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ONOMATOPÉIA: FENÔMENO SUI-GENERIS?

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Este trabalho apresenta alguns enfoques sobre a onomatopéia: fenômeno lingüístico que consiste na imitação ou reprodução aproximada de ruídos por meio dos sons da linguagem. São apresentadas algumas discussões de base teórica, a saber: a relação som – sentido, o tratamento da onomatopéia no âmbito morfológico, a manifestação onomatopáica em outras línguas, a onomatopéia como recurso estilístico, entre outras; baseadas nas quais, concluímos que a onomatopéia é melhor apreendida na esfera fonoestilística.
Este artigo foi publicado na Revista Caderno Seminal [ISSN 1806-9142], v. 8, 2007.
Este trabalho apresenta alguns enfoques sobre a onomatopéia: fenômeno lingüístico que consiste na imitação ou reprodução aproximada de ruídos por meio dos sons da linguagem. São apresentadas algumas discussões de base teórica, a saber: a relação som – sentido, o tratamento da onomatopéia no âmbito morfológico, a manifestação onomatopáica em outras línguas, a onomatopéia como recurso estilístico, entre outras; baseadas nas quais, concluímos que a onomatopéia é melhor apreendida na esfera fonoestilística.
Este artigo foi publicado na Revista Caderno Seminal [ISSN 1806-9142], v. 8, 2007.

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Published by: Alexandre Melo de Sousa on Nov 29, 2007
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ONOMATOPÉIA: FENÔMENO SUI-GENERIS?Alexandre Melo de SousaUFACRESUMO:Este trabalho apresenta alguns enfoques sobre a onomatopéia: fenômeno lingüísticoque consiste na imitação ou reprodução aproximada de ruídos por meio dos sons dalinguagem. São apresentadas algumas discussões de base teórica, a saber: a relaçãosom – sentido, o tratamento da onomatopéia no âmbito morfológico, a manifestaçãoonomatopáica em outras línguas, a onomatopéia como recurso estilístico, entreoutras; baseadas nas quais, concluímos que a onomatopéia é melhor apreendida naesfera fonoestilística.PALAVRAS-CHAVE:onomatopéia, fonologia, formação de palavras, estilística.CONSIDERAÇÕES INICIAISEste artigo, cujo escopo é a onomatopéia, tem por objetivo precípuoapresentar, panoramicamente, alguns enfoques a respeito do referido fenômenolingüístico.Embora demos maior destaque ao aspecto estilístico, mais exatamentefonoestilístico, não deixamos de salientar outros aspectos: um deles é arelacionar o referido fenômeno de imitação sonora com a noção de arbitrário dosigno, para isso assinalaremos algumas considerações a respeito do liame que seestabelece entre som e sentido.Outro aspecto consiste em mostrar o tratamento do fenômeno na lingüísticaestrutural, mais especificamente na Morfologia, no tocante à formação de palavras.1 A relação som – sentidoInicialmente queremos traçar uma discussão sobre o elo que se estabelece entre some sentido. Para tanto, faz-se necessário tecer algumas importantes consideraçõessobre a natureza do signo lingüístico, já que este reúne em si a relação entreconteúdo e expressão: mecanismo no qual se baseia a linguagem humana.De acordo com Jakobson (1969), a relação entre conteúdo e expressão constitui,desde a Antiguidade, um constante problema para a ciência da linguagem, mas quefoi retomado, após longo período de esquecimento por parte dos lingüistas, porFerdinand de Saussure, que retomou a concepção e a terminologia da teoriaapresentadas pelos estóicos:Essa doutrina considerava o signo (sêmeion) como uma entidade constituída pelarelação entre o significante (sêmainon) e o significado (sêmainomenon). O primeiroera definido como "sensível" (aisthêton) e o segundo como "inteligível" (noêton),ou então, para utilizar um conceito mais familiar aos lingüistas, "traduzível"(JAKOBSON, 1969, p. 98-9).Segundo Saussure (1995), a linguagem une a expressão ao conteúdo por convenção,não por natureza. De acordo com a teoria saussureana, o signo lingüístico nãoestabelece relação entre uma coisa e uma palavra, mas entre um conceito(significado) e uma imagem acústica (significante), como explica o autor:O laço que une o significante ao significado é arbitrário ou então, visto queentendemos por signo o total resultante da associação de um significante com umsignificado, podemos dizer mais simplesmente: o signo lingüístico é arbitrário.Assim, a idéia de "mar" não está ligada por relação alguma interior à seqüência desons m-a-r que lhe serve de significante; poderia ser representada igualmente bempor outra seqüência, não importa qual (...) (SAUSSURE, 1995, p.81-82).De acordo com Saussure, “arbitrário” quer dizer que o significante não possuinenhum vínculo natural com a realidade. Podemos dizer, então, que o significante é"imotivado" em relação ao significado. Para o autor, tal constatação é aplicávelaté mesmo no caso das onomatopéias, cujas imitações aproximativas de certos ruídosnaturais poderiam relacionar, equivocadamente, significante e significado. Então,apresenta os seguintes argumentos em defesa de sua posição:
 
