospelo discurso, convencer de que sou euquem carrega a melhor opinião, de queminha opinião é a mais justa. Não por acaso, é naGrécia Antiga que a retórica conhece seu primeirodesenvolvimento, em meio à democracia que nascia.Basta a referência às Assembleias e aos tribunaispara verificarmos como a palavra passa a ocupar umlugar central na vida em sociedade, tal como os gre-gos a praticaram.
Contexto histórico
 
A democracia grega criouuma nova forma de relação entre os homens, em quepouco importava a classe social do cidadão, se eramembro da aristocracia guerreira, que antes detinhatodo o poder de mando sobre a
 pólis
, ou se era umsimples artesão, comerciante ou agricultor: eles sãotodos iguais,
igualmente cidadãos
, e todos os cida-dãos têm o mesmo direito de tomar a palavra naAssembleia onde discutem os destinos da cidade. Éimportante lembrarmos entretanto que apenas eramconsidera
dos “c
ida
dãos”, com direito a voz e voto, os
homens adultos nascidos na cidade (
 pólis
)
que emAtenas, o berço da democracia, correspondia a umdécimo da população. Os outros 90% estavam exclu-ídos dos direitos de cidadania: obviamente os escra-vos, os
metecos
(estrangeiros, nascidos em outracidade), as mulheres e as crianças.Seja como for, é neste chão democrático que
a “arte
da pala
vra” que se desenvolve. Todos po
dem expres-sar suas opiniões sobre o mundo e sobre os rumosda cidade. A questão é conseguir, a partir do própriodiscurso, convencer os demais cidadãos da sua jus-teza, de sua verdade. Ser convincente. Mas se cadaum tem uma opinião diferente, cada um argumentacomo pode, em favor de sua própria opinião e contraas opiniões alheias. E o mesmo ocorre nos tribunais,quando uma parte acusa e outra se defende, em umcombate de discursos que querem convencer osjurados sobre uma ou outra versão dos fatos.É neste contexto que devemos entender o surgimen-to dos
sofistas
: eram mestres da retórica, da arte do
* Registro das aulas no primeiro semestre de 2010 para as turmas de2º e 3º anos do ensino médio e publicado no blog
CRÔNICAS DE ESCOLA
:
discurso, de como compor um discurso convenienteàs circunstâncias e convincente para o público. Eisto, ensinavam a quem quisesse e, sobretudo, pu-desse pagá-los. Quando a palavra toma lugar centralno modo pelo qual a sociedade se organiza, a retóri-ca torna-se um instrumento importante para quempretenda êxito nos debates da Assembleia, influenci-ar nas decisões a serem tomadas, conquistar a ade-são do público à sua opinião.
Os sofistas silenciados
 
 
Contudo e antes de maisnada, é necessário mencionarmos aqui a má famaque envolve os sofistas. A visão que a tradição dahistória da Filosofia nos legou dos sofistas é a ima-gem de um charlatão, manipulador, de alguém queusa da ignorância alheia em prol de si mesmo, fazen-do prevalecer uma aparente verdade em detrimentoda própria verdade.
Sofisma
tornou-se sinônimo deburla, de engana
ção: “argumento ou raci
ocínio con-cebido com o objetivo de produzir a
ilusão da verda-de
, que, embora simule um acordo com as regras dalógica, apresenta, na realidade, uma estrutura inter-na inconsistente, incorreta e
deliberadamente enga-nosa
”; e sofista, “aquele que utiliza a habilidade ret 
ó-rica no intuito de defender argumentos especiosos
ou logicamente inconsistentes” (Dicionário Houaiss).
 Tal imagem negativa se deve em grande parte aocombate às ideias dos sofistas feita por Platão e,depois dele, Aristóteles. É deles aquele julgamentoque prevaleceu na história da Filosofia. Além disso,os textos produzidos pelos sofistas se perderam e amaior parte das referências que dispomos sobre oque eles pensaram e produziram nos chegou semprepor vias indiretas, na obra de seus acusadores. Di-gamos então que no tribunal da história, venceramos filósofos e foram vencidos os sofistas, condenadosassim ao silêncio.São bastante recentes, desde um renovado interessepela retórica clássica no século XIX, as tentativas derecuperar o ideário sofístico, depurando-o das críti-cas que lhe foram feitas. O que parece hoje incontes-tável é que, como nenhuma outra obra elaborada noperíodo clássico, é nos sofistas que encontraremos aformação de um ideário
deliberadamente compro-missado
com uma visão-de-mundo a um só tempohumanística e democrática, enraizada no contextohistórico que o engendrou.
1
 
