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culturpopular

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04/12/2011

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CULTURA POPULAR entre a tradição e a transformação
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IVIAN
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ATENACCI
Cientista Social, Coordenadora do Projeto Viverarte – SP Resumo:
A cultura popular analisada a partir da concepção dos folcloristas e dos membros do Centro Popular de Cultura, colocando em cena os termos tradição e transformação, considerados antagônicos por ambas astendências e envolvidos pela questão nacional, amplamente discutida pelas Ciências Sociais durante todo oséculo XX.
Palavras-chave:
cultura popular; tradição e transformação; nacionalismo.
heterogeneidade é uma das características da cul-tura popular, muito estudada no século XX e,portanto, no interior das Ciências Sociais podemser verificadas suas diferentes concepções.A cultura popular, aqui será examinada sob uma abor-dagem multidisciplinar, focalizando aspectos que auxiliama compreensão desse fenômeno complexo e polissêmico.O primeiro deles diz respeito à concepção de povo e decultura popular para os folcloristas. O segundo, à análisede diferentes concepções do conceito de popular, inician-do o deslocamento do eixo da discussão para o âmbito dapolítica. O terceiro reflete sobre o Centro Popular de Cul-tura, explicitando primeiramente seu surgimento e em se-guida a concepção dos intelectuais “cepecistas” de cultu-ra popular e seu papel na sociedade.Com base nessas reflexões, estarão sendo analisadosconceitos – tradição/transformação – geralmente apresen-tados como antagônicos, mas que vistos como complemen-tares podem dar novas respostas a essa discussão. A ques-tão nacional também faz parte deste artigo, uma vez quese encontra diretamente associada ao tema, tanto na con-cepção dos folcloristas, quanto dos intelectuais cepecistas.
FOLCLORE: CULTURA POPULAR, TRADIÇÃO
O termo
folklore
– 
folk 
(povo), lore (saber) – foi cria-do pelo arqueólogo inglês Willian John Thoms em 22 deagosto de 1846 e adotado com poucas adaptações por gran-de parte das línguas européias, chegando ao Brasil com agrafia pouco alterada: folclore. O termo identificava osaber tradicional preservado pela transmissão oral entreos camponeses e substituía outros que eram utilizados como mesmo objetivo – “antigüidades populares”, “literaturapopular” (Vilhena, 1997:24). Contudo, a idéia de identi-ficar nas tradições populares uma sabedoria não era novaquando a palavra folclore foi criada.Os intelectuais românticos valorizaram de forma posi-tiva a cultura popular em um momento em que a repres-são sobre ela se intensificou – final do século XVIII e iní-cio do século XIX. Esses estudiosos, que tinham grandecuriosidade com relação ao que era bizarro, dedicaram-se a esse tema e foram “responsáveis pela fabricação deum popular ingênuo, anônimo, espelho da alma nacional,[sendo] os folcloristas seus continuadores, buscando noPositivismo emergente um modelo para interpretá-lo”(Vilhena, 1997:24). Entre esses românticos estão os ale-mães Jacob e Wilhelm Grimm que, impulsionados em gran-de parte pelo interesse nas tradições populares desperta-do pelo movimento romântico naquele país e, como se veráa seguir, pelo contexto de grandes transformações do qualfaziam parte, inauguraram uma coleta de contos pelo con-tato direto com os camponeses, indicando inclusive o lo-cal onde a história havia sido ouvida. Esses estudiososalemães e o método utilizado por eles na coleta das tradi-
 
