O MEL E A CICUTA
ALBERTO MADEIRA
 “O que mais nos interessa na História, a nós que não somos historiadores, é o lado pitoresco e psicológico”.Henri Robert, da Academia FrancesaÀ minha irmã Maria do Carmo Madeira Portella, a cujo estímulo fraternal devo a publicação de “O Mel e a Cicuta”.É grande também o débito para com a minha filha Claudia Virmond Madeira pelosajustes e sugestões feitos no decorrer do seu trabalho de revisão do original deste livro.
 
 
PREFÁCIO
Platão, depois da morte de Sócrates, narra o professor espanhol Julian Marias, afastou-se de Atenas com asco e indignação, e decidiu realizar seu grande sonho político emSiracusa, grande e populosa cidade do sul da Itália Grega. “Foram quarenta anosdestinados a essa empresa: três viagens à Sicília, com travessias perigosas por mares emguerra, prisões, escravidão, ameaças de morte e intrigas palacianas. Um jogo arriscadocom os tiranos, entre o temor e a esperança, com o apoio apenas do seu grande discípuloDion”. Até aqui Julian Marias.Os acontecimentos desta odisséia platônica, despida de dissertações filosóficas,constituem, por si só, um formidável romance de aventuras, um relato de sedutora beleza e misteriosas emoções que poderia ter sido escrito por um ficcionista comoDaniel Defoe ou Herman Melville.Parra narrar estes eventos, raros na vida de um filósofo e comuns aos navegantes edescobridores, tomei emprestado o nome de Aristipo de Cirene, um filósofo menor,divergente do grupo socrático, cujas obras não chegaram até nós. Aristipo, entretanto, écitado por seus contemporâneos como um crítico irreverente e mordaz de sua época,uma espécie de Voltaire da Antigüidade. Este pensador morreu sem saber que lançara as
 
sementes do “epicurismo” moderado, sabedoria que busca conter o sofrimento, evitandoos excessos emocionais e físicos.Will Durant relata que Aristipo era fisicamente belo, querido das mulheres, requintadode maneiras, hábil no falar e, por onde passava, ia conquistando simpatias. Em Rodes,náufrago e sem vintém, dirigiu-se a um ginásio, fez discursos e, a tal ponto seduziu osouvintes, que eles lhe forneceram todo o conforto possível, o que levou Aristipo aobservar que os pais deviam suprir os filhos com essas riquezas (sabedoria e filosofia), bens que podem ser salvos no caso de naufrágio. Diz, ainda, Durant que Aristiposuportava com igual graça a pobreza e a riqueza. Quando o tirano Dionísio de Siracusa perguntou-lhe por que os filósofos batem às portas dos poderosos enquanto estes não procuram os filósofos, Aristipo respondeu: “Os filósofos sabem o que lhes falta, os ricosnão”.Como este livro foi supostamente escrito por um homem da Antigüidade, com oobjetivo de criar atmosfera de época, tentei imitar, com moderação, o estilo dosescritores antigos, conforme transparece nas edições vertidas para o nosso idioma.Algumas expressões destas traduções foram usadas, sempre que as mesmas aparecemem diferentes traduções, o que caracteriza maneira própria de expressar-se do homemantigo, como ocorre com nossas expressões idiomáticas. Sei que enfrento um desafio,mas Chesterton lembra que até um tiro que falha se enobrece se for disparado em umduelo.
O AUTOR 

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