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SOFRIMENTO E ESPERANÇA GRUPO DE PACIENTES

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SOFRIMENTO E ESPERANÇA: GRUPO DE PACIENTESCOM ANOREXIA E BULIMIA NERVOSAS
 MISERY AND HOPE: SUPPORT GROUP FOR PATIENTS WITH EATING DISORDERS
Manoel Antônio dos Santos
Docente. Bolsista de Produtividade em Pesquisa do CNPq. Departamento de Psicologia e Educação. Faculdade de Filosofia, Ciênciase Letras de Ribeirão Preto - USP.
C
ORRESPONDÊNCIA
:Av. Bandeirantes, 3900, Bairro Monte Alegre. CEP 14040-901, Ribeirão Preto, SP. masantos@ffclrp.usp.brTelefone: (16) 3602-3645Santos MA. Sofrimento e esperança: grupo de pacientes com anorexia e bulimia nervosas. Medicina (RibeirãoPreto) 2006; 39 (3): 386-401.
RESUMO:
O autor apresenta sua experiência como psicoterapeuta de um grupo de pacientesdiagnosticados com anorexia e bulimia nervosas. Esse grupo se insere em um serviço espe-cializado de assistência de caráter interdisciplinar existente desde 1982 no HC-FMRP-USP. Ogrupo é aberto a pacientes com transtornos alimentares de ambos os sexos, predominandomulheres jovens, solteiras, de procedência socioeconômica diversificada. As formulaçõespsicodinâmicas são empregadas na fundamentação teórico-clínica da intervenção. O não reco-nhecimento da condição psicopatológica, as comorbidades psiquiátricas e o sentimento de des-confiança nos relacionamentos humanos constituem os desafios terapêuticos a serem vencidoscom vistas à formação de uma aliança terapêutica entre pacientes e profissionais de saúde.Nesse sentido, a intervenção psicológica almeja sensibilizar esses pacientes quanto à ne-cessidade de se tratarem, buscando desenvolver a consciência sobre o problema e uma atituderesponsável em relação ao atendimento. O apoio oferecido, além de sua dimensão socio-emocional, tem uma faceta educativa. O processo terapêutico em grupo parece facilitar a constru-ção de condições favoráveis à mudança, sustentando um espaço de troca de experiências e deatitudes de mútua ajuda que aumentam o senso de união e coesão grupal. Nesse sentido, aexperiência acumulada nos últimos anos tem demonstrado que o grupo de pares promove aressignificação de crenças, valores e sentimentos relacionados ao próprio corpo e ao processode auto-cuidado, com reflexos positivos na redução dos sintomas que comprometem a esferaoroalimentar. Concluindo, sustenta-se que a condução da psicoterapia nesse contexto deve priorizaro restabelecimento do vínculo primordial com a vida.
Descritores:
Anorexia Nervosa. Bulimia Nervosa. Psicoterapia de Grupo - Apoio.
386
1- TRANSTORNOS ALIMENTARES: ABOR-DAGEM MULTI E INTERDISCIPLINAR
No presente trabalho buscamos relatar nossaexperiência com pacientes atendidos junto a um pro-grama de assistência multidisciplinar denominadoGRATA – Grupo de Assistência em Transtornos Ali-mentares. Trata-se de um programa implantado háalguns anos dentro de um serviço especializado quefunciona desde 1982 junto ao Ambulatório de Nutro-logia do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medi-cina de Ribeirão Preto da Universidade de São Paulo.As intervenções oferecidas são pautadas emuma filosofia de trabalho interdisciplinar. A equipe desaúde é constituída por médicos nutrólogos, nutricio-nistas, psicólogos, psiquiatras, enfermeiros e estagiá-
Medicina, Ribeirão Preto,
Simpósio:
TRANSTORNOS ALIMENTARES: ANOREXIA E BULIMIA NERVOSAS
39 (3):
 
