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06/03/2011

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2 DE JUNHO DE 20112 DE JUNHO DE 2011
 
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Há dois anos, maisde 40% dos eleitoresficaram em casa.Alguns notáveis podemagora fazer o mesmo...
OPERACIONAL Na mesade montagem da Take 2000,a produtora que faz os filmesdos seus tempos de antena
N
as últimas presidenciais, oeurodeputado Rui Tavares,do Bloco de Esquerda, voltoua enternecer-se com a «magiacívica» do momento em que o seu pai,mesmo movendo-se numa cadeira derodas, chegou à mesa de voto. Demorouuma eternidade para rabiscar a cruz no boletim e dobrá-lo, mas Rui não trocariaaquele tempo por nenhum outro.O pai tinha já 45 anos e cinco filhosquando viveu o 25 de Abril de 1974. Um velho, chorando, atirou-lhe: «Achei que já não chegava a ver este dia.» Por isso, acada cerimonial cumprido desde então,a mãe diz o que sempre diz nesses dias:«Custou muito conquistar isto, tantosanos sem votar, etc.». Frases e episódios
Votar porquê,votar para quê?
Nuno conta os dias, Raul não quer confundir-se com o rebanhoe até um abstencionista crónico admite protestar... nas urnas.Histórias de quem vai desafiar a indiferença. De cruz.
POR
MIGUEL CARVALHO
 vividos como «uma oração familiar», re-cordou o filho na sua coluna no
Público
.
Quem olha para os números da absten-ção ao longo de 37 anos de democracia diráque a magia se foi perdendo e os cravosmurcharam, à boleia de ilusões várias ecinismos acumulados. Nas últimas legisla-tivas, há dois anos, mais de 40% dos eleito-res ficaram em casa, o que, segundo os ana-listas de turno, atesta a debilitada saúde doregime. Que dizer, de resto, quando algunsdos seus fundadores se juntam ao coro doconformismo nas ocasiões em que revisi-tam as memórias? «Se soubesse o que seihoje, não teria feito o 25 de Abril», desaba-fou, impávido e sereno, Otelo Saraiva deCarvalho, no mais recente aniversário darevolução, por entre alguns elogios a Sala-zar e a indignação geral dos companheirosde levantamento militar.
O vírus da desilusão contagia, pelos vistos. «Nunca umas eleições servirampara tão pouco, nunca a desinformaçãoe a alienação foram tão grandes comohoje», escreveu Marinho Pinto, bastoná-rio da Ordem dos Advogados, no
JN 
, des-gostoso com a falta de alternativas nestaseleições. «Tudo ficará na mesma, depoisdelas», proclamou, garantindo que não votará no domingo.Indiferente ao reportório de desistên-cias e indiferenças, há, todavia, quem vivaestes dias com a ansiedade da primeira vez, fiel a um ritual adquirido quando aderrota era certa ou disposto a abdicar doabstencionismo militante para lavrar, nosegredo da cabina de voto, o seu protesto.Três exemplos de quem vai a votos…vo-tando.
 
23 DE JULHO DE 2009
 
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2 DE JUNHO DE 2011
'Querem ser guiadoscomo carneiros?'
Raul Sampaio
89 anos, Reformado
Procurem-no pelas manhãs, na Confei-taria Bezerra, em Famalicão, que ele équase da mobília. Bom contador de histó-rias, autêntica memória viva, este velhorepublicano e comunista conversa comtodos sem sectarismos e não há quemdesrespeite o seu percurso cívico. «Vo-tei sempre, sempre! Até no HumbertoDelgado, mas o fascismo falseou tudo»,desabafa. Raul Sampaio lembra-se de iraos comícios «do contra» desde os 17 ou18 anos, em Braga, na Trofa, onde calhas-se, ouvir Armando Bacelar e Lino Lima,figuras míticas da oposição. Os genesde família talvez expliquem. «Dois tiosforam deportados para os Açores com achegada do Salazar. Quando ouço dizerque era preciso outro, dá-me náuseas!»,reage ele, lembrando tempos de perse-guições e miséria. «Trabalhei desde os 13anos e o dinheiro que dava em casa nãochegava. Passava-se fome à mesma.»Raul Sampaio andou por uma fábrica detecidos, no Porto, pelo antigo Colégio Ca-milo Castelo Branco, mas foi ao volante deumas famosas carrinhas da Gulbenkianque escreveu as melhores páginas da sua vida. «Levava livros a todo o distrito eaproveitava para meter a papelada con-tra o regime dentro deles. A PIDE chegoua ir lá a casa, mas safei-me. Os padres éque não gostavam nada da biblioteca iti-nerante, não queriam o povo instruído»,atira. Ainda hoje, diz ele, «é assim». Vai-sepor essas aldeias minhotas «e ouve-se ospadres a meterem coisas na cabeça daspessoas. Dizem mesmo em quem devem votar», garante. Ele, que comprou e co-lecionou «para cima de mil e tal livros»,sempre a contar tostões, ofereceu-os to-dos, «encadernados», ao PCP, para queoutros os pudessem ler.Outrora «muito aguerrido», Raul Sam-paio vive agora a sua reforma de formamais pacata, claro, mas ainda desejoso desobressaltar os indiferentes: «Os que não votam deixam-se guiar como carneiros.É isso que querem?», desafia. Ele, pelo seulado, recusa abdicar de um direito «quetanto custou a conquistar». Votará «en-quanto houver fome e desigualdades» e osportugueses precisarem de ser «mais li- vres. O que seria deste País sem leis e semhomens para governar o Estado?», ques-tiona, recusando a retórica do deixa andar.«Dizer que são todos iguais é conversa dereacionário. Devemos sempre tentar es-colher os mais sérios e honestos.»
RAUL SAMPAIO«Dizer que todos os políticos são iguais é conversa de reacionário. Devemos tentar escolher os mais sérios e honestos»
    L    U     C    I    L    I     A    M     O    N    T    E    I    R     O
 