SOBRE A RETÓRICA E OS SOFISTAS
Os sábios sofistas
 
Mais do que apenas ensinarretórica, eram conside
rados “sábios” —
e por issoeram chamados de
sofistas
. A palavra grega paradesigná-los,
sophistés
, deriva etimologicamentede
sophos
(sábio) e
sophia
(sabedoria); é que a sabe-doria que os sofistas detinham era distinta daquelado
sophos
. Expliquemo-nos melhor.
Sophos
se refereprimeiramente àquele que detém um saber prático,
um “saber
-
fazer”; a “sabedoria”, ne
ste caso, se refereantes ao domínio de uma técnica. Neste sentido, oartesão é sábio (
sophos
) por
saber-fazer com destre- za
a sua arte, seja ela qual for.Assim, por exemplo, um tecelão é sábio e sua sabe-doria é fazer tecido: sabe com destreza trançar osfios, amarrá-los, ou mesmo operar o tear. O sofista ésábio também pelo domínio de uma arte, ele sabe-fazer discursos. Contudo,
sophistés
 
é também “esp
e-
cialista no saber, possuidor de muitos saberes”. É
que, na arte de compor discursos, os sofistas acumu-lavam toda a sabedoria da época e eram capazes dediscorrer sobre todas as artes e técnicas com a mes-ma eloquência. Dito de outro modo e voltando aonosso exemplo: diferentemente do tecelão que sabe-fazer tecido, o sofista sabe falar de tecidos, sobre oprocesso de sua fabricação, sua história desde aorigem da técnica de traçar os fios de algodão, dosdiferentes usos e costumes das vestimentas em dife-rentes culturas
tudo isso ele fala com mais elo-quência do que o mais hábil dos tecelões, que nãosaberá falar com a mesma desenvoltura sobre aquiloque ele mesmo faz.O mesmo vale para as outras técnicas, inclusive a-quelas consideradas e mais estimadas na vida públi-ca, na política. A arte da guerra, a estratégia militar,as variadas legislações das diferentes cidades, a en-genharia e arquitetura
sobre todos os assuntos, ossofistas buscavam conhecer, detendo deste modo umvasto saber. Mais do que ensinar retórica, pela retó-rica ensinavam também sobre os assuntos de inte-resse comum. Os sofistas eram cultos, eruditos, ver-sados em vários assunt 
os, de “cultura geral”, da arte
e da literatura, dos mitos e histórias, das técnicas,das leis e tudo o mais. Eram, ao seu tempo, enciclo-pedistas e
sobretudo
 
educadores
. Este o maiorprojeto da sofística: tornar acessível a todos os cida-dãos a sabedoria que os homens acumularam aolongo de sua história.
Relativismo como visão-de-mundo
A retórica, já dissemos, é a arte de produziro convencimento através do discurso; trata-se de saber como convencer os outros de que suaopinião é a mais justa e verdadeira. É por isto que,para os sofistas, a verdade é sem
pre “relat 
i
va”, ou
seja, ela sempre dependerá do êxito no exercício deconvencimento; uma vez que os outros se conven-çam de que a verdade é isto e não aquilo, isto é ver-dadeiro e aquilo é falso.O quadrinho abaixo nos apresenta uma situaçãoassim. Em um primeiro momento, há uma multidãoque segue o um que fala: estão convencidos de queele é portador de uma verdade. Contudo, o outro que
fala consegue com seu discurso “engolir” o discurso
do primeiro, e assim vai conquistando adeptos aoseu discurso, à sua opinião
vale dizer, à sua verda-de
até que aquele seja vencido no debate.
(
C
)
 
Q
UINO
 
Para os sofistas,
não há verdade fora do discurso
.
Não há uma “verdade
 
do mundo
”, a não ser por aqu
i-lo que é dito
sobre o mundo
, o que julgaremos serverdadeiro ou falso. O discurso é verdadeiro, se con-forme minha percepção dos fatos, ou ele é falso, secontraria meu modo de ver o mundo. A palavra hu-mana é a única portadora da verdade
e não há
2
 
