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NEME, Cristina - Violência e Segurança, um olhar sobre a França e o Brasil

NEME, Cristina - Violência e Segurança, um olhar sobre a França e o Brasil

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REVISTA DE SOCIOLOGIA E POLÍTICA Nº 25: 123-137 NOV. 2005
RESUMO
Rev. Sociol. Polít.
, Curitiba,
25
, p. 123-137, nov. 2005
Cristina Neme
VIOLÊNCIA E SEGURANÇA:
UM OLHAR SOBRE A FRANÇA E O BRASIL
1
Recebido em 10 de agosto de 2005Aprovado em 15 de outubro de 2005
 Este artigo propõe uma reflexão sobre a questão da segurança/insegurança na França e no Brasil. Se por um lado o paralelo entre realidades sociais bastante distintas parece improvável, por outro a comparação permite identificar algumas convergências e aponta para temas comuns à abordagem desse problemasocial complexo nos dois países. Tanto na França como no Brasil a questão da segurança está presente nodebate público e transformou-se em preocupação política dos diferentes níveis de governo. A partir de umabreve delimitação do significado do fenômeno da violência nos dois países e da recuperação dos debatessobre a experiência francesa no campo da prevenção e segurança e sobre a experiência brasileira no campoda segurança pública e direitos humanos, é possível construir uma reflexão sobre questões comuns arealidades sociais distintas.
PALAVRAS-CHAVE:
violência
;
insegurança
;
 políticas de segurança
;
 prevenção
;
repressão
;
democracia
;
direitos humanos
.
I. INTRODUÇÃOEste artigo propõe uma reflexão sobre a ques-tão da segurança/insegurança na França e no Bra-sil. Se por um lado o paralelo entre realidades so-ciais bastante distintas parece improvável, poroutro a comparação permite identificar algumasconvergências e aponta para temas comuns à abor-dagem desse problema social complexo nos doispaíses.Tanto na França como no Brasil a questão dasegurança está presente no debate público e trans-formou-se em preocupação política dos diferen-tes níveis de governo. A partir de uma breve deli-mitação do significado do fenômeno da violêncianos dois países e da recuperação dos debates so-bre a experiência francesa no campo da preven-ção e segurança e sobre a experiência brasileirano campo da segurança pública e direitos huma-nos, é possível construir uma reflexão sobre ques-tões comuns a realidades sociais distintas.II. A QUESTÃO DA SEGURANÇA NA FRANÇA
 II.1. Violência na França
No que se refere ao tema da violência na Fran-ça, têm sido encontrados basicamente os eventosde revoltas ou desordens urbanas, o crescimentoda pequena e média delinqüências e das incivilida-des e um forte sentimento de insegurança.Tem-se, por um lado, o crescimento da delin-qüência constatada nos registros oficiais e prati-cada geralmente por um público jovem. Ao ob-servarem-se os quatro grandes grupos de cri-mes e delitos que compõem as estatísticas polici-ais (roubo e receptação; delinqüências econômicae financeira; atentado à pessoa; outros crimes edelitos), verifica-se que o conjunto de roubos con-tribuiu em grande medida para a tendência de cres-cimento da delinqüência, iniciada na virada dosanos 1960 para os anos 1970 (SINNA, 2002, p.241-242). Por outro lado, ocorreu o aumento daschamadas incivilidades, fatos que não constituemproblemas propriamente criminal-policiais e nãoconstam dos registros oficiais, mas contribuempara o sentimento de insegurança. São pequenosdelitos, que permanecem impunes, ou atos des-respeitosos, como insultos, ameaças, rixas, bri-gas ou vandalismos, cuja repetição dificulta a vidasocial. “Expressões de agressividade pouco gra-
1
Este artigo é um resultado do intercâmbio entre o Núcleode Estudos da Violência (NEV) da Universidade de SãoPaulo (USP) e o Centre d’Analyse et d’InterventionSociologiques, da École des Hautes Études en SciencesSociales, em razão do Convênio USP-Comitê Francês deAvaliação da Cooperação Universitária com o Brasil(COFECUB), no Programme de Coopération UC 74/00.
 