a)as onomatopéias, como uma "imitação aproximativa" de ruídos, são criadas apartir de sons vocais padronizados na língua, portanto, são convencionais;b)as onomatopéias tendem a adquirir características dos demais signos à medidaque se integram ao léxico da língua, sofrendo, por exemplo, alteraçõesmorfológicas;c)as onomatopéias tornam-se de importância secunria, já que se apresentam umnúmero bem reduzido na língua.A despeito das conclusões do mestre genebrino sobre a natureza das onomatopéias,não há por que demolir o caráter convencional das mesmas, mas simplesmenterelativizá-lo, na medida em que a associação som-sentido depende de fatoresnitidamente culturais e não universais. Quer dizer: a relação som/sentido é“sentida” como motivada pelos falantes, mas, no contexto de uma análisecientífica, vemos que esta relação é puramente intuída, mas isto não garante focosde universalidade à relação sígnica. A motivação, pois, existe, mas não é tãouniversal que destrua o arbitrário do signo, ainda que, no seio de uma cultura, amotivação onomatopaica seja maior que para signos como mesa e cadeira.Rigorosamente, há dois tipos de subtrair:a)aqueles determinados pelo sistema, como arbitrário relativo: a exemplo dosderivados e compostos, no plano da expressão, e da metáfora e da metonímia, noplano do conteúdo. (Cf. GUIRAUD, 1980);b)aqueles determinados pela relação som/ sentido, mediados pelo referente: é ocaso da imitação sonora, que consiste numa aproximação dos sons físicos através desons lingüísticos; a ilustração sonora, que consiste no aproveitamento da linhamelódica para dar sugestão de que os fonemas estão expressado algo inerente ànatureza do que se comunica. “Assim, a subilante /s/ participa dos exemplos deimitação sonora quando se fala dos assobios, dos sussurros. Se porém transmite umapelo de silêncio ou sua impressão de suavidade tem-se uma ilustração sonora”.(Cf. MONTEIRO, 1991, p. 109).Como vemos a abstração sonora está ligada às sensações naturais, táteis, visuais,excluído as auditivas. Para nos valemos de Jakobson (1969) prepondera a funçãoconativa da linguagem.Do ponto de vista semântico, há que se fazer a distinção entre a onomatopéiaprimária, que consiste na imitação do som pelo som e a onomatopéia secundária, queevoca não uma experiência acústica, mas um movimento.Por fim, é o caso da sugestão rítmica, que resulta da tensão do relaxamento e dadistensão prosódicos de que resulta o ritmo (Cf. MASSINI-CAGLIARI, 1992). Mas nãovamos nos deter neste aspecto relacionado à motivação sonora. Voltemos ao nossointeresse central: a imitamos sonora ou onomatopéia.2 A onomatopéia na formação de palavrasA onomatopéia ou imitação sonora é um fenômeno marginal em morfologia, porque nãosegue a nenhuma sistematização. Não parte de constituídas mórficos, sendo antesuma formação ex nihilo, de modo que não tem tratamento especial em morfologia, quetrata dos processos regulares e sistemáticos de formação de palavras.Representativo desta concepção é Rocha (1998, p.99), que caracteriza o fenômenocomo assistemático e imprevisível. Reporta-se a Melo (1975, p. 225-6), que serefere à onomatopéia ou imitação sonora nestes termos:outros processos de formação vernácula difíceis ou impossíveis de sistematizar:obscuras analogias, "intuição poética, espírito chistoso, vivacidade de imaginaçãodão nascimento a novas palavras, que não se podem enquadrar nos processosclássicos, ou ao menos não obedecem aos planos e normas habituais. Quem explicarásatisfatoriamente palavras como maçaroca, serelepe, bagunça, ganzepe, beldroega,bigorrilhas, desmilinguido, borocoxô, saçaricar, chinfrim, fuzarca, pilantra,ranzinza, fuzuê, esbregue, calhorda, salafrário, bisbórria, safardana, I mazorro,salabórdia, engazopar, et similia (apud ROCHA, 1998, p.99).3 A onomatopéia nas diversas línguasDecorrente do seu valor imitativo, mas dependente da cultura, o que torna a
 