SOBRE A RETÓRICA E OS SOFISTAS
verdade que exista para além dos discurso, e por
isso ela é “relativa” à compreensão d
a multidão so-bre a adequação do discurso a sua própria percepçãodo mundo.Assim, não existe apenas uma, mas várias verdadescontraditórias e concorrentes entre si, tal como sãocontraditórios os discursos de dois opositores con-correntes numa assembleia. Não há critério suficien-te para estabelecer de modo indiscutível entre osdois quem é o verdadeiro portador da verdade, poistampouco existe essa verdade para além dos discur-sos. Antes, tudo é discutível: o que existe é o conflito,a disputa entre discursos para saber qual deles iráconvencer mais ouvintes e convencê-los melhor. Poristo se diz que a ver
dade é uma “co
n
venção”, porque
somos convencidos dela.Como chegam os homens a serem convencidos deque algo que é dito é verdadeiro? Essa é a questãocentral da retórica, compreender que a partir dodiscurso, se ele é corretamente composto, os homenssão levados a acreditar nisto ou naquilo. Portanto, aretórica apoia-
se não em uma “verdade absoluta”,
mas apenas na crença, naquilo que é consideradoverdadeiro, aquilo que parece ser verdadeiro, aquiloem que os homens creem.Em que creem os homens? Em primeiro lugar, cre-mos que aquilo que percebemos, pelo simples fatode assim o percebermos, é verdadeiro: nossas sensa-ções, o que captamos ou podemos captar do mundopela nossa sensibilidade. Por isso, de um modo geral,consideram os sofistas que o discurso, se quer con-vencer, não pode contrariar a
 percepção comum
doshomens. Afinal, julgamos algo
algo que é enuncia-do, que é dito por alguém
por verdadeiro quandoisto que é dito parece estar de acordo com aquilo nósmesmos percebemos, ou aquilo que qualquer umpode perceber.Para os sofistas, é justo afirmar que o
ser é ser perce-bido
. Por outro lado, nem por isso as percepções sãoverdadeiramente verdadeiras, pois cada um podeperceber as coisas de um modo diferente. É que aopinião baseia-se naquilo que percebemos
na nos-sa
 percepção
, portanto. É como percebemos algo, umfato, uma coisa qualquer, o mundo. É porque perce-bemos de um determinado modo que temos a opini-ão que temos. É mais justo dizer então que a opiniãoque temos é um
 ponto de vista
sobre um fato, uma
coisa, o “mundo”.
 Então, o homem, cada homem particular, como dizi-a
Protágoras
, é “a medida de todas as coisas”, que
ele crê serem verdadeiras ou falsas. A verdade nãose fixa: está em permanente transformação, a de-pender de das circunstâncias e de quem fala, se con-vence ou não. A verdade torna-se mundana, do ta-manho dos homens, com a qual os homens fazem suaprópria história, tão contraditória quanto cheia deequívocos, mas a história dos homens, a qual só elespodem ser responsabilizados.
 Acerca de Protágoras
Feita uma brevíssima expo-sição sobre os sofistas, exa-minemos um caso exemplar, daqueleque foi talvez um dos mais afamadosrepresentantes da sofísti-ca,
Protágoras de Abdera
. Contudo,não vamos nos deter aqui a aspectos da biografia dopersonagem, mas apenas interpretar um pequenofragmento seu, também conhecidíssimo da tradição,
do “homem
-
medida”
, como uma síntese possível deuma certa visão-de-mundo defendida pelos sofistas.Então, tenha em mente o que já discutimos sobre ossofistas, retome a leitura dos dois textos anteriorespara prosseguir.O fragmento ao qual nos referimos é o seguinte:
O homem é a medida de todas as coisas; dascoisas que são, enquanto são, e das que não são,enquanto não são.
Protágoras de Abdera
“Homem” aqui se refere ao “homem particular”, o“indivíduo”. Cada um de nós, tomado isoladamente, é
senhor daquilo que julga ser verdadeiro ou falso.Cada um de nós, por
tanto, é “a medida de todas ascoisas”: cada um pe
rcebe o mundo
comoquer 
ou
como pode
, segundo suas convicções e suascrenças, bem como sua
 formação
 
e cada um possuiassim uma verdade, absolutamente pessoal, particu-lar. É neste sentido que poderemos afirmar que cada
um possui uma “verdade”, que nem sempre corre
s-
ponde a “verdade” do outro.
 
Cada um é que define “o que uma coisa é”: dete
rmina
então para si mesmo o que considera ser “ve
rdadei-
ro”, e assim para to
das as coisas que existem, das
coisas que “são enquanto são” (e vale dizer, elas são
assim
 para mim
, se assim as percebo). O mesmo vale
também para as coisas que “não são”, isto é, as coisas
3

Activity (22)

You've already reviewed this. Edit your review.
1 hundred reads
1 thousand reads
Hiago Vinicius liked this
David Souza liked this
Alexia Resende liked this
Margarida Assis liked this
Mariana Loureiro liked this

You're Reading a Free Preview

Download
/*********** DO NOT ALTER ANYTHING BELOW THIS LINE ! ************/ var s_code=s.t();if(s_code)document.write(s_code)//-->