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ves em si mesmas, mas insuportáveis no cotidia-no”, as incivilidades tornaram-se mais numerosase menos suportáveis (WIEVIORKA, 1999, p. 35).Paralelamente, eventos de revoltas ou tumultospraticados por jovens (geralmente de origem es-trangeira), também chamados de desordens ur-banas, como os rachas a bordo de carros rouba-dos, o incêndio de carros e a degradação de benspúblicos, vêm completar o quadro das violênciasna França.Frente à situação de aumento da pequena emédia delinqüência, do sentimento de inseguran-ça e da emergência das revoltas ou desordens emgrandes cidades, que ganharam grande repercus-são nos meios de comunicação, a questão da in-segurança ganhou relevância política e provocouo desenvolvimento de políticas locais de preven-ção e segurança (SINNA, 2002, p. 61). Interessaaqui discutir os aspectos centrais das políticas deprevenção e segurança que se seguiram à Comis-são Bonnemaison
2
ao longo dos anos 1980 e dosanos 1990.
 II.2. Políticas de prevenção e segurança
Cabe observar que quando se trata de políti-cas de prevenção e segurança na França tem-seum espectro que vai da abordagem social à abor-dagem securitária (repressiva) do problema dainsegurança: são as políticas de prevenção socialgeral, que visam às causas da delinqüência; as deprevenção social focalizada, que são orientadaspara um público-alvo em risco em relação à delin-qüência, e as de prevenção situacional, no cenáriomenos repressivo, que visam a dissuadir a delin-qüência e a proteger as vítimas por meio da vigi-lância do espaço.Nos anos 1980, as políticas conformadas nocampo da segurança caracterizaram-se predomi-nantemente pela abordagem local e sócio-preven-tiva dos problemas de delinqüência, em confor-midade com a concepção da ComissãoBonnemaison
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. Os conselhos comunais de pre-venção da delinqüência (CCPD)
4
tornaram-se abase da política de prevenção e as políticas de-senvolvidas a partir desses conselhos afastaram-se da abordagem repressiva da delinqüência, em-bora mudanças relativas às instituições da políciae da justiça também constassem das orientaçõesda Comissão (
idem
, p. 88-97).Ao final dessa década, observou-se que asações de prevenção da delinqüência diluíram-senas políticas sociais globais da cidade (“
 politiquede la ville
5
) e perderam sua especificidade (ouseja, seu foco na questão da delinqüência). Tem-se uma política de prevenção da delinqüênciamarcada pela indefinição ou generalidade, pois assuas ações diluem-se em ações sócio-culturaisconduzidas pelas estruturas municipais de anima-ção e inserção social (os programas e recursos daprevenção
da delinqüência
passam a englobarqualquer ação cultural ou social e ações que sesituam no campo da prevenção social justificam-se como prevenção da delinqüência) (BERLIOZ& DUBOUCHET, 1998, p. 90; SINNA, 2002, p.84-86).Isso se deve à dificuldade de delimitar a con-cepção de prevenção da delinqüência e de articu-lar os diferentes níveis de prevenção, de modoque a prevenção da delinqüência esvai-se em polí-ticas globais que preconizam a intervenção emtodos os riscos de inadaptação social, visando a
2
Instaurada pelo Primeiro-Ministro em 1982, a comissãoreuniu e engajou ativamente prefeitos de grandes cidades,colocando no centro de sua reflexão a cidade e seus repre-sentantes, com o objetivo de definir orientações e proporiniciativas no campo da prevenção da delinqüência nas ci-dades francesas (SINNA, 2002, p. 68-69). A comissão éuma referência no debate francês sobre a insegurança.
3
Basicamente, essas políticas orientaram-se a partir dosseguintes princípios: abordagem local dos problemas deinsegurança, co-produção da segurança por meio de méto-do contratual (promoção de parcerias entre diferentes ato-res e níveis de governo) e proposta de equilíbrio entre pre-venção e repressão (SINNA, 2002, p. 61-99).
4
O CCPD é considerado a pedra angular do modelo fran-cês de política pública de prevenção da delinqüência a par-tir dos anos 1980. Com missão de coordenar e animar açõesde prevenção da delinqüência, contribuindo para a “segu-rança civil”, os CCPDs fundam-se nos princípios damobilização coletiva e da ampliação dos atores envolvidos,principalmente os políticos locais responsáveis. É uma ins-tância estabelecida sob autoridade do
 préfet 
(representantedo Estado) e do prefeito (BERLIOZ & DUBOUCHET,1998, p. 89-90).
5
A “política da cidade” (
 politique de la ville
) correspondea um conjunto de políticas voltadas à promoção de açõessociais e culturais (animação cultural e social) e ao desen-volvimento social dos bairros.
 