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ções populares tiveram grande influência sobre os primei-ros folcloristas brasileiros.É importante destacar, porém, o contexto no qual apalavra folclore foi gerada para podermos compreender,posteriormente, quão abrangente é essa discussão na áreadas Ciências Sociais no Brasil.Como aponta Ortiz (1985), até meados do século XVIIa fronteira entre cultura popular e cultura de elite não es-tava bem delimitada, porque a nobreza participava dascrenças religiosas, das superstições e dos jogos realiza-dos pelas camadas subalternas. É claro que o mesmo nãose pode dizer com relação ao povo no universo das elites.No entanto, o que vai interessar para este artigo é que poucoa pouco começa a ocorrer o distanciamento entre a cultu-ra de elite e a cultura popular, intensificando o processode repressão da primeira sobre a última. Os motivos quecontribuem para isso na Europa são, principalmente, deordem política. A implementação de uma política de sub-missão das almas com base na doutrina oficial definidapela Teologia, feita por parte da Igreja – tanto católicacomo protestante – e o processo de centralização do Esta-do, ou seja, instituição de uma administração unificadados impostos, da segurança e da língua, podem ser identi-ficados como os principais fatores que levaram à separa-ção entre as duas culturas apontadas acima. Ortiz (1985)destaca ainda a crescente preocupação das autoridades compráticas que geram protestos, tumultos, como o carnaval– entre outras manifestações populares. Dessa forma, opovo entra no debate moderno e passa a interessar paralegitimar a hegemonia burguesa, mas incomoda como olugar do inculto. Teve início nesse período o processo dedesencantamento do mundo, baseado em valores de uni-versalidade e racionalidade, e valorização da cultura bur-guesa – moderna – em detrimento da cultura popular – tradicional.Justamente em meados do século XIX, quando o ter-mo folclore é criado, a modernização capitalista encon-trava-se a todo vapor e os intelectuais que se dispunham aestudar as manifestações populares não pensavam em vol-tar ao passado como os românticos, pois, com base noprojeto iluminista, acreditava-se que “o domínio científi-co da natureza permitia liberdade da escassez, da neces-sidade e da arbitrariedade das calamidades naturais. Odesenvolvimento de formas racionais de organização so-cial e de modos racionais de pensamento prometia a li-bertação das irracionalidades do mito, da religião, da su-perstição, liberação do uso arbitrário do poder, bem comodo lado sombrio da nossa própria natureza humana. So-mente por meio desse projeto poderiam as qualidades uni-versais, eternas e imutáveis de toda a humanidade ser re-veladas” (Harvey, 1999:23).Como se vê, o pensamento vigente da época estava di-retamente relacionado com a crença na ciência, nas for-mas racionais de organização social e de produção queteriam a ordem, a disciplina, a obediência e a submissãocomo principais elementos; e o progresso, enquanto avançotecnológico, como objetivo.Nesse momento da modernidade, os limites para a ex-pansão do capital, ou seja, para a internacionalização docapital mercadoria, do capital produtivo e por último docapital financeiro, se ampliavam cada vez mais devido,essencialmente, aos avanços tecnológicos dos meios decomunicação e de transporte. A construção de estradas deferro, a rapidez, a segurança e o conforto dos barcos avapor aumentavam dia a dia, desde a metade do séculoXIX, diminuindo a distância entre os países europeus eprincipalmente entre os continentes. As inovações ocor-ridas nas comunicações, como o aperfeiçoamento do te-légrafo, também foram essenciais para que essas distân-cias diminuíssem, estimulando a troca de mercadorias, odeslocamento de pessoas e conseqüentemente o aumentoda competitividade entre os países.A organização da sociedade, nesse contexto, tambémsofria mudanças profundas, e a mais relevante para estetrabalho é o crescimento das cidades em detrimento docampo. Benjamin na obra
Charles Baudelaire um líricono auge do capitalismo
(1995) explicita as mudanças ocor-ridas na postura dos indivíduos perante a novas formas dese relacionarem, já que a modernidade colocava um novoelemento que caracterizaria os relacionamentos nas gran-des cidades: a impessoalidade. Nesse sentido, o autor apre-senta o
flâneur,
denominado por Baudelaire “o homemdas multidões” (Benjamin, 1995:45).Visto que as transformações que ocorreram na organi-zação social, nos modos de produção e conseqüentemen-te nas formas de circulação do capital nesse período, erampermeadas pelo fugidio, pelo transitório e pelo impessoal,que espaço teria a tradição neste contexto? Essa foi umadas grandes questões colocadas aos intelectuais europeuse aos brasileiros que iniciaram os estudos sobre o folcloreno final do século XIX. Porém, no caso do Brasil, os inte-lectuais se viram diante de uma outra pergunta, diretamenteligada à questão da
identidade nacional 
: “quem somos,afinal?”Essa pergunta que percorreu todo o século XX, pre-sente ainda no século XXI, foi enfrentada no século XIX
 