23 DE JULHO DE 2009
 
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2 DE JUNHO DE 2011
'Estou ansiosopela estreia…'
Nuno Ferreira
18 anos, Estudante
 Veste uma
T-shirt 
com os dizeres
Prima-ry Instincts
. Ouve Muse, é fã de AC/DC e vai a concertos de bandas de garagem,ali para os lados de Lavra, em Matosi-nhos. É devoto da saga cinematográfi-ca de Harry Potter e já leu
O Perfume
,romance do alemão Patrick Suskind,«bem melhor do que o filme». Em casa,a política é servida às refeições sempreem grande alvoroço. O pai «anda todo virado para o Passos Coelho». Ele, po-rém, inclina-se para a concorrência di-reta. «Precisamos de um líder e Sócra-tes não é mau. Há atitudes com as quaisnão concordo, mas ele não pode fazertudo sozinho», justifica.O que faz de Nuno Ferreira um jovemdiferente?Para já, ele anda «ansioso com a es-treia» do próximo domingo, 5. Votarápela primeira vez, nestas legislativas econta os dias até lá, pois sente-se «dese- joso de contribuir para o futuro do País.Se não tivermos essa noção, vamos sersempre pequeninos e manter os mes-mos problemas», justifica. Será ele, porisso, um ser estranho à sua geração?«Não me parece. De uma forma geral,os jovens até se interessam. Podem nãogostar desta forma de fazer política,mas isso é outra história», observa.Entre os seus colegas da turma de Ci-ências e Tecnologias não falta debate. Até uma aula de Química já foi subver-tida pela discussão à volta da saída doprimeiro-ministro e das ideias de umacerta oposição. «Assusta-me que a di-reita queira privatizar o ensino. Mes-mo não tendo idade para votar, algunsdos meus amigos têm a noção de que, seisso acontecer, não poderão continuar aestudar. É negar um direito a muitas fa-mílias desfavorecidas», crê, dando maisuma achega: «Talvez se justifiquem al-gumas privatizações. A TAP, por exem-plo. Mas apenas se isso contribuir parao bem público», adverte.Embora compreenda «o choque emo-cional e a frustração» das gerações mais velhas, Nuno reage, com alguma relu-tância, ao incumprimento dos deverescívicos. «Os portugueses têm o víciode criticar, mas se não votam perdemo direito a fazê-lo», afirma, contunden-te. «Às vezes, ouço dizer que é preci-so outro Salazar… Pelo amor de Deus!Por muito que se justificasse ter alguémcomo ele em termos económicos, seriaum erro tremendo, uma barbaridade.Ponto final, parágrafo.»
'Para votar contra osistema, há opções'
P.M.
37 anos, Desempregado
Daria a cara e o nome se estivesse na posi-ção de garantir que, num futuro próximo,não dependerá de influências políticaspara poder trabalhar. Mas para P.M., an-tropólogo de formação e desempregadohá poucos meses, isso está longe de serlíquido «num País onde tudo parece con-taminado pela política». As suas desilusões começaram no en-sino secundário, em Vila Flor. Guerre-avam-se duas listas para a associaçãode estudantes e «a grande polémica erao nome que se ia dar ao jornaleco daescola»:
 A Fonte
ou
eram as opções.O candidato da lista apoiada pela APU(precursora da CDU), convidou P.M. aintegrar o futuro executivo com a «pas-ta» do Desporto. «Gostei da conversae senti-me envaidecido, na minha pe-quena importância. Mas descobri queele tinha feito a mesma promessa a uns20 ou 30 colegas só para ganhar votos.
NUNO FERREIRA«Os jovens interessam-se. Podem é não gostar da forma de fazer política»
    L    U     C    I    L    I     A    M     O    N    T    E    I    R     O

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