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favorecer a socialização. A busca de articulaçãoentre prevenção e luta contra a violência e a ten-são entre fazer prevenção da delinqüência sobrepúblicos-alvos (prevenção focalizada) ou fazerprevenção da inadaptação social (prevenção soci-al) marcou o funcionamento dos CCPDs, mas demodo geral as políticas de prevenção orientaram-se mais para a luta contra a exclusão do que paraas ações voltadas diretamente para evitar delitos,não ocorrendo articulação entre os dois pontos(BERLIOZ & DUBOUCHET, 1998, p. 91-93).Seguindo a concepção que opunha prevençãoe repressão, os CCPDs afastaram-se das ques-tões repressivas ou relativas à segurança em sen-tido estrito; conseqüentemente, esses conselhosnão geraram transformações nas instituições di-retamente relacionadas à questão da segurança(polícia e justiça), de modo a engajá-las efetiva-mente em um trabalho conjunto para promoverações direcionadas à prevenção da delinqüênciaimediata.A presença dessas instituições nos CCPDs éavaliada como apenas informativa (comentar es-tatísticas sobre a delinqüência), formal e margi-nal, de modo que os conselhos não foram capa-zes de articular e integrar as diferentes lógicas –do prefeito (representante da cidade), do
 préfet 
(representante do Estado) e das instituições re-pressivas (polícia e justiça) – em relação à segu-rança pública. Apesar do propósito de ser o lugarda articulação, os CCPDs não foram capazes deabordar com profundidade a questão da polícia eda justiça nas comunas (comunidades), não redu-ziram a distância entre os campos da prevenção eda repressão, não promoveram a cooperação en-tre os agentes de segurança (polícia e justiça) e osagentes da prevenção social (assistentes sociais,educadores) e não romperam o fechamento ou aconcorrência entre as instituições (
idem
, p. 102;BODY-GENDROT, 2001, p. 921; SINNA, 2002,p. 85).Enfim, conforme sintetizam Body-Gendrot eDuprez, o modelo de prevenção dos anos 1980pode ser entendido como uma política de discri-minação positiva em favor dos bairrosdesfavorecidos, com o objetivo de melhorar glo-balmente as condições de vida em um bairro eagir indiretamente sobre a delinqüência – diferen-temente do modelo de prevenção situacional anglo-americano, que busca dissuadir os delinqüentesde seus intuitos multiplicando-lhes os obstáculos(BODY-GENDROT & DUPREZ, 2001, p. 381).É um modelo de prevenção em que polícia e jus-tiça estão ausentes ou do qual raramente partici-pam.Após novas revoltas no início dos anos 1990
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e a não-interrupção do crescimento da delinqüên-cia, essas políticas foram consideradas fracassa-das ou insuficientes para reduzir a insegurança.Embora os autores indiquem a falta de avaliaçãodas políticas de prevenção no âmbito da políticada cidade, a dificuldade de medir os resultados daprevenção e de avaliar o quanto teriam contribuí-do para conter a segregação social, o fato é quepoliticamente a questão da insegurança agravou-se e ganhou maior expressão.Como resultado do modelo dos anos 1980,configurou-se uma situação em que o sistema emfuncionamento (a partir dos CCPDs) não se mos-trou capaz de atender as demandas imediatas dasvítimas, reais ou potenciais, da delinqüência, vis-to estar voltado para ações de prevenção socialque visam a melhorar o ambiente social local eindiretamente a reduzir a delinqüência. Embora ti-vesse como objetivo original fazer a prevenção dadelinqüência, o que supõe ações direcionadas aimpedir comportamentos delituosos e, em conse-qüência, exige a articulação com o campo da se-gurança (instituições repressivas), os CCPDs nãolograram promover a integração das políticas pe-nal, policial, esportiva, cultural e urbana, quefreqüentemente foram concebidas e implantadasde maneira autônoma (
idem
, p. 100-102). Ofere-ciam-se respostas de longo prazo para demandasque exigiam ações de curto prazo e o problema dainsegurança elevou-se ainda mais como priorida-de política tanto do governo central como dosprefeitos – estes pressionados pelas demandas dapopulação em um contexto em que as vítimas tor-naram-se o centro das atenções.A partir daí, ocorreu um deslocamento da
 pre-venção
para a
segurança
: embora as políticas deprevenção continuem, uma nova ênfase foi colo-cada sobre a
segurança
, de modo que o Estado esuas instituições repressivas (política e justiça) sãoimplicados mais fortemente na questão (BODY-GENDROT & DUPREZ, 2001, p. 386-389). Per-
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Revolta de Vaulx-en-Velin (1990), desencadeada após amorte de um jovem em uma blitz policial, dez anos de-pois dos rachas de Minguettes (1981).

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