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por intelectuais como Silvio Romero – apontado como opai dos estudos folclóricos brasileiros –, Celso de Maga-lhães e Couto de Magalhães, que acreditavam na investi-gação da origem e das características das manifestaçõesfolclóricas como o meio mais eficiente para afirmar a iden-tidade nacional. Para tanto, era necessário entrar em con-tato com o povo, ou seja, com as classes subalternas, oshomens simples, “deseducados” e ao mesmo tempo teste-munhas e arquivos da tradição. Essas manifestações fol-clóricas que, segundo eles, encontravam-se presentes prin-cipalmente no meio rural, estariam ameaçadas peloprocesso de modernização em que o Brasil estava se inse-rindo. Acreditava-se nesse sentido na incompatibilidadeentre as manifestações folclóricas e o progresso, ou seja,entre os avanços da modernidade e a tradição. Esses estu-diosos estavam ao mesmo tempo diante da necessidadede salvar o que pertencia ao nosso passado, e o desejo deesquecê-lo – colonização, exploração, escravidão emestiçagem. É um dilema bastante claro nas obras de Sil-vio Romero, que passou a se dedicar, especialmente, aoregistro de contos, poesia e cantos tradicionais, e a bus-car neles a identidade nacional.E por que Silvio Romero teria buscado as origens es-pecificamente brasileiras nos contos, cantos e poesias tra-dicionais? Segundo Brandão (1995), Silvio Romero teriasido influenciado pelos trabalhos realizados pelos irmãosGrimm, que já circulavam pelo Brasil, e pela própria de-finição do recém-inventado conceito ‘folclore’, que, comovimos, estava diretamente relacionado com o que era iden-tificado como ‘literatura popular’. Já no século XIX e iní-cio do XX, podia-se encontrar uma grande quantidade deversões abrasileiradas dos textos não apenas dos Grimm,mas também de Perrault e Andersen. A influência dos ir-mãos Grimm encontra-se visível não apenas nos trabalhosrealizados por Silvio Romero (1954), Couto de Magalhães(1975) e Celso de Magalhães (1973), mas também nasobras de João Ribeiro (1969) no início do século XX.O objetivo de Silvio Romero nos seus estudos sobreessas manifestações populares foi indicar o ‘corpo das tra-dições’ formado pela relação entre três raças – branca,negra e indígena –, apontar os elementos culturais especí-ficos de cada uma delas e até que ponto esses elementosjá estariam fundidos. Assim, Romero investiga quais se-riam os agentes transformadores – o mestiço – e os agen-tes criadores da nossa cultura – as três raças, sendo a brancao principal agente criador.Romero utiliza-se da teoria da seleção natural, elabo-rada por Darwin, ao afirmar que pela lei da adaptação asraças tenderiam a modificar-se no mestiço, que tenderia ase integrar à parte, formando um novo tipo em que predo-minaria o branco. Nesse sentido, o futuro do Brasil per-tenceria a essa raça, já que todos os primeiros tipos na-cionais têm origem branca. Alguns argumentos como aextinção do tráfico negreiro, o desaparecimento dos ín-dios, inevitável na concepção dos estudiosos deste perío-do, e a crescente imigração européia são utilizados por Romero para legitimar essa tese de que os negros e índiosestariam condenados ao desaparecimento e o mestiço se-ria apenas uma etapa para a constituição do branco purocomo verdadeira raça brasileira. Justamente devido à fu-são das raças não estar completa, não tínhamos no finaldo século XIX no Brasil um caráter original, um espíritopróprio, que segundo o autor viria com o tempo.Como se pode perceber, a resposta para a pergunta “oque somos” não é completamente respondida pelo nossopassado, segundo os estudos de Silvio Romero e dos de-mais folcloristas desse período. A resposta é remetida paraum futuro no qual o branqueamento seria concretizado,formando uma civilização européia nos trópicos, na Amé-rica tropical. E exatamente por acreditar não apenas napreponderância das idéias civilizatórias, mas no processode branqueamento pela miscigenação, que esses autorespercebiam a necessidade urgente de registrar as manifes-tações populares antes que fossem totalmente degradadase/ou desaparecessem. Por fim, a grande contribuição dosprimeiros estudos sobre o folclore foi ter tornado visívela questão do popular no Brasil, apesar de terem se limita-do ao registro dos fatos folclóricos e/ou à sua utilizaçãoestética.No entanto, no decorrer do século XX, outros traba-lhos foram realizados respondendo a essa questão de for-ma diferente dos primeiros folcloristas brasileiros, am-pliando a discussão sobre o folclore. Uma das tendênciasque orientaram a preocupação desses estudiosos via a ne-cessidade de transformar o folclore em uma disciplina cien-tífica autônoma, com campo e métodos próprios de inves-tigação,
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que teria como objetivo reconstruir e explicar asmanifestações folclóricas, registrando-as e classificando-as. Desse modo, porém, eles acabavam deslocando essasmanifestações do contexto histórico-social em que eramconcebidas e no qual se manifestavam, contendo então umarede de significados.A outra tendência, na qual Florestan Fernandes (1958)se inclui, trabalha o folclore como um recurso das Ciên-cias Sociais para entender e explicar a realidade, ou seja,as manifestações tradicionais. Longe de ser uma discipli-

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