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Concepções de mindfulness em Langer e Kabat-Zinn

Concepções de mindfulness em Langer e Kabat-Zinn

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Resumo.
O conceito de
mindfulness
se tornou importante na clínica contem-porânea. É herdeiro de duas distintas tradições de pensamento. A primeiraemergiu da pesquisa de Ellen Langer em psicologia experimental. A segun-da iniciou-se com o trabalho de Jon Kabat-Zinn, que introduziu a meditação budista na prática clínica. Dessa maneira, uma prática espiritual milenar querespira a filosofia oriental confluiu com um corpo de conhecimento esta- belecido pelas estratégias da ciência objetiva ocidental. O artigo apresentauma ampla revisão teórica das formas em que esse conceito foi articulado naliteratura psicológica, a partir das duas fontes supracitadas. A definição de
mindfulness
e as suas bases empíricas são revisadas para sustentar uma con-textualização no pensamento contemporâneo. O conceito contribuiu parao referencial teórico de diferentes modelos cognitivos e comportamentaisna área clínica atual. Como exemplos citam-se a terapia comportamentaldialética e a prevenção de recaída para clientes que já foram depressivos eencerraram com sucesso uma terapia cognitiva. O conceito também se tor-nou relevante no estudo de relacionamentos. Este artigo discute algumasaplicações no campo da terapia de casal e no manejo da relação terapêutica.Argumenta-se que a prática de
mindfulness
de origem budista é altamen-te compatível com a tradição de pesquisa experimental sobre
mindlessness
.Apesar das suas origens distintas, as duas abordagens compartilham umentendimento do sofrimento humano, além de promover soluções simila-res para as vivências problemáticas trazidas à terapia pelos clientes. Alémdisso, aponta-se que as duas abordagens trazem considerações similares,tanto para o aprimoramento pessoal quanto para o trabalho terapêutico noconsultório.
Palavras-chave:
 
mindfulness
 , terapia cognitivo-comportamental, budismo.
Abstract.
Mindfulness has become a salient concept in today’s clinicalpsychology. It descends from two distinct traditions of thought. The first
Contextos Clínicos, 2(2):124-135, julho-dezembro 2009© 2009 by Unisinos - doi: 10.4013/ctc.2009.22.07
Concepções de
mindfulness
em Langer e Kabat-Zinn:um encontro da ciência Ocidentalcom a espiritualidade Oriental
Concepts of mindfulness in Langer and Kabat-Zinn:An encounter of Western science with Eastern spirituality
Luc Vandenberghe
Pontifica Universidade Católica de Goiás. Rua 232, 128, 3º andar, Setor Universitário, Goiânia, GO, Brasil.luc.m.vandenberghe@gmail.com
Alysson Bruno Assunção
Petróleo Brasileiro S.A. Gestão Corporativa de Abastecimento. Av. República do Chile, 65, 20º andar,sala 2002, 20031-912, Rio de Janeiro, RJ, Brasil. alyssonassuncao@petrobras.com.br
 