imitação sonora onomatopéia um fenômeno intermediário entre o arbitrário absolutoe o arbitrário relativo, há que se enfatizar o caráter relativo do fenômenoonomatopaico. Lopes (s/d) exemplifica com os seguintes verbos relativos a “miau”:Francês – miaulerInglês – mewAlemão – miauenOutros exemplos poderiam ser aduzidos aqui, mas cremos que é o suficiente paramostrar que a onomatopéia não fere o principio da arbitrariedade do signo, mastambém não se circunscreve a pura comunalidade de que fala Saussure (1995). Nem éparticular o suficiente para contribuir specimen de arbitrário absoluto, nemuniversal o suficiente para ilustrar a tese naturalista.Trata-se de um fenômeno de destruição fluidia nos domínios estilísticos,semânticos e morfológicos.4 A onomatopéia como fenômeno estilísticoA nosso ver a onomatopéia, no âmbito de uma cultura de uma língua se caracterizamormente como num fenômeno estilístico e expressivo. Faz parte do que Troubetzkoy(1970) denominou forma expressiva, que pode ser assim definida:Ces difficultés peuvent être résolues au mieux si I'on attribue I'étude dêsprocedes phoniques d'expression et d'appel à une branche scientifiqueparticuliere, à savoir Ia phonostyfistique. On pourrait Ia subdiviser d'une partem stylistique expressive et em stylistique appellative, et d'autre part emstylistique phonétique et em stylistique phonologique. Si dans Ia descriptionphonologique d'une langue on doit étudier Ia stylistique phonologique (aussi bienau point de vue de Ia fonction expressive qu'à celui de Ia fonction d'appel), Iatache propre de cette description doit toutefois rester I'étude phonologique du"plan représentatir. La phonologie n'a done pás à être subdívisée em phonologieexpressive, appellative et représentetive. Lê nom de "phonologie" peut commeauparavant être reserve à I'étude de Ia face phonique de Ia langue, de valeurreprésentative, tandis que \'étude dês éléments de Ia face phonique de Ia Jangue,de valeur expressive et de valeur appellative, será faite par Ia "stylistiquephonologique", qui de son cote ne serait qu'une partie de Ia "phonostylistique"(TRUBETZKOY, 1970, p. 29).Dessa forma, segundo o autor, apenas os elementos fônicos de caráter expressivo eapelativo têm valor para a Estilística, já que esta atenta para a manifestaçãoexpressiva da linguagem. Como Câmara Jr. (1978) observou, ao dedicar espaço àFonoestilística, em seu estudo, Trubetzkoy pretendia, na verdade, mostrar que nãodeveriam ser incluídos no conceito de fonema os traços expressivos nos quais serevelam "a manifestação psíquica ou o apelo", já que o fonema está exclusivamenterelacionado com a função representativa. Como acrescenta Câmara Jr (1978, p. 29),a Fonoestilística aproveita traços fonéticos "que não estão sistematicamenteutilizados nas oposições e nas correlações dos fonemas e dos grupos fonêmicos".Cabe a ela, portanto, destacar o valor expressivo das vogais e das consoantes, asilustrações e os simbolismos sonoros, as sugestões rítmicas entre outros recursossonoros. Dá-se destaque ao critério acústico a fim de detectar as impressõesauditivas que despertam os fonemas.Aqui nos aproveitamos da proposta de Herculano de Carvalho (1974) a respeito doqual fala Martins (2000, p. 48-49) que tipifica desta forma as onomatopéias:a)como sons imitativos produzidos acidentalmente pelo homem, possuem carátermomentâneo e individual; são uma imagem intencional do som natural. Têm apossibilidade de repetir-se em situação semelhante e valer como sinal (natural eintencional). As onomatopéia criadas por escritores ficam geralmente restritas aum único ou a poucos empregos.b)como objeto sonoro de configuração definida e valor significativo constante,dentro de uma determinada comunidade lingüística, constituído por uma combinaçãode sons correspondentes aos fonemas da língua dessa comunidade: zás, pum, pimba,

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