386-401
, jul./set. 2006
Capítulo XI
 
387
Sofrimento e esperança: grupo de pacientes com anorexia e bulimia nervosas
rios do curso de graduação em Psicologia. São aten-didos pacientes diagnosticados com anorexia nervosa(AN) e bulimia nervosa (BN). É importante salientarque, em nossa compreensão, categorias nosológicascorrespondem a nomes genéricos que designam diag-nósticos de diversas psicopatologias que guardam en-tre si algumas semelhanças, porém também têm for-mas de apresentação, evolução e prognósticos dife-rentes. Por isso cada caso merece uma atenção par-ticular e exige um plano de tratamento personalizado.A clínica dos transtornos alimentares configuraum campo de alta densidade da experiência vivida,dado o nível de comprometimento de áreas vitaisimplicadas. Além dos prejuízos físicos evidentes, ospacientes apresentam graves alterações do funciona-mento psicossocial, que se expressam tanto no planoda personalidade quanto do comportamento. Como tra-ços característicos dos portadores desses transtornosfiguram: o isolamento social, implicando na deteriora-ção da qualidade e regularidade das relações sociais,o humor depressivo, a invasão dos afetos desorgani-zando o funcionamento intelectual, com prejuízos mar-cantes na adaptação e qualidade de vida
1, 2
.O medo de morrer é universal e atinge todos osseres humanos
3
. No entanto, pacientes anoréxicos ebulímicos colocam em risco a própria vida. Mesmoquando se vêem diante da possibilidade concreta demorrerem, agem como se desdenhassem da morte,manifestando uma notável indiferença, freqüentemen-te mesclada com uma sensação de triunfo maníaco,que na verdade é reflexo da extrema dissociação en-tre pensamento e afeto que os acomete.Na etapa da vida (adolescência) em que se en-contra a maioria dos pacientes com transtornos ali-mentares, eles podem vivenciar mortes concretas deparentes, amigos ou pessoas conhecidas. No entanto,de maneira um tanto quanto dissociada, esses jovensvivem a desafiar a morte porque, em seu pensamento,ela é um fenômeno distante e inconcebível. Decorredaí o engajamento em inúmeros comportamentos derisco: além dos sintomas característicos do transtornoalimentar, apresentam diversas morbidades psiquiátri-cas associadas, tais como abuso de álcool e outrasdrogas, tentativas de suicídio, promiscuidade sexual,exposição a acidentes (no caso dos rapazes: os denomi-nados “rachas”, o engajamento em esportes radicais),que são defesas contra a ansiedade diante da morte.Na doença somática, diferentemente do queocorre na AN e BN, o paciente sente-se ameaçadoem sua integridade física. Morrer é evento evidente-mente aversivo para todos nós, mas a julgar pelos com-portamentos de risco a que se entrega o paciente comtranstornos alimentares, essa máxima universal nemsempre é válida. Muitas vezes o paciente formula ex-pressamente seu desejo de morrer, enquanto que, paraaquele que vivencia uma doença orgânica potencial-mente letal, o simples pensar na possibilidade da mor-te causa sofrimento devido à tomada de consciênciade sua finitude, que o obriga a estabelecer priorida-des, revisar projetos de vida e reavaliar os valores quegovernam sua existência. Em nossa experiência clíni-ca, pacientes com câncer, por exemplo, de alguma for-ma estão cientes de seu estado de saúde, ou seja, têmconsciência de que vivem uma condição-limite elimitante, embora freqüentemente evitem falar sobreisso, demonstrando o quanto lhes é doloroso tangeressa questão. Esse comportamento evitativo depen-de, evidentemente, do estágio em que se encontramdo processo de ajustamento à enfermidade (negaçãoe isolamento, raiva, barganha, depressão ou aceita-ção/resignação).É impressionante o quanto à possibilidade damorte
parece
não se constituir como problema paraanoréxicos e bulímicos, na medida em que dão a en-tender que não acreditam que podem de fato morrer,muito embora a morte seja uma experiência univer-sal. Possivelmente porque não experimentam a vidaem sua plenitude, afinal:
“Quando se aprende amorrer, aprende-se a viver”
(p. 84)
4
.Não ser capaz de reconhecer no seu compor-tamento alimentar um traço patológico é o maior de-safio terapêutico a ser vencido, na medida em quedificulta ou até mesmo inviabiliza o desenvolvimentode uma aliança terapêutica entre o profissional de saú-de e o paciente
5
.Nesse sentido, a intervenção psicológica alme- ja levá-los, primordialmente, a reconhecerem que avida (assim como a morte, no caso dos pacientes so-máticos portadores de doenças fatais) precisa ser cui-dada. O processo terapêutico é importante para faci-litar a possibilidade da mudança, que advém daressignificação de valores, crenças e sentimentos re-lacionados ao próprio corpo e ao processo de autocui-dado. O doente, de um modo geral, sente necessidadede atribuir um significado para sua doença e trata-mento e, dentre os múltiplos sentidos possíveis, podeincluir (ou não) o
medo da morte
. Na AN/BN, contu-do, o que parece prevalecer é o medo da vida.Acreditamos que, no caso do paciente anoréxi-co/bulímico, é preciso levá-lo a compreender que há
 
388
Santos MA
vida
antes
da morte. Ou seja, a condução de umapsicoterapia nesse contexto vai priorizar o restabele-cimento do vínculo primordial com a vida, que se en-contra comprometido nesses pacientes. Uma adver-tência, principalmente para o terapeuta mais afoito, éque o mais importante, nesses casos, é não cair natentação de estabelecer um padrão-ouro para a assis-tência, mas saber respeitar o tempo e o ritmo das ne-cessidades de cada paciente. Há momentos em que opaciente está mais debilitado, com as defesas físicase psíquicas desorganizadas, ao passo que em outrosse mostra mais integrado e receptivo à ajuda. Nessecaso é preciso esperar pacientemente os momentosoportunos, entendendo que no plano psicológico tudotem sua hora e sua vez.A literatura sugere que o tratamento ajuda aminimizar o sofrimento psicológico e a melhorar a qua-lidade de vida dos pacientes e seus familiares. Diantede uma enfermidade multifatorial como são os trans-tornos alimentares, é preciso oferece oportunidade aospacientes para expressarem seus sentimentos e emo-ções. Eles exigem um apoio especial, direcionado so-bretudo para as questões que o transtorno desenca-deia. Esse apoio tem uma faceta educativa (necessi-dade de prover informações relacionadas ao transtor-no e esclarecimento de dúvidas em relação a aspectosdo tratamento, tais como recomendações nutricionais,exames e procedimentos médicos, necessidade dehospitalização em determinados casos) e uma facetasócioemocional (possibilidade de ventilar as angústiasdespertadas pelas restrições e alterações bruscas quese impõem no cotidiano e na vida familiar).
2- GRUPO DE PACIENTES COM AN E BN:PILARES DE SUSTENTAÇÃO
Nossa experiência com pacientes atendidos jun-to ao GRATA está alicerçada nos seguintes eixos or-ganizadores:
Coordenação:
 
psicólogo e psicóloga (co-co-ordenadora); havendo ainda um(a) estagiário(a) de Psi-cologia no papel de observador silente.
Número de participantes:
variável (em mé-dia seis por sessão, com uma amplitude de variaçãonos últimos três anos entre quatro e quatorze pacien-tes).
Freqüência:
uma sessão semanal.
Duração das sessões:
90 minutos.
Local:
sala de grupo nas instalações do HC-FMRP-USP.
Dia e horário:
até dezembro de 2005 o grupofuncionou às terças-feiras, das 7h30m às 9h00. A par-tir de janeiro de 2006 o atendimento deslocou-se paraas sextas-feiras, das 12h00 às 13h30m.
Seleção de integrantes:
 
entrevista individuale/ou psicodiagnóstico na admissão do paciente.
Critérios de inclusão para o grupoDiagstico:
são considerados elegíveis pa-cientes que preenchem os critérios diagnósticos doDSM-IV para AN e BN;
Idade:
faixa etária a partir de 14 anos, semlimite máximo;
Aceitação:
aquiescência, por parte dos par-ticipantes, das características de funcionamento dogrupo e de uma modalidade específica de trabalho comos aspectos emocionais associados aos transtornos(portanto, um trabalho com a “mente” e não que te-nha como foco o corpo e os aspectos médicos/nutri-cionais da enfermidade);
Disponibilidade:
para comparecer ao gru-po pelo menos no dia dos retornos médicos (o queimplica, sempre que possível, na disponibilidade decomparecer ao hospital uma vez por semana, inde-pendentemente de haver ou não retorno médico).
Critérios de exclusão para o grupo
presença de morbidade psiquiátrica (quadroagudo);
dificuldades de ordem pessoal (rebaixamentointelectual, sintomas psicóticos, problemas de comuni-cação verbal ou acuidade auditiva) que podem contra-indicar o encaminhamento do paciente para grupo.Partimos do pressuposto de que oferecer a pos-sibilidade do encontro cria o espaço terapêutico, a partirdo intercâmbio e da ajuda mútua. A reunião proporci-ona a experiência empírica de uma situação análoga àvivência familiar, onde há a confrontação de seme-lhanças e diferenças convivendo no mesmo espaço.A troca de experiências entre pessoas que com-partilham problemas semelhantes e que têm os mes-mos objetivos possibilita discutir situações vivencia-das com o adoecimento e o tratamento
6
. Com a ajudados terapeutas, os participantes podem se permitir re-fletir sobre suas emoções e condutas, a partir de umnovo e diferente vértice que é gerado pelas intera-ções no grupo, criando, desse modo, uma maior possi-bilidade de mudança em seus padrões relacionais.

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