Contextos Clínicos, vol. 2, n. 2, julho-dezembro 2009
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Luc Vandenberghe, Alysson Bruno Assunçãoemerged from research in experimental psychology done by Ellen Langer.The second began with the introduction, by Jon Kabat-Zinn, of Buddhist me-ditative practices in behavioral medicine. Thus, a millenary spiritual prac-tice that emanates oriental philosophy merged with a body of knowledgeestablished by the strategies of Western objective science. The present articlereviews the ways in which this concept, starting from its two distinguishedsources, has been articulated in the psychology literature. The definition ofmindfulness is explored as well as its empirical foundations and contem-porary thinking. This concept contributed to the theoretical framework ofdifferent cognitive and behavioral models of present day therapy. Examplesare dialectical behavior therapy and relapse-prevention for clients who suc-cessfully completed a treatment of depression with cognitive therapy. Theconcept also contributed to the study of relationships. We discuss some ofits applications in the field of couple therapy and in work on the therapist-client relationship. We argue that the tradition that originated in Buddhismand the one that was developed in experimental research are highly compa-tible. They share a valuable understanding of human suffering and its ori-gins. They sustain similar solutions for the experiential distress clients bringto therapy. And finally, the article discusses how both approaches suggestsimilar considerations for personal development as well as for treatment.
Key words:
mindfulness, cognitive-behavior therapy, Buddhism.
Aprender a lidar com emoções é um mo-tivo que leva muitas pessoas a procuraremauxílio da psicologia. Dentro do contextodessa necessidade, o conceito de
mindful-ness
ganhou destaque nas terapias compor-tamentais e cognitivas nas últimas duas dé-cadas. O interesse dos clínicos pelo conceitonasceu da confluência entre duas tradições.A primeira delas, ligada ao nome da psicó-loga Ellen Langer, é baseada em quatro dé-cadas de pesquisa empírica, de acordo comos preceitos científicos Ocidentais. A outra éa tradição meditativa milenar do Oriente, in-troduzida na prática clínica por John Kabat-Zinn. A intenção deste artigo é descrever ecaracterizar esses dois caminhos, a partir dassuas articulações na literatura psicológica.
Mudanças de primeirae segunda ordem
No cenário internacional, o advento dos mo-delos cognitivos se anunciou no quadro de umarenovação nas práticas clínicas e nos princípiosteóricos subjacentes a esses. O movimento cog-nitivo-comportamental introduziu importantesmudanças. Se os primeiros tratamentos empi-ricamente sustentados para transtornos psico-lógicos eram baseados em tecnologia pautadaem princípios de extinção pavloviana (Eysencke Rachman, 1965), a nova onda foi marcada portécnicas argumentativas. Não se tratava maisde trabalhar diretamente emoções disfuncio-nais, mas de questionar e debater crenças sub- jacentes (Beck, 1970; Ellis, 1964).Mesmo assim, a terapia cognitivo-compor-tamental manteve certa continuidade com aprimeira onda da terapia comportamental.Ambos os movimentos privilegiaram, nessaépoca de pioneirismo, estratégias que modi-ficam conteúdos específicos. Estes conteúdospoderiam ser respostas emocionais inadequa-das a serem eliminadas por meio de técnicasde exposição (extinção pavloviana), ou crençasirracionais que devem ser testadas, debatidase adaptadas (reestruturação cognitiva). A estaabordagem que visa à modificação direta dosconteúdos problemáticos, denomina-se mu-dança de
 primeira ordem
.Uma inovação mais radical ocorreu logodepois. Apareceram propostas terapêuticasque colocaram mais ênfase na vivência sub- jetiva do que na análise racional. Seguimos,neste artigo, uma corrente de clínicos que busca a mudança de
segunda ordem
– corren-te dentre do qual o interesse para o papel de
mindfulness
se desenvolveu de maneira maisabrangente. Enquanto a mudança de
 pri-meira ordem
é definida como modificação deconteúdos, a de
segunda ordem
objetiva umarevisão da perspectiva em que são viven-ciados estes conteúdos. A proposta clínicapassa a ser, então, a de transformar a pers-pectiva que produz significado em relação a
 
Contextos Clínicos, vol. 2, n. 2, julho-dezembro 2009
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Concepções de
mindfulness
em Langer e Kabat-Zinn
uma crença ou um sentimento. Ao invés demodificar os conteúdos de pensamentos esuposições irracionais, a terapia consiste emrever o contexto socioverbal que os alimenta.Na terapia, o cliente aprende a diferenciar asi mesmo dos conteúdos presentes nos seuspensamentos e sentimentos. Descobre, porexemplo, que ele não
é 
o que pensa sobresi, mas sim alguém que
 pensa
algo sobre si(Hayes e Gregg, 2002).A mudança de
primeira
 
ordem
consiste,portanto, em reestruturar os conceitos que ocliente tem de si, e as de
segunda ordem
 , emaprender a ver esses conceitos como nadamais do que conceitos. Conforme criticaHayes (1987, 2004), não importando quão ra-cionais pareçam ser, conceitos abstratos nãopodem captar com plenitude o fluxo dinâ-mico da vivência. Esta crítica se apoia numaanálise filosófica que rejeita a ênfase excessi-va que a cultura moderna põe na racionali-dade. A pessoa que vive a partir de análisesconceituais de sua realidade arrisca-se a ficaralienada da sua vivência real. Não enxergamais o que não se encaixa nos seus conceitos.O autor contende que, além de tornar a aná-lise conceitual do cliente mais adequada, areestruturação cognitiva promove o papelcentral dos conceitos na vivência do mesmo.Entretanto, como viver a partir de conceitostende a ser alienador, a solução não é aperfei-çoar o que envolve os problemas, mas subver-tê-los como um todo.Por outro lado, rejeitar o domínio da cog-nição e privilegiar a vivência emocional podeexpor o sujeito a outros problemas. Se umasituação for abordada pela “lente” das emo-ções por ela evocadas, a informação obtidaserá filtrada e deturpada por ela. A melhorsolução consiste, então, em buscar uma pers-pectiva que permita ao cliente transcendertanto os conceitos racionais quanto as emo-ções. Em uma perspectiva transcendente,torna-se possível enxergar que as cogniçõese as emoções são função da história de vida edo contexto em que ocorrem (Linehan, 1993;Hayes e Gregg, 2002). Uma emoção negativapode oferecer informações sobre algum pro- blema que ocorre no cotidiano do indivíduoe indicar opções que precisam ser reconside-radas em sua vida. Por isso, os sentimentosnegativos devem ser acolhidos como fontesde sentido, da mesma forma que os positi-vos. Tal abordagem permite que o cliente ex-plore e torne explícitos seus valores (Hayes,1987; Linehan, 1993).
Ellen Langer e a tradição ocidental
Antes de desenvolver sua noção de
mind- fulness
 , Langer (1989) dedicou a maior partede sua carreira a estudar o fenômeno que foichamado por ela de
mindlessness
. A autora de-fine esse termo como um modo de funcionarem que a pessoa vive como se fosse guiada porum
 piloto automático
 , usando referências pron-tas – um modo de ação muito comum na vidacotidiana. Trata-se de uma maneira de pensare agir em que o indivíduo confia em categoriaspreviamente estabelecidas e olha o mundo apartir de uma única visão.
Fontes de
mindlessness
Uma das muitas fontes de
mindlessness
con-siste em viver de acordo com hábitos. Padrõesde comportamento bem treinados podem fun-cionar melhor quando a pessoa não pensa. Porexemplo, quando um motorista experientecomeçar a refletir criticamente sobre cada atoque pratica ao volante, será bem mais prová-vel que ele bata o carro do que confie nas suasreações habituais. O mesmo vale para automa-tismos intelectuais que têm seu desempenhoprejudicado quando a pessoa pensa enquantoos executa. Esse fenômeno se mostra particu-larmente significativo em tarefas de rotina que já foram dominados e automatizados há mui-to tempo. Por outro lado, a reflexão crítica nãotende a prejudicar o desempenho em novastarefas (Langer e Weinman, 1981). Entretanto,quando a pessoa aprende que é melhor con-fiar em procedimentos e maneiras de pensar jáadquiridos, hábitos intelectuais podem tomarconta de áreas importantes da sua vida. Elapode funcionar de maneira confortável, massem ter uma noção clara do que está fazendo.Outra fonte de
mindlessness
é o compro-misso cognitivo precoce (Chanowitz e Langer,1981). Esse conceito descreve o efeito de infor-mações antigas, mas nunca examinadas criti-camente, sobre comportamentos que ocorremem situações novas. Tais informações podemter sido aceitas sem reflexão, no passado, pornão terem sido relevantes e não valer a penapensar sobre elas. Com o passar do tempo, apessoa continua usando essas informações demaneira não reflexiva, mesmo quando estádiante de novas situações nas quais aquela in-formação se tornou muito relevante e deveriaser avaliada cuidadosamente.Uma terceira fonte de
mindlessness
é cons-tituída pela utilização de regras rígidas e